Arquivos Mensais: agosto \28\UTC 2017

Mais um vazio

cid

Demoro para absorver as perdas de grandes amigos. Não consigo fazer como a maioria das pessoas, que logo correm para o facebook e postam suas memórias. Fico um pouco com vergonha de fazer isso, já que sempre achei o luto uma coisa solitária, necessária para aplacar um pouco a sensação de perda. Como se fosse necessário passar pela tristeza e pela solidão, e sem elas a perda continuaria ali, à espreita, e a alma do amigo não se iria em definitivo, não teria o merecido sossego. Sim, ainda acredito um pouco nisso. Por isso tendo a ficar silencioso, até na presença de amigos queridos. Ao mesmo tempo, gosto de ler o que as pessoas escrevem. Não sei, é um sentimento dúbio mesmo. Faz bem ver como outras pessoas o viam, como ele era importante neste mundo. Aconteceu o mesmo quando Francisco Conte e Andrea Tonacci se foram. Minha dor silenciosa encontrava algum conforto na dor de quem compartilhava a amizade deles comigo.

E o que dizer de Cid Nader que ainda não foi dito? Muita coisa, talvez. E ao mesmo tempo, pouquíssima coisa, porque não quero ser invasivo com um grande amigo. Muito do que nossa amizade nos deu, as brigas bobas e as alegrias intensas, as muitas risadas e cumplicidades, ficam guardadas para sempre. Não há necessidade de colocá-las no mundo.

Observei que quase todo mundo tem foto com ele. Eu não. É curioso, já que em festivais já cheguei a ouvir que um não existia sem o outro, e não achei injusto ouvir isso.

Foi-se, é certo, um grande cúmplice, de modo que acompanhar festivais se tornará bem sem graça sem ele (Anápolis foi uma exceção, já que ele engendrou a coisa, e de certo modo uniu eu, Joel e Rosemberg, e me possibilitou conhecer pessoas muito bacanas). Cobrir festivais já havia se tornado sem graça, na verdade, porque ele prometera se afastar, e tinha cumprido a promessa. Ia só àqueles em que ele trabalhava de algum modo, como jurado ou curador.

De vez em quando ele sentava-se mais no meio da platéia, como se quisesse lutar contra a ideia de que éramos, ele e eu, antissociais. Curiosamente, eu também fazia isso de vez em quando, mas quase nunca quando ele também fazia. A gente mudava de acordo com o nosso humor, e era raro coincidir. Nossa amizade era assim. E quando acabavam os filmes, mesmo quando sentávamos distantes, acabávamos nos encontrando para combinar onde jantar, ou quando escrever na sala de imprensa, ou quando sentar para falar besteiras enquanto o sono não vinha (e o dele parecia não chegar nunca). Celso Sabadin nos acompanhou em várias dessas, assim como o Heitor Augusto.

Vira e mexe o incansável Cid, nunca relapso com amizades (preciso aprender isso com ele), ligava para conversar, ou chamava para comer um pão que ele tinha feito. Eu teria de ir ao Itaim para isso, o que me dava preguiça. O bairro é ótimo, desde que não se saia dele. E uma vez fora dele, que não se entre. Se eu soubesse que teríamos pouco tempo…

Ele não gostava de ver filmes em casa, dvd ou link. Eu, ao contrário, sempre gostei. Agora mais ainda, porque não o verei mais nos cantos das filas, dando socos no ar para corrigir algum mau jeito no braço (eu o imitava como um código, e mesmo quando distante ele percebia minha imitação e ria).

No começo da amizade, ano 2000, até eu deixar a loja de discos com meu irmão para cuidar da Paisà, isso em final de 2005, ele costumava ir à loja no fim da tarde, onde quer que ela estivesse (mudou de endereço algumas vezes) e ficava esperando eu fechar para fazermos alguma caminhada. Às vezes eu ia ao cinema e ele me acompanhava. Às vezes era caminhar a esmo, como pretexto para a conversa rolar solta. Essas caminhadas foram substituídas pelas caminhadas dos festivais. Que, por sua vez, foram substituídas pelo whatsapp. Triste.

Se eu soubesse…

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Curso Nova Hollywood (Lisboa)

scorsesejovem

Gangster e padre: Martin Scorsese

Em meados dos anos 1960, Hollywood atravessava uma crise ameaçadora. O cinema europeu invadia as salas de cinema dos EUA como nunca antes havia acontecido. A maneira encontrada pela indústria para mudar a situação foi abrir caminho para cineastas mais ousados, que incorporavam influências do cinema moderno europeu e dialogavam com a tradição do cinema clássico americano.

Surgia, assim, a geração da Nova Hollywood, que, formada em grande parte nas escolas de cinema, tomava de assalto a produção de filmes com sucessos como Bonnie & Clyde, Easy Rider e O Padrinho.

O curso NOVA HOLLYWOOD vai estudar os filmes mais interessantes desse que foi um dos períodos mais criativos de Hollywood, quando era possível conjugar o desejo artístico com as possibilidades de grandes bilheterias.

Por meio de trechos de filmes emblemáticos da época e de leituras essenciais sobre o tema, passaremos pelo que de mais importante foi feito na década, do cinema que alguns mestres estavam fazendo à evolução do cinema de horror, dos cineastas-alunos da Nova Hollywood (Scorsese, Coppola) aos outsiders Altman, Hopper e Cassavetes.

Foi um período em que Hollywood respirou o sonho do cinema de autor no seio da indústria. Um período que continua a gerar inúmeros frutos (James Gray, Michael Mann, David Fincher), a despeito da atual crise do cinema industrial americano.

Programa

  • sábados, das 17h às 20h

AULA 1 – 7 de outubro

– A crise dos grandes estúdios nos anos 1960 abre espaço para jovens realizadores.

– Abrindo novos caminhos: Fuller, Mulligan, Aldrich, Lumet.

– Bonnie & Clyde e a onipresença do Vietname.

AULA 2 – 14 de outubro

– O mal-estar da sociedade americana e a sua representação no cinema (retorno dos soldados do Vietname, crise da OPEP, Watergate).

– As periodizações da Nova Hollywood (1967-1980)

AULA 3 – 21 de outubro

– Francis Ford Coppola e a escola de Roger Corman

– A trilogia O Padrinho e o novo jovem milionário de Hollywood.

– Dennis Hopper: após Easy Rider, o fracasso comercial de The Last Movie.

AULA 4 – 28 de outubro

– Martin Scorsese e a violência.

– Brian De Palma e o questionamento da imagem.

– O maneirismo cinematográfico.

AULA 5 – 4 de novembro

– Outros diretores ligados à Nova Hollywood (Friedkin, Bogdanovich, Ashby).

– Pequenos mestres: Lumet, Schatzberg, Rafelson.

– A grandiosidade de Michael Cimino.

– A comédia intelectual de Woody Allen.

AULA 6 – 11 de novembro

– Os outsiders: Robert Altman, Sam Peckimpah, John Cassavetes.

– Um realizador com o seu próprio caminho, mas igualmente entre a tradição e a invenção: Clint Eastwood.

– Grandes mestres ainda filmavam nos anos 70: Cukor, Mankiewicz, Preminger, Kazan, etc.

– Os filmes-catástrofe alimentando a indústria com o escapismo habitual.

AULA 7 – 18 de novembro

– Breve histórico do cinema de horror americano.

– O cinema de horror americano como manifestação do espírito dos anos 1970.

AULA 8 – 25 de novembro

– O advento do blockbuster (Spielberg, Lucas) e o começo do cinema republicano da era Reagan (Rocky, Rocky II).

– O ocaso da Nova Hollywood e o que sobrou de invenção a partir dos anos 80 (Michael Mann, David Fincher, John Sayles, Joe Dante, John Landis).

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Professores  (inscrições)

José Oliveira 

Sérgio Alpendre 

email: cursoscinema.lisboa@gmail.com

Endereço

Bazar do Vídeo
Rua da Glória, 2A R/C, 1250-116 Lisboa
Mais informações com José Oliveira: 920 502 883

Valor do curso: 100 euros

Biografias dos professores

José Oliveira nasceu em Braga em 1982. Estudou Cinema na Escola Superior Artística do Porto. Tem feito alguns filmes de forma independente. Escreve sobre cinema regularmente no seu blog pessoal, bem como na Foco – Revista de Cinema. É ainda formador, tendo colaborado com Os Filhos de Lumière – Associação Cultural. Recentemente fundou, com João Palhares, o LUCKY STAR – Cineclube de Braga. “Longe” é o seu último trabalho, produzido pela OPTEC – filmes, e fez parte da selecção oficial do último festival de Locarno.

Sérgio Alpendre nasceu em São Paulo, Brasil, em 1968. É crítico de cinema, professor, pesquisador e jornalista. Escreve sobre cinema na Folha de S.Paulo desde 2008. É editor da Revista Interlúdio (www.revistainterludio.com.br) e mantém um blog sobre cinema. Coordena o Núcleo de História e Crítica da Escola Inspiratorium, de São Paulo. Faz doutorado em cinema sobre o realizador português João Cesar Monteiro. Já escreveu em importantes revistas de artes e cinema, como Contracampo, Foco, Paisà, Movie, Bravo, Taturana, Cinequanon, entre outros veículos. Ministra cursos de história de cinema e oficinas de crítica em todo o Brasil.

 

De volta

macaco

Perdi a conta de quantas voltas foram. Pareço uma banda de classic rock, indo e vindo, ao sabor do ócio ou da vontade de dizer. Peço desculpas. É o que me cabe. Junto com a promessa de não sumir mais. O leitor acreditaria? Eu mesmo não acredito. Mas farei o possível para manter essa última promessa.

Volto com quatro blockbusters vistos em seguida (um recorde, até onde lembro, dentro de minhas visões de filmes). Depois deles vi um filme português, São Jorge, mas sobre ele falo depois. Por enquanto, o imperialismo hollywoodiano e suas bolas na trave.

Meu último filme visto em cinema comercial no Brasil foi o tal do Baby Driver. Pois é o pior dos quatro blockbusters. Edgar Wright fez alguns filmes medianos, mas pelo menos era possível vê-los sem sentir raiva. Com Baby Driver, não deu. Um personagem boçal, uma ideia tola, uma vulgarização da música, assim como escutá-la no meio das ruas, com o som urbano ao redor (para mim, sempre uma ofensa à música, mas sou meio missionário nesse quesito, e imagino que muitos se sentirão ofendidos; não precisam, é somente meu modo de ver as coisas). Na relação cinema e música, aliás, Guardiões da Galáxia 2, sem ser um bom filme, vai muito melhor. Só a cena inicial com o bebê Groot dançando ao som de E.L.O. vale por todo Baby Driver (e “Mr. Blue Sky”, quem diria, já ficou manjada no cinema). Tem também o momento “My Sweet Lord”, de rara inteligência. Baby Driver não tem nada assim, de encantamento musical. E é o pior também no quesito diversão.

Aqui em Lisboa, fui ao cinema para completar o quadro de cotações da Folha, e por curiosidade. No primeiro caso estão dois filmes, sobre os quais falarei a seguir. No segundo, o último filme que será comentado.

Dunkirk foi chamado de confuso por muitos críticos brasileiros. Não achei confuso. Talvez seja mesmo o filme de Christopher Nolan que mais se afaste dessa definição. Não que seja bom. Não é. Mas tampouco é um desastre. A estrutura é ousada, pretenciosa, lembra, de longe, um Intolerância (oh, Deus, tenha pena dos fariseus), com suas ações paralelas. Claro que Nolan não é capaz de levá-la a cabo totalmente, mas por algum mistério até que consegue coisas interessantes com ela, principalmente quando começa a brincar com os tempos. A se lamentar um final triunfalista e algumas coisas bem mal pensadas. A cena do barco encalhado, por exemplo, é uma tremenda bobagem, com aquela discussão sobre mandar um embora – entre uns vinte soldados – para aliviar o peso. Coisas assim afundam qualquer filme. Ele deve ter pensado em homenagear Lifeboat, de Hitchcock. É mesmo um herege.

Planeta dos Macacos: A Guerra vai na contramão do cinema de ação atual porque não tem muita ação. Não chega a ser tão subversivo nesse sentido quanto Os 47 Ronin de Mizoguchi, mas representa um alento semelhante, embora não tão bem sucedido, quanto o primeiro filme do Capitão América. Aliás, tem mais silêncios do que todos os blockbusters recentes que vi, o que é bom, porque quando entra a música o filme cai bastante. Que música sentimental e chata que fizeram. É a pior coisa deste terceiro episódio da franquia requentada. Matt Reeves concentra-se nas ideias de êxodo e na missão assumida por Cesar, de botar fim na sangria pela violência. Chamaram de belicista. Talvez seja mesmo. Mas chamam filmes disso e daquilo com muita facilidade, quase sempre por se ater somente ao conteúdo, raramente à forma.

Finalmente, Homem-Aranha: De Volta ao Lar mostra uma terceira roupagem cinematográfica do super-herói, que desta vez é financiado pelo Homem de Ferro e ganha uma roupa toda tecnológica. São dois filmes em um: a comédia adolescente, colegial, tem seus momentos, apesar da tonelada de clichês. A parte super-herói é desajeitada e aborrecida, como Kick-Ass ou Deadpool. Jon Watts parece mais interessado no primeiro filme, nos corredores escolares e nos périplos adolescentes, do que nas cenas espetaculares. Mas é condição, hoje: tudo tem de ter muita ação, tudo tem de ser uma montanha-russa. Nesse sentido, Planeta dos Macacos: A Guerra, é mais interessante, justamente por tentar uma outra via, mesmo que timidamente.