Arquivos Mensais: janeiro \19\UTC 2017

Meus 20 preferidos do circuito em 2016

visita

Por que só do circuito? Porque diminuem os filmes elegíveis, diminuindo também a possibilidade de perguntas – “e tal filme?” – que mereceriam a resposta – “esse eu não vi”. Não que a pergunta me incomode, mas acho mais interessante limitar o escopo de filmes que pudessem ser escolhidos. É também a regra que utilizamos na Interlúdio, que soltará em breve a lista final da redação.

Por que um filme de 1982 em primeiro lugar? Porque esse filme só chegou ao público em 2015, tendo estreado comercialmente no Brasil em 2016.

Por que 20 filmes? Não sei. Confesso que desta vez 15 seria mais justo. Dos quatro ou cinco últimos eu não gosto o suficiente para entrar em lista de melhores. Mas sempre publiquei lista de 20 por aqui (e 10 na Interlúdio). A tradição falou mais alto.

Por que só em 19 de janeiro você solta essa lista? Porque não acredito na pressa com que as listas de melhores têm sido feitas. Sempre aproveito o fim de um ano e o começo do outro para ver alguns filmes que perdi. Neste ano foram muitos os filmes vistos só na reta final (Creepy, Certo Agora Errado Antes, Caprice, Francofonia, Academia das Musas, Invocação do Mal 2, Don’t Breathe, Dois Rémi Dois, Depois da Tempestade, entre vários outros menos interessantes).

Visita ou Memórias e Confissões (Manoel Oliveira, 1982)

Cavalo de Turim (Béla Tarr, 2011)

Os Campos Voltarão (Ermanno Olmi, 2015)

Sangue do Meu Sangue (Marco Bellocchio, 2015)

É o Amor (Paul Vecchiali, 2015)

Café Society (Woody Allen, 2016)

A Assassina (Hou Hsiao-Hsien, 2015)

Certo Agora, Errado Antes (Hong Sang-soo, 2016)

Creepy (Kiyoshi Kurosawa, 2016)

A Odisseia de Alice (Lucie Borleteau, 2014)

Jovens Loucos e Mais Rebeldes (Richard Linklater, 2016)

Caprice (Emmanuel Mouret, 2015)

Francofonia (Alexander Sokurov, 2015)

Incompreendida (Asia Argento, 2014)

Nossa Irmã Mais Nova (Hirokazu Koreeda, 2015)

O Ignorante (Paul Vecchiali, 2016)

Os Oito Odiados (Quentin Tarantino, 2016)

A Bruxa (Robert Eggers, 2015)

Sully (Clint Eastwood, 2016)

Elle (Paul Verhoeven, 2016)

 

 

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Eu, Daniel Blake

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Não são muitos os filmes de Ken Loach de que gosto. Devem ser contados nos dedos de uma mão, talvez uma e meia, e de nenhum deles eu gosto de maneira especial (não tendo visto alguns importantes como Family Life, Black Jack ou Riff Raff). Loach é sempre acadêmico, dirige como se seguisse um manual e depende demais da força do drama e dos atores para que seus filmes funcionem (acontece algo parecido com Mike Leigh; esses ingleses são meio duros para o cinema). Mas sejamos sinceros: do nível que a coisa anda, talvez seja melhor seguir um manual do que ficar tremendo a câmera como se fosse operada por um bebê. Eu, Daniel Blake é mais um de seus bons filmes (contei aqui, é o sexto de que gosto). Não é especial; seria querer demais de Loach, e provavelmente o prêmio máximo em Cannes tenha sido exagerado. Mas é um filme digno, como disse o Inácio Araujo. E dignidade, hoje em dia, como Loach reforça a cada cena, está meio fora de moda.

Daniel Blake é um carpinteiro digno que sofre um ataque cardíaco e fica impedido de trabalhar pela médica que o atendeu. Mas para conseguir o auxílio financeiro ele deve andar pelas ruas o dia inteiro procurando emprego, ou enfrentar os indignos burocratas, o que para o coração é muito pior que trabalhar. Convenhamos, mesmo o mais safado dos liberais deveria achar uma crueldade submeter um cardíaco a um troço desses. Mas o mundo está se voltando para o “cada um por si”, e o que Loach faz é protestar contra esse sentimento. Falar que se trata da Inglaterra do Brexit é um tanto óbvio. Falar que aqui no Brasil, país muito mais distante do socialismo que a Inglaterra, é pior, seria óbvio também. De certas obviedades, na verdade, já estamos bem cheios, mas fugir delas não vai fazer com que desapareçam.

Estão no filme de Ken Loach: a gente simples de Newcastle, com o sotaque carregadíssimo e o frio quase escocês; o vizinho negro que busca vencer na vida vendendo pares de tênis importados da China; a londrina que teve de emigrar com seus dois filhos por não conseguir arcar com o alto custo de vida na capital; os assistentes sociais incapazes de sair do script imposto por quem quer se ver livre de pobres; a prostituição e as imensas filas da cesta básica.

O melhor, sem dúvida, é a relação de Daniel com Katie e os filhos dela, Daisy e Dylan. Daniel é como um pai para eles, sem que haja uma atração sexual entre ele e Daisy. A coisa se dá em outro nível, mais espiritual, e talvez por isso mesmo mais necessário nestes tempos de egoísmo e arrivismo. A presença de Daniel traz leveza, conforto. Nesse sentido, o filme ameaça degringolar quando Daniel vai surpreender Katie em seu novo trabalho. A presença ali não era bem-vinda, por motivos que o espectador entende muito bem. Mas logo os trilhos são retomados para um final que, como no restante do filme, chega perto do piegas, sem ultrapassar a delicada barreira (como na cena em que Katie se desespera de fome na sala da cesta básica, ou quando Daisy conta para a mãe que na escola as outras meninas zombam de seu sapato com sola descolada). Não vira piegas graças ao tempo preciso no corte (dois segundos a mais, em alguns casos, já seria chantagem sentimental, dois a menos o recado não seria passado), e à direção sempre sóbria, atenta a uma possível invasão da intimidade do personagem. Às vezes há vantagem no academicismo.