Arquivos Mensais: setembro \22\UTC 2016

49º Festival de Brasília – 1º dia

falecida

Ver Cinema Novo, o mais recente longa de Eryk Rocha, na abertura do 49º Festival de Brasília, pode ser uma experiência bem melancólica. Não só pelo uso das imagens de grandes filmes do cinema novo, mas também pela retomada de contato com o que os principais diretores da época falavam. Eles iam muito além do “fora, Temer” que parece dominar as mentes pensantes atuais. Tinham uma visão muito crítica do Brasil e do mundo, e tinham também autocrítica, como fica claro numa fala de Joaquim Pedro sobre O Padre e a Moça. Sabiam conviver com o diferente. Walter Hugo Khouri, chamado de alienado na época, estava com eles num encontro, e não parecia deslocado (o que não impede que a maior parte deles tivesse senões bem destacados a respeito de seus filmes). Tinham também uma ideia muito clara de como se comunicar com o espectador.

O filme de Eryk Rocha é fácil. Um amontoado de cenas de filmes melhores sem muita estrutura. As cenas se juntam meio a esmo, a não ser em alguns poucos momentos (as correrias das pessoas, as influências). Fazer um filme de colagem de grandes filmes é fácil. Difícil é dar organicidade à coisa, dar um aspecto crítico. Nesse sentido, Eugenio Puppo se saiu melhor com seu filme sobre Ozualdo Candeias. De certo modo é fácil também, mas ao menos é mais didático em sua ode a um mestre. O de Rocha não é desprezível, longe disso. Mas senti falta de maiores atritos, de uma espinha que desse conta das contradições da época. Pelo que lemos, eram muitas.

Na abertura do Festival, um ponto altamente positivo deve ser destacado. Não houve discursos intermináveis, nem babação de ovo para políticos. Foram direto para a apresentação dos filmes, que é o que mais importa, sempre.

O balanço completo aparecerá depois. Por enquanto, comentários rápidos surgirão por aqui.

Anúncios

Panorama do cinema japonês

cinema-japones

Começa em outubro, no dia 11, e segue quase todas as terças rumo a dezembro meu curso Panorama do Cinema Japonês. São oito aulas dedicadas a 10 diretores (mais, na verdade, porque acrescentarei alguns outros no caldeirão).

As primeiras quatro aulas são dedicadas aos chamados mestres. Cada um capitaneará uma das aulas: Kenji Mizoguchi, Yasujiro Ozu, Mikio Naruse e Akira Kurosawa. Falarei também de outros diretores que brilharam entre os anos 20 e os anos 50: Tomu Uchida, Sadao Yamanaka, Heinosuke Gosho, Takashi Shimizu, Daisuke Ito, Minoru Murata, Masaki Kobayashi, Kaneto Shindo, entre outros, devem aparecer, pelo menos em menções, porque em oito aulas não dá para falar de todos.

As quatro últimas aulas são dedicadas à Nuberu Bagu, ou Nouvelle Vague japonesa. Nelas entram também diretores importantes dos anos 60, mas que não se consideravam pertencentes à Nuberu Bagu (caso de Imamura e Suzuki, por exemplo). Os principais diretores estudados são Nagisa Oshima, Shohei Imamura, Seijun Suzuki, Kiju Yoshida, Masahiro Shinoda e Hiroshi Teshigahara. Outros diretores entrarão na roda, sobretudo Masaki Kobayashi, Kaneto Shindo e Kon Ishikawa, nomes que, com Kurosawa, fizeram uma ponte entre a geração dos mestres e os jovens  que tomaram de assalto as telas nos anos 60. O curso passa também por Masumura, Okamoto, Fukasaku, Wakamatsu, entre muitos outros. Não teremos filmes completos, como nas outras edições do curso. Isso dará mais tempo para contextualizações e para estudarmos melhor os percursos desses diretores.

Alguns autores que estudaram o cinema japonês também estão no curso: Tadao Sato, Audie Bock, Donald Richie, André Bazin, Max Tessier, Mark LeFanu, Jean Douchet, Noel Burch, Lucia Nagib, Jairo Ferreira, Carlos Reichenbach, Rogério Sganzerla, João Bénard da Costa, Robin Wood, Darrell William Davis, Noel Simsolo, Jean Narboni e muitos outros.

Sejam bem-vindos:

http://www.itaucinemas.com.br/pag/curso-panorama-do-cinema-japones

Aquarius

aquarius

“Melhor dar um câncer do que ter um”. “Nós exploramos elas e elas nos roubam de vez em quando”. Com diálogos assim, que viraram meme no facebook, me espanta que o filme esteja sendo tão adorado (embora esteja longe da quase unanimidade de O Som ao Redor). O fato de que o filme foi transformado num cavalo de batalha por esperteza de seu diretor e irresponsabilidade de muitos críticos criou um clima em que a pessoa vai ao cinema, ouve um ou vários “fora, Temer”, e se sente imbuída da obrigação moral de adorar o filme, seja quais forem as imagens que surgirem em sua frente.

Gosto dos curtas de Kleber Mendonça Filho, principalmente de Noite de Sexta, Manhã de Sábado (nunca revisto). Mesmo Recife Frio, piada única que se esgota um pouco na revisão, ainda mantém certa força. Nos longas, os problemas de sua direção tornam-se mais evidentes. Desde o documentário Crítico se percebe uma estrutura frágil, mas ali não tinha muito jeito. Em O Som ao Redor também se nota essa fragilidade, ainda que melhor disfarçada pelos momentos de força vindos de uma certa estranheza da urbanidade caótica. Em Aquarius, a coisa degringola. E o maior problema, a meu ver, é tanto na estrutura (algumas cenas parecem de um outro filme, bem pior) quanto na direção de atores.

Os diálogos fracos, que sao muitos, talvez puxem as atuações do elenco para baixo, ou as atuações não melhoram os diálogos. Provavelmente as duas coisas. Kleber parece ter se preocupado tanto com o foco duplo e outras emulações de Altman e De Palma que se esqueceu de dirigir os atores apropriadamente, em adequação ao drama desenvolvido. Estão à deriva, como mostram bem as cenas de reunião familiar (exceto a de 1980) e, principalmente, a cena horrível na cozinha do apartamento (um pouco esquecida porque logo depois vem um dos momentos mais belos do filme, sobretudo pela maneira como é filmado: o da dedicatória no livro).

Mesmo Sonia Braga, de presença inegável como persona cinematográfica, dama do cinema brasileiro (melhores, contudo, são suas atuações em Dama do Lotação, Dona Flor e Seus Maridos e Eu Te Amo, e como vilã sensual em Rookie, de Clint Eastwood) está abaixo do que poderia. Ela começa o filme dando uma entrevista para um jornal (maneira de Kleber criticar a midia tendenciosa) e passa a atuar nesse modo o filme inteiro, salvo uma ou outra explosão dramática. A cena em que ela dança ao som de Roberto Carlos rivaliza em constrangimento com o rápido e entrecortado aquecimento do corpo, olhando para a câmera, antes de encontrar Irandhir na praia, logo no início. Alguém deveria ter avisado que estavam ruins demais essas cenas.

Já se falou muito do final inconcluso, e concordo com quem o considera decepcionante. Pareceu uma fuga do desfecho melodramático ou trágico que o filme parecia pedir. Ficou um anticlímax que de certo modo condiz com o tom baixo da maior parte das interpretações.

Curiosamente, o filme tem sido beneficiado por uma intensa propaganda: da Globo Filmes, poderosa coprodutora; dos jornais, que parecem estar apoiando efusivamente o filme; e da própria polarização política, utilizada por Kleber com destreza de bom marketeiro (e de quebra fez propaganda de Marcos Petrucelli também). Acho que só isso explica, de um lado, a supervalorização de muitos, de outro, a decepção de tantos outros com um filme que promete muito mais do que cumpre. Esses tantos outros, em sua grande maioria, não se manifestam publicamente. Não é a primeira vez que isso acontece. Não vejo esse silêncio como positivo para o cinema brasileiro.

P.S. No quadro de cotações da Interlúdio, duas cotações positivas mas não muito, três que estão mais para o negativo, uma totalmente negativa.