Autor Arquivo: Sérgio Alpendre

Olhar: Dia 3 – A Noite Amarela

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O 3º dia do Olhar de Cinema em Curitiba foi o dia da primeira exibição de A Portuguesa no Brasil. O novo longa de Rita Azevedo Gomes impressionou quem não a conhecia e também quem já acompanhava, pelo zum-zum-zum pós-sessão (conversei com algumas pessoas e meu sentido radar costuma ser bom para captar reações de estranhos).

Sobre esse filme que eleva e muito o sarrafo do cinema contemporâneo neste ano (se estrear no Brasil, é forte concorrente a melhor do ano), escreverei depois, com a calma que ele merece, consciente de que haverá novas oportunidades (passa no Centro Cultural São Paulo na semana que vem). Por enquanto, fiquemos aqui com o outro filme do dia, visto na última sessão, às 21h15 da noite, como convém.

Trata-se de A Noite Amarela, primeiro longa solo de Ramon Porto Mota, um dos diretores de O Nó do Diabo e de um curta bem bacana chamado O Hóspede, que chamou a atenção para o novo cinema paraibano em alguma Mostra Tiradentes passada.

A Noite Amarela subverte ferozmente os filmes de terror com adolescentes. Mas subverte tanto que se torna um portentoso enigma. Não é todo enigma que desejamos decifrar. Alguns filmes se tornam herméticos, mas continuam estúpidos, de modo que o suposto hermetismo mais nos afasta do que intriga. Porto Mota corre o risco de nos afastar em diversos momentos do filme, mas logo retoma as rédeas e nos mantém enredados nesse campo gravitacional do qual ninguém pode escapar.

Esse campo parece forçar os personagens a entrarem numa espécie de looping, forçados a repetir frases e a ocupar cada qual um quadro diferente; mesmo quando eles saem em três grupos de dois para procurar a garota desaparecida (já tragada por um quadro que não conseguimos ver), eles teimam em se separar, dividindo o quadro em alguns momentos chaves, em que algo do passado vem à tona, ou mesmo alguma birrinha tola aparece, e algo os impele de novo a se separarem.

O split-screen procura colocar mais de um dos adolescentes num mesmo quadro, embora o quadro esteja dividido. Mesmo assim, a dificuldade persiste. Nesse momento, já se abriram as portas da força que os mantém cada vez mais isolados em quadros que se perdem. Os embates anteriores ficam definitivamente para trás: rock contra tecno brega; narrativa da moça meio dark contra narrativa da princesinha; homens de um lado, mulheres do outro, e sobretudo uma resistência à mistura com as outras turmas (as quatro meninas roqueiras se bastam). O enigma da lua que não se mexe no céu se aprofunda cada vez mais, e a estátua da mão decepada parece dizer que não há saída.

A despedida é a imagem de celular que circula do nada pouco antes do fim, uma espécie de celebração do momento em que quase todos ocuparam o mesmo quadro (ficou de fora quem estava segurando a câmera). Estavam felizes, bêbados, num momento que não havíamos acompanhado e não sabemos se realmente aconteceu. Porque desde o começo a comunhão do quadro é quase uma impossibilidade, a não ser nas fotos que vemos dos amigos na balsa (enquanto as imagens em movimento da balsa os mostravam distanciados um do outro), ou nos planos mais abertos da chegada à ilha, ou ainda em alguns outros raros momentos (em que os sete amigos já não conseguem ocupar o mesmo quadro sem que algo, uma sombra ou uma fenda artificial, os separe). No final, todos serão tragados pela escuridão total, onde não há quadro possível.

Olhar de Cinema: Dias 1 e 2

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No dia 6, primeiro dia do Olhar, foi possível ver apenas a última sessão. Para o balanço da Folha, optei por ver todos os longas da mostra competitiva, e encaixar o que der das outras sessões. São muitas as mostras do festival, por isso conseguirei rever poucos filmes, pois a prioridade vai para os inéditos das outras mostras.

E o primeiro longa da competição que vi foi Pretérito Imperfeito, da chinesa Shengze Zhu (de quem vi, três anos atrás, o superior Um Outro Ano). O filme segue os youtubbers chineses (é outra plataforma, exclusivamente chinesa e mais desenvolvida, ao que parece, que seu equivalente internacional) e a interação deles com a legião de seguidores e com outros performáticos.

Confesso que não entrei em momento algum na pegada do filme, apesar de reconhecer alguns personagens carismáticos, como o homem que não cresceu, uma espécie de Ferrugem oriental. Mas trabalhar com found footage tem suas facilidades, o que torna difícil fazer qualquer coisa de realmente bom com esse tipo de material.

Abrindo o segundo dia, um filme impressionante sobre a experiência paulistana no trato com viciados em crack: Diz a Ela que me Viu Chorar, de Maíra Buhler. O filme flagra alguns dos moradores do hotel no centro da cidade que serviu de abrigo para os viciados. Vemos um tipo de testemunho que só se consegue com muito convívio e muita abertura, o que é um inegável mérito da diretora e de sua equipe.

Pode ser viagem minha, mas senti alguma influência do Hotel Monterey de Chantal Akerman. Neste que é o primeiro longa da genial diretora belga, um hotel decadente de Nova York serve como pretexto para Akerman fazer suas pesquisas visuais com a luz e com o espaço. Totalmente sem som, Hotel Monterey nos entrega o ritmo do hotel e de seus hóspedes e moradores, incluindo uma câmera dentro do elevador por alguns minutos, artifício que Maíra Buhler também usa muito bem. Claro que no filme brasileiro pode-se partir ou não do filme da Chantal Akerman, mas o importante é que se chega a um olhar muito pessoal para aquela situação, e a força do filme vem desse olhar atento, cúmplice, respeitoso com os excluídos.

Vi ainda mais dois filmes, o interessante brasileiro Casa, de Letícia Simões, e o fraco belga Etangs Noirs, de Pieter Dumoulin e Timeau De Keiser.

No filme brasileiro, filha, mãe e avó se encontram em Salvador e lidam com suas diferenças, principalmente entre a mãe e a avó, sendo que a filha é Letícia, a diretora do filme. Mas o encontro começa em 2015 e termina em 2017, com a avó já falecida. Há uma insistência em enquadramentos que cortam personagens. Num dos planos mais interessantes, vemos mãe e avó e só a ponta do nariz de Letícia (e mais alguma coisa de seu corpo), indicando que a diretora quer mesmo é jogar os holofotes naquelas que entende ser suas melhores personagens. De fato, são duas das personagens mais cativantes do cinema brasileiro recente. E se digo personagens é porque a verdade que elas mostram ali é claramente encenada para a câmera, pelo menos da parte da mãe, mais consciente de seu carisma (um carisma um tanto vilanesco, como a filha pretende forçosamente fazer-nos crer).

Casa não é tão forte quanto o outro brasileiro da competição, mas é bem digno. Se o filme mostra que o cinema baiano continua pulsante, mostra também que a crise de imaginário do cinema brasileiro recente continua, o que faz com que jovens cineastas muitas vezes procurem o real a qualquer custo, inventando a partir dele (isto está também no outro brasileiro do dia). Pelo menos agora já se trabalha melhor dentro desse registro.

Etangs Noirs me pareceu uma estupidez completa. O protagonista JImi deseja entregar um pacote a uma mulher que ele não conhece. O que tem nesse pacote que ele recebeu por engano, e quem será essa mulher? Mal sabemos, e mal saberemos no decorrer do filme. Jimi procura saber encontrar essa mulher, chamada Sayenna. Descobre onde ela trabalha, mas ainda não conhece seu rosto. Segue a mulher errada na saída do metrô. Invade a casa da mulher certa, mas está sem o pacote, deixado com um vizinho. Na casa, vê uma foto e passa a procurá-la no metro tendo a foto consigo, no horário que ela costuma sair do trabalho, segundo o informaram. Ele encontra Sayenna, hesita, e finalmente entrega, do jeito mais sem graça possível. Tudo isso filmado por uma câmera bêbada, usando por vezes a famigerada estética da nuca que cansou antes mesmo de se tornar moda, e apostando nas interrogações para segurar o espectador.

Os diretores pretenderam brincar com o McGuffin hitchcockiano numa narrativa totalmente farsesca. Mas o tratamento dado à câmera e o tipo de interpretação adotado, talvez por escolha dos diretores, por Cédric Luvuezo, ator que vive Jimi, comprometem a ideia e tornam um filme de 70 minutos algo penoso de acompanhar.

Ou seja, até agora, de quatro filmes vistos na competição, os dois melhores são brasileiros. Os dois problemáticos são internacionais. O cinema brasileiro resiste à barbárie, ao que parece, e continua colhendo os frutos de tantos anos tateantes.

Top 10 Milos Forman

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Um Top 10 com filmes do diretor tcheco Milos Forman, hoje, ficaria assim:

1 – Ragtime (1981)

2 – Valmont (1989)

3 – Procura Insaciável (1971)

4 – Hair (1979)

5 – Os Amores de uma Loira (1965)

6 – O Baile dos Bombeiros (1967)

7 – Amadeus (1984)

8 – O Mundo de Andy (1999)

9 – Pedro, o Negro (1964)

10 – O Povo Contra Larry Flint (1996)

 

Não prometo mais nada

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É isso mesmo. Não prometo mais nada, com relação a este blog. Talvez assim, sem a pressão da frequência, eu o atualize mais.

O desânimo geral com a destruição do Brasil por um bando de irresponsáveis faz com que por vezes eu desista de postar por aqui, apesar de algumas ideias surgirem (estão sendo vazadas nas aulas).

Crítica de cinema é uma atividade solitária, e com o ritmo acelerado do mundo rumo à barbárie do fascismo e do obscurantismo, tenho evitado a solidão, a não ser no preparo das aulas. Com isso tenho escrito menos também, a não ser quando pautado ou para a tese de doutorado.

Mas de vez em quando acho que devo insistir. Amo cinema e amo pensar sobre cinema. Se eu não encontrar a melhor maneira de passar meus pensamentos para a escrita, posso culpar o desânimo e a falta de esperança num curto prazo. Se sair algo bom, provavelmente será pelo mesmo motivo (a melancolia nos dá asas, afinal).

Mas existem outros fatores para esse desânimo. O circuito comercial está cada vez pior. Embora eu tenha seguido muito menos que seguia até o ano passado. Acabo vendo os filmes para o quadro da Folha, e se depender do que entra lá, devo dizer que o circuito está mesmo sofrível, tirando um Godard e um Clint de vez em quando.

Nos DVDs, a coisa melhora bastante. A Versátil continua lançando suas boas coleções, embora nem sempre com os melhores filmes. A do Aldrich, por exemplo, podia ser mais animadora, mas entendo que nem sempre os filmes estão disponíveis. Tem a Obras-primas do cinema, que também andou lançando algumas maravilhas. Espero que continue.

Não gosto de streaming. Netflix e Now são o império dos formatos errados. Now, para quem não fica deslumbrado com séries, é claramente melhor. Mas ainda assim é raro o dia em que procuro algo em seu catálogo, mesmo porque a busca é horrível.

Não desisti do blog. E não desisti de trabalhar com cinema. Muitos projetos estão sendo burilados e logo logo aparecem. Muitos cursos ainda serão dados (se faltar lugar, serão em casa mesmo).

A Interlúdio voltou, timidamente. Mas logo a coisa pega no tranco.

Por último, tenho dois cursos para maio. Milos Forman no Cinesesc, de 6 a 9 de maio (ainda não encontrei o link). 4 Grandes Diretoras no Espaço Itaú de Cinema:

https://www.escolanocinema.com.br/quatro-grandes-diretoras-do-cinema

Resistiremos.


P.S. Surgiu o link para o curso Milos Forman:

https://www.sescsp.org.br/aulas/190045_MILOS+FORMAN+ENTRE+DUAS+MODERNIDADES?fbclid=IwAR3Z3uRwd6w3T49HtejtyPuHSkCRSVOwredETOZz48YrdKPwPLamdzA-nA8

Pensamentos imperfeitos e vastas emoções

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1- O blog está parado por conta do doutorado. Não devia. A ideia era colocar algumas leituras aqui de vez em quando, e até mesmo alguns comentários. Comecei pelo post anterior, um comentário do Fernando Lopes. Há mais na fonte.

2- Tenho reparado que se fala muito mais dos filmes que a Netflix faz bombar do que de qualquer outra coisa relativa a cinema. Não vi Roma, nem Bird Box, porque só tenho visto filmes para o doutorado ou para os quais sou pautado pela Folha. Mas entendo que isso se deva menos à qualidade desses filmes do que à preguiça e ao comodismo do cinéfilo de hoje, que já acabou com as estantes de cinema nas livrarias, com as locadoras, e talvez acabe com as salas de cinema que não passem filmes de super-heróis.

3- Parte da culpa pode ser também dos distribuidores, ou, antes, dos preços caros que eles precisam pagar pelos melhores filmes, e aí são obrigados a comprar junto desses melhores um pacote de bombas ou mediocridades que eles tentam fazer passar por grandes filmes e a maioria de nossa crítica colabora, porque é mal preparada. Como resolver a questão? Não tenho a menor ideia. Ou talvez tenha, mas não sei se seria aplicável. No mais, apontar o problema é um primeiro passo necessário. Mas é pouco, eu sei.

4- Neste momento está acontecendo a Mostra de Tiradentes. Sinto que já não faz mais sentido para mim acompanhá-la. Isso pode mudar futuramente, mas penso que a mostra se perdeu um pouco nos últimos anos. E Cid Nader, amigo crítico com quem eu dividia as impressões sobre esse e outros festivais em que nos encontrávamos, não está mais entre nós. Sempre tive uma relação de amor e raiva com Tiradentes. Raiva pelos vários filmes ruins que lá vi, e mais ainda pelos endeusamentos que parte da crítica reservava a esses filmes. Amor pelos reencontros, pelas amizades fortalecidas, pelas conversas (raramente pelos debates, falo das conversas com pessoas que eu encontrava entre uma sessão e outra, ou na hora do almoço, da janta, na sala de imprensa), por alguns filmes incompletos que eu gostava de conhecer por lá (até que não foram poucos, somados os dez anos de minha relação com a mostra), pelos caminhos que se abriam para o cinema brasileiro. Mas festival por festival, sempre gostei mais do CineOP, em Ouro Preto.

5- Está rolando também o Australian Open. Reparei que os tenistas estão demonstrando bem mais suas insatisfações, entregando-se mais ao olhar do adversário. Deixou de ser um esporte de concentração, um desafio mental a ser vencido por aquele que mantiver sua cabeça no lugar, para ser um esporte de força física e resistência acima de qualquer outra coisa?

6- Prometi aqui alguns posts confessionais. Mas não é fácil abrir essa porta, que, no entanto, será aberta em algum momento. E quando aberta, passarão coisas à minha revelia, estou certo disso. Porque não faz sentido se autocensurar a todo momento. E não quero magoar ninguém que não seja facilmente magoável. Estou influenciado por João César Monteiro e sua certidão. De alguma forma, farei a minha, mesmo sabendo que não interessará a 1% das pessoas que se interessaram pela dele. Não creio que número importe. Uma pessoa genuinamente interessada já faz a ideia ser válida.

 

 

Fernando Lopes fala

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Benilde ou A Virgem Mãe (1975), de Manoel de Oliveira

“Repare-se, aliás, que as discussões sobre os autores eram, então, apaixonadas. O António-Pedro sempre foi um rosselliniano e um premingeriano. O Seixas batia-se pelo Fritz Lang. O João César era doido, com cineastas muito especiais na cabeça, mas também muito rosselliniano e dreyeriano. O ponto comum era, de facto, a defesa de um cinema português com existência estética e social. Ao que se juntava a questão da defesa táctica de Manoel de Oliveira. Esclareço que, desde sempre o Oliveira provocou paixões e posições divididas. Para o António-Pedro as dúvidas eram muitas, mesmo se mais tarde veio a ser capital na ajuda que prestou na produção do Amor de Perdição e da Francisca, embora oportunisticamente fosse o Paulo Branco a recolher os louros, o que muito me irrita. Também para o Seixas Santos, obviamente, o Manoel de Oliveira estava longe de ser o cineasta de seus amores. O João Cesar Monteiro, esse sim, é o primeiro dos cineastas novos a defender o Manoel de Oliveira, talvez por um espírito de contradição… Havia, claro, o Paulo Rocha, que se queria um discípulo, mesmo um herdeiro…”

Entrevista para José Manuel Costa e Manuel S. Fonseca, no catálogo Cinema Novo Português 1960-1974

Encerrando Gostoso

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Faltou falar de três outros filmes exibidos fora de competição dentro da 5ª Mostra de Cinema de Gostoso.

Azougue Nazaré, de Tiago Melo, procura dar conta do embate entre duas tradições: a do Maracatu e a dos evangélicos. O filme é confuso. Em seu melhor, há um elemento fantástico dos mais interessantes na forma de entidades incorporadas num ritual. Mas esse lado acaba sendo sufocado pelo tanto de realismo capenga que o diretor procura colocar. Deu-me a impressão que no balanço o diretor pende ao Maracatu, mas talvez ele tenha procurado uma isenção e o olhar para o Maracatu tenha sido mais generoso de minha parte, contaminado pelos acontecimentos recentes do Brasil.

Cristiano Burlan completa sua Trilogia do Luto com Elegia de um Crime, sobre o assassinato não solucionado de sua mãe em Uberlândia por um ser que já matou outras duas mulheres e continua soltinho. Não vi o segundo da trilogia, mas o primeiro, Mataram Meu Irmão, é ainda o mais forte. O que impressiona é a frontalidade com que Burlan se abre ao escrutínio da câmera comandada por ele próprio. Há uma vontade compreensível de fazer justiça pelas próprias mãos, mas o máximo que ele pode fazer é realizar filmes. Ainda bem. Isso é verbalizado no momento mais belo, quando ele vai ter com o túmulo da mãe. Entre a prática de tiros, as entrevistas com irmãos e outros que conheceram sua mãe, as investigações sobre o paradeiro do assassino e as dolorosas lembranças materializadas em fotos, Burlan vai pavimentando um caminho pelo qual chegará à superação.

Por fim, Ferrugem, de Aly Muritiba, o filme do encerramento, eu já havia visto em Gramado. Alguns amigos detestaram, outros não se empolgaram. Estou mais para os segundos. Mas notei uma progressão em relação ao sofrível Para Minha Amada Morta. Em Ferrugem ao menos as coisas acontecem, e com isso a crítica (a um estado de coisas) pode ser esboçada. Pena que as possibilidades levantadas na primeira parte, quando Muritiba se revela um diretor mais interessante filmando adolescentes, desembocam numa segunda parte um tanto enfadonha, com um garoto insuportável de chato, outro bobo toda vida e um pai professor (Enrique Diaz) que não liga nada com nada. A mãe (Clarissa Kiste), que dizem ter salvado o filme, soou-me outra chata de galochas. A salvação é a irmã menor dessa família sonsa. Uma menina que domina as cenas em que aparece e injeta alguma vida numa segunda parte que está mais para o longa anterior de Muritiba do que para as promessas contidas na primeira parte.

Gostoso, dia 4, parte 2: competição

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No último dia de competição, dois curtas estranhos e um longa sensível e escrachado provocaram um bocadinho a plateia de Gostoso.

O primeiro curta é de Cordisburgo, MG. Chama-se Teoria Sobre um Planeta Estranho, é dirigido por Marco Antonio Pereira como uma viagem para 1967 sob a influência de LSD. O curta é alucinada e desavergonhadamente psicodélico, cheio de altos e baixos que o tornam mais interessante que a média do curta metragem no Brasil. O encontro com Deus, numa espécie de bazar de quinquilharias, é das coisas mais bizarras que vi no cinema recente.

O segundo curta é do Rio Grande do Norte e tem um belo nome: Ainda que eu Ande pelo Vale da Sombra da Morte. É dirigido por Helio Ronyvon de maneira insegura, apesar de mostrar, aqui e ali, algo do olhar promissor observado nos outros curtas potiguares. Tem a vantagem de durar apenas 10 minutos, e com isso não corre o risco de ficar à deriva.

Finalmente, encerrando a competição, surge o melhor longa: Inferninho, da dupla Guto Parente e Pedro Diógenes. É como um Doce Amianto mais palatável, com suas inúmeras referências da cultura pop e do cinema. Não foram poucos os que se lembraram de Fassbinder, mas acho que dá para chamar Jodorowski para o jogo também. O longa mostra personagens à margem, que se encontram no inferninho de Deusimar para curtir uma melancolia coletiva, regada por uma música monótona e engraçada ao mesmo tempo, com uma cantora em câmera lenta e um tecladista mais cool que o baterista dos Rolling Stones.

Seu grande trunfo é o humor, além, claro, da falta de dinheiro que se transforma em criatividade. Em certo momento, Deusimar surta e manda todos embora dali. O personagem que se veste como uma Mulher Maravilha bigoduda, antes de se retirar, simula a giradinha que sua personagem fazia na série de TV, com o corte no momento certo para que o humor se fortaleça. Alguns frames a menos, não perceberíamos. Um segundo a mais, ficaria esgarçado. O dom do tempo certo é algo raro em cinema, e os meninos da Alumbramento mostram esse dom em alguns momentos de Inferninho.

Quando Deusimar vende o bar e resolve seguir os seus sonhos, vemos uma série de imagens projetadas numa tela ao fundo que emulam suas viagens ao redor do mundo. É um dos momentos mais sensíveis do filme. Depois disso, entramos numa outra dimensão e começamos tudo de novo, como um Três Bêbados Ressuscitados, de Nagisa Oshima, mas com personagens em situações invertidas. Deusimar demora para entender o efeito da mágica, mas quando cai em si, propicia um final belo e poético, que leva o filme, que já estava deveras interessante, para cima.

Inferninho e Ilha foram os dois melhores filmes vistos em Gostoso. Ambos são nordestinos e começam com a letra “i”. Ceará e Bahia mostram-se polos de uma renovação mais do que bem-vinda do cinema brasileiro.

Gostoso, dia 4, parte 1: fora da competição

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No quarto dia da Mostra de Gostoso, parece ter havido uma pequena pane de comunicação pela cidade. A caminho da sessão vespertina, alguns pingos mostravam que as nuvens escuras podiam ser ameaças de fato, e não puro enfeite, como foram nos dias anteriores. Durante a sessão, composta por um curta e um longa, ambos paulistas, a energia foi interrompida por uns cinco minutos. Na saída, o celular revelou-se com péssimo funcionamento e a internet da pousada parece ter ido à praia sem perspectiva de retorno. É parte do charme da cidade, a primeira de onde o Brasil faz a curva em direção ao Ceará, que a comunicação com o resto do país seja dificultado. Assim, os pequenos animais podem passear livremente: o lagarto e o sapo que vi na entrada me saudaram simpaticamente para uma noite que promete ser mais quente que o normal.

O curta é Liberdade, de Pedro Nishi e Vinicius Silva. Investiga o passado do bairro Liberdade, antes de se tornar o lar dos orientais no Brasil, quando era habitado por africanos, como também hoje, quando voltou a ser habitado por africanos, mais haitianos e refugiados. A igreja central, agora cercada por estabelecimentos comerciais, a Praça da Liberdade, antigo Largo da Forca, onde eram executados os escravos e os criminosos, a convivência entre imigrantes de todo o mundo, sobretudo uma japonesa e um guineense. Belíssimo retrato de um Brasil que tende a ser apagado, agora mais do que nunca. A negritude, contudo, é tirada das sombras em uma das sequências mais poderosas do cinema brasileiro atual.

O longa é Lembro Mais dos Corvos, de Gustavo Vinagre, que, a exemplo de Fabiana, exibido ontem em competição, pega uma pessoa real para investigar sua vida. Só que o filme de Vinagre é mais direto, assume-se como o retrato de uma vida. Talvez por isso seja mais forte e bem sucedido. Julia Katharine é carismática. Mulher transexual, conta histórias de sua vida até a exaustão, e o filme acerta em deixar evidente seu desconforto, até que ele se torna impossível de continuar. Deixa evidente também a longa amizade entre ela, uma atriz, e o diretor, responsável por sua estreia no cinema. Essa amizade permitiu que o embaraço de contar histórias diante de uma equipe de filmagem fosse menor, e tornasse possível o longa de 80 minutos.

A câmera de Vinagre é sempre tateante, buscando a melhor distância no zoom – o que faz com que às vezes pareça um Rossellini televisivo mais pobre – e explicitando, conscientemente ou não, suas inseguranças quanto à melhor maneira de filmar. Esse filme que se constrói diante de nossos olhos se fortalece, assim, pela cumplicidade entre todos os envolvidos: equipe, Julia e nós. Ao final, sentimo-nos muito mais próximos de Júlia. Ela se torna também nossa amiga, e somos agradecidos por ela nos ter confiado suas histórias, reais ou não.

Gostoso, dia 3

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No terceiro dia da Mostra de Gostoso os dois curtas eram reprise para mim. Por isso acabei perdendo o curta do coletivo, uma vez que preferi trabalhar numa ideia para o doutorado que rendeu mais do que o maldito mês de outubro inteiro (a demência generalizada que tomou conta do país é a culpada).

Os dois curtas são Catadora de Gente, de Mirela Kruel, e Nova Iorque, de Leo Tabosa. O primeiro encontra uma personagem dos sonhos e assume o formato entrevista acertadamente, fundo negro, tempo para a catadora falar à vontade, inserindo algumas imagens contemplativas, que procuram uma ligação com o que a entrevistada fala. O segundo é mais difícil, e não totalmente bem sucedido. A história do garotinho abandonado cujos sonhos estão à beira de um colapso e da professora que, com a perda da mãe, ruma a São Paulo para tentar o seu sonho, é tocante, mas sentimos que há um certo mal aproveitamento da ideia. A poesia à fórceps faz-nos engasgar um pouco, e Hermila Guedes, uma atriz que já se provou ótima, não está em seu melhor.

O longa da noite dentro da competição nos mostra chavões do cinema brasileiro deste século com algumas variações, insuficientes para resultar em um bom filme. Fabiana, de Bruna Laboissière, sofre muito com as posições de câmera, geralmente mal escolhidas, resultando na tal de sub-martelização que se tornou quase uma regra não dita do jovem cinema brasileiro (os enquadramentos que cortam pessoas propositadamente). Fabiana nasceu homem, mas se vê como mulher, e gosta de mulheres. Tem uma namorada, que a acompanha por vezes na estrada. É um road movie, e os momentos em que a paisagem é mostrada talvez sejam os mais interessantes. Há também aqueles em que Fabiana diz o que pensa, e com isso nos mostra a pessoa interessante que é, justificando parcialmente a escolha. Pena que parte desses momentos é filmada de maneira pobre, sem um pensamento por trás dos quadros. Mais uma vez: pode parecer pouco, mas o descuido formal enfraquece qualquer tipo de registro.

P.S. Esclareço que todos os filmes comentados nesta cobertura estão na competição, exceto os curtas do coletivo Nós do Audiovisual e o longa Ilha.