Arquivos Mensais: agosto \27\UTC 2016

O crítico João Cesar Monteiro

monteiro

Trechos da crítica de Monteiro sobre O Passado e o Presente, de Manoel de Oliveira, para o Diário de Lisboa em 1972 (é possível imaginar uma crítica assim publicada hoje?):

“Que dizer, agora, de O Passado e o Presente, a não ser que, aos 62 anos, o mais jovem dos cineastas portugueses acaba de fazer o seu maior e mais inteligente filme, precisamente numa altura em que assistimos à triste e senil decadência dos velhos senhores do cinema (vide o Visconti ou o Bresson ou o Losey, por ex.)?”

(…)

“Que o senhor tenha podido fazer o filme que fez, nas condições em que o fez, é talvez o menor dos seus méritos e o mérito maior de um esforço coletivo que, de um modo ou de outro, acaba por englobar todos aqueles que se tem batido por uma dignificação do coitado do cinema português.

Sinto-me perfeitamente à vontade para dizer isto, pela simples razão de o meu contributo, nesse sentido, ter sido absolutamente nulo. Nunca quis, nem quero, dignificar coisa nenhuma e, muito menos, o cinema português.

Além do mais, e para simplificar, antipatizo consigo. Se quiser, é uma antipatia de classe, feroz e desdenhosa. Irremediável. Há ainda o seu inconcebível catolicismo de catequista que (diga-se) se traduz num humanismo bolorento e charlatão sempre que o senhor sacrifica o discurso cinematográfico a uma verborreia pseudo-literária para se dar ares de carpideira filosófica preocupada com os pecados do mundo.”

(…)

“O Passado e o Presente não é o reflexo de um mundo; é um mundo que a si próprio se espelha e objectiviza. As personagens do filme são espelhos de si próprios (e só) e com elas o uso dos espelhos perde a sua habitual função de objeto de um “décor” para introduzir uma dimensão especular que só admite, todavia, o seu próprio espetáculo. “Não há dúvida que estamos aqui”, diz-se no começo do filme. Aqui, onde? Indubitavelmente, num filme.”

(…)

“Sistematicamente construído e organizado sobre a noção do duplo, O Passado e o Presente sutilmente se encerra no jogo de sua duplicidade. Jogo entre o que vê e o que é visto, entre o que mostra e o que esconde, O Passado e o Presente é, por excelência, o filme da festa do olhar. É, pois, a extensão e a qualidade do olhar que produz, regula e determina o movimento mais profundo e mais violento do filme: o movimento eminentemente erótico. Que me recorde, e se a memória não me trai, só encontro em toda a história do cinema um filme tão violentamente erótico como o filme de Manoel de Oliveira. Trata-se (curiosamente) do filme mais subestimado e incompreendido de Dreyer: Gertrud.”

(…)

“Resta dizer que, como todos os grandes e revolucionários filmes, também este tem o condão de desmascarar os imbecis e de propor uma lição de modernidade cinematográfica para quem quiser e puder entender.”

 

Fora do cinema

riot.narita

De vez em quando, gosto de escrever sobre outros assuntos. Quando isso acontece, busco alguma capa ruim de disco. Desta vez a escolhida foi a capa de um bom disco de 1979 da boa banda Riot. Feito o aviso, meu lado rabugento se impõe:

– Neymar vitorioso, medalha de ouro no pescoço, fala para Cícero Melo, da ESPN, que sabe ter sido muito criticado pelo canal, mas não paga “mal com mal”. Essa é a ideia que o brasileiro tem da crítica (e falo do brasileiro no geral, sabendo das exceções, porque o conheço bem, ando muito nas ruas, de ônibus, metrô, e ando sem fones de ouvido, ou seja, ouço o que as pessoas falam). Não entendem que na verdade só critica quem ama. Porque não existe crítica sem amor. Pode até se disfarçar de crítica, mas é só disputa de espaço, vaidade, vingança ou alguma outra coisa, se não tem amor. Quem critica filmes ama o cinema. Críticas constroem, adesões automáticas, elogios fáceis e bajulações destroem.

– Aliás, sempre que ouvi alguém falando em crítica da crítica o que veio a seguir é a mais pura besteira. Não que a crítica da crítica seja algo impossível. Mas é que normalmente é pleiteada por quem não tem a menor noção do que é a crítica.

– Ufanistas vão chiar, mas achei esse ouro no Volei bem esquisito. Em pelo menos dois momentos decisivos em que a Itália não tinha mais desafios a pedir a decisão do juiz, protestada pelos italianos, foi favorável ao Brasil. Até aí, normal. Mas não houve replay desses momentos, e isso me parece suspeito. O comentarista Maurício Jahu falou de invasão do Wallace, mas o desafio brasileiro se referiu ao toque dos italianos. Não entendo muito das regras do volei, mas tudo isso me pareceu um tanto tendencioso. Tenho birra com essa seleção desde que jogaram para perder num torneio poucos anos atrás. Com lances assim, não reprisados pela televisão em dois sets definidos em pequenos detalhes, fica um clima forte de ajuda exterior nessa vitória.

– Que os ânimos estão exaltados não é novidade. E a maldita mania de se opinar sobre todos os assuntos parece ter contaminado 3/4 de mundo ou mais. Mas temo que os limites já tenham sido ultrapassados há um tempo nas redes sociais. Não conheço André Forastieri pessoalmente, mas conheço gente que o conhece. Nunca ouvi uma queixa sequer dele, pelo contrário, só coisas boas sobre sua índole, e para mim é isso que vale. Ele tem, sim, um lado polemista meio besta, e eu discordo de 90%, mais ou menos, do que ele escreve quando movido por esse lado. Mas por que ele haveria de escrever para que eu concordasse? Ou para que as pessoas concordassem com ele? Para isso já existem os inúmeros pregadores para convertidos que andam por aí, geralmente os mesmos que, na vida real, puxam tapete, ignoram presenças de trabalhadores que eles consideram inferiores, e outras coisas típicas desses falsos humanistas de facebook. Já li coisas absurdas ditas contra Forastieri; que é um lixo, que merece ter morte bem lenta e sofrida, e coisas afins. Não vou cometar o erro de achar que essas pessoas que agem como fascistas no facebook o são também na vida real. Mas se exibem na rede como fascistas e já passaram do ponto, sendo muito pior do que aqueles que elas condenam.

– Nas últimas rodadas do primeiro turno do Brasileirão, o Corinthians, meu time, foi ajudado, sim. Cássio devia ter sido expulso contra o Figueirense (muito longe do fim do jogo), e fez penalti no jogo seguinte, contra o Cruzeiro (mas ele não devia ter jogado, e em seu lugar jogaria o Walter, em melhor fase, vejam a ironia), mas o juíz ignorou a infração, que aconteceu ainda no primeiro tempo. O Palmeiras foi ajudado em dois jogos também. Conseguiu o empate contra o Chapecoense num penalti totalmente inventado nos últimos minutos do jogo. E a vitória contra o Inter porque o juíz não quis ver o salto no vácuo com joelhada dado pelo Zé Roberto no jogador colorado, aos 43 do segundo tempo. Na ESPN, canal que sigo e considero o melhor em matéria de esporte, as ajudas para o Corinthians, que renderam apenas dois pontos, foram muito lembradas e tratadas como um escândalo (até mesmo quando o assunto era outro), principalmente pelo Mauro Cezar, um dos meus comentaristas preferidos (porque sempre crítico), mas que têm revelado uma tendência assustadoramente parcial ultimamente. Enquanto isso, pouco se falou das ajudas ao Palmeiras, que renderam ao time três pontos, um a mais que as ajudas ao Corinthians. Parece não existir imparcialidade no jornalismo futebolístico.

“I’m back”

colorofmoney

– De volta a este blog. Sou como o personagem de Paul Newman em A Cor do Dinheiro, filmaço de Scorsese. Ou seja, “I’m back”.

– Depois de um longo verão, nova edição da Interlúdio no ar, com mini-dossiê Sam Peckinpah, dois textos sobre o novo filme de Anna Muylaert, dois textos sobre o novo filme de Neville D’Almeida, mais Rita Azevedo Gomes, Guerin, Almodóvar, Metrópolis por Buñuel, Caça-Fantasmas, uma reflexão sobre a importância de ser arte e muitas coisas mais. Eis o link:

www.revistainterludio.com.br

– No início de agosto ministrei três aulas sobre o cinema de Luchino Visconti. Foi ótimo retomar algumas leituras, descobrir outras e rever todos os filmes, incluindo curtas e episódios, rever mais uma vez O Leopardo e desta vez descobrir um filme ainda mais louco do que eu lembrava, enfim, retomar o contato com um dos maiores diretores do cinema. Devo publicar algo mais sobre Visconti nas próximas semanas, na Interlúdio. Aqui, por enquanto, um TOP 10:

1) O Leopardo (Il Gattopardo, 1963)

2) Ludwig (1973)

3) Rocco e Seus Irmãos (Rocco i Suoi Fratelli, 1960)

4) Morte em Veneza (Death in Venice, 1971)

5) Violência e Paixão (Gruppo di Famiglia in un Interno, 1974)

6) O Inocente (L’Innocente, 1976)

7) Sedução da Carne (Senso, 1954)

8) A Terra Treme (La Terra Trema, 1948)

9) Os Deuses Malditos (The Damned, 1969)

10) Um Rosto na Noite (Le Notti Bianche, 1957)

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obs: os oito primeiros são obras máximas do cinema.

Ranking Steven Spielberg

encontros

Dias atrás, Roberto Sadovski organizou todos os longas de Spielberg em sua ordem de preferência, do pior ao melhor. Ontem foi a vez de Gabriel Carneiro. E de Ronald Perrone (a lista menos diferente da minha). Mais gente deve ter feito isso, mas não vi. Para movimentar este blog e respirar um pouco depois do genial Oscar Wilde (que voltará em breve), resolvi brincar também. Só que eu não irei rever os filmes. Vai de memória. Eles gostam muito mais de Spielberg do que eu, afinal. E ainda não vi o último, nem sei quando verei, então minha lista terá 29 longas.

29. Hook

28. A Cor Púrpura

27. Cavalo de Guerra

26. Amistad

25. A Lista de Schindler

24. As Aventuras de Tintin

23. Além da Eternidade

22. Parque dos Dinossauros

21. O Império do Sol

20. Ponte dos Espiões

19. Lincoln

18. O Terminal

17. O Resgate do Soldado Ryan

16. Guerra dos Mundos

15. Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal

14. Parque dos Dinossauros 2

13. Munique

12. Indiana Jones e o Templo da Perdição

11. Minority Report

10. 1941

09. Prenda-me se For Capaz

08. Louca Escapada

07. E.T.

06. A.I. Inteligência Artificial

05. Tubarão

04. Encurralado

03. Os Caçadores da Arca Perdida

02. Indiana Jones e a Última Cruzada

01. Contatos Imediatos do Terceiro Grau

observações:

– Gostar mesmo, com a boca cheia, só dos seis primeiros. Dos demais, gosto com reservas (7 a 11), gosto com muitas reservas (12 a 16), gosto e desgosto na mesma medida (17 a 25) ou não gosto de jeito nenhum.

– Sim, meu Indiana preferido é o terceiro, a meu ver, aquele em que o tema da ausência do pai, burilado em Contatos Imediatos, volta com maior força.

– Não gostei dessa ideia de colocar os títulos do pior para o melhor. Agora já foi, mas espero me lembrar no futuro de não fazer mais isso.

– Contrariamente a maior parte dos críticos que admiro, vejo algumas qualidades em A Lista de Schindler, o que não anula aquele catártico mergulho final no esterco artístico, infelizmente.