Arquivos Mensais: janeiro \30\UTC 2016

Crônica da 19ª Mostra de Tiradentes

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A cobertura virá em seguida. Segunda, 1 de fevereiro, na Folha, com destaque para os inéditos da Mostra Aurora. Após mais alguns dias, um longo balanço na Interlúdio, comentando todos os filmes vistos no evento.

Primeira constatação: encontrar amigos antigos, com os quais sempre discuto (“mas no campo das ideias”, como eles gostam de dizer), me faz muito bem. Só assim este inseguro que vos escreve sabe que, como eu, eles também não misturam as coisas e não levam divergências para o lado pessoal.

Segunda constatação: muda a internet na Pousada Mãe D’Água (a principal pousada dos jornalistas), mas a conexão só aparece quando quer, a não ser na recepção, onde é sempre forte (mas como seria bom poder trabalhar sempre no quarto). Essa segunda constatação, aliás, prejudica um tanto a cobertura, e praticamente impossibilita os diários que eu costumava fazer (e que ultimamente tenho deixado de lado em troca de balanços finais maiores, no fim dos eventos). Mas justiça seja feita, meu quarto estava do lado de um roteador, então depois do quarto dia a internet, ao menos para mim, se estabilizou.

A cama improvisada que me deram foi de lascar. Depois da terceira noite mal dormida (só depois da terceira? Depois dizem que sou rabugento…), reclamei e colocaram uma cama de verdade. Ainda estreita, mas muito mais convidativa ao bom sono. Não preciso de luxo ou muito conforto, mas dormir é coisa séria (e por esse motivo detesto ir a festas durante o festival).

Os filmes, ou seja, o que mais importa nisso tudo, eu prefiro deixar para os balanços finais. Mas de modo geral posso dizer que os longas e curtas novos foram, no geral, muito mais interessantes que os da última vez que estive por lá, em 2014. Nomes novos, nomes já conhecidos por aqui em momentos melhores, nomes inusitados.

Melhor longa entre os inéditos: Taego Ãwa, de Marcela e Henrique Borela. Em segundo lugar: Jovens Infelizes, de Thiago B. Mendonça.

Melhor curta entre os inéditos: Eclipse Solar (foto), de Rodrigo de Oliveira. Empatados em segundo: A Vez de Matar, A Vez de Morrer, de Giovani Barros, e Lightrapping, de Marcio Miranda Perez.

A Nova Hollywood em DVD

Sai só em março, mas é tão marcante que não resisto em comentar. A Versátil (quem mais poderia ser no Brasil?) vai lançar três coleções diretamente relacionadas à Nova Hollywood, momento do cinema americano que pesquisei com prazer durante três anos, mais ou menos.

Uma das coleções é temática, chama-se simplesmente O Cinema da Nova Hollywood, com seis filmes importantes para o período. Corrida Sem Fim (1971), de Monte Hellman, é o grande achado. Inédito em DVD no Brasil, é obrigatório para entendermos esse momento do cinema americano. Dois músicos, Dennis Wilson (dos Beach Boys) e James Taylor (que se casou com duas das melhores cantoras/compositoras americanas, Carole King e Carly Simon), andam por estradas americanas conquistando mulheres e apostando corridas.

Monte Hellman dizia que seu filme é verdadeiramente transgressor, porque em Easy Rider, de Dennis Hopper, os motoqueiros têm de lidar com rednecks e outros tipos de gente preconceituosa, enquanto os corredores de Hellman lutavam contra o sistema, a sociedade capitalista. Não precisarei mais passar a versão original sem legendas em minhas aulas sobre o assunto. Apesar de que o final, com aquela câmera incrivelmente lenta, não precisa de legenda alguma.

Notável também, e igualmente inédito em DVD no Brasil, é A Outra Face da Violência (1977), de John Flynn. É um dos filmes fundamentais, que me fizeram estudar a fundo o período. Tem roteiro de Paul Schrader e cenas violentíssimas, que ilustram bem o clima barra pesada da sociedade americana nos anos 1970 (o filme foi realizado em 1977, mas a história se passa em 1973). Os soldados que lutaram na Guerra do Vietnã não encontravam mais lugar. Viviam num limbo da sociedade, mesmo sendo recebidos como heróis. Eram na verdade “heróis esquecidos”, como dizia o título brasileiro de uma outra obra-prima, de Raoul Walsh, sobre o deslocamento de combatentes de um outro conflito, a Primeira Guerra Mundial.

Completam a coleção o fenomenal O Comboio do Medo (1977), de William Friedkin, releitura muito talentosa de O Salário do Medo (Clouzot); Procura Insaciável (1970), primeiro filme americano do tcheco Milos Forman (que onze anos depois faria o grande Na Época do Ragtime); Essa Pequena é uma Parada (1972), diversão screwball de Peter Bogdanovich; e o raríssimo Voar é Com os Pássaros (1970), um dos melhores, mais estranhos e mais desconhecidos filmes de Robert Altman.

Faltam obviamente diretores fundamentais para a constituição do que chamamos de Nova Hollywood, figuras como Coppola, Scorsese, Cimino e De Palma. Mas os melhores filmes desses mestres já foram lançados por distribuidoras grandes. Mesmo com essa limitação, a escolha foi bem acertada. Seria possível substituir uns dois filmes da coleção, mas dificilmente ela ficaria melhor.

A segunda caixinha é uma homenagem àquele que Bogdanovich considerava o pai da Nova Hollywood: John Cassavetes. Dele, vemos sua estreia na direção com o independente Sombras (1960), o inacreditável Maridos (1970) e Uma Mulher Sob Influência (1974), talvez seu filme mais conhecido. O primeiro e o terceiro já existiam em DVD no Brasil, mas em cópias apenas razoáveis. Maridos passava nas madrugadas da Globo, mas dublado e com as cores esmaecidas não é a mesma coisa. Rever Cassavetes é fundamental para o tipo de câmera que muitos tentam usar hoje, mas quase sempre sem sucesso.

Finalmente, a última coleção é dedicada a um dos diretores mais injustiçados de Hollywood, mesmo dentro desse período. Arthur Penn fez um dos filmes precursores daquele momento em que a tradição encontrava a modernidade da época: Mickey One (1965), o mais godardiano dos filmes de Penn, está presente na caixa. Marca presença também sua estreia no cinema, Um de Nós Morrerá (1958), e seu último grande filme, Amigos Para Sempre (1981).

Mas o destaque vai para a obra-prima máxima Deixem-nos Viver (1969), mais conhecido pelo título original, Alice’s Restaurant. É um dos filmes que eu mais passei em aula por um motivo notável: sua leitura do que estava acontecendo no momento da contracultura, com seu eventual ocaso e sua iminente ruína nunca foi igualada. Richard Rush fez Psych Out um ano antes, e não é difícil perceber o quanto os dois filmes se comunicam, até mesmo pela autocrítica contida no retrato daquela geração. Mas Penn foi mais longe. Numa cena inesquecível (ver vídeo no topo do post), promove o enterro da Era de Aquário ao som de Joni Mitchell (cantada por uma atriz do filme). No plano que fecha o filme, um zoom in combinado com um travelling out na diagonal, mostra o “último olhar de Alice para os anos 60”, como disse Jean-Baptiste Thoret em seu incontornável livro sobre o cinema americano dos anos 70. O espectador vai entender o porquê ao ver o filme. E vai se impressionar com o modo como Penn promove mudanças drásticas de ritmo, tom e humor sem prejudicar a construção dramática e a unidade de estilo.

Não tenho receio de cravar Alice’s Restaurant como um dos maiores filmes do cinema americano e o maior de todos os filmes apresentados aqui. Claro que isso é muito pessoal. São poucos os filmes que me tocam como esse. O que não diminui a excelência de Corrida Sem Fim, A Outra Face da Violência, Maridos e Uma Mulher Sob Influência, as outras obras-primas incontestáveis do pacote.

Os Oito Odiados

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Minha primeira sessão do ano no cinema foi Os Oito Odiados, oitavo longa de Quentin Tarantino. Bem, como considero os dois Kill Bill separadamente, contra quase todos e contra o próprio autor (que fez do primeiro volume, aparentemente sem querer, uma longa peça musical), para mim, então, Os Oito Odiados é o nono. Mas isso não importa. O que importa é que Tarantino está um pouco mais contido que em Bastardos Inglórios e Django, o número de tarantinices é menor que nesses filmes.

O que seriam tarantinices? Em Os Oito Odiados, a violência de desenho animado (cabeças explodindo), a violência provocativa (fortes golpes no rosto de uma mulher), as músicas contemporâneas dentro de uma trama histórica (White Stripes é muito bom, mas ali?), os planos que ilustram a lorota contada pelo personagem de Samuel L. Jackson ao velho racista interpretado por Bruce Dern e, principalmente, a interrupção espertinha do narrador para mostrar algo que aconteceu enquanto essa lorota era contada. Um diretor como Brian De Palma construiria um plano genial para mostrar essa simultaneidade, provavelmente usando melhor a profundidade de campo e a lente com foco duplo, e fazendo movimentos precisos de câmera. Mas Tarantino, definitivamente, não é De Palma, então tem necessidade dessas bobagens para impressionar neófitos. Pior é que o plano da revelação, em si, é bom. Mas infelizmente está dentro de um recurso tolo. (Tarantino não é De Palma, como também não é Ford; mas isso não faz dele o pior dos cineastas)

Essas molecagens acontecem, na maior parte, após a primeira das três horas de filme. E a primeira hora, convenhamos, é um primor. Uma carruagem conduz um caçador de recompensas (Kurt Russell) e uma bandida procurada viva ou morta (Jennifer Jason Leigh). Eles encontram um outro caçador de recompensa (Jackson) e depois o futuro xerife (Walton Goggins) da cidade para onde estão indo. Param na estalagem de Minnie Mink, uma espécie de posto de abastecimento. Lé encontram outros homens. Quando parece que se passaram vinte minutos, no máximo meia hora, vemos que se passou praticamente uma hora de filme.

Na cabana de Minnie Mink, obviamente, encontram problemas, e o filme derrapa algumas vezes nas tarantinices mencionadas acima (e em outras mais pontuais: uma grua desnecessária aqui, um corte afobado acolá…). Mas Tarantino tem habilidade para mostrar conflito de olhares e conta com grandes atores, muito bem escolhidos dentro de cada papel (embora Tim Roth imitando Christoph Waltz seja meio besta). Utiliza bem o scope, ao menos dentro da grande estalagem, construída como um único grande cômodo onde todo mundo se vê. O conjunto é sólido, com diversos momentos de força que compensam as tolices, e o conflito racial é melhor apresentado que em Django. Se, pela irregularidade, está longe de seus melhores momentos (Pulp Fiction, Jackie Brown, Kill Bill 1), ao menos é o melhor filme dele dentro dessa fase de revisão histórica.

 

Apresentando o novo blog

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Frank Sinatra e Shirley MacLaine, Deus Sabe Quanto Amei (Vincente Minnelli, 1958)

O tempo do Chip Hazard se foi. Em janeiro de 2016, após quase doze anos com o blog antigo, abro aqui um novo blog, igualmente pessoal, mas agora com meu nome no endereço. Optei pelo título mais simples possível, mesmo correndo o risco de ser interpretado como autopromotor ou egocêntrico.

A proposta continua a mesma. Não pretendo “ler” filmes aqui, mas “ver” filmes e escrever sobre o que vi. Se de maneira errada ou não, cada filme e cada palavra é que irão dizer. Na verdade, é mesmo uma continuidade de meu blog anterior (que continuará existindo, principalmente como arquivo de textos).

Muitas vezes, quando o tempo estiver curto, reproduzirei textos que estiver lendo no momento, ou que me são especiais, ou ainda farei tops de diretores, de anos, de cinematografias, o que for (diversão faz parte da cinefilia, afinal). Podem pintar também posts com assuntos externos ao cinema, mas serão minoria (normalmente um ou outro tópico em posts com diversos assuntos).

Não permitirei comentários ofensivos. Críticas entram, desde que o comentário venha devidamente assinado. Se eu desconfiar que é fake, o comentário será limado.

Seja bem-vindo, caro leitor, ao meu novo blog.