Arquivos Mensais: janeiro \22\UTC 2019

Pensamentos imperfeitos e vastas emoções

red forman

1- O blog está parado por conta do doutorado. Não devia. A ideia era colocar algumas leituras aqui de vez em quando, e até mesmo alguns comentários. Comecei pelo post anterior, um comentário do Fernando Lopes. Há mais na fonte.

2- Tenho reparado que se fala muito mais dos filmes que a Netflix faz bombar do que de qualquer outra coisa relativa a cinema. Não vi Roma, nem Bird Box, porque só tenho visto filmes para o doutorado ou para os quais sou pautado pela Folha. Mas entendo que isso se deva menos à qualidade desses filmes do que à preguiça e ao comodismo do cinéfilo de hoje, que já acabou com as estantes de cinema nas livrarias, com as locadoras, e talvez acabe com as salas de cinema que não passem filmes de super-heróis.

3- Parte da culpa pode ser também dos distribuidores, ou, antes, dos preços caros que eles precisam pagar pelos melhores filmes, e aí são obrigados a comprar junto desses melhores um pacote de bombas ou mediocridades que eles tentam fazer passar por grandes filmes e a maioria de nossa crítica colabora, porque é mal preparada. Como resolver a questão? Não tenho a menor ideia. Ou talvez tenha, mas não sei se seria aplicável. No mais, apontar o problema é um primeiro passo necessário. Mas é pouco, eu sei.

4- Neste momento está acontecendo a Mostra de Tiradentes. Sinto que já não faz mais sentido para mim acompanhá-la. Isso pode mudar futuramente, mas penso que a mostra se perdeu um pouco nos últimos anos. E Cid Nader, amigo crítico com quem eu dividia as impressões sobre esse e outros festivais em que nos encontrávamos, não está mais entre nós. Sempre tive uma relação de amor e raiva com Tiradentes. Raiva pelos vários filmes ruins que lá vi, e mais ainda pelos endeusamentos que parte da crítica reservava a esses filmes. Amor pelos reencontros, pelas amizades fortalecidas, pelas conversas (raramente pelos debates, falo das conversas com pessoas que eu encontrava entre uma sessão e outra, ou na hora do almoço, da janta, na sala de imprensa), por alguns filmes incompletos que eu gostava de conhecer por lá (até que não foram poucos, somados os dez anos de minha relação com a mostra), pelos caminhos que se abriam para o cinema brasileiro. Mas festival por festival, sempre gostei mais do CineOP, em Ouro Preto.

5- Está rolando também o Australian Open. Reparei que os tenistas estão demonstrando bem mais suas insatisfações, entregando-se mais ao olhar do adversário. Deixou de ser um esporte de concentração, um desafio mental a ser vencido por aquele que mantiver sua cabeça no lugar, para ser um esporte de força física e resistência acima de qualquer outra coisa?

6- Prometi aqui alguns posts confessionais. Mas não é fácil abrir essa porta, que, no entanto, será aberta em algum momento. E quando aberta, passarão coisas à minha revelia, estou certo disso. Porque não faz sentido se autocensurar a todo momento. E não quero magoar ninguém que não seja facilmente magoável. Estou influenciado por João César Monteiro e sua certidão. De alguma forma, farei a minha, mesmo sabendo que não interessará a 1% das pessoas que se interessaram pela dele. Não creio que número importe. Uma pessoa genuinamente interessada e a ideia já é válida.

 

 

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Fernando Lopes fala

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Benilde ou A Virgem Mãe (1975), de Manoel de Oliveira

“Repare-se, aliás, que as discussões sobre os autores eram, então, apaixonadas. O António-Pedro sempre foi um rosselliniano e um premingeriano. O Seixas batia-se pelo Fritz Lang. O João César era doido, com cineastas muito especiais na cabeça, mas também muito rosselliniano e dreyeriano. O ponto comum era, de facto, a defesa de um cinema português com existência estética e social. Ao que se juntava a questão da defesa táctica de Manoel de Oliveira. Esclareço que, desde sempre o Oliveira provocou paixões e posições divididas. Para o António-Pedro as dúvidas eram muitas, mesmo se mais tarde veio a ser capital na ajuda que prestou na produção do Amor de Perdição e da Francisca, embora oportunisticamente fosse o Paulo Branco a recolher os louros, o que muito me irrita. Também para o Seixas Santos, obviamente, o Manoel de Oliveira estava longe de ser o cineasta de seus amores. O João Cesar Monteiro, esse sim, é o primeiro dos cineastas novos a defender o Manoel de Oliveira, talvez por um espírito de contradição… Havia, claro, o Paulo Rocha, que se queria um discípulo, mesmo um herdeiro…”

Entrevista para José Manuel Costa e Manuel S. Fonseca, no catálogo Cinema Novo Português 1960-1974