Arquivos Mensais: outubro \26\UTC 2017

Doc Lisboa

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Les Ordres

1 – Muitos não sabem ou não se deram conta, mas estou fora de São Paulo desde o início de agosto. Hoje em dia o que não é publicizado é como se não tivesse acontecido. A verdade é que estou em Lisboa, onde ficarei até o meio do ano que vem, como parte de um doutorado sanduíche. Ou seja, é o primeiro ano, desde 1989, que não vou poder ver uma sessão sequer da Mostra SP, um dos eventos que me proporcionou o maior número de sessões inesquecíveis de minha vida.

A saudade é compensada pela excelente programação da Cinemateca Portuguesa e pelo Doc Lisboa, um festival bem interessante. Numa união entre a Cinemateca e o Doc, tive a oportunidade de ver alguns filmes da fase dourada do cinema do Quebec (aqui, Quebeque), durante os anos 60 e 70.

Confesso que não conhecia muito do cinema quebecois. Já tinha visto os mais famosos – Mon Oncle Antoine, Pour la Suite du Monde, Le Chat Dans le Sac, e alguns curtas da época do emule, e deu. De modo que foi uma surpresa conhecer um filme pouco falado de Michel Brault, rodado já no miolo dos anos 70: Les Ordres (1974). Esse filme rodado em preto e branco e em cores me pareceu a culminação do cinema direto quando sai de suas amarras. Ou seja, Brault pegou o cinema direto como base e criou uma dramaturgia surpreendente em que atores e personagens reais se acumulam sob uma direção extremamente rigorosa. Um petardo fílmico que eu não esperava ver, mas que me conquistou já nos primeiros minutos (e talvez seja meu filme preferido entre todos os que conheço do Quebec). Hoje foi a vez de Entre Tu et Vous (1969), com o qual Gilles Groulx se iguala àquele que parece ser sua grande referência, a julgar por Le Chat Dans le Sac: Jean-Luc Godard. Cheio de provocações à cultura de consumo e de entretenimento, como no Godard da segunda metade dos anos 60, Groulx inverte a lógica do filme episódico. Ergue uma estrutura impecável e sólida de crítica e recusa disfarçada de filme em episódios.

2 – Dos filmes novos, vi Ex-Libris: New York Public Library, de Frederick Wiseman, mais um documentário longo de sua lavra, embora bem menos focado que National Gallery (seu melhor longa neste século). É notável como ele consegue discutir temas atuais de maneira inteligente e sem abrir mão de sua poética.

Vi também o brasileiro Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava, um passeio pela história do Brasil nos anos 70, pela maneira como se vivia, o que se falava, o que se curtia, por meio de imagens das comédias eróticas feitas na época. Assim eu vi, assim a diretora, Fernanda Pessoa, falou (e muito bem) no debate final, num dos raros casos em que um(a) diretor(a) tem plena consciência do filme que fez e, principalmente, do filme que pretendia fazer.

É possível fazer senões ao filme. Terror e Êxtase (de Antonio Calmon, que ainda aparece com O Bom Marido e Nos Embalos de Ipanema) está um pouco deslocado ali, por não se tratar de comédia erótica, e, portato, não poder se aplicar nele o termo pejorativo (mas que alguns aceitam) pornochanchada. Alguns momentos de campo (um filme) / contracampo (outro filme) parecem existir só pela piada, e nesse caso a terceira vez que isso acontece já não tem graça. Para as plateias brasileiras, e mesmo as do exterior, seria interessante diferenciar a produção carioca da produção paulista. Sabemos que muitas coisas essas produções têm em comum, mas as diferenças é que as enriquecem (as diferenças entre Carlo Mossy e David Cardoso, por exemplo; ou entre Antonio Calmon e Jean Garrett). Senões feitos, o filme tem uma montagem realmente inteligente, que não fica apenas no aleatório, e com isso nos convida a pensar em que país herdamos.

Crônica dos Bons Malandros

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Uma das maiores vantagens em se ter a consciência do que se pode fazer ou não em cinema, ou seja, o saber conseguir a adequação necessária entre todos os meios de filmagens e o tipo de filme que se vai fazer, é que a invenção, uma vez acertada a forma, surge com maior facilidade. Claro que disso depende um diretor que tenha talento. Mas geralmente essa consciência, por ser rara, aparece em diretores talentosos, nunca em aventureiros. Quase tudo é planejamento, já dizia o mandamento do bom autor (se é que podemos acreditar em mandamentos).

Fernando Lopes planejou sua adaptação do livro de Mário Zambuja, Crônica dos Bons Malandros, como um filme de assalto farsesco, com alguma metalinguagem e uma liberdade que não estamos acostumados a ver no dia a dia cinematográfico, e com isso conseguiu criar algo incrivelmente novo a partir de uma mistura inusitada e ensandecida de Eternos Desconhecidos (Mario Monicelli), A Morte de um Burocrata (Tomas Gutierrez Alea) e Prenom: Carmen (Godard).

A invenção surge inesperada (mesmo; é daquele tipo de filme que faz com que seja impossível prever como será o próximo plano, a próxima cena): o narrador que aparece visualmente só na segunda metade do filme; a repetição no começo, com a explicação do narrador; os números musicais deliciosamente toscos; a maneira como ele pontua a narrativa com uma série de vinhetas afilhadas da videoarte, culminando com a sequência de assalto mais sui-generis da história do cinema, uma espécie de “Tron encontra a ópera”. Tem ainda a consequência do assalto, com a perseguição policial: uma aula de como contornar as dificuldades de se fazer filme de gênero fora de Hollywood e sem um grande orçamento.

Aquele desfile acrobático de carros de polícia inserido no clímax é das coisas mais geniais que vi em cinema ultimamente. Rimos em dois níveis: das acrobacias em si e do sentimento de que estamos vendo uma demência completa e assumida no que seria inicialmente do sub-gênero filme de assalto.

A doideira é tanta que alguns críticos ou cinéfilos, ou gente de cinema no geral têm (ou tiveram) certo pudor de colocar este filme nas alturas, embora, nas suas palavras, tal colocação possa ser percebida. Vejam a nota do crítico e cineasta Joaquim Leitão: “É um filme do qual não gosto todo, mas do qual gosto muito – que consegue fazer-me rir e comover-me no mesmo plano”. De certo modo, isso bate com Carlos Reichenbach, que amava filmes tortuosos, filmes que claramente tinham partes menos sucedidas, sendo ainda assim magníficos. Quase um guilty pleasure à sua época, talvez Crônica dos Bons Malandros seja melhor apreciado hoje, quando podemos ver que esse tipo de liberdade raros cineastas têm.