Arquivos Mensais: março \20\UTC 2017

A volta do filho do post esquizofrênico

kayak

– Penso já ter feito essa homenagem a Frank Zappa anteriormente no Chip Hazard (refiro-me ao título do post, que remete a “The Return of the Son of Monster Magnet”, última faixa do álbum Freak Out). Como homenagens a esse gênio da música nunca são demais… Segue mais um post que dá conta de variados assuntos, além do cinematográfico.

– Vejo que alguns amigos ficaram maravilhados com o novo filme de Martin Scorsese, Silêncio. Outros ficaram revoltados. Isso tem acontecido com frequência com filmes que me fazem ficar sem entender porque existem posições tão extremadas sobre eles, e ao mesmo tempo me faz suspeitar que hoje em dia virou obrigação ter uma posição extremada a respeito de qualquer coisa. O filme tem inegáveis qualidades, e é claro que é um tanto chato também. Mas é superior a O Lobo de Wall Street e também a Kundun. Parece que Scorsese mergulhou no cinema japonês para pensar nos enquadramentos e isso deu ao filme uma calma que raramente vemos em seu trabalho. Não convém comparar com o filme de Masahiro Shinoda, realizado em 1971 e baseado no mesmo livro. O diretor japonês se sai muito melhor.

– Noto, no quadro da Folha, que alguns amigos questionam onde está o cinema em Um Limite Entre Nós. Como escrevi no último post, vejo cinema em todo lugar no filme. É quando a expressão “vimos filmes diferentes” faz todo sentido.

– Ficou um pouco atrasado, mas achei incrivelmente decepcionante o que alguns amigos acharam empolgante: a virada histórica do Barcelona contra o Paris Saint German. Decepcionante por dois motivos: a amarelada gigantesca do time francês e, principalmente, a sacanagem do árbitro alemão, que não costuma dar pênaltis com facilidade (como o Mauro Cezar Pereira muito bem argumentou), mas viu dois pênaltis absurdos nos jogadores do Barcelona. Aliás, aberrações que podem decidir jogos, como são as malditas penalidades máximas, me fazem deixar de acompanhar futebol. Não me arrependo. Posso voltar no dia em que não existir mais cobranças de pênaltis.

– Momento Melomania: estou na fase Kayak, banda que adoro desde os anos 1980. Não consigo passar para os discos da volta, a partir do final dos anos 90. Paro sempre na obra-prima Merlin, de 1981. Daí para trás é tudo no mínimo fantástico, com melodias incríveis criadas por Ton Scherpenzeel (ou Pim Koopman, nos quatro primeiros discos). Acontece com a banda algo curioso: os proggers não gostam porque é muito pop. Os poppers não gostam porque é muito prog. Por essa falta gritante de abertura, perdem uma grande banda, das melhores que já existiram na Holanda.

– A partir deste post os comentários do blog foram suprimidos (não sei como desabilitá-los, mas não irei mais publicá-los). Primeiro porque eu não dava conta de respondê-los com a devida atenção. Segundo, e principalmente, porque o número de fakes comentando era maior do que o número de leitores reais. A melhor maneira de dar conta de pessoas sem caráter é ignorá-las. Que me perdoem os poucos que comentaram ultimamente e não foram publicados, assim como os leitores fieis e realmente interessados. Sei que continuarão visitando este espaço e serão sempre bem-vindos nos outros canais possíveis de comunicação.

– Está rolando até 2 de abril uma mostra muito legal na Cinemateca: “Erotismo no cinema brasileiro”. Com filmes desde Ganga Bruta até a invasão do sexo explícito na Boca do Lixo. Vale acampar por lá. Senti falta de Jean Garrett. E não guardo boas lembranças de Erotique (espero voltar a essa mostra em post futuro).

– A TV a cabo brasileira é uma porcaria, e disso ninguém em sã consciência duvida. De tanto eu reclamar do péssimo serviço prestado pela NET, eles liberaram os canais HBO e Cinemax, sem eu pedir (não fizeram mais do que a obrigação, pois a mensalidade é caríssima e só aumenta). Pensei: puxa, mas justo o pacote da HBO, tão fraco. Dias atrás liberaram também o pacote dos Telecines, e para minha surpresa eles estão ainda mais fracos que o da HBO. Respeitam ainda menos o formato original dos filmes e reprisam porcarias a torto e direito. Não é exagero dizer que os canais pagos de hoje são piores do que os canais abertos na virada dos anos 1980 para os 90. Afinal, foi quando eu me formei, numa dieta bem rígida de filmes clássicos e europeus, muitos em preto e branco e legendados. Foi quando conheci os filmes da fase final de Buñuel, por exemplo, e inúmeros clássicos de Hollywood. Hoje, preto e branco é raridade. Sim, a imagem era bem pior e o formato raramente era respeitado (Woody Allen, Kubrick, Almodóvar e alguns poucos passavam em scope por causa de alguma condição de contrato), de modo que não faz sentido pedir para voltar a ser como era. Falo apenas da qualidade do que vemos, da lista de filmes na programação, muito maior hoje, muito mais deficitária.

– Numa dessas raridades, um filme em preto e branco num canal Telecine, revi alguns trechos de A Princesa e o Plebeu, de William Wyler. A troca de olhares entre Gregory Peck e Audrey Hepburn no final não é qualquer diretor que consegue. Certamente não é para quem delega funções a um preparador de elenco. Peck, sobretudo, era um ator que precisava ser dirigido. E se alguém duvida da capacidade de Wyler na direção de atores, que veja ou reveja esse filme antológico.

Um Limite Entre Nós

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Há cortes excepcionais em Um Limite Entre Nós. Um deles ocorre enquanto Rose (Viola Davis) e Troy (Denzel Washington) têm uma discussão séria: a câmera repentinamente abandona Rose enquanto ela está saindo da casa para enquadrar Gabe, o irmão deficiente mental de Troy, que tinha ido segundos antes para a sala. Na volta, Rose já está no quintal da casa, chorando em bicas, pronta para a segunda etapa da discussão. É um momento rápido, simples, mas que revela uma enorme sensibilidade de Denzel Washington como diretor, aqui em seu terceiro longa-metragem. Mostra como Rose e Troy são especiais, mesmo Troy, um furacão destrutivo, e influenciam todos ao redor.

Em momento semelhante, numa outra discussão, Rose discute com seu filho Cory, e o corte nos leva à cozinha, onde Lyons, filho de Troy com outra mulher, escuta pensativo a discussão. Não é só o fato de existir esses cortes que impressiona, mas a precisão com que eles são feitos e a duração dos planos com o irmão de Troy na sala e com o meio-irmão de Cory na cozinha. Mostram que, de certo modo, Troy é algo que Gabe não pode ser, e que Cory se tornou o que não queria ser, ou seja, parecido com Troy, seu pai.

O filme tem sido tratado, um tanto preguiçosamente, por teatro filmado, como se o cinema, em sua gênese, não fosse exatamente isso, sendo ao mesmo tempo algo totalmente diferente (porque, afinal, é filmado) e como se grandes diretores, de formas e intensidades das mais diversas, de Sacha Guitry a Carmelo Bene, de Raoul Ruiz a James Gray, de Jean Renoir a Manoel de Oliveira, de Jacques Rivette a Woody Allen, entre muitos outros, não fizessem brilhantes teatros filmados em suas carreiras. Pois Um Limite Entre Nós é um pequeno brilhante teatro filmado. Melhor dizendo, é cinema, porque nele os cortes são certeiros, ao contrário dos cortes burocráticos que vejo na maioria dos filmes lançados por aqui, e os planos quase sempre duram o suficiente para que as emoções surjam (dos personagens e dos espectadores). Certamente é o filme mais forte entre os nove indicados ao prêmio máximo da academia.

Ultimamente tem-se confundido direção com pirotecnia, com mobilidade intensiva da câmera e outros exibicionismos. Nisso Damien Chazelle e Barry Jenkins dão um show, para o bem e para o mal (quero dizer que às vezes funciona, mas não sempre, não frequentemente em seus filmes). Mas ser diretor é também permitir que a emoção se extravase sem artimanhas, que o sentimento seja exacerbado sem que se chegue na chantagem emocional. É acertar tempos e distâncias, tons e intensidades. O diretor também controla essas coisas, limpa arestas, impede que limites sejam cruzados, permite que o ator dê o seu melhor e que o texto seja valorizado.

Fazer melodrama não é fácil. Trabalha-se com uma faixa de leitura muito pequena, localizada entre o distanciamento cauteloso de um lado e a breguice desmedida de outro, e essa faixa é difícil de ser alcançada, e mais difícil ainda de não ser ultrapassada. Em vários momentos Denzel consegue se manter dentro dessa faixa. E nesses momentos, seu filme fica grande, como raros o são atualmente.

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P.S. Sei muito bem que é delírio de minha cinefilia, e longe de mim comparar os diretores em questão, mas dois momentos do filme de Washington me levaram a lembrar emocionadamente de filmes bem diferentes:

a) quando Rose fala porque se casou com Troy me lembrei do monólogo da esposa no final de Stalker;

b) quando o céu se abre ao toque frouxo da corneta me lembrei da cena em que um homem acende a iluminação da rua no exato momento em que a noiva aceita acompanhar o futuro marido em uma missão ingrata em Com Um Pé no Céu, de Irving Rapper.