Arquivos Mensais: novembro \28\UTC 2016

A arte do “como”

cameraman

Acredito que o cinema seja a arte do “como”, não a arte do “quê”. Isso quer dizer que não importa tanto o que se mostra, mas como se mostra. Ou seja, não importa a história, mas a maneira como ela é mostrada. Por outro lado, não importa tanto “como” se fez determinado plano (como, tecnicamente), mas “por que” se fez. Fiquemos, por enquanto, com a primeira formulação.

Revi O Homem das Novidades (The Cameraman, 1928), o primeiro filme de Buster Keaton para um grande estúdio, a MGM. Sabia que no clímax, quando ele abandona a manivela da câmera e vai salvar a moça sem ficar com o crédito pelo salvamento (todinho com o rival, que nadou de medo para a margem e só muito depois foi ver se ela estava bem), o macaquinho tinha filmado tudo. Só não lembrava “como” isso era mostrado. A câmera está em Keaton, enquanto ele está desiludido porque a moça foi embora com o que ela acreditava ser seu salvador. Sem corte, a câmera faz um travelling de recuo pela margem até enquadrar o macaquinho girando a manivela, mas mantendo no quadro o nosso herói, ajoelhado, destruído, numa bela composição.

Claro que essa revelação poderia ter sido filmada de outro jeito. Mas Keaton sentiu a necessidade de mostrá-la no mesmo plano, mantendo a relação da câmera do filme com a represa sem que um corte desse ao espectador a impressão de pulo. Sábia escolha.

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Pensamentos rápidos sobre a qualidade da imagem

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Cena de grande violência em O Túmulo do Sol, de Oshima

Reparo que hoje a maior neurose entre os cinéfilos é a qualidade de imagem. “Não é 1080p? Puxa, ok, pelo menos dá para quebrar o galho com uma cópia 720p”. E no fundo esses pequenos “pês” indicam mesmo uma diferença, assim como o formato de compressão. É melhor ver um mkv do que um avi. O sistema de compressão do matrioska é muito melhor. Mais ainda se for 720p (HD) ou 1080p (Full HD) no lugar do 480p que é do DVD, ou menos, como a maioria das imagens no YouTube.

Mas penso que o maior ganho está na passagem do VHS para o DVD, e não só pela definição superior do último, mas principalmente pelo respeito da maioria dos DVDs (algumas majors e distribuidoras de fundo de quintal a parte) ao formato de tela, o velho e bom aspect ratio. Sempre pensei ser o mais importante nos filmes. Desde que, no início da cinefilia, uma fita em que tinha gravado A Queda do Império Romano do canal Mundo, que o exibiu em scope, acabou antes do fim e eu tive de terminar o filme com uma antiga gravação da TV aberta, em fullscreen. Virou outro filme, e muito pior.

Digo isso também porque revi trechos de O Túmulo do Sol (1960), terceiro longa de Oshima, numa cópia tirada de VHS, sem muita definição, mas com o formato scope preservado. E a grandeza do filme continua lá, intacta, com o quadro pensado por Oshima sendo respeitado o tempo todo. Claro que algumas cenas escuras sofrem com isso, mas o essencial pode ainda ser visto.

Então muitas vezes acho que todos nós andamos meio chatos com esse negócio da qualidade da imagem, quando vemos filme em casa. Justamente porque a vantagem da tela pequena é comportar qualidades diversas sem muita perda, ao passo que no cinema, se o projetor estiver descalibrado e a imagem muito estourada (raramente acontece) ou muito lavada (o que é mais comum), nossa experiência é bem mais prejudicada porque essas distorções irão gritar na tela grande. Sei, contudo, que sou minoria nessa questão.

Comentário sobre Elle e Verhoeven

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Elle vem dando o que falar. Paul Verhoeven conseguiu dividir feministas. Algumas dizem que o filme é misógino, outras o consideram feminista. Acho que é o suficiente para que se estabeleça a dúvida, não? Ou ninguém mais quer ouvir o outro? Teve crítica dizendo que olhar masculino não pode mais no cinema. O que, sinceramente, eu não entendo. Todo olhar é válido.

Sempre entendi Verhoeven como um misantropo, que se revela mais em alguns filmes (Spetters, O Quarto Homem, Robocop, O Vingador do Futuro, Homem Sem Sombra) e parece ter recaídas humanistas em outros (Louca Paixão, A Espiâ). Em Elle, espécie de versão em reverso de O Quarto Homem, volta à misantropia que marcou boa parte de sua carreira e apresenta um filme cheio de personagens negativos, com uma única pessoa do bem: Anna, interpretada por Anne Consigny. Todas as demais são desprezíveis. Até mesmo quem, num primeiro momento, não parece ser.

Como bom misantropo, Verhoeven busca confundir mentes confortáveis com altas doses de ambiguidade, que fazem com que qualquer julgamento determinante (feminista, machista, misógino) possa ser desmentido com uma simples revisão atenta do filme. Tem alguns descuidos (personagens caricatos demais, situações que poderiam ser melhor desenvolvidas, peças mal colocadas num tabuleiro imaginário da transgressão – por um engano tinha escrito “transcrição” no lugar de “transgressão”, ainda quero entender por quê), não atingindo o nível de inteligência que Sniper Americano atingiu nesse sentido. Por isso gosto de Elle com ressalvas, apesar de uma cena antológica como aquela em que Michèle e o vizinho fecham as janelas (em compensação, os momentos de vulgaridade que funcionam tão bem em Instinto Selvagem e Showgirls aqui simplesmente não colam).

Além disso, parece que de repente Verhoeven virou queridinho da cinefilia. Desconfio bastante dessas reviravoltas do gosto. Alguns cineastas saem de moda com muita facilidade. Outros transformam-se em intocáveis. O diretor ainda está longe de ser aquele dos anos 80 e 90. Mas pelo menos se recuperou do sofrível Traição, e continua filmando, ainda que dê a impressão que qualquer coisa que ele fizer será defendido apaixonadamente por parte da crítica. Está na hora de ele fazer o seu Saló.

TOP 10 Verhoeven

1) Robocop (1987)

2) Tropas Estelares (Starship Troopers, 1997)

3) Showgirls (1995)

4) A Espiã (The Black Book, 2006)

5) O Quarto Homem (The Fourth Man, 1983)

6) O Vingador do Futuro (Total Recall, 1990)

7) Instinto Selvagem (Basic Instinct, 1992)

8) Louca Paixão (Turkish Delight, 1973)

9) O Amante de Katie Tippel (Keetje Tippel, 1975)

10) Soldado de Laranja (Soldaat van Oranje, 1977) + Spetters (1980) + Elle (2016)

Obs.:

– Do terceiro ao quinto temos praticamente um empate técnico. As posições poderiam ser invertidas com tranquilidade.

– O empate na décima posição foi uma solução fácil para a dúvida sobre qual escolher. Ainda não revi Elle, e nunca revi Spetters, mas Soldado de Laranja cresceu consideravelmente na revisão de alguns anos atrás.

Muitos sentimentos conflitantes

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Fishermen at Sea, de Joseph W. Turner

A realização profissional segue impulsionando minha vida. Convites estimulantes para cursos e textos, projetos igualmente estimulantes com amigos muito queridos, olhos brilhando de alunos – não por eu ser um oráculo (longe disso), mas por uma paixão em comum: o cinema.

Contudo, impossível estar plenamente realizado, ou mesmo feliz, com o mundo ruindo ao redor. E além de todos os acontecimentos tenebrosos dos últimos meses, recebo agora a notícia do falecimento de Leonard Cohen, o grande trovador, o único capaz de se igualar a Bob Dylan e Lou Reed na arte de cantar poesias sobre a dor humana.

A dor pode inspirar, e por isso (graças a isso) este blog deve finalmente retornar aos eixos e ser mais alimentado por textos. A dor e os clássicos japoneses (Não Lamento Minha Juventude, que filme maravilhoso que se revelou na revisão, Setsuko Hara em interpretação inesquecível) e americanos para os cursos em andamento.

Um novo curso surgirá em dezembro, provavelmente o último que darei neste ano:

Introdução à Crítica Cinematográfica