Arquivos Mensais: setembro \14\UTC 2018

Hierarquia mizoguchiana

akasenchitai

Incapaz de rankear os filmes de Mizoguchi, divido-os em grupos. E dentro desses grupos, o rankeamento também se torna quase impossibilitado. Porque a cada série de revisões, um filme desponta como soberano, melhor de todos os tempos, filme único para a ilha deserta. O desta vez foi Rua da Vergonha (foto acima), que antecipa a Nuberu Bagu (a nouvelle vague japonesa) e é um dos filmes mais cruéis e tocantes que existem.

O conceito de obra-prima, para os mais rigorosos, impõe a escolha de apenas uma, a maior obra de um autor, sua obra-prima. Com alguns diretores (Mizoguchi, Ford, Buñuel, Hitchcock) isso cai por terra. Se Mizoguchi não tiver pelo menos umas 15 obras-primas em sua carreira, o cinema não nos terá dado mais do que 30. Como o cinema nos deu mais de 30 obras-primas, é certo que Mizoguchi tem pelo menos 18, as apontadas abaixo (cheguei a esse número espontaneamente, e à divisão em partes iguais, também – descontando aí revisões menos entusiasmadas que podem ser revertidas no futuro e filmes perdidos).

Minha divisão leva em conta alguns estágios de obra-prima (puristas, podem se horrorizar). O cineasta em questão merece.

  1. OS MELHORES FILMES DE TODOS OS TEMPOS

São aqueles filmes que provocam síncopes, levam ao choro, ao estremecimento das pernas, à emoção incontida. Filmes que permitem a afirmação: “Mizoguchi é o maior de todos”. Em ordem cronológica, seriam os seguintes:

Conto dos Crisântemos Tardios (1939)

Senhorita Oyu (1951)

Oharu – A Vida de uma Cortesã (1952)

Contos da Lua Vaga (1953)

O Intendente Sansho (1954)

Rua da Vergonha (1956)

  1. AS OBRAS-PRIMAS ABSOLUTAS

Estão num patamar ligeiramente inferior ao dos filmes acima, mas seriam, ainda assim, obras essenciais, que qualquer pessoa deve ver. E se for estudante de cinema, deve ver uma vez por semana:

As Irmãs de Gion (1936)

Os 47 Ronin (1941-42)

A Mulher Infame (1954)

Os Amantes Crucificados (1954)

A Imperatriz Yang Kwei Fei (1955)

A Nova Saga do Clã Taira (1955)

  1. AS OBRAS-PRIMAS

Filmes magníficos, estupendos, merecedores de superlativos, que pouquíssimos conseguem fazer. Um deles é Mizoguchi, que ousou fazer 12 ainda melhores que estes:

A Decadência de Osen (1934)

Elegia de Osaka (1936)

Utamaro e suas Cinco Mulheres (1946)

O Destino de Madame Yuki (1950)

Senhora Musashino (1951)

Os Músicos de Gion (1953)

Indiretas e carapuças

mayhem

O facebook difundiu uma prática que desfere uns bons golpes no pensamento usando uma arma quase letal: a picuinha. O sujeito lê alguma coisa, fica sem coragem de iniciar ou entrar na discussão, ou com preguiça, e faz um post com uma clara indireta à pessoa que ele quer contestar no outro post, mas tem medo ou preguiça. Eu entendo muito bem a preguiça. Facebook é maquiagem, e contestar alguém em seu perfil significa borrar a maquiagem desse alguém, e não demorarão para surgir respostas de todos os tipos, cada vez mais distantes da verdade. Geralmente quem tem preguiça deixa passar, não faz nada e esquece o que leu depois de pouco tempo. Mas alguns preguiçosos se juntam aos intriguistas nas indiretas, alimentando esse círculo danoso de picuinhas facebookianas como quem vive de sentir prazer na provocação. Tenho lido tantas nos últimos meses, de tantas pessoas diferentes, que penso já ter virado moda. Faz parte do cotidiano dessas pessoas, que acordam pensando: “contra quem será a indireta de hoje?”.

Serei sincero: eu também gosto de uma fofoca. Não sou de ferro. Mas sempre que é possível contribuir para alguma discussão nas redes sociais, eu vou lá e contribuo, ou tento contribuir, mesmo sendo mal visto por muitos que se sentem acuados, sem motivo para tanto. O sentir-se acuado eu também entendo. O facebook, entre coisas boas e ruins, serviu para aumentar nossa paranóia, algo que as famigeradas indiretas contribuem bastante para manter a nível Parallax View (pode trocar por A Conversação, se preferir). Nada contra quem se sente acuado, tudo contra as famosas indiretas. Elas só servem para espalhar carapuças e dinamitar o pensamento.

(aliás, não vesti nenhuma das carapuças que estão no ar; o post, que também lança algumas carapuças, como efeito colateral, foi motivado puramente pela observação).