Arquivos Mensais: fevereiro \28\UTC 2017

A decadência

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Violência e Paixão (1974), de Luchino Visconti

Muitos não entendem minhas comparações entre música e cinema, como a que fiz certa vez entre Roberto Carlos e Kenji Mizoguchi (sei que fez muito sentido para quem adora os dois, mas não para quem olha torto para o cantor popular, ou não entende a emoção que Mizoguchi pode despertar). Talvez porque seja mais nobre, embora óbvio, comparar filmes com quadros, uma vez que o cinema herdou algumas coisas da pintura. Música é outra coisa. Mais direta, mais certeira, chega mais rápido ao coração. Por vezes, algumas ideias que tenho, boas ou tolas, vêm da audição de músicas que me dizem muito, me tocam diretamente o coração.

Aconteceu novamente numa tarde dessas, quando procurei disfarçar o barulho dos vizinhos com algumas músicas de bandas de rock dos anos 70: Fantasy, Cressida, Gentle Giant, Wings, Zappa, até que cheguei ao Kansas, banda prog/AOR que lançou discos muito bons entre 1975 e 1979. O disco Monolith em especial, último desse período, me trouxe de volta a percepção de que me sinto especialmente atraído pela decadência, pelos últimos suspiros de algo que já está se acabando, pelo debate contra uma correnteza que está prestes a levar tudo embora. É inevitável, nesse caso, ter-se consciência dessa decadência. Isso na arte, claro. Na vida a coisa é diferente porque a decadência é triste, seja do corpo, da mente, de uma ideia de nação ou do respeito entre as pessoas (tudo que estamos vivendo, em suma). E é essa tristeza que me encanta, me enfeitiça, uma tristeza que eu não quero passar, e que talvez seja melhor traduzida por melancolia, pois mais profunda, aparentemente sem solução fácil, mas que me leva a emoções profundas quando representada na arte. Na música fica evidente: os últimos românticos têm esse tipo de melancolia exacerbada: as últimas obras de Brahms e Mahler, por exemplo. O rock da segunda metade dos anos 70 também, pelo menos o que não é punk ou new wave. O disco símbolo dessa decadência apaixonante é In Through the Outdoor, último do Led Zeppelin, justamente de 1979. Mas só uma banda desse tamanho é capaz de criar algo assim.

No cinema, essa minha atração pela decadência explica, por exemplo, por que Fassbinder (Num Ano Com Treze Luas, O Desespero de Veronika Voss), Visconti (tudo desde Os Deuses Malditos), Fellini (quase tudo desde A Doce Vida), o Max Ophuls dos anos 50, Saraceni (A Casa Assassinada) e alguns Zurlinis me dizem tanto, sendo capazes de me deixar numa espécie de transe. Italianos e alemães entendem de decadência, aliás. É o que me encanta também no odiado Evita, de Alan Parker. É um musical que reflete em tudo a decadência de uma ideia de cinebiografia tipicamente hollywoodiana, setentista e oitentista, na linha Gandhi, mas temperada por números musicais à Broadway das mesmas décadas (Andrew Lloyd Weber e Tim Rice), cantados por Madonna, Antonio Bandeiras e Jonathan Pryce (o saudoso amigo Francisco Conte, outro que era fascinado pela decadência, também se encantava com esse filme). E é o que salva La La Land da mediocridade, a meu ver: se Chazelle tivesse uns trinta anos a mais e inúmeras desilusões na conta, teria feito um ótimo filme decadentista no lugar do escapismo simpático que apresentou.

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Fazendo um longa-metragem

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Peço que o leitor perdoe a autopromoção. É por uma boa causa.

A Inspiratorium criou um novo curso que, até onde sei, é inédito no Brasil. Nesses moldes, talvez seja inédito no mundo todo (mas aí já seria afirmar no escuro).

Trata-se da elaboração de um longa-metragem no período de um ano. Começa em março.

No processo, todo o primeiro semestre será para pensarmos cinema, estudarmos mise en scène, estilo, história, linguagem, dramaturgia, e será dividido entre mim, Joel Yamaji, coordenador dos cursos longos, e Bruno Primor, o dono idealista da escola.

Divido com eles a paixão pelo cinema e uma sintonia rara.

Pretendemos entender, durante o curso, com os alunos, o que é cinema, como está o cinema, por que certos procedimentos são escolhidos para filmar determinadas cenas ou planos, entre outras coisas pertinentes ao entendimento de cinema.

Estudaremos problemas e virtudes do cinema contemporâneo, e, claro, muito do que o cinema em toda sua história pode nos ensinar.

Bruno argumenta que pretende fortalecer o pensamento e o imaginário dos alunos, o que é fundamental para a realização de um bom filme.

Entendo que essa é a aposta correta. Um curso maior, que contemplasse mais aulas práticas, seria como quase todos os outros do Brasil (exceto que este seria para fazer um longa).

E entendo que saber técnica é importante, mas menos, bem menos, do que saber o que se faz com a técnica, e, sobretudo, o que se quer exprimir por meio de um filme.

Joel começará a trabalhar com o roteiro, então o final do primeiro semestre será já uma introdução à parte prática do curso (eu e Bruno também ajudaremos nesse processo).

Em agosto e setembro, os alunos levarão o roteiro às áreas técnicas, tais como fotografia, arte e som, quando serão realizados os desenhos específicos de cada arte.

Em outubro teremos a pré-produção e a filmagem do longa.

Em novembro e dezembro as imagens captadas serão encaminhadas à finalização, onde serão coordenadas pelos professores de montagem, edição e mixagem de som, e correção de cor.

Importante: o curso não terá mais do que dez alunos. O que significa que cada aluno será essencial ao curso, e terá, por isso mesmo, uma experiência única.

Mais informações: https://www.inspiratorium.com.br/completo-de-cinema

Tarkovski – Eterno Retorno (BH)

tarkovski

Fui convidado para acompanhar, por três dias, a Mostra Tarkovski, no Cine Humberto Mauro, Belo Horizonte. Os três dias viraram dois, uma vez que o domingo foi dedicado a trabalhos daqui de São Paulo, aproveitando que iriam exibir três longas que eu tinha acabado de rever, um deles, o que estava no melhor horário, em DCP (o que me fez desistir de revê-lo, não porque o DCP fosse ruim, mas porque já o tinha revisto num mkv majestoso em casa e há não muito tempo em película).

O que me leva a explicar que revi esses e os outros filmes feitos por Tarkovski para escrever um dos textos do enorme catálogo (466 páginas). Sou, assim, suspeito por tudo que vou escrever aqui, uma vez que trabalhei para a mostra e este texto, assim, ganha ares publicitários (no blog, espaço mais livre e descompromissado, menos mal). Confio na minha capacidade de separar as coisas e perceber problemas e carências da mostra, e todas os têm (ainda que, nos dois dias, não foi possível detectar nada de muito sério), mas entendo que o leitor não é obrigado a confiar, afinal, há um conflito de interesses em jogo. Feito o aviso, vamos em frente.

Quase todas as cópias passaram em película e quase todas as sessões tiveram lotação esgotada. A sala Humberto Mauro, com seus pouco mais de 100 lugares e sua projeção decente, parece pequena nessas ocasiões. Ou Tarkovski é que de uma hora para outra virou cineasta de salas stadium com mais de 200 lugares? A propaganda gratuita que lhe fez O Regresso, de Iñarritu, deve ter servido ao menos para isso (Robert Bird fez uma menção que me pareceu elogiosa ao embuste mexicano).

Na programação, aliás, alguns diálogos interessantes com o universo de Tarkovski: A Cor da Romã (Sergei Paradjanov), Paisagem na Neblina (Theo Angelopoulos), Morangos Silvestres (Ingmar Bergman), Contos da Lua Vaga (Kenji Mizoguchi), Mouchette (Robert Bresson), O Quarto (Chantal Akerman), O Intruso (Claire Denis), Nazarin (Luis Buñuel), Novo Mundo (Terrence Malick). Oito longas e um curta, o de Akerman, que ja valeriam uma ótima mostra, e valorizam-se ainda mais em contato com as obras do grande cineasta russo. (Novo Mundo está um tanto deslocado aí, mas vá lá).

Acompanhei o debate multilingue, resolvido com incrível habilidade pela produção, com várias línguas sendo faladas ao mesmo tempo, pois tiveram a feliz ideia de colocar tradutores ali, do lado dos debatedores, e não em cabines, com tradução simultânea por fones de ouvido (situações em que, já reparei, não consigo entender nem a língua original, mesmo quando a conheço, nem a tradução). O crítico e professor Robert Bird e Michal Leszczylowski  (montador de O Sacrifício) falaram um inglês claro, perfeitamente compreensível sem tradução. A italiana Donatella Baglivo (diretora de três documentários sobre Tarkovski) também pronunciava de forma clara, fazendo-me pensar que meu italiano não é tão terrível assim. Com os russos não tinha jeito, e a tradutora fez milagre no meio deles. Nem tanto com Evgeny Tsymbal (assistente de direção de Tarkovski e diretor de mais de 30 longas), que falava pausadamente, mas certamente com Dmitry Salynskly, cujo humor é tão lépido quanto as palavras que saem de sua boca. Uma metralhadora verbal, como há muito eu não via. Mas certamente o membro mais carismático de todo o debate. Tirando uma ou outra curiosidade de bastidores dos que trabalharam diretamente com Tarkovski, Michal e Evgeny, nada de novo foi dito para quem já leu algo sobre ele (sobretudo os livros de Michel Chion e Antoine De Baecque, e os Diários e Esculpir o Tempo, do próprio Tarkovski). Falaram dos planos longos, das panorâmicas reveladoras e dos travellings cuidadosos, da maneira como ele domina o tempo, e tentaram, em vão, combater o clichê da espiritualidade em seus filmes (alguns clichês existem porque são difíceis de serem quebrados). Mesmo Bird, que ameaçou polemizar, não saiu muito do beabá tarkovskiano.

Na segunda-feira, vi Retorno à Zona, de Nicolai Alhazov, no qual Evgeny Tsymbal leva um grupo de curiosos à locação que serviu como a Zona de Stalker. Nada mais que um extra de DVD projetado em tela grande. Mas para os curiosos, um programa leve, de 53 minutos, que não deixa de ter seu interesse. Vários outros documentários foram exibidos, dos quais só conheço Tempo de Viagem, que o próprio Tarkovski dirigiu com Tonino Guerra, e Dirigido por Andrei Tarkovski, de Michal Leszczylowski, que tem como extra do DVD brasileiro de O Sacrifício.

Vi o seminário ministrado por Robert Bird e intitulado “Modelo, Testemunha e Dissidente”, em que ele explica porque não acha Tarkovski um dissidente, preferindo se referir a ele como um auto-exilado por motivos artísticos, não por motivo político. Atencioso e didático, Bird não recuou diante de perguntas estranhas da plateia, nem diante das perguntas fora de hora (há professores que não gostam de serem interrompidos). Ele também não disse nada de novo, mas para o público que estava sendo formado ali (que não era pequeno), que tomava conhecimento da obra de Tarkovski pela primeira vez e em cujos olhos se via o brilho de uma rara descoberta, penso que foi bem valiosa toda a experiência. Que façam mais mostras desse tipo, de formação de público, que ofereçam a oportunidade de rever e pensar uma obra grandiosa em vinte dias.