Arquivos Mensais: fevereiro \28\UTC 2016

Straight Outta Compton

nwa

Em meados dos anos 90, tive uma fase em que só escutava música negra. Claro que eventualmente outras coisas entravam na roda, mas normalmente eu pirava com vinis ou cds de bandas como Commodores, Earth, Wind and Fire, Tramps ou gênios como Stevie Wonder e Curtis Mayfiled, entre muitos, muitos outros.

Agora estou em uma nova fase dessas, revisitando muitas das coisas que eu ouvia muito há vinte anos e esporadicamente (como quase tudo que tenho) de lá para cá. Essa fase começou no final do ano passado, e continua firme e forte, com o parliafunkadelicment thang de George Clinton numa posição máxima em meus auto-falantes já massacrados por tantos graves poderosos.

Por isso tinha grande curiosidade para ver Straight Outta Compton, a cinebiografia do NWA feita por F. Gary Gray, diretor que sempre me interessa. Nem sabia que o filme tinha estreado em São Paulo no fim de outubro. Estrear durante a Mostra Internacional é judiação para qualquer filme.

A primeira sensação que tive ao finalmente ver o filme de Gray é que deram a câmera para alguém com abstinência alcoolica. Entendo a tensão que se quer imprimir, mas em muitos momentos essa tremedeira é falsa, parece existir unicamente pelo efeito câmera na mão, que está na moda (aliás, já está ficando fora de moda, pelo que tenho notado em filmes americanos recentes). Mas uma coisa é a câmera na mão de Pasolini, Glauber Rocha ou Sganzerla. Outra é essa de 99% dos filmes atuais: a tremedeira fabricada.

NWA nunca foi das minhas bandas preferidas. No hip hop prefiro Public Enemy, LL Cool J ou De La Soul (o pessoal de NY e imediações). Mas é inegável o poder de suas bases e letras, o discurso raivoso de quem tomou muita geral de policiais, principalmente no primeiro disco, de 1988, intitulado justamente Straight Outta Compton.

O filme dá conta disso e de outras coisas. Numa cena, pessoas quebram centenas de unidades do disco de estreia deles com o argumento de que rap não é música. O comentário deles, dentro do carro que os leva a uma passagem de som é “que façam o que quiserem com os discos, eles os compraram mesmo”, seguido de uma série de risadas. Antes, na geral da polícia, um dos policiais, acusado por eles de vendido por ser negro, argumenta a mesma coisa dos quebradores, que rap não é música.

Com o sucesso do disco de estreia do NWA no final dos anos 80, poucos anos antes dos tumultos raciais de 1992 (tematizados no filme), nascia o gangsta rap, para desespero dos religiosos, certinhos, puristas musicais e feministas. Straight Outta Compton, o filme, documenta esse fenômeno oriundo do gueto e causado sobretudo pela violência policial. Dá conta também que os primeiros discos solo de Ice Cube são melhores que os do NWA, assim como Dr.Dre seguiu uma carreira brilhante nos anos 90. A sequência em que vemos Cube respondendo às provocações do NWA com provocações ainda mais fortes é bem boa. Cube abria sua boca e metralhava para todos os lados, com uma base poderosa e claramente mais produzida que a de seu ex-grupo.

O que é tratado muito de passagem é a briga entre o rap da Costa Oeste e o da Costa Leste (forte sobretudo na gravadora em que Dr.Dre meteu uma grana, a Death Row). Se bem que isso é assunto para um filme inteiro, que talvez até já tenha sido feito. O filme de Gray acaba pouco antes da morte de 2Pac, com Dr. Dre anunciando sua nova empresa: Aftermath (meses depois morreria Notorious B.I.G., da Costa Leste).

No fim, o filme de Gray é até interessante, mas vale pela música mesmo. E os créditos sobem enquanto ouvimos uma das faixas mais geniais de todo a cena West Coast, “Talking to My Diary”, de Dr.Dre.

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Críticos de cabeceira – Parte 2

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Esqueci alguns, outros não cabiam, enfim, fui colocando os que lembrei primeiro, esquecendo de um que não podia esquecer: André Bazin. De todo modo, senti que era necessária esta segunda parte dos meus críticos de cabeceira (seriam necessárias, provavelmente, mais duas partes, mas encerro por aqui). E é nesta parte que fica evidente a escola crítica que mais me guiou: a francesa dos anos 50 e 60.

Claro que muitos outros nomes que admiro ficam de fora, incluindo alguns nomes pouco falados e conhecidos no Brasil (Gérard Legrand, Adriano Aprà, Angel Quintana) e alguns de minha geração, com os quais ainda tenho conversas iluminadoras. Não cabia todo mundo, digo mais uma vez.

Este post encerra também, mas temporariamente, a série sobre crítica iniciada com o post sobre Northrop Frye.

– André Bazin

É em O Cinema da Crueldade que está a maior parte de seus textos essenciais. Mas é necessário ter também O Que É o Cinema, recentemente relançado pela Cosac Naify. Que, diga-se, é uma coletânea da versão francesa. Bazin era capaz de, tendo visto no máximo 25 filmes japoneses, fazer um tratado sobre o estilo do cinema japonês. Eu, tendo visto, sei lá, 300 filmes japoneses, ou mais, talvez até muito mais (nunca contei), seria incapaz de 10% do que ele faz ali (o texto está no capítulo para Kurosawa do livro O Cinema da Crueldade).

– Eric Rohmer

Como crítico e editor, era defensor de um classicismo cinematográfico, mas engana-se quem pensa que ele era avesso à modernidade ou à Nouvelle Vague. Durante sua editoria, a NV teve, sim, um espaço considerável, incluindo algumas capas para filmes não tão bons (como dois do fundador da Cahiers, Jacques Doniol-Valcroze, mal recebidos no quadro de cotação nos números seguintes às respectivas capas). Escreveu textos essenciais como “Cinema, a arte do espaço” e “O Gosto da Beleza”, entre muitos outros. Suas entrevistas eram grandes lições de vida, dignidade e cinema. Um verdadeiro mestre.

– Henry Langlois

Fundador da Cinemateca Francesa e autor da sentença que eu mais uso nos últimos anos (“como crítico, me recuso a abdicar de minha subjetividade, e ao mesmo tempo me recuso a rejeitar qualquer filme como programador”). Em 2014, no centenário de seu nascimento, uma nova e mais abrangente compilação de seus textos foi lançada na França. Claro que não chegará ao Brasil, este fim de mundo do pensamento (e como eu adoraria queimar a língua). Basta dizer que seu texto sobre Howard Hawks é melhor que o de Rivette.

– Michel Mourlet

Fosse apenas por “Sobre uma Arte Ignorada”, publicado numa Cahiers de 1959 (ainda sob editoria de Rohmer, que se precaveu do radicalismo de Mourlet colocando seu texto em itálico), o texto continua atual, justamente porque denuncia, entre muitas outras coisas, uma prática ainda comum, a de encontrar uma obra-prima por semana. Vale encomendar seu livro, infelizmente só em francês, L’Écran Éblouissant.

– Jean Domarchi

Classicista de textos eruditos e claros (como todo bom classicista), Domarchi era o crítico mais minnelliano da Cahiers nos anos 50. A cada filme de Minnelli lançado na França, dá-lhe texto essencial de Domarchi. Textos que, aliás, precisavam ser traduzidos. Por enquanto, encontrei apenas este, sobre uma obra-prima de Mizoguchi. Escreveu ainda textos maravilhosos sobre Hitchcock, Nicholas Ray, Frank Tashlin, musicais e outras coisas hollywoodianas da época.

– Jacques Rivette

Em “Da Abjeção”, ataca a espetacularização de um cinema engajado de esquerda que automaticamente era elogiado pela crítica francesa da época. O malhado foi Gillo Pontecorvo, com seu travelling de Kapo. Mas Rivette tem ainda textos geniais sobre Rossellini, Mizoguchi, Chaplin. Quando assumiu a editoria da Cahiers, em 1963, tinha a ambição de fazer da revista uma fortaleza para a Nouvelle Vague (Rohmer, mais equilibrado, era contra).

– Antonio Candido

Queria fazer esta lista só com críticos cinematográficos (razão pela qual não coloquei, lamentavelmente, Mário Pedrosa e Giulio Carlo Argan, por exemplo), mas a inteligência e a sagacidade de Antonio Cândido se impuseram. Foi leitura constante em uma fase de minha vida (1993-1996), quando o ócio me impelia a acumular conhecimento de maneira desordenada (outro pensador que li muito nessa época e recomendo demais: Emil Cioran). Quando escrevia sobre a crítica, Candido era implacável. Sociólogo de formação, falou, como Northrop Frye, da necessidade de não subordinar a literatura (ou o cinema, podemos dizer) a argumentações trazidas prontas da sociologia ou de outra disciplina, e observou que a crítica literária moderna se livrou dessas armadilhas (“a crítica moderna superou não foi a orientação sociológica, sempre possível e legítima, mas o sociologismo crítico, a tendência devoradora de tudo explicar por meio de fatores sociais”). Quando escrevia críticas literárias, era extremamente perspicaz. E como historiador é de uma justeza invejável. Um de nossos grandes pensadores, sem dúvida. Seu livro mais importante talvez seja O Observador Literário. Mas não deixe de ler com atenção qualquer texto solto que aparecer com sua assinatura.

– Noel Simsolo

Todos os livros sobre cinema que li de Simsolo são obrigatórios: sobre Hitchcock, Fritz Lang, Clint Eastwood, Howard Hawks (do qual li apenas trechos), Film Noir e o ótimo e polêmico Dicionário da Nouvelle Vague.

– Hélène Frappat

Confesso que na época em que ela escrevia na Cahiers du Cinéma eu não acompanhava muito a revista. Mas a descobri anos depois no excelente livro que escreveu sobre Jacques Rivette, leitura obrigatória.

– Jean-Baptiste Thoret

O número de ideias de seu antológico Le Cinéma Américain des Anées 70 já o credencia para um lugar nesta nobre lista. Esse livro, que eu saiba, só existe em francês. Meu conselho é que o leitor compre junto de um dicionário bem grande, para aprender cinema e francês ao mesmo tempo, com os ensinamentos de Thoret. Ele tem ainda livros excelentes sobre Michael Cimino, Dario Argento e o didático Cinéma Contemporain: Mode d’Emploi (este em francês e inglês – Talk About Cinema).

Críticos de cabeceira

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O leitor Emerson me incentivou a criar uma lista de críticos que admiro e que, de alguma forma, são responsáveis (ou culpados) pela minha formação. Farei então uma lista, sem ordem de preferência, de críticos, cinematográficos ou não, que me influenciaram de alguma maneira, começando por aquele que eu mais lia no início da cinefilia (e que hoje é amigo e parceiro de oficina).

– Inácio Araujo

Na Folha, foi quem me fez ir atrás de diretores como Sergio Sollima, Vittorio Cottafavi e Peter Yates. Defendia, contra todos os críticos da época, os filmes malditos de Paul Verhoeven: Showgirls e Tropas Estelares. Do segundo eu gostei logo que vi. Do primeiro levou algum tempo até eu concordar com o mestre.

– François Truffaut

Também do início da cinefilia (1990, mais ou menos). Lia o livro Os Filmes de Minha Vida e ficava encantado com a paixão demonstrada por Truffaut. O livro de entrevistas com Hitchcock então era praticamente um travesseiro. Só muitos anos depois, já na segunda metade dos anos 90, descobri os outros jovens turcos. Gostava deles, mas não gostava da Cahiers da época. Lia Première e Studio, mesmo discordando do gosto de quase todos os críticos dessas revistas. Mas eram ideais para praticar leitura em francês (as revistas eram mais baratas e mais fáceis de ler que a Cahiers).

– Jairo Ferreira

Quando Juliano Tosi montou um blog com textos antigos de Jairo, pude ler com mais atenção esse crítico extraordinário e ainda pouco conhecido. Altamente recomendável também o livro com críticas para o jornal São Paulo Shimbun, lançado pela Imprensa Oficial.

– João Benard da Costa

Obrigatório crítico português que, no tom e no estilo cronista, lembra muito o Inácio Araujo. Dá para achar diversos textos dele espalhados pela internet (o de Cassino é sensacional, mas tem diversos outros geniais). Os diversos catálogos que editou para a Cinemateca Portuguesa são um tesouro inestimável. Pena que é difícil comprá-los à distância (talvez menos difícil agora, não sei).

– Tag Gallagher

Gallagher é meu segundo crítico cinematográfico preferido entre os que escrevem em inglês. Seu estilo anti-acadêmico pode chocar os críticos atuais, mas ele tem uma visão muito particular do cinema, não cai em modismos e desenvolve ideias como poucos. Este texto (em arquivo Word), por exemplo, é obrigatório.

– Robin Wood

Não tem pra ninguém. Crítica de cinema em inglês é com Robin Wood. Obrigatório é seu livro sobre o cinema americano dos anos 70, Hollywood from Reagan to Vietnam… and Beyond – melhor o relançamento, que tem esse “and Beyond”, porque vem com textos sobre filmes do final dos anos 80 até o início dos anos 2000, quando ele defendia coisas como As Horas (defendia muito bem, mas continuo achando o filme uma bomba). Obrigatório também é seu livro sobre Rio Bravo, da coleção da BFI. Obrigatório lerem tudo de Robin Wood.

– Clement Greenberg

Grande crítico de arte norte-americano, sobre o qual escrevi no finado blog.

– Northrop Frye

Tinha lido coisas dele, desordenadamente, na época da faculdade 1989-1993). Se não me engano, mais para o final desse período. Mas na época não fez minha cabeça. Ao reler a “Introdução Polêmica” no relançamento de Anatomia da Crítica, pela É Realizações, tornou-se leitura constante e parte obrigatória de minhas oficinas de crítica. É crítico literário, mas serve perfeitamente para nós, críticos de cinema, porque cinema é arte, poxa.

– Jean Douchet

Atualmente tenho discordado bastante do que ele diz. Tenho um livro recente dele em que ele parece detestar ele próprio nos anos 60 (seu melhor período, a meu ver). No começo dos anos 2000, editou um catálogo maravilhoso sobre a Nouvelle Vague para a Cinemateca Francesa. O jovem Douchet escreveu A Arte de Amar, outro texto fundamental que uso em aula.

– Jacques Lourcelles

Além do dicionário que escreveu durante anos, publicado no início dos anos 90, vale a pena ir atrás de seus textos para a Présence du Cinéma, muitos deles traduzidos para o português (na Foco e no blog dicionários de cinema).

Anatomia da Crítica

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Abaixo copio pequenos trechos do obrigatório Anatomia da Crítica (editora É Realizações), do crítico literário canadense Northrop Frye (1912-1991).

Dois sobre a necessidade da crítica:

O assunto principal da crítica literária é uma arte, e a crítica evidentemente também tem um pouco de arte. Isso soa como se a crítica fosse uma forma parasitária de expressão literária, uma arte baseada numa arte preexistente, uma imitação de segunda mão do poder de criação. Nessa teoria, os críticos são intelectuais que possuem um gosto pela arte, mas que carecem tanto da capacidade para produzi-la como de dinheiro para promovê-la, e então formam uma classe de atravessadores culturais, distribuindo cultura para a sociedade em troca de lucro próprio ao explorar o artista e aumentar a pressão em seu público. A concepção do crítico como um parasita ou artista manqué ainda é muito popular, especialmente entre os artistas. Essa concepção é às vezes reforçada por uma analogia dúbia entre as funções criativa e procriadora, de modo que ouvimos falar assim da “impotência” e “esterilidade” do crítico, de sua aversão a pessoas genuinamente criativas, e assim por diante. A idade de ouro da crítica anticrítica foi a parte final do século XIX, mas alguns de seus preconceitos ainda ficaram por aí.

(…)

Shakespeare era mais popular que Webster, mas não porque ele era um dramaturgo melhor; Keats era menos popular que Montgomery, mas não porque fosse um poeta melhor. Consequentemente, não há maneira de evitar que o crítico seja, por bem, ou por mal, o pioneiro da educação e o formador da tradição cultural. Qualquer que seja a popularidade que Shakespeare e Keats tenham hoje, ela é, em ambos os casos, o resultado da publicidade da crítica. Um público que tenta prescindir da crítica, e afirma que sabe o que quer e do que gosta, brutaliza as artes e perde sua memória cultural. A arte pela arte é um afastamento da crítica que redunda em um empobrecimento da própria vida civilizada. O único modo de se antecipar ao trabalho da crítica é por meio da censura, que tem a mesma relação com a crítica que o linchamento tem com a justiça.

E uma paulada na ditadura do tema:

Os axiomas e postulados da crítica, entretanto, devem brotar da arte da qual a crítica se ocupa. A primeira coisa que o crítico literário deve fazer é ler literatura, realizar uma pesquisa indutiva de sua própria área e deixar seus princípios críticos modelarem-se unicamente a partir de seu conhecimento dessa área. Os princípios críticos não podem ser tomados prontos da teologia, da filosofia, da política, da ciência ou de qualquer combinação dessas áreas.

O medo das hierarquizações

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Desde a premiação do Festival de Brasília, em 2014, quando os participantes resolveram, de antemão, dividir o dinheiro destinado aos premiados, tenho notado que um número considerável de pessoas considera nocivas as hierarquizações de filmes.

Prática comum à cinefilia, estava estampada em publicações francesas desde os anos 1940 (La Revue de Cinéma, Cahiers du Cinéma, Presence du Cinéma, Positif). A L’Écran Français hierarquizava os filmes com as feições de um minotauro no lugar das estrelas, algo bem infantil, e tinha espaço para o texto seminal de Alexandre Astruc, “La Camera Stylo“, espécie de manifesto usado pela Nouvelle Vague anos depois. A revista japonesa Kinema Junpo se notabilizou pelas listas anuais de melhores filmes japoneses, frequentes desde os anos 1920 (Kenji Mizoguchi estava quase sempre presente, mas apenas uma vez, em 1937, na primeira posição, o que não diminui sua estatura de maior cineasta de todos os tempos ao lado de John Ford). A BFI realiza, de dez em dez anos, enquetes com diretores e críticos do mundo todo para elencar os filmes favoritos de todos os tempos. Discordamos ou não da lista geral (impossível não discordar), é sempre uma diversão ver quais filmes subiram ou desceram nesse panteão duvidoso, e mais divertido ainda é ver as listas individuais, principalmente de cineastas e críticos que admiramos.

Mas para alguns, essas listas hierarquizantes não deveriam existir. Porque todos os filmes têm seu valor, suas peculiaridades. Premiações, então, seriam criminosas, pelo que têm de excludentes. Engraçado, muito mais grave é a seleção de filmes que receberão patrocínio para existirem, mas não vejo tanta gente protestando contra isso.

Dizer o que é bom e o que é ruim, que X é melhor que Y, e que Z não merece figurar na história do cinema é uma das funções da crítica. Se todos os filmes precisassem de igual tratamento, de particularizações, de serem entendidos por sua proposta e outras relativizações, e se não houvesse generalizações o mundo do cinema não respiraria melhor. Filmes são obras fechadas que podem ser vistos e entendidos de forma aberta. Ao contrário das pessoas, que são organismos vivos e infinitamente mais complexos. Por isso não se pode aplicar aos filmes o mesmo sentimento inclusivo e democrático que desejamos à sociedade.

Tendo visto apenas uns vinte filmes japoneses, André Bazin fez uma das melhores análises do cinema japonês que conheço. Essa generalização está em O Cinema da Crueldade. Bazin fazia generalizações negativas também, e são as negativas, e só elas, que provocam a ira de quem diz que não se deve generalizar.

Hierarquizações e generalizações são aparatos da cinefilia e da crítica. Sem elas é possível, obviamente, fazer boa crítica. Mas a questão é que com elas também, e por vezes com maior profundidade. Claro que a maior parte das hierarquizações e generalizações de hoje são ofensivas ao bom senso (como esta lista aqui, um tiro no pé). Isso não é culpa da prática em si, mas da pobreza que tomou o mundo artístico com a ideia de interatividade.