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Começando Gostoso

seteanos

A cobertura da 6ª Mostra de Cinema de Gostoso será mais curta que a do ano passado. Como estava em Paraty, cheguei mais ou menos na metade do festival, tendo visto os dois primeiros filmes da competitiva em outras ocasiões, e conferindo os dois últimos com a plateia de Gostoso.

Plateia que, neste ano, parece mais ruidosa. Podemos dizer até que ela boicotou Vermelha, de Getúlio Ribeiro, terceiro longa da Mostra Competitiva. Enquanto o filme se desenrolava na tela com a bela projeção 2K, o tablado de madeira virou uma passarela. Não passava um minuto sem que um grupo de pessoas andasse do início ao fim olhando para os lados, nem sempre à procura de lugar porque as andanças continuaram depois que alguns barulhentos foram embora, mas para ver quem estava ali. As pessoas conversavam aos berros, como se estivessem numa mesa de bar. Os dois casais atrás de mim mereciam um prêmio pela grosseria e falta de respeito. Eram mais velhos. Mas os jovens também aprontaram. No meio do filme sentou um casal jovem quase do meu lado. O desmiolado ficava fazendo barulho com uma sacola de plástico e comendo coisas fedidas. Depois passou a ver coisas no celular e a comentar o que via com a namorada ou amiga. Interesse zero pelo que se passava na tela. Respeito zero por quem tinha interesse.

Penso que essa grosseria tem um motivo. Acostumadas com a fluidez narrativa de Bacurau, exibido na noite anterior com público recorde, um filme que aprendeu direitinho a arte de um cinema de gênero bem feito, essas pessoas foram para ver Bacurau 2, mas encontraram o quase hermético Vermelha, só sossegando, um pouco, nas cenas de briga. E penso isso porque esse tipo de coisas existia no ano passado, mas não o tempo todo, e não em tão altos decibéis. Bacurau deve ter aberto os portais do inferno do pior tipo de espectador que todas as cidades têm. O espectador que está interessado em mais coisas externas do que no filme. Outro sinal de que isso pode ter acontecido foi a intensa movimentação de espectadores chegando após o média Sete Anos em Maio. Foi algo inédito, para mim, em Gostoso. Pobre Vermelha sofreu com isso.

E o longa não é ruim. É desconjuntado, demora para encontrar um foco, dificilmente pode ser considerado um filme bem sucedido. Mas há coisas nele que podemos reter. A opção do diretor Getúlio Ribeiro por uma estrutura documental revela-se insuficiente, e por vezes até atrapalha o filme de encontrar seu foco. Quando esse foco é encontrado, ou mesmo enquanto está aparecendo, surgem até cenas documentais belas, como a entrevista com a moça que raramente usa cabelo solto (mas a vemos bastante de cabelo solto depois disso). O auge é quando um credor bate à porta do protagonista, o tal de Gaúcho, com quatro capangas. Um vizinho vê tudo e aparece para ajudar com uma enorme vara. Não chegam a se bater por muito pouco. Cria-se um impasse, resolvido com a promessa de quitar a dívida em três dias. O que acontece depois é tão bizarro que não posso contar. Mas é parte do que responde pelo que o filme tem de melhor, sobretudo um diálogo bizarríssimo entre o credor e o protagonista Gaúcho. Isso, claro, se a festa que se fez em torno do filme permitiu que eu entendesse direito o que se passava ali. Nessas horas, links são fundamentais.

Falta falar sobre os filmes que vi em outros festivais ou dispositivos, mas fica para um post futuro. Por enquanto quero falar um pouco sobre Sete Anos em Maio, que confirma o amadurecimento de Affonso Uchoa, demonstrado em Arábia (codirigido por João Dumans, montador de Sete Anos em Maio). É bom ver que o filme de Uchoa, com seus 42 minutos plenamente justificáveis – é o tempo que o filme precisava ter, de acordo com seu diretor – anda circulando pelos festivais, geralmente avessos a essa duração intermediária (por culpa dos festivais, obviamente).

Na linhagem que surge com Murnau e Ford, passa por Straub-Huillet e desemboca em Pedro Costa, Uchoa se insere em algum ponto, sem que se atribua a ele a necessidade de estar em pé de igualdade com esses gigantes, o que seria injusto, e principalmente sem que a realidade brasileira, tão presente em seu cinema desde A Vizinhança do Tigre, deixe de ser a condutora da narrativa, ou uma de suas principais condutoras. Não se trata de derivação, como costumamos ver quando não se atinge uma assinatura própria, mas de filiação, como a que existe em praticamente qualquer autor.

No caso, não se trata apenas de falar da corporação policial como instrumento de poder que pode ser corrompido com muita facilidade e virar fascismo, como tem acontecido bastante. A questão para Uchoa está nas relações de poder, na corrupção da alma que é a posse de um revólver ou qualquer outra arma de fogo, ou vestir uma farda, ou responder a uma hierarquia militar muito rígida. A busca pelo poder, por si só, gera monstros. E não importa se esse poder seja executivo, judiciário ou legislativo, se for de alcance nacional ou numa rua de um bairro. O poder do guardinha da esquina, do homem que se vale do “você sabe com quem está falando”, ou daqueles que se acham no direito de fazer ameaças, é a podridão maior de nossos tempos, a falência moral e humana de um país violento como o Brasil. Claro que essa busca pelo poder é um mal necessário, mesmo dentro de uma anarquia, penso eu, por contraditório que seja. Mas é necessário estarmos sempre críticos e ela, evitando tanto o fanatismo quanto a crucificação.

No mais, Sete Anos em Maio mostra que tem alguma debilidade mental muito grave quem costuma dizer que “bandido bom é bandido morto”. Porque é muito óbvio que não dá para saber quem é o bandido na maior parte das vezes. E melhor que essa dúvida se instale em um filme habilmente enquadrado, fotografado, decupado e montado. Mais importante ainda, que tudo esteja em comunhão, sem que um elemento chame a atenção. Falta falar de muita coisa, mas por enquanto destaco a divisão em três terços – o repulsivo, a confissão (maior e melhor parte), o teste-confronto – que fortalece a estrutura narrativa e mostra uma engrenagem fascista por meio de suas vítimas, mas mostra também a necessidade de lutar contra essa engrenagem (parece óbvio, mas estamos à beira de um apocalipse).

E vou indo, vai o texto sem revisar mesmo, porque aqui internet boa tem sido mais rara que saci-pererê.

Encerrando Paraty

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Em 2019, uma destruição do panorama cultural brasileiro foi colocada em prática pelo governo Bolsonaro. O Sesc, instituição cultural importante no país, tornou-se um dos alvos preferidos de Paulo Guedes, o Ministro da Economia.

Nesse cenário, nada mais representativo de uma resistência do que a realização desta 3ª Mostra Sesc de Cinema, com curtas e longas de todo o Brasil, na paradisíaca Paraty, cidade histórica no estado do Rio de Janeiro.

A mostra começou no último dia 2, desafiando o calor da cidade histórica, e prosseguiu até 9 de novembro. A partir de 21 de novembro será a vez da cidade de São Paulo exibir os filmes escolhidos.

Formada por sessões das cinco regiões do país, a Panorama Brasil é a parte mais importante da Mostra, com filmes selecionados pelos sescs regionais em projeções no revitalizado Cinema da Praça, após 45 anos fechado.

Nela, filmes de estética televisiva convivem com pequenas aventuras no campo formal e até mesmo com um longa já respeitado de outros festivais, o baiano Ilha, de Glenda Nicácio e Ary Rosa.

Obviamente, a qualidade é bem variável. Por vezes, indesejavelmente variável. Mas é sempre interessante podemos ver produções do Acre, de Santa Catarina, do Paraná, do Pará ou de Mato Grosso do Sul, estados que ainda não se tornaram polos cinematográficos como Rio Grande do Sul, Ceará, Pernambuco, Bahia ou Paraíba. Dentro desse aspecto, a falta de apuro formal de alguns filmes é compreensível, já que trata-se de um processo lento de formação de público e também de formação de novos diretores e técnicos cinematográficos.

Marcando seu papel de resistência, a mostra faz homenagem a Adélia Sampaio, a primeira diretora negra a realizar um filme no Brasil. Amor Maldito (1984), aliás, é também o primeiro filme de amor lésbico realizado no país. Interessante retomá-lo em tempos de obscurantismo e Damares. Gosto do filme de Adélia, apesar de seus evidentes problemas de construção (o ritmo é um problema maior, por exemplo, na enorme sequência de tribunal). Creio ser um longa precioso de um certo momento em que filmar no Brasil já voltava a ser muito difícil (já que nunca foi fácil, mas entre 1974 e 1982 tivemos quase um oásis).

Mas a coqueluche de Paraty, com duas sessões esgotadíssimas para pessoas que aguentaram duas horas de fila, é a estreia na cidade do longa Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Paraty foi palco de um pequeno mas barulhento protesto de eleitores de Bolsonaro durante uma palestra com o jornalista Glenn Greenwald, durante a Flip, o Festival Literário de Paraty, neste ano. Nesse contexto um tanto avesso a demonstrações democráticas, Bacurau surge como uma provocação e tanto. Num mundo são, seria considerado apenas cinema, e dos bons. Um dos raros filmes brasileiros com noção de espetáculo e habilidade para a construção de uma narrativa que faça juz a esse espetáculo. Ou seja, finalmente aprendemos a copiar, numa evocação tortuosa de Paulo Emílio Salles Gomes.

No mais, a realização desta 3ª Mostra Sesc de Cinema, com seus altos e baixos, vem coroar a ideia de que a melhor forma de resistir à barbárie é por meio da cultura e da arte.

Balanço da 43ª Mostra SP

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Foi-se o tempo em que eu via entre 50 e 60 filmes a cada edição da Mostra SP. A média de quatro ou cinco filmes por dia ficou entre 1993 (quando comprei minha primeira credencial integral) e 2008, mais ou menos, quando reduziram a credencial de imprensa para o limite de 30 ingressos e eu percebi que não precisava ver mais do que isso.

De fato, essa percepção se deu quando o número de dias que se encerravam sem eu ter visto um filme que prestasse foi se tornando cada vez maior, e o número de apostas no escuro que se tornavam escolhas acertadas se aproximava cada vez mais de zero.

Mais tarde, as indicações de amigos e outros críticos e os premiados em festivais internacionais começaram a me parecer piores também. Isso quando filmes adorados em mostras passadas não se revelavam fiascos nas revisões.

Ainda assim, há uma relação sentimental forte com a Mostra, e a cada edição é grande a curiosidade de conferir algumas coisas. Nesta, até que vi bastante, perto das edições anteriores. Foram 24 filmes, entre cabines, links e sessões regulares.

Privilegiei os filmes portugueses, mas não pude ver todos. Technoboss, por exemplo, ficou longe do meu alcance. Queria confirmar se os relatos que ouvi (de que o filme é ruim) estavam certos ou se minha noção de autorismo está afiada (João Nicolau editou um belo livro sobre João César Monteiro, mas em matéria de filmes…).

Aqui arrisco uma lista dos 24 filmes que vi nesta edição (não conta o que eu já tinha visto antes). Está em ordem, do melhor ao pior. As cotações seguem o padrão da Folha de S.Paulo (de 1 a 5 estrelas), já que foi nesse veículo que fiz a cobertura, aqui continuada em forma de balanço. Essas cotações tendem a ser mais boazinhas que as da Revista Interlúdio.

O Paraíso Deve Ser Aqui (Elia Suleiman, 2019) * * * * *

Nazaré ou o cosmopolitismo euro/americano? Suleiman faz seu melhor filme demonstrando uma capacidade ainda maior de observar o que se passa à sua volta.

Bobo da Corte (Luiz Rosenberg Filho, 2019) * * * * *

O bobo põe-se a dormir. O cinema intenso, apaixonado e político de Rosemberg fará muita falta neste Brasil doente.

Amazing Grace (Alan  / Sydney Pollack, 2019-1972) * * * *

Síncopes musicais e espirituais. Um disco fora de série tem seu registro finalmente recuperado. Glória à tecnologia, que por vezes é vilã, mas aqui foi uma benção.

Campo (Tiago Hespanha, 2019) * * * *

Filme esquizofrênico e por vezes derivativo, com momentos muito belos de estranheza existencial. Wolfram + As Quatro Voltas + Os Campos Voltarão na mistura. Ensaístico e interessantemente referencial. Não vi o filme do Marcelo Pedroso sobre os militares. Sei que passou em Brasília e foi bem atacado. Não sei se ele está na mesma chave de Campo, mas se estiver, fico ainda mais interessado.

Parasita (Bong Joon-Ho, 2019) * * * *

O inusitado segura algumas soluções pouco felizes da trama. O talento do diretor também ajuda.

Papicha (Mounia Meddour, 2019) * * * *

Adoráveis adolescentes no terreno dos homens maus. Mas note-se que a protagonista e suas melhores amigas gostam da Argélia (e até mesmo de algumas cantadas machistas), e desejam tomá-la de volta, quando possível.

O Fantasma de Peter Sellers (Peter Medak, 2019) * * *

Opções delicadas, justificáveis pelo acerto de contas com um filme cheio de traumas.

Breve Miragem de Sol (Eryk Rocha, 2019) * * *

Esse tipo de câmera já quase se esgota, mas Rocha ainda extrai dela bastante coisa, principalmente quando extrapola nos movimentos, criando pequenas abstrações (e se distanciando do novo academicismo da câmera-personagem).

Pertencer (Burak Çevik, 2019) * * *

Dois filmes em um: o surpreendentemente bom e o convencionalmente razoável.

Hálito Azul (Rodrigo Areias, 2018) * * *

Areias, dos terríveis Tebas e Ornamento e Crime, se vira melhor no documentário…

Sem Seu Sangue (Alice Furtado, 2019) * * *

Interessante desafio ao espectador acostumado com didatismo. A cena da abstração na viagem de moto é um achado visual muito potente.

O Projecionista (Abel Ferrara, 2019) * * *

Irregular como os últimos de Ferrara, mas vale pelo retrato de uma cinefilia.

System Crasher (Nora Fingscheidt, 2019) * * *

Forte em alguns momentos, tolo em outros (como o final). Confesso que ainda não sei se merece mesmo a terceira estrela. Mas duas estrelas me pareceu injusto.

Surdina (Rodrigo Areias, 2019) * *

… Mas melhorou na ficção também, embora se mostre, aqui, mais convencional (um passo para trás como estratégia para controlar a afetação?). E este, em contrapartida, mereceria, talvez, meia estrela a mais.

Viveiro (Pedro Filipe Marques, 2019) * *

Não especialmente ruim, mas sem grandes atrativos, apesar de um ou outro plano mais rebuscado e do tema (cuidados com um campo de futebol onde jogam crianças) de certo modo original, dentro de um registro observacional que parece se satisfazer consigo mesmo, numa espécie de auto-anulação. Ou seja, a direção passa uma impressão de invenção da roda, quando é trivial na maior parte do tempo.

Lost Holiday (Michael & Thomas Matthews, 2019) * *

Um tanto tolo no geral, mas com seus momentos engraçados.

Family Romance, LLC (Werner Herzog, 2019) * *

Um Herzog com concessões em excesso a uma banalização da câmera documental na ficção. É um novo tipo de academicismo que se estabelece há anos no cinema internacional.

Synonymes (Nadav Lapid, 2019) * *

Lapid tem certa habilidade no acúmulo de planos e cenas, mas é difícil gostar de um filme com um protagonista tão idiota. Em toada semelhante à de Patrick, que por sua vez vai mais longe, e se afunda mais também.

Alva (Ico Costa, 2019) * *

Em cenário rural português, uma mistura de Por Que Deu a Louca no Senhor R?, o pior Fassbinder, com Crime e Castigo, obra-prima de Dostoievski. Infelizmente tem muito mais do primeiro.

Pacificado (Paxton Winters, 2019) * *

Olhar mais atencioso a uma vivência em comunidade, fruto da experiência do diretor, mas em uma trama convencional.

O Filme do Bruno Aleixo (João Moreira, Pedro Santo, 2019) * *

No YouTube é legal, em longa fica bem irregular.

Tristeza e Alegria na Vida das Girafas (Tiago Guedes, 2019) *

Calvin & Haroldo é uma óbvia inspiração. Mas o filme, além de mal filmado, é muito mais infantil – nível Amelie Poulain de poesia fácil – que a protagonista de dez anos.

Koko-Di Koko-Da (Johannes Nyholm, 2019) *

Ideia não muito original, mas promissora, é destruída logo no início porque o filme não existiria se as vítimas fossem menos imbecis.

Patrick (Gonçalo Waddington, 2019) *

Filme esquizofrênico, personagem esquizofrênico. Podia ser bom dentro desses termos, mas é insuportável.

 

Indicações para a 43ª Mostra SP

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Há muito tempo não faço indicações para a Mostra SP em meu blog (se é que algum dia eu fiz). De todo modo, desta vez veio a ideia de fazer, pensando nas muitas pessoas que compram o pacote de vinte ingressos.

Esta lista de indicações então terá três partes. Dez filmes essenciais (que já vi e recomendo com muita força), mais dez que são apostas (pois ainda não os vi, mas pretendo ver), e mais cinco brasileiros que ainda não vi, porque é melhor selecionar 25 para ver 20, uma vez que a programação nem sempre permite ver todos os selecionados. Para quem quiser comprar o pacote de 20 (ou comprar ingressos avulsos) e me xingar (ou agradecer) depois.

Aviso aos navegantes: achei a seleção portuguesa pouco inspirada: cadê os filmes da Rita Azevedo Gomes, do Pedro Costa e do José Oliveira? Ainda está em vigor o lance do ineditismo, mesmo com o adiamento do Festival do Rio? Se estiver, é triste para o cinéfilo paulistano.

Se você puder ver apenas 10 filmes na Mostra:

O Jardim das Espumas (Luiz Rosemberg Filho, 1970) – A explosão da juventude. O berro incontido da revolta. Ideias se engalfinhando à procura de espaço.

Crônica de um Industrial (Luiz Rosemberg Filho, 1978) – O filme mais equilibrado do diretor, mas ainda tortuoso, melancólico, com a consciência de um certo fracasso existencial.

Berlim-Jerusalém (Amos Gitai, 1989) – Gitai em seu filme mais inventivo.

Satantango (Béla Tarr, 1991) – Um filme que vale por três ou quatro, dada sua enorme duração. E é obra-prima.

Água Fria (Olivier Assayas, 1994) – Talvez o melhor filme do irregular Assayas.

Crônica de um Desaparecimento (Elia Suleiman, 1996) – Suleiman ainda tateante, de juventude, mas já talentoso.

Intervenção Divina (Elia Suleiman, 2002) – Diretor implacável (Buster Keaton de sua geração) na relação Israel-Palestina.

Phoenix (Christian Petzold, 2014) – Um filme com a principal característica da carreira de Petzold: melhora com o tempo.

Diz a Ela que me Ouviu Chorar (Maíra Bühler, 2019) – O nome poético está à altura de um filme que surpreende pela riqueza do olhar.

Bobo da Corte (Luiz Rosemberg Filho, 2019) – Que belíssimo testamento de um dos diretores que mais se arriscaram no cinema brasileiro.

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Se você puder apostar em mais 10 filmes:

O Farol (Robert Eggers) – Afinal A Bruxa é um belo filme.

Parasita (Bong Joon-ho) – Ter ganhado Cannes importa menos do que a esperança de que algo bom pode surgir desse diretor.

O Paraíso Deve Ser Aqui (Elia Suleiman) – Volta esperada com ansiedade.

O Projecionista (Abel Ferrara) – Terá voltado à forma nosso bravo Ferrara?

O Diabo Entre as Pernas (Arturo Ripstein) – Pela importância do diretor para o cinema mexicano dos anos 70 e 80.

O Fantasma de Peter Sellers (Pater Medak) – Como andará o esteta (nem sempre bem-sucedido) Medak?

Amazing Grace (Alan Elliott) – Por Sydney Pollack, que dirigiu as imagens originais, e por Aretha Franklin, “the queen of soul”.

Family Romance, Ltda (Werner Herzog) – De Herzog podemos esperar tudo. Até mesmo uma obra-prima ou uma bomba.

Passagens (Lucia Nagib e Samuel Paiva) – Dois estudiosos aplicados e inteligentes, desta vez do outro lado dos trabalhos. Vale conferir.

Sibyl (Justine Triet) – Indicação mais pela fenomenal atriz Virginie Efira que pela diretora (que pode surpreender).

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E se quiser apostar em mais 5 brasileiros novos (vistos ou não vistos)

A Jangada de Welles (Petrus Cariry e Firmino Holanda) – It’s All True em crítica social.

Babenco – Alguém tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou (Bárbara Paz) – Babenco era irregular, mas fez grandes filmes. Interessa essa homenagem a ele, feita por quem viveu anos a seu lado.

Banquete Coutinho (Josafá Veloso) – Investigação sobre o cinema de um grande realizador.

Sete Anos em Maio (Affonso Uchôa) – Uchôa novamente solo, após Arábia.

Enquanto Estamos Aqui (Clarissa Campolina, Luiz Pretti) – Visto em Curitiba, no Olhar de Cinema. Uma espécie de News From Home (de Chantal Akerman) atualizado e mais modesto.

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Obs.:  A Vida Invisível tem estreia marcada para 31 de outubro, segundo o Filme B. A menos que você goste de filas, vale esperar. Já vi Chão e Casa, ambos recomendáveis. Outros filmes chegam já com elogios, a conferir: Pacarrete e Raia 4.

Atualização: A Vida Invisível teve estreia adiada para 21 de novembro.

Esquizofrênico, não conservador

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– Em todos os primeiros turnos desde 2006, à exceção do último, nas eleições para prefeito, governador ou presidente, votei à esquerda do PT (para o qual eu votei nos segundos turnos todos). No entanto, sou ainda chamado, por razões políticas, de conservador, ou pior, reacionário, por pessoas muito mais conservadoras (descobri mais uma que me entende desse modo, recentemente). Alguns até me conhecem e deviam saber a besteira que pensam. Sei quem são, e não as quero mal. Só quero que saibam que estão comendo bola. Esse pensamento tortuoso pode explicar, para alguns desses vacilões, o motivo de eu não ter gostado de Aquarius, Doméstica ou da retirada dos filmes do CinePE por causa do filme do Olavo (que até hoje não vi). Para elas, eu não gostei por ser conservador. Admito que posso ter errado na maneira de criticar algumas coisas (a retirada dos filmes do CinePE, por exemplo, eu critiquei de forma bem dura). Certa vez um amigo muito querido me falou de uma certa iconoclastia no piloto automático que ele via em mim, e tive de concordar com ele. Diabos, todos nós temos coisas com as quais devemos lutar. Mas essa pecha de conservador está errada. Nada contra conservadores, em princípio. Conheço alguns inteligentíssimos e humanos, incluindo conservadores de esquerda. Mas não é uma característica que eu tenha, politicamente falando. Em artes, vá lá. Não tolero a transformação do cinema em videogame, por exemplo, assim como grande parte da arte contemporânea não causa impacto algum em mim. O problema é a mania de enquadrar e encaixotar, que é um dos grandes males da humanidade, e de nossa esquerda, e eu sempre procurei criticar isso. A direita também tem esse mal, é claro, mas a direita tem males muito piores, incluindo a atual tolerância com o fascismo.

– A série Hip-Hop Evolution, da Netflix, me fez retomar o entusiasmo pelo rap dos anos 1990. Desde então, ando ouvindo Wu-Tang Clan, 2Pac, Goodie Mob, TLC, Dr. Dre e outras coisas que já me impressionavam na época e hoje me contagiam totalmente. Gosto de Kanye West e, principalmente, de Kendrick Lamar, entre outros rappers atuais. Mas a fase de ouro do rap foi mesmo nos anos 1990.

– O que achei de Mad Men: muito bem interpretada, construida e dirigida até a quarta temporada. Da quinta em diante a direção sofre um certo abalo, como se não precisasse mais de uma excelência que antes era vista em todos os episódios. Depende mais de nossa familiaridade com os personagens e com isso abdica de uma construção visual mais sólida. Uma série vive dessa familiaridade, e ajuda muito que todos os atores, sem exceção, estejam à beira da perfeição em seus papeis. Mad Men é uma aula de casting e direção de atores como raramente se viu na televisão mundial. Por isso continua boa, embora o brilho frequente nas primeiras temporadas tenha se tornado mais raro – no final, por exemplo, e em alguns episódios das últimas três temporadas(aquele que termina com “Tomorrow Never Knows” é um primor).

– Voltando ao assunto musical. Teve a celeuma com Milton Nascimento, que teria dito que a MPB de hoje é uma merda. Já surgiram aqueles que atacam o Milton por ele ter essa opinião. Entendo quem defenda que é a música que faz sucesso que é ruim, e que muitas coisas boas estão sendo feitas ainda na música brasileira. Eu sei disso. A questão é que na proporção simplesmente não dá para negar a decadência da música brasileira nos últimos 40 anos. Nos anos 1980 ainda era possível ouvir rescaldo de grande música (Moraes Moreira, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Guilherme Arantes, o próprio Milton, Djavan e tantos outros ainda fizeram grandes discos nessa década), além de algumas coisas geniais que iam surgindo (Arrigo, Itamar, Patife Band, Rumo, Picassos Falsos), mas não se compara com o auge que nossa música atingiu nos anos 1970 (o auge, na verdade, pode ser situado entre 1960 e 1984, um período realmente de ouro em matéria de riqueza de estilos e ambições. Na Bahia, em Pernambuco e no Ceará, por exemplo, tinha mais coisas boas do que em todo o território nacional hoje. Sim, continuo buscando as coisas. Tenho amigos e irmão músicos, que me indicam discos interessantes. Costumo acompanhar programas de músicas novas. Há, certamente, músicos brilhantes. A quantidade e a duração dessa qualidade é que costuma perder feio para outras épocas.

– Nos cinemas, vi e adorei Ad Astra (texto meu na Folha), O Fim da Viagem, o Começo de Tudo (idem), Bacurau (comentário no Olhar Digital) e devo dizer que este ano, no circuito comercial, me parece ser o melhor da década. A ver vamos.

Os Conselhos da Noite

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Não sabia bem como escrever sobre esse belo filme português e por isso demorei um bocado para começar este texto, que eu também não soube continuar, e por isso demorei mais um bocado, maior que o primeiro, para terminá-lo.

Em primeiro lugar, José Oliveira é um amigo muito querido d’além mar e apesar de me considerar um crítico capaz de separar amizade da apreciação de uma obra, fiquei com receio também por outros motivos, como irei expor aqui.

Vi Os Conselhos da Noite numa cópia ainda não terminada enviada pelo produtor, e também amigo, Daniel Pereira, embora eu tenha achado ela bem prontinha já, faltando alguns ajustes de finalização que não chegam a prejudicar o julgamento. O que quero dizer é que confio na minha percepção, mesmo sendo uma cópia de trabalho e mesmo eu tendo visto uma vez. Claro, revisões virão, quando o filme finalmente for exibido oficialmente. Mas por enquanto a impressão foi bem positiva.

Há um quê do José (um grande quê, na verdade) nesse protagonista taciturno que descobre uma cidade muito diferente da que ele deixou. Esse é um motivo óbvio para meu receio, mas prossigamos. Não se passou muito tempo, mas a cidade cresceu muito rapidamente. Essa cidade é Braga, que eu conheci em grande parte na companhia do José e de outro amigo querido, o João Palhares, a dupla programadora do cineclube Lucky Star (locação da imagem que ilustra este post), também em Braga. Mas principalmente o José, com seu carro, me levou a um monte de lugares que revi no filme, lugares que adorei conhecer e adorei rever em cena. E no filme eles ficaram lindos, evocando uma poesia que eu já suspeitava existir na cidade. Eis um outro motivo.

É a cidade do bar perto de uma velha igreja, do Convento no alto de uma montanha, onde tinha uma descida que fazia o carro subir, uma mágica que o José me mostrou. Ali tinha também um parque, onde Hiroatsu Suzuki quase se viciou na Coca Cola Zero, por minha culpa. E reconheci o belo jardim do centro, e a livraria Centésima Página, onde comprei um belo livro português do Hitchcock. E um restaurante onde fui com o José e mais três amigos. E algumas ruas, a rodoviária, o clima frio e agradável da cidade. Não lembro o nome dos lugares direito, mas não vou consultar. Lembro da impressão que tive ao visitá-los com meus amigos bracarenses, e a impressão que eu tive ao revisitá-los no filme.

Há alguma coisa de Clint Eastwood também, no protagonista, o de Honkytonk Man, principalmente. E algo do Lucky, com Harry Dean Stanton. Sei que o José amou este último filme e talvez eu tenha sido induzido a encontrar a semelhança. Mas penso que não. Penso que Lucky é de fato uma influência para Os Conselhos da Noite. Assim como a impressão de que a cidade já virou outra coisa. Não necessariamente pior, mas certamente outra. E Matar Saudade, do Fernando Lopes, me pareceu outra influência, embora eu também possa ter sido condicionado pela consciência de que é outro filme adorado pelo José (outro motivo para o receio, obviamente).

Quer dizer, o que O Atirador tinha do José (e da Marta, e do Mário), o que Longe tinha do José, de certo modo soou pouco perto do que Os Conselhos da Noite tem do José. E percebe-se a produção maior em relação aos outros (intuo tensão no set, pois José é tímido, chegado às pequenas reuniões, mas é também agregador, embora ele não tenha muita consciência disso). E por mais que eu veja tanto do meu amigo, tenho quase certeza que o filme seja forte para quem nunca viu ou leu o José, ou nunca dele ouviu falar.

A tentativa de objetivar minha relação com o filme eu deixo para depois. Por enquanto, um recado ao meu amigo José: “Vai, e dá-lhes trabalho.”

Sobre parte da recepção a Bacurau

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Existe uma parcela considerável de espectadores que censuram Bacurau pela forma americanizada com que se apresenta. Nunca entendi esse tipo de reclamação. Como assim, fórmula americanizada? Porque trabalha com regras do gênero? E por que não se poderia fazer uma apropriação dessas regras, que, afinal, não foram criadas por americanos, mas por cineastas do mundo todo entre os anos 1910 e 1920?

Glauber Rocha trabalhou com essas mesmas regras, tanto em Deus e o Diabo quanto em O Dragão da Maldade, para ultrapassá-las. É o que Bacurau faz. Claro, ninguém vai comparar Bacurau aos filmes do Glauber. Esse tipo de genialidade do falecido diretor baiano é rara, não aparece todo dia, ao contrário do que pensam os críticos publicitários. Mas não é justo censurar o filme por se apropriar de certas regras. Se fosse justo, 99% dos filmes normalmente elogiados no Brasil teriam de ser igualmente punidos. Todos se enquadram em alguma regra, seja de gênero, de festivais, de uma fatia do público. É a exceção da exceção que é livre dessas amarras.

Reclamam também da violência. É sério? Numa sociedade marcada pela violência como a brasileira, com histórico de violência brutal de todos os lados, vão reclamar disso? Nesse aspecto, o filme dialoga não só com os filmes de defesa de território na linha de Hawks e Carpenter, mas também com os filmes de cangaceiro que eram feitos aos montes no cinema brasileiro. Brasileiríssimo, então, é Bacurau. O que, por si só, não o isenta de nenhum outro pecado.

Por fim, é bom que estejam questionando um filme imediatamente associado à esquerda, embora seja parcialmente financiado pela direita (a Globo é comunista só para boçais e dementes). É bem melhor que a adesão automática que costumava haver por aqui até pouco tempo. O cinema brasileiro ganha com uma recepção mais cuidadosa, ainda que parcialmente equivocada, a meu ver.

Não escrevi uma crítica sobre o filme. Preciso revê-lo antes de fazer isso. Aliás, nem sobre Aquarius, com o qual tenho cada vez mais problemas, escrevi crítica. Mas fiz um breve comentário sobre Bacurau aqui:

https://olhardigital.com.br/cinema-e-streaming/noticia/bacurau-e-triunfo-do-cinema-brasileiro/89969

 

Acidentes

 

Mostrando O Garoto (Shonen, 1969), de Nagisa Oshima, na aula de hoje, lembrei do sofrimento do pequeno menino (uns dois anos, no máximo) sentado na neve, sem gorro nem cachecol, chorrando debaixo de uma nevasca enquanto o irmão mais velho interpreta.

E lembrei também do grave acidente que acontece em O Cangaceiro (pode ser visto no nono minuto do video acima): um menino se antecipa aos pais na hora de atravessar a rua e é atropelado por um cavalo, na sequência em que os cangaceiros invadem uma aldeia.

Não li tudo que existe sobre O Cangaceiro. Acho que nem 10%. Nenhuma palavra sobre isso. Já conversei com muitos que gostam do filme e ninguém sabia desse acidente. Tudo bem, precisa ser olhado com lupa para ser notado, mas está lá, no extremo direito da tela, e é assustador. Por alguma sorte o menino pode ter sobrevivido, não sei, espero que sim. Mas o pisoteio foi forte e o cavalo estava em disparada.

Fiquei impressionado desde a primeira vez que vi o filme em DVD (quando o vi no CCSP, começo dos anos 1990, não notei o acontecimento). E fico mais impressionado que ninguém tinha percebido. Talvez o filme seja pouco revisto. Talvez eu tenha sido “premiado” por ter acompanhado o desespero daquela família filmada bem de longe. O filme independe disso para ser bom ou ruim. Digamos que é uma curiosidade mórbida de um tempo em que não se tomava muitos cuidados com a saúde física e mental das pessoas em filmagens.

Anabela Moreira

anabela

Há algo nessa atriz portuguesa que me encanta. Provavelmente é seu olhar extremamente melancólico, de quem parece estar sempre à beira de um surto. Uma fragilidade que a torna mais atraente, cinematograficamente falando também.

Ela é revelada por João Canijo em Noite Escura (2004), mas me chamou mesmo a atenção em Mal Nascida (2007), também de Canijo. Foi um filme que vi duas vezes na programação da Mostra SP, naquele ano ou depois, e para mim continua sendo o melhor desse diretor.

Em Sangue de Meu Sangue, o ponto de virada (para pior, por enquanto) do cinema de João Canijo, é dela a cena mais forte, a da humilhação que sofre num escritório, expondo sua intimidade para um homem nojento. Forte e desagradável.

Quando em Curitiba, podia ver o que estava passando na RTP, e vi trechos da novela No Lado A, que se passa nos anos 1980. Pude notar que sua interpretação continua a mesma, com uma hiper-sensualidade e a mesma feição melancólica, mesmo quando seduz um homem. A novela, aliás, me pareceu fraca.

Ela está também no horroroso Diamantino (2018), de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt, com sua irmã Margarida Moreira. Mas apesar de interpretar umas bombas, é uma atriz que merece maior atenção.

Breaking Bad

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Finalmente resolvi tirar o atraso em algumas séries de sucesso. E desta vez foi Breaking Bad. E como todo mundo já deve ter visto, spoilers rolarão soltos por este texto.

Na primeira temporada, reparei que o texto é bom, os atores são excelentes, mas a direção é terrível. Pensei em desistir. Mas a relação de Walt com o Krazy 8 no porão da casa de Jesse me segurou. Até que entra em ação Tuco, um traficante caricatural, vilão de história mal arranjada. Voltei a ficar em dúvida se continuaria ou não.

A dúvida aumentou ainda mais no início da segunda temporada. Simplesmente porque Walt, após matar à sangue frio Krazy 8, com quem ele até tinha se envolvido em conversas pessoais, não mata Tuco, deixando-o apenas ferido. Esse episódio me pareceu muito fraco. Mas continuei vendo, e as coisas começam a engrenar um pouco antes da metade dessa temporada com a entrada de novos personagens em cena, sobretudo o advogado picareta Saul, que depois teria uma série para si (Better Call Saul), Gus, o mega traficante, e Mike, seu braço direito. Esses são de fato, junto de Hank, o cunhado policial de Walt, os melhores personagens da série. Walt, por sua vez, se aguenta em suas burrices graças a Bryan Cranston, um desses atores que caem do céu para salvar incoerências de personagens. É no sexto episódio (do assassinato com um caixa eletrônico como arma) que a temporada finalmente começa a engrenar.

A terceira temporada é a melhor até então, com Jesse deixando de ser o imbecil impulsivo para ser um cara mais interessante e complexo, com uma bondade que ele nem sempre consegue disfarçar. É também quando Skyler fica sabendo da vida dupla de seu marido Walt, culminando com um último capítulo forte graças ao assassinato de Gale Boetticher (leia-se Bériquer, como o grande cineasta Budd).

Mas na quarta temporada há a frase mais classuda de toda a série: “I am the one who knocks”, dita por Walt para tranquilizar a mulher dizendo que ninguém baterá à sua porta para matá-lo, como fizeram com Gale. E é quando se completa definitivamente a transformação de Walt em Gus, com a morte deste último e a revelação da Lily of the Valley. Walt continua sendo idiota em alguns momentos, mas em outros revela-se uma espécie de Mabuse, um manipulador de primeira. Enquanto isso, a transformação de Jesse é mais complexa. De moleque perdido a um cara de coração. Mais correto seria falar em revelação, pois sua bondade finalmente vem à tona.

Finalmente, a quinta temporada coroa todos esses movimentos internos de forma muito coerente, com a única solução possível para todos os personagens (talvez Hank poderia ter se exposto menos se não quisesse resolver o problema só com seu parceiro. Walt é um personagem trágico, destinado à morte brutal desde o primeiro episódio. Todas as suas ações vão ao encontro da morte, principalmente nesta quinta temporada. Mabuseanamente, ele manipula as situações de tal modo que salva Jessie e o dinheiro de seus filhos, tendo uma morte honrosa. Muitas séries começam bem e vão se esticando conforme o sucesso de público. Breaking Bad melhora aos poucos, num crescendo dos mais interessantes entre as séries americanas recentes. Tivesse uma melhor direção, faria história, realmente (aliás, a direção é pior nas duas primeiras temporadas).