Arquivos Mensais: dezembro \30\UTC 2016

Arrumem espaço nas prateleiras

coffy

Coffy, de Jack Hill

Os colecionadores de DVDs estão em polvorosa. Não me lembro de uma outra época com tantos lançamentos bons como os últimos dois anos. Principalmente porque a Obras-primas do cinema resolveu competir com a Versátil e tem lançado quitutes imperdíveis como as trilogias Guerra e Humanidade, de Kobayashi, e a Trilogia de Apu, de Satyajit Ray.

O último pacote que recebi da Versátil me chamou a atenção por ser especialmente apetitoso. 12 DVDs distribuídos em cinco títulos que custam uma merreca. São ao todo 21 filmes que provavelmente ultrapassam, em qualidade, todo o catálogo do Netflix (é uma provocação, não uma afirmação; a birra com o Netflix vem da constatação de que esse mercado de lançamentos de DVD tende a morrer ou ficar cada vez mais restrito por causa dessa mania maldita de streaming e os péssimos catálogos das empresas que lidam com video on demand, além desse nefasto algoritmo do gosto, uma praga a ser exterminada).

Começando pela coleção Blaxploitation, gênero que rendeu muitas picaretagens e muitas maravilhas, além de uma série de trilhas sonoras fundamentais para o soul e o funk dos anos 70. Dos quatro filmes produzidos entre 1972 e 1974, conheço e gosto de três: A Máfia Nunca Perdoa (Barry Shear), com a maravilhosa música de Bobby Womack que Tarantino usou em seu melhor filme, Jackie Brown; Coffy, um dos melhores filmes de Jack Hill, diretor que vinha de dois filmes do subgênero exploitation WIP (Women in Prison), com a presença marcante da musa Pam Grier como a grande heroína que procura vingança, além das cores mais vistosas do período; e o melhor de todos, O Chefão do Gueto, dirigido pelo talentosíssimo Larry Cohen. A meu ver, não é só o melhor da coleção, mas de todo o Blaxploitation (afirmação contestada pelo Heitor Augusto, que conhece mais filmes do gênero). O quarto é Truck Turner, de Jonathan Kaplan, com protagonismo de Isaac Hayes, grande músico de um vozeirão ao mesmo tempo sussurrado e tonitruante. A ver se sua performance como ator tem força equivalente à de sua persona musical.

De um dos mais famosos diretores negros, vale destacar a edição dupla com o grandioso Malcolm X, talvez o filme mais ambicioso de Spike Lee. Lembro que na época em que estreou no Brasil o filme recebeu críticas mornas, quando não desapontadas (não lembro se houve sequer um elogio na imprensa). Era o segundo filme seguido de Lee mal recebido por aqui, após Mais e Melhores Blues. Como fã de seus filmes, fui conferir (salvo engano, no Belas Artes, onde já havia visto Febre da Selva) e gostei bastante. Nunca revi, mas imagino que ao menos parte de sua força (a presença de Denzel Washington no papel principal, por exemplo) permaneça intacta.

A ideia de lançar uma coleção com quatro filmes ingleses de Hitchcock (A Arte de Alfred Hitchcock) parece ainda melhor quando na escolha estão três dos melhores filmes dessa fase: O Inquilino (1926), seu melhor filme mudo (ao lado de The Manxman); O Marido Era o Culpado (1936 – “não se coloca uma bomba no colo de uma criança se não for para a bomba explodir”) e Jovem e Inocente (1937), meu preferido pessoal, o filme que tem o famoso travelling que atravessa todo o salão e termina num plano fechado no olho esquerdo do assassino. O quarto filme não fica muito atrás. trata-se de A Estalagem Maldita (1939), com Charles Laughton numa adaptação de Daphne du Maurier.

Outra coleção apetitosa é a Clássicos da Sci-Fi, que em seu terceiro volume oferece mais possibilidades de voltarmos ao tempo das matinês televisivas dos anos 80. Digo isso porque a maior parte dos filmes da coleção eu via nessas sessões. Não são grandes filmes, com a exceção de Daqui a Cem Anos, de William Cameron Menzies (ainda bem que não tiraram a preposição, porque hoje em dia se tornou desesperadamente comum falar “daqui cem anos”). Guardo boas lembranças de Pânico no Ano Zero, de Ray Milland, e O Emissário de Outro Mundo, de Roger Corman, mas não os lembro como especiais, apenas como filmes agradáveis e divertidos. A memória ainda diz que Fase IV: A Destruição (1974), de Saul Bass, vale pela bizarrice e por ser o único filme dirigido pelo mestre dos créditos de filmes de Hitchcock e Preminger, entre outros. Não lembro de ter visto Colossus 1980 (1970), de Joseph Sargent, e não achei bom, na época em que estreou na TV, o badalado Repo Man de Alex Cox. Mas voltar a esses filmes será diversão garantida.

Fechando o pacote temos o sétimo (?!?!?!) volume da bela coleção de Filmes Noir. Não constam em minhas anotações cheias de falhas que nunca serão corrigidas os quatro filmes que preenchem o segundo e o terceiro DVDs da coleção: Tensão é de John Berry, diretor de bons filmes que foi redescoberto após ter sido citado por Tarantino em entrevistas; A Taverna do Caminho é do artesão Jean Negulesco, e conta com a especial (como atriz e como diretora) ida Lupino; Justiça Injusta é de Cy Endfield, um dos diretores mais prejudicados pelo macarthismo; A Noite de 23 de Maio é de John Sturges, diretor que anos mais tarde ficaria conhecido pelos faroestes Sem Lei, Sem Alma (1957) e Sete Homens e Um Destino (1960) e pelo filme de prisioneiros de guerra Fugindo do Inferno (1963). A coleção valeria só por esses filmes raros, mas no DVD 1 tem Almas Perversas, de Fritz Lang (refilmagem americana de A Cadela, de outro gênio, Jean Renoir) e Cinzas que Queimam (dirigido por Nicholas Ray, que adoeceu numa parte das filmagens e teve de ser substituído pela estrela Ida Lupino, então já diretora de grandes filmes, que não ganhou crédito).

Akira Kurosawa

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O blog precisa ser atualizado. Revi uma série de filmes de Akira Kurosawa. Não tenho tempo para comentá-los com maior profundidade. A união desses três fatos sugerem um Top 10 do diretor, uma vez que na última série de revisões de suas obras a ordem e até a presença de filmes no panteão mudou consideravelmente.

Cresceu demais, por exemplo, o quinto longa dirigido pelo diretor: Não Lamento Minha Juventude (que a Versátil lançou com o título menos poético Juventude Arrependida). É o filme que ilustra este post. Um primor de encenação, muita influência de Dovjenko e outros cineastas russos dos anos 20 e 30 além de uma facilidade para alcançar a poesia que não é pré-fabricada, a tal da poesia “a priori” que Truffaut atacava e que reina soberana em praticamente todas as cinematografias atuais.

Na série de revisões anterior, dois filmes que haviam subido imensamente continuam no pódio: Homem Mau Dorme Bem e O Barba Ruiva. Outro que havia subido caiu um pouquinho: Cão Danado. Kagemusha foi revisto no começo do ano para um texto da Folha e cresceu horrores também. Penso ser seu melhor filme de samurai, embora entenda as objeções de Donald Ritchie (atores muito teatrais, Tatsuya Nakadai exagerado).

Continuo achando Floresta Escondida um de seus filmes mais superestimados. Não sei se a boa vontade com esse longa vem da declaração de George Lucas, que se inspirou na dupla de fugitivos para compor C3PO e R2D2, mas entendo que a força do filme reside apenas na presença da atriz que faz a princesa, a novata Misa Uehara, que depois fez alguns poucos filmes, incluindo trabalhos com Hiroshi Inagaki e Kihashi Okamoto, e se retirou da carreira cinematográfica, infelizmente. Seria legal ver o que a geração da Nouvelle Vague aprontaria com essa presença de imensa força.

1) Não Lamento Minha Juventude (1946)

2) Homem Mau Dorme Bem (1960)

3) O Barba Ruiva (1965)

4) Kagemusha (1980)

5) Ran (1985)

6) Céu e Inferno (1963)

7) Yojimbo (1961)

8) Rashomon (1951)

9) Trono Manchado de Sangue (1957)

10) Viver (1952)

obs: Lamentavelmente ficaram fora deste top (mas poderiam entrar em outros dias), os longas O Idiota (1951) e Dersu Uzala (1975). Adoro alguns outros filmes dele, como o primeiro A Saga do Judô (seu primeiro longa), Os Sete Samurais e, ainda, Cão Danado, mas não a ponto de figurar entre os dez mais.

A Chegada é Amy Adams

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Se dependesse exclusivamente de Denis Villeneuve, A Chegada seria uma bobagem na linha de Interestelar. Villeneuve parece que só tem capacidade para fazer elipses, e ainda assim elipses óbvias. Quando não está apto a fazer seus malabarismos vazios, depende demais de bons roteiros e atores, como em Os Suspeitos, seu melhor filme.

Mas A Chegada tem Amy Adams, uma das raras atrizes capazes de impor seu ritmo à direção e com isso levar um filme inteiro nas costas. É sua respiração que acelera ou cadencia o filme. É por causa dela que nos emocionamos, pois quando a vemos em cena nunca vemos uma atriz desempenhando um papel, mas uma mãe, uma tradutora, uma cientista, em suma, uma mulher forte e dedicada no trabalho, com sensibilidade e inteligência para driblar as burrices e patadas dos brutamontes do exército ou dos pé-na-porta da CIA.

Não haveria homem para lhe fazer par no filme, e não há de fato. Jeremy Renner não é um mau ator, mas perto dela fica parecendo uma biribinha. Seria preciso um ator de maior presença, não necessariamente beleza: um Hugh Jackman, um Benício Del Toro (se não estivesse tão associado a bombas fílmicas) ou algo assim. Melhor ainda um Clint Eastwood, se pudesse ser transportado dos anos 80. Ou seja, para contracenar com uma atriz como Amy Adams, uma vez que o roteiro impõe essa necessidade de contraponto masculino, seria preciso um ator igualmente raro, que no momento não me vem à mente (Jackman e Del Toro são bons, mas não raros).

O risco de desequilíbrio sem esse ator era grande. Mas mesmo esse risco ela conseguiu evitar. Seu gigantismo em cena é generoso o suficiente para permitir ao menos uma interpretação digna de Renner. A se notar que até o maravilhoso Forrest Whitaker fica pequeno perto dela, o que torna a cena em que há o primeiro contato entre os dois bem engraçada, com ela tremendo de medo de assumir a tarefa e ao mesmo tempo encarando e jogando uma charada para aquela presença inicialmente ameaçadora.

Enquanto houver atuações como as dessa atriz que parece melhorar a cada ano, Hollywood ainda não terá atingido o fundo do poço. Se o filme não é grande coisa é porque todo o resto não ajuda muito. Mas ela consegue ao menos fazer com que a sessão passe sem maiores dissabores. É a arte de Amy Adams que acompanhamos por quase duas horas.

Top 10 Nagisa Oshima

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Na revisão de vários filmes de Nagisa Oshima, mudou consideravelmente o entendimento que eu tinha de seu percurso cinematográfico. Até este ano, considerava suas melhores fases as que compreendiam os anos de 1960 e 1961 e os anos de 1967 e 1968. Agora, considero que seu ápice se deu entre 1969 e 1971, principalmente pelos filmes das pontas, o primeiro e o terceiro que realizou nesse período: O Garoto e Cerimônias, tendo um belíssimo O Homem que Deixou seu Testamento em Filme no meio.

Muitos podem argumentar que esses dois filmes da ponta são mais palatáveis para um circuito de “cinema de arte” (não gosto da expressão, nem do conceito, mas uso aqui para facilitar o entendimento), que já começava a se fortalecer naquela época. É verdade. Mas esses filmes mostram uma maturidade que faltava nos períodos anteriores, mesmo nos melhores filmes. Cerimônias é impressionante, todo estruturado em flashbacks e cerimônias para entendermos o desfacelamento de uma família. Não encontrei nada sobre, mas poderia apostar que Oshima pirou em Os Deuses Malditos, de Luchino Visconti, que me parece ser a maior referência para seu maravilhoso filme.

O Império da Paixão é outro belíssimo filme e é ainda mais formatado para um circuito de arte já fortalecido em 1978. Mas continuo não engolindo Furyo (ainda mais formatado), apesar de reconhecer nele belos momentos.

Para aqueles que esperam ansiosamente, como eu, pelo novo longa de Scorsese, O Silêncio, vale ver ou rever o longa que Oshima fez em 1962 sobre o período de perseguição dos cristãos no Japão, durante a era Tokugawa. Chama-se O Rebelde, e é o décimo colocado em minha lista (e o responsável por deixar filmes belíssimos como Canções Lascivas do Japão, Túmulo do Sol fora dos dez mais, pelo menos nesta semana).

1) Cerimônias (Gishiki, 1971) – foto

    O Garoto (Shonen, 1969)

3) Noite e Névoa no Japão (Nihon no Yoru to Kiri, 1960)

4) O Enforcamento (Koshikei, 1968)

5) Duplo Suicídio Forçado: Verão Japonês (Muri-Shinju: Nihon no Natsu, 1967)

6) A Presa (Shiiku, 1961)

7) Três Bêbados Ressuscitados (Kaette Kita Yopparai, 1968)

8) O Homem que Deixou seu Testamento em Filme (Tokyo Senso Sengo Hiwa, 1970)

9) Conto Cruel da Juventude (Seishun Zankoku Monogatari, 1959)

10) O Rebelde (Amakusa Shiro Tosikada, 1962)