Arquivos Mensais: outubro \20\UTC 2016

40ª Mostra SP

bonssonhos

Muitos leitores e alunos me pedem indicações para a Mostra. Não pretendia fazer, pois não costumo esmiuçar a programação e tá cheio de dicas por aí. Mudei de ideia porque cada indicação tem seu valor independente, desde que não seja movida apenas por premiações ou elogios da crítica internacional (instituições cada vez mais lamentáveis).

A mostra chega aos quarenta ainda tentando driblar a regra do ineditismo que está sempre a ameaçando no quesito relevância. Os filmes mais badalados têm ido para o Festival do Rio, que sempre foi mais pop. Acontece que nem sempre os filmes badalados são os melhores. Diria até que não acontece com tanta frequência de serem mesmo bons. Mas o drible consiste em duas estratégias que se completam: apostas em filmes menos badalados, talvez secretos, o que, com a decadência da crítica, podem ter sido negligenciados em favor de bombas e filmes da moda; apostas em homenagens e sessões especiais como forma de justificar a inclusão de filme já exibido no Rio.

Divido este post em dois: os filmes novos e os filmes das retrospectivas.

Filmes novos

Kiyoshi Kurosawa surge com um de seus dois últimos flmes, O Segredo da Câmara Escura (o outro passou no Rio). Empata. O mais recente longa de Eugène Green não é bem badalado, mas é de um diretor que deveria ser badalado, e passou só no Rio, infelizmente. O novo do Johnnie To também.

Fazendo uma homenagem a Jim Jarmusch, a Mostra deu um jeito de também exibir seu comentado Paterson, e essa é uma estratégia que deveria ser mais usada. Sempre há a desculpa, muito válida, de que “não é inédito, mas passa aqui como parte de uma programação especial”. Vale ver ainda, de Jarmusch, Estranhos no Paraíso e Daunbailó. Pena que seu melhor longa, Ghost Dog, esteja ausente. Não sei se é possível considerar que há uma retrospectiva Jarmusch. Me parece mais um meio termo indefinível. Não importa o pretexto para que se exiba seus primeiros filmes.

Elle, de Paul Verhoeven, é uma das maiores atrações da Mostra, mas deve estrear, com muito menos filas, logo após o término do evento. Melhor se concentrarem, nesse caso, na exibição de O Quarto Homem, melhor filme holandês do diretor (a se lamentar não ter uma retrospectiva completa de Verhoeven, como foi dito à boca miúda).

A seleção portuguesa está melhor que a do ano passado. Não tem filme póstumo (e genial) de Manoel de Oliveira, mas tem o belo O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu, de João Botelho. Tem ainda o imperdível Correspondências, último de Rita Azevedo Gomes, uma das diretoras mais importantes deste século, e o ainda não visto, mas já recomendado, pelos outros filmes da diretora, Eldorado XXI, de Salomé Lamas. Porto, de Gabe Klinger, uma coprodução Portugal/EUA, vale ser conferido também. E já li coisas boas de Cartas de Guerra, de Ivo M.Ferreira. Vamos ver.

Deste lado do Atlântico, o interesse maior deve ficar com Beduíno, de Júlio Bressane, Martírio, de Vincent Carelli, e Guerra do Paraguay, de Luiz Rosemberg Filho. E também com os curtas do grande Aloysio Raulino (e com outros antigos que serão exibidos, vá lá). Há outros (longas de Rodrigo Grota e Cristiano Burlan, curta do Bodanzky, além de alguns recentes do novíssimo), mas nada que não seja possível ver em outra ocasião, com mais calma. Decepcionei-me com A Cidade do Futuro, de Cláudio Marques e Marília Hughes, os diretores do excelente Depois da Chuva. Idem com O Último Trago, dos irmãos Pretti mais Pdro Diógenes. Mas diria que vale arriscar os dois, para saber a quantas anda nossa produção jovem em sua frente mais animadora.

Claro que não se pode esquecer Paul Vecchiali, que voltou aos holofotes nos últimos anos com Noites Brancas no Píer e É o Amor, e agora chega com O Ignorante (que era O Cancro, nome mais divertido, mas acho que ficou só para Portugal). Nem os irmãos Dardenne, representados por A Garota Desconhecida. O novo de Valérie Donzelli é mais arriscado. Gosto de A Guerra Está Declarada, mas desconfio de suas preferências formais. A ver seu recente Marguerite e Julien.

Lav Diaz chega com um longa de oito horas muito bem cotado, mas não recomendo. Para mim, Diaz é um embuste. Veja por sua conta e risco. Quase o mesmo posso dizer dos filmes do casal Nicolas Klotz e Elizabeth Perceval. Não são um embuste, mas não recomendo. Brillante Mendoça não dá.

Dos americanos, eu apostaria em Animais Noturnos, pois Tom Ford é um diretor interessante. E nos filmes do já mencionado Jim Jarmusch (bom reforçar).

Tem filmes de diretores irregulares que vale conferir, caso estejam com tempo para ver muitos filmes. Jodorowski, Asghar Farhadi, Bahman Gobadi, Kore-eda. Vai que desta vez acertaram.

Fora esses todos, não recomendo seguirem premiações em festivais X ou Y ou indicações ao Oscar de filme estrangeiro. Não confio em premiações e por isso nem tomo conhecimento delas. Mesmo quando certas, não sei ao certo se foram movidas pelos critérios mais nobres, seja lá quais forem. E acredito que as premiações justas serão sempre minoria.

Retrospectivas

De Marco Bellocchio, vale destacar não só sua retrospectiva, com os essenciais De Punhos Cerrados, A China Está Próxima, A Hora da Religião e Vincere, como os dois últimos que realizou, Sangue do Meu Sangue e Belos Sonhos, que, aliás, deveriam estar no primeiro bloco, mas coloco aqui para fortalecer a recomendação em Bellocchio.

Na retrospectiva Andrzej Wajda, gosto particularmente de Kanal, Cinzas e Diamantes, Cinzas e O Homem de Mármore, com o senão de que não os revejo há mais de vinte anos. Vale programar, se possível, Geração, Terra Prometida, O Casamento, Os Inocentes Charmosos, Os Possessos e Paisagem Após a Batalha. Inácio Araujo fala maravilhas do Katyn, que eu nunca vi. Mas vi Sem Anestesia, e posso dizer: fujam. Também não sou muito chegado em Danton – O Processo da Revolução. Dos outros filmes da retrospectiva, ou não vi (dos anos 90 pra cá) ou acho bons, mas longe de imperdíveis (com o mesmo senão dos vinte anos).

Krzysztof Kieslowski era bom em sua terra natal, a Polônia, antes de concorrer com perfumarias francesas. Dele vale ver ou rever a série Decálogo, feita para a TV. Se não der pra ver tudo, deixe aqueles que foram alongados para cinema, Não Amarás e Não Matarás (que, entretanto, são muito bons), e veja pelo menos os dois últimos episódios. Além disso, terá uma sessão de curtas com o sensacional Sete Mulheres de Diferentes Idades.

Finalmente, de William Friedkin, necessário rever principalmente Operação França e Parceiros da Noite, mas também O Exorcista, O Comboio do Medo e Viver e Morrer em L.A.. E passar longe de Possuídos e Killer Joe. Se pelo menos exibissem Caçado… Acho que é o único pós Viver e Morrer que recomendo sem titubear.

Anúncios

Eterno retorno

silencio

Muito trabalho é bom, não me queixo. Mas este blog sofre um pouco com isso. Os cursos se aproximam, os prazos de textos idem, e o blog permanece sendo menos atualizado do que eu gostaria. No futuro, voltarei aos posts à moda Chip Hazard, ou seja, tops e brincadeiras como a do gosto/não gosto. É uma maneira de deixar a porta sempre aberta. Por enquanto, no velho estilo de atualizações, mantenho o leitor informado de meus últimos passos nesse terreno cada vez mais árido da cinefilia.

O Silêncio do Céu é uma surpresa. Marco Dutra deu um passo essencial para o cinema de gênero no Brasil: lidar com as coisas sem firulas, diretamente, incisivamente. A atmosfera é preparada para que algo aconteça, e algo acontecerá. Algo decisivo, para todos os envolvidos no estupro de uma mulher. O marido, que viu parte do estupro, mas não foi rápido e corajoso para agir enquanto era tempo. Os estupradores, que despertaram a fúria do marido e passam a ser perseguidos por ele. A esposa, que não sabe que o marido sabe do estupro e prefere manter-se em silêncio, como ele. Esse silêncio ameaça romper a relação e é o ponto nodal de um filme cheio de complexidades. Se mal filmado, tudo estaria perdido. Felizmente, Dutra revela um claro progresso na direção. Fez um filme maduro, cheio de não ditos e hesitações, além de uma bela homenagem a De Palma no clímax.

– Um dos maiores benefícios da internet é possibilitar que vejamos filmes em casa, em boa qualidade, antes até do que em suas estreias comerciais ou festivaleiras. A diferença da tela grande, convenhamos, é cada vez menor, uma vez que o DCP tende a igualar tudo e um mkv numa tela de computador ou TV bem calibrada produz uma imagem fantástica. Claro que alguns filmes precisam da dimensão da tela, mas a qualidade das cópias que têm saído compensam bastante essa defasagem, quase a anulam. Ou seja, o cinéfilo de uma pequena cidade no interior de Tocantins pode ter a mesma experiência que o cinéfilo de São Paulo ou Rio de Janeiro, embora este possa sempre se gabar, um tanto tolamente na maioria das vezes, de ter visto o filme numa tela grande. Sempre achei que ver filme do lado de pessoas desconhecidas, que não prezam pelo mesmo amor que eu por cinema e por isso não têm o menor respeito pela ideia de ver um filme em silêncio, atrapalha muito mais a experiência do que uma tela pequena, residencial. Agora, com a maturidade forçada pelas quatro décadas e meia de vida me trazendo também mais irritações com pessoas mal-educadas, digo sem pestanejar que prefiro, normalmente, ver uma boa cópia na minha casa do que uma boa projeção de um DCP. Como as projeções de DCP que tenho visto, na maior parte, tendem a ser lavadas ou muito saturadas, a disputa fica um tanto injusta para o lado de minha casa (já fiz essa experiência diversas vezes com filmes recentes, e quase sempre a cópia doméstica é melhor que a projetada).

– Disso vem um outro pensamento. Os cinéfilos de São Paulo ou Rio de Janeiro que mantêm a curiosidade de ver as estreias cinematográficas da semana ou ver o maior número possível de filmes nos festivais de cinema só conseguem uma coisa com isso: poluir cada vez mais o olhar, deixando-o despreparado e afeito a aceitar qualquer coisa que lhe chega. O cinéfilo de uma cidade que não tem cinema, e por isso não está sujeito às más escolhas de nossas distribuidoras, pode se concentrar, se tiver discernimento para isso, nos filmes que realmente importam.

O Lar das Crianças Peculiares segue a toada de Tim Burton há pelo menos uns 10 anos: fazer filmes bons e esquecíveis. A projeção em DCP estava esquisita, com uma moldura irritante nas laterais. Vi numa sessão vespertina, com umas dez pessoas na sala. Três delas, super barulhentas, conversando o filme inteiro como se estivessem nas casas delas (não eram jovens), sentaram na mesma fileira onde eu estava. Teria visto melhor se o filme estivesse disponível já para ver em casa.

– Encerrando com uma música de um dos meus discos favoritos. Prog italiano na cabeça.