Arquivos de Categoria: textos inéditos

Encerrando Gostoso

burlan

Faltou falar de três outros filmes exibidos fora de competição dentro da 5ª Mostra de Cinema de Gostoso.

Azougue Nazaré, de Tiago Melo, procura dar conta do embate entre duas tradições: a do Maracatu e a dos evangélicos. O filme é confuso. Em seu melhor, há um elemento fantástico dos mais interessantes na forma de entidades incorporadas num ritual. Mas esse lado acaba sendo sufocado pelo tanto de realismo capenga que o diretor procura colocar. Deu-me a impressão que no balanço o diretor pende ao Maracatu, mas talvez ele tenha procurado uma isenção e o olhar para o Maracatu tenha sido mais generoso de minha parte, contaminado pelos acontecimentos recentes do Brasil.

Cristiano Burlan completa sua Trilogia do Luto com Elegia de um Crime, sobre o assassinato não solucionado de sua mãe em Uberlândia por um ser que já matou outras duas mulheres e continua soltinho. Não vi o segundo da trilogia, mas o primeiro, Mataram Meu Irmão, é ainda o mais forte. O que impressiona é a frontalidade com que Burlan se abre ao escrutínio da câmera comandada por ele próprio. Há uma vontade compreensível de fazer justiça pelas próprias mãos, mas o máximo que ele pode fazer é realizar filmes. Ainda bem. Isso é verbalizado no momento mais belo, quando ele vai ter com o túmulo da mãe. Entre a prática de tiros, as entrevistas com irmãos e outros que conheceram sua mãe, as investigações sobre o paradeiro do assassino e as dolorosas lembranças materializadas em fotos, Burlan vai pavimentando um caminho pelo qual chegará à superação.

Por fim, Ferrugem, de Aly Muritiba, o filme do encerramento, eu já havia visto em Gramado. Alguns amigos detestaram, outros não se empolgaram. Estou mais para os segundos. Mas notei uma progressão em relação ao sofrível Para Minha Amada Morta. Em Ferrugem ao menos as coisas acontecem, e com isso a crítica (a um estado de coisas) pode ser esboçada. Pena que as possibilidades levantadas na primeira parte, quando Muritiba se revela um diretor mais interessante filmando adolescentes, desembocam numa segunda parte um tanto enfadonha, com um garoto insuportável de chato, outro bobo toda vida e um pai professor (Enrique Diaz) que não liga nada com nada. A mãe (Clarissa Kiste), que dizem ter salvado o filme, soou-me outra chata de galochas. A salvação é a irmã menor dessa família sonsa. Uma menina que domina as cenas em que aparece e injeta alguma vida numa segunda parte que está mais para o longa anterior de Muritiba do que para as promessas contidas na primeira parte.

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Gostoso, dia 4, parte 2: competição

inferninho

No último dia de competição, dois curtas estranhos e um longa sensível e escrachado provocaram um bocadinho a plateia de Gostoso.

O primeiro curta é de Cordisburgo, MG. Chama-se Teoria Sobre um Planeta Estranho, é dirigido por Marco Antonio Pereira como uma viagem para 1967 sob a influência de LSD. O curta é alucinada e desavergonhadamente psicodélico, cheio de altos e baixos que o tornam mais interessante que a média do curta metragem no Brasil. O encontro com Deus, numa espécie de bazar de quinquilharias, é das coisas mais bizarras que vi no cinema recente.

O segundo curta é do Rio Grande do Norte e tem um belo nome: Ainda que eu Ande pelo Vale da Sombra da Morte. É dirigido por Helio Ronyvon de maneira insegura, apesar de mostrar, aqui e ali, algo do olhar promissor observado nos outros curtas potiguares. Tem a vantagem de durar apenas 10 minutos, e com isso não corre o risco de ficar à deriva.

Finalmente, encerrando a competição, surge o melhor longa: Inferninho, da dupla Guto Parente e Pedro Diógenes. É como um Doce Amianto mais palatável, com suas inúmeras referências da cultura pop e do cinema. Não foram poucos os que se lembraram de Fassbinder, mas acho que dá para chamar Jodorowski para o jogo também. O longa mostra personagens à margem, que se encontram no inferninho de Deusimar para curtir uma melancolia coletiva, regada por uma música monótona e engraçada ao mesmo tempo, com uma cantora em câmera lenta e um tecladista mais cool que o baterista dos Rolling Stones.

Seu grande trunfo é o humor, além, claro, da falta de dinheiro que se transforma em criatividade. Em certo momento, Deusimar surta e manda todos embora dali. O personagem que se veste como uma Mulher Maravilha bigoduda, antes de se retirar, simula a giradinha que sua personagem fazia na série de TV, com o corte no momento certo para que o humor se fortaleça. Alguns frames a menos, não perceberíamos. Um segundo a mais, ficaria esgarçado. O dom do tempo certo é algo raro em cinema, e os meninos da Alumbramento mostram esse dom em alguns momentos de Inferninho.

Quando Deusimar vende o bar e resolve seguir os seus sonhos, vemos uma série de imagens projetadas numa tela ao fundo que emulam suas viagens ao redor do mundo. É um dos momentos mais sensíveis do filme. Depois disso, entramos numa outra dimensão e começamos tudo de novo, como um Três Bêbados Ressuscitados, de Nagisa Oshima, mas com personagens em situações invertidas. Deusimar demora para entender o efeito da mágica, mas quando cai em si, propicia um final belo e poético, que leva o filme, que já estava deveras interessante, para cima.

Inferninho e Ilha foram os dois melhores filmes vistos em Gostoso. Ambos são nordestinos e começam com a letra “i”. Ceará e Bahia mostram-se polos de uma renovação mais do que bem-vinda do cinema brasileiro.

Gostoso, dia 4, parte 1: fora da competição

lembro

No quarto dia da Mostra de Gostoso, parece ter havido uma pequena pane de comunicação pela cidade. A caminho da sessão vespertina, alguns pingos mostravam que as nuvens escuras podiam ser ameaças de fato, e não puro enfeite, como foram nos dias anteriores. Durante a sessão, composta por um curta e um longa, ambos paulistas, a energia foi interrompida por uns cinco minutos. Na saída, o celular revelou-se com péssimo funcionamento e a internet da pousada parece ter ido à praia sem perspectiva de retorno. É parte do charme da cidade, a primeira de onde o Brasil faz a curva em direção ao Ceará, que a comunicação com o resto do país seja dificultado. Assim, os pequenos animais podem passear livremente: o lagarto e o sapo que vi na entrada me saudaram simpaticamente para uma noite que promete ser mais quente que o normal.

O curta é Liberdade, de Pedro Nishi e Vinicius Silva. Investiga o passado do bairro Liberdade, antes de se tornar o lar dos orientais no Brasil, quando era habitado por africanos, como também hoje, quando voltou a ser habitado por africanos, mais haitianos e refugiados. A igreja central, agora cercada por estabelecimentos comerciais, a Praça da Liberdade, antigo Largo da Forca, onde eram executados os escravos e os criminosos, a convivência entre imigrantes de todo o mundo, sobretudo uma japonesa e um guineense. Belíssimo retrato de um Brasil que tende a ser apagado, agora mais do que nunca. A negritude, contudo, é tirada das sombras em uma das sequências mais poderosas do cinema brasileiro atual.

O longa é Lembro Mais dos Corvos, de Gustavo Vinagre, que, a exemplo de Fabiana, exibido ontem em competição, pega uma pessoa real para investigar sua vida. Só que o filme de Vinagre é mais direto, assume-se como o retrato de uma vida. Talvez por isso seja mais forte e bem sucedido. Julia Katharine é carismática. Mulher transexual, conta histórias de sua vida até a exaustão, e o filme acerta em deixar evidente seu desconforto, até que ele se torna impossível de continuar. Deixa evidente também a longa amizade entre ela, uma atriz, e o diretor, responsável por sua estreia no cinema. Essa amizade permitiu que o embaraço de contar histórias diante de uma equipe de filmagem fosse menor, e tornasse possível o longa de 80 minutos.

A câmera de Vinagre é sempre tateante, buscando a melhor distância no zoom – o que faz com que às vezes pareça um Rossellini televisivo mais pobre – e explicitando, conscientemente ou não, suas inseguranças quanto à melhor maneira de filmar. Esse filme que se constrói diante de nossos olhos se fortalece, assim, pela cumplicidade entre todos os envolvidos: equipe, Julia e nós. Ao final, sentimo-nos muito mais próximos de Júlia. Ela se torna também nossa amiga, e somos agradecidos por ela nos ter confiado suas histórias, reais ou não.

Gostoso, dia 3

fabiana

No terceiro dia da Mostra de Gostoso os dois curtas eram reprise para mim. Por isso acabei perdendo o curta do coletivo, uma vez que preferi trabalhar numa ideia para o doutorado que rendeu mais do que o maldito mês de outubro inteiro (a demência generalizada que tomou conta do país é a culpada).

Os dois curtas são Catadora de Gente, de Mirela Kruel, e Nova Iorque, de Leo Tabosa. O primeiro encontra uma personagem dos sonhos e assume o formato entrevista acertadamente, fundo negro, tempo para a catadora falar à vontade, inserindo algumas imagens contemplativas, que procuram uma ligação com o que a entrevistada fala. O segundo é mais difícil, e não totalmente bem sucedido. A história do garotinho abandonado cujos sonhos estão à beira de um colapso e da professora que, com a perda da mãe, ruma a São Paulo para tentar o seu sonho, é tocante, mas sentimos que há um certo mal aproveitamento da ideia. A poesia à fórceps faz-nos engasgar um pouco, e Hermila Guedes, uma atriz que já se provou ótima, não está em seu melhor.

O longa da noite dentro da competição nos mostra chavões do cinema brasileiro deste século com algumas variações, insuficientes para resultar em um bom filme. Fabiana, de Bruna Laboissière, sofre muito com as posições de câmera, geralmente mal escolhidas, resultando na tal de sub-martelização que se tornou quase uma regra não dita do jovem cinema brasileiro (os enquadramentos que cortam pessoas propositadamente). Fabiana nasceu homem, mas se vê como mulher, e gosta de mulheres. Tem uma namorada, que a acompanha por vezes na estrada. É um road movie, e os momentos em que a paisagem é mostrada talvez sejam os mais interessantes. Há também aqueles em que Fabiana diz o que pensa, e com isso nos mostra a pessoa interessante que é, justificando parcialmente a escolha. Pena que parte desses momentos é filmada de maneira pobre, sem um pensamento por trás dos quadros. Mais uma vez: pode parecer pouco, mas o descuido formal enfraquece qualquer tipo de registro.

P.S. Esclareço que todos os filmes comentados nesta cobertura estão na competição, exceto os curtas do coletivo Nós do Audiovisual e o longa Ilha.

Gostoso, dia 2, parte 2: Ilha

ilha

Para falar de Ilha, quero antes dizer algumas palavras sobre Café com Canela, longa de estreia de Glenda Nicácio e Ary Rosa que ficou um bom tempo em cartaz em São Paulo (viva!). Infelizmente vi apenas uma vez um e outro. Voltarei a eles após alguma futura revisão.

Meses atrás reclamava-se no facebook que este filme estava sendo mal visto porque era julgado pelo prisma da forma em detrimento à beleza que dele poderia se extrair. Pois o que mais me surpreendeu é que a questão formal está o tempo todo em Café com Canela, de modo que não vejo como falar da beleza sem falar um pouco, por menos que seja, da forma. E para isso não é necessário ser elitista ou pedante. Basta falar de cinema.

Entre erros homéricos e acertos animadores, o filme da dupla se constrói afirmando-se como a tentativa de fazer um longa cinematograficamente, com soluções formais de juvenil ousadia, que por vezes até funcionam, e personagens carismáticos o suficiente para sustentar o que não funciona (o ponto de vista do cachorro, por exemplo). Esse tipo de esgarçamento da linguagem costuma aparecer em aberrações como 2 Coelhos, não em um filme como Café com Canela, o que me encheu de surpresa já nos primeiros minutos.

O longa me ganhou logo no início, com um depoimento sofrido do ator Babu Santana, disparado o mais conhecido do elenco. Após um registro típico do cinema brasileiro recente, que se assemelha a um falso documentário (o depoimento de um falso personagem real), ele pede uma cerveja, e o corte nos leva a uma outra instância dramatúrgica, de um encontro entre os personagens do filme em um bar. É uma cena armada que desmorona o plano anterior, intimista, levando o filme para uma outra instância de compreensão. É também uma brincadeira das mais inteligentes com o naturalismo.

Mais adiante, a tela se divide em três para dar conta de três portas que dão para a rua. Mas por um momento não percebemos que é a tela que está dividida. Parece mais uma casa com três portas, como a que dá lugar a alguns bares, e algumas moradias, em partes antigas das cidades nordestinas. Com o trânsito das poucas pessoas que passam pela rua é que percebemos o efeito. Funciona, porque aproxima esses vizinhos também na forma, deixando claro que eles são próximos na trama que começa a se desenhar.

* * *

(Daqui em diante, é por sua conta e risco. Se não gosta de spoilers, deixe para ler depois. Aviso porque o filme ainda não foi tão visto quanto Café com Canela)

E chegamos a Ilha, o segundo longa de Glenda Nicácio e Ary Rosa. É um filme estruturado inteligentemente para atenuar os maus resultados de todas as possibilidades de riscos, que continuam a mil, agora melhor blindadas. Um cineasta que perdeu o tesão pelo cinema e filma agora de forma blasé (a se acreditar no outro personagem, convenhamos), um menino que queria abraçar o cinema e não deixaram, um pai arcaico e grosseiro, uma mãe submissa, um jovem traficante que também é cineasta frustrado, uma ilha paradisíaca que não é filmada como cartão postal (a não ser em um ou outro plano), e, sobretudo, uma vontade louca de pensar nas possibilidades do cinema.

Há um sequestro. O cineasta que perdeu o tesão é obrigado a fazer um filme para o cineasta frustrado. O que se quer, na verdade, é a continuação de um aprendizado, o de ensinar a filmar (mas isso descobriremos só no final). O aluno é rebelde, não aceita mais palavras cheias de empáfia. Quer um jogo mais direto com o professor. Tão direto que envolve o sexo. E finalmente temos uma sucessão de filmes em que o sexo homossexual é naturalizado, porque antes de tudo o homossexual é naturalizado em cena. Não é mais objeto de escândalo. Não é mais estereotipado como até pouco tempo. Ilha está na ponta desse movimento de normatização da diversidade sexual porque dá conta da bissexualidade como algo natural na juventude atual, algo que se experimenta em festas, nos intervalos das aulas, ou enquanto se mata aulas. Nas ruas e pelo contato com outros jovens, de qualquer classe social, em contextos que fogem à dominação burguesa patriarcal (daí a idiotice dos que combatem a ideologia de gênero).

Mas eu falava dos riscos de Ilha, e eles são quase todos de ordem formal. Desta vez também tem o plano subjetivo de um cachorro, mas dura apenas dois segundos. O mais interessante é a mistura de instâncias entre a câmera do filme dentro do filme, a do making of do filme dentro do filme e a do filme propriamente dito (e com isso eu talvez tenha batido o recorde da incidência da palavra “filme” em um único parágrafo). Essa mistura de instâncias, na matemática, nos diz que é uma minoria que responde pela câmera do filme propriamente dito.

A mais bela cena é aquela em que o cineasta conta uma história triste para o sequestrador enquanto ambos fumam um baseado, no canto esquerdo do enquadramento scope que me lembrou Shohei Imamura, cineasta, aliás, que gostava de filmar longe dos centros urbanos. Essa cena, ao que tudo indica, não é filmada pelo parceiro do sequestrador, e por isso não é do making of. A história seria verdadeira ou não? O cara é roteirista, lembra o sequestrador, e por isso é um mestre em contar histórias. Mas que história conta Ilha? De que história pode dizer um personagem de um filme que se interroga o tempo todo e com isso interroga também o cinema? Certamente, não uma história no sentido comercial cinematográfico. Nesse sentido, só a sua história seria possível dentro do filme, qualquer outra seria uma mentira, e por isso ele não acredita, ou não quer acreditar, na história contada pelo cineasta. É uma história necessária apenas dentro do filme, como intervalo idílico do filme dentro do filme (lá vou eu novamente…). Pelo que lembro, a cena é resolvida em um único plano estático. E se assim não for, penso que a ideia tenha sido um pouco nessa direção, pois os cortes, se existem, estão bem integrados, invisíveis como no cinema clássico.

O mais interessante de Ilha é que ele entrega todos os seus estratagemas. No primeiro plano já se discute se é melhor com a câmera mais afastada, dando conta da solidão do personagem sequestrado, ou num close up. Num outro momento, fala-se da Síndrome de Estocolmo quando já adivinhávamos que uma relação forte, seja de que ordem fosse, iria surgir entre sequestrador e sequestrado. Finalmente, a mistura de instâncias, quando explicitada, torna possível uma cena linda em que filho mata o pai simbolicamente, sendo que o filho, na juventude, já havia sido interpretado por um outro ator, justamente na cena em que ele é apanhado no começo de um “ménage a trois”. Essa cena remete de algum modo àquela de Café com Canela, em que o genro apoia a cabeça da sogra em seu colo para fazer um carinho. Cena afetiva e aflitiva, porque sogra, como o pai de Ilha, está com doença terminal.

Ilha é levemente prejudicado por um final que não está à altura do que apresentou até então. Não digo do último plano, que é belo, poético, mas de tudo que acontece depois da saída da ilha e nos levou até esse plano. O cineasta burocrático é prisioneiro da redoma do amadurecimento, sim, mas também da ordem do bem filmar e do cinema palatável para chegar aos festivais (incluindo os internacionais), e das falas cuidadosas para não ferir sensibilidades, e das amizades e alianças estratégicas. Ilha, que tem chegado aos festivais com seu escárnio e sua visão crítica, procura dar conta de tudo isso, e nem sempre acerta. Mas quando acerta chega a comover. É um passo adiante em relação ao já interessantíssimo Café com Canela.

Gostoso, dia 2, parte 1

meunomeedaniel

O dia começa com mais um curta do coletivo Nós do Audiovisual, com produção da Heco e direção assinada por todos. Trata-se de uma homenagem a um antigo cajueiro da região de Gostoso (passamos por ele na estrada e um jovem do coletivo, que estava no carro, nos avisou). É, no final, uma brincadeira com o terror.

Logo em seguida entra Mesmo com Tanta Agonia, de Alice Andrade Drummond, que precisa da belíssima música de Neneh Cherry (“Woman”) para amarrar todas as pontas soltas. A reter a deliciosa festa captada pelas meninas com muita alegria e charme, a nos lembrar que as crianças podem salvar o mundo. O terceiro curta é do Rio Grande do Norte, o que comprova uma possibilidade de forte polo futuro do estado, mais um do nordeste a ser uma esperança para a filmografia brasileira, depois de Pernambuco, Bahia, Ceará e Paraíba (a confirmar se Alagoas, do qual vi curtas interessantes na Mostra Sururu em 2014, vingou de fato ou ficou pelo caminho). P’s parte do texto de Michel Foucaul, “Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão”, texto que há havia sido adaptado por René Allio em 1976. É austero, tem uma proposta dura e corajosa, a transposição para o sertão nordestino é interessante, mas falta algo para engrenar de fato, e esse algo não vem com a cena pós-créditos (ou no meio dos créditos, já não lembro mais).

O longa Meu Nome é Daniel surge em seguida prometendo ser um tanto enfadonho. A impressão vai diminuindo até que o filme se ajeita bem, mostrando um jovem com um problema de saúde não identificado. Acontece que esse jovem é o próprio diretor do filme, Daniel Gonçalves, que aparece em 99,9% dos planos. Ele arregimenta uma série de videos, atuais e passados (a maioria), em qualidades distintas (alguns em VHS estão sofríveis, o que contribui com o tom memorialista) de seu cotidiano: as crises, a relação com os familiares, a sorte de ter nascido em  uma casa com posses, os amigos de escola, a primeira transa, o primeiro beijo. Com meia hora lembrei de Tarnation (Jonathan Caouette, 2003) – e Flavia Guerra confessou ter lembrado também – pelo tom corajoso, álbum de família, de enfrentamento das situações (em todo caso, ela usa o filme americano em aula, eu nunca mais o revi, então foi bom ter a confirmação dela de que minha lembrança era justificada). Filme de montagem, realizado com inteligência e sensibilidade, com um personagem-diretor carismático, que sabe conduzir sua narrativa na frente e por trás da câmera.

P.S: quem me conhece sabe que esqueço as coisas mais óbvias e essenciais para um bom convívio. Pois esqueci de agradecer publicamente o convite feito pela Flávia Miranda e pelo Eugênio Puppo, diretor e curador do festival. Agradeço então aqui, o que já fiz pessoalmente.

5ª Mostra de Cinema de Gostoso

socrates

Em São Miguel do Gostoso – RN, a noite começa a chegar às 17h, e é possível ver a lua subindo de um lado enquanto o sol desce do outro. Estamos há uma hora e meia de Natal, e o caminho mais rápido é por uma estrada quase só de retões. A cidade chega perto dos 10 mil habitantes, e antes das 18h já está completamente escura. Em compensação, antes das 5 da manhã o sol já começa a castigar. E quem já viu o sol nascer no nordeste sabe a beleza que é.

A tela instalada na praia é grande, e a projeção é boa. Muito entra e sai de gente, e pessoas passando na nossa frente e crianças correndo a todo momento, o que atrapalha um bocado a concentração. Mas é o preço a se pagar por um festival que traz cinema a uma cidade simpática e carente. Quem pode reclamar disso? Quero dizer que o preço é baixo, e uma vez que nos acostumamos à bagunça, nossa concentração volta mais depressa, ainda mais quem está acostumado a festivais do tipo (Tiradentes não é muito diferente, assim como qualquer outro que envolve a comunidade local, o que é o mais importante, claro).

Os filmes do primeiro dia não animaram muito. Mas foi interessante ver o trabalho do coletivo daqui, chamado Nós do Audiovisual, com um curta, Derradeiro é seu nome,  razoavelmente bem filmado pela jovem Renata Alves. Um curta que eu não entendi direito (culpa minha, decerto). Assim como foi bacana rever Guaxuma, da Nara Normande, uma adorável e criativa animação que eu havia visto em Gramado.

Os outros filmes são o curta potiguar Codinome Breno, de Manoel Batista, que é tocante pelo tema (o pai de Breno foi enquadrado como subversivo durante os anos de chumbo), e é conduzido de maneira eficaz, ainda que meio esquizofrênica – começa de um jeito, vira outra coisa e depois muda de novo (como gosto de coisas esquizofrênicas, até certo ponto, isso não me incomodou). O curta é didático e necessário nestes dias em que uma classe média emburrecida pede a ditadura militar de volta, ou que artistas tapados dizem que nunca existiu ditadura no Brasil, enquanto é o contrário o correto: jamais estivemos perto de um regime comunista.

Fechando a noite vem o longa paulista Sócrates, do qual não gosto, mas devo reconhecer que Alex Moratto, o diretor, nos leva com habilidade para lados que não esperávamos. Eu pelo menos não esperava, para quebrar com essa terceira pessoa do plural meio suspeita. Infelizmente, surpresas só acontecem de vez em quando, porque na maior parte do tempo o protagonista menor de idade vai sofrendo o que a vida lhe reserva, com direito a tudo o que imaginávamos que poderia acontecer a partir da morte de sua mãe e dado o problema inicial.

O filme lembra muito Querô, de Carlos Cortez. Talvez por ser fruto da Querô Filmes, braço do Instituto Querô, dirigido também por Cortez. OK, mas garanto que mesmo sem saber disso a lembrança de um virá ao se ver o outro, num déjà vu inevitável.

Há um outro fator a não se desprezar. Vi o filme extremamente cansado, como sempre fico no primeiro dia de qualquer festival (voo atrasado, pouco sono por medo de não acordar e perder o voo, correria na chegada para pegar a sessão), e em momento algum dei a famigerada pescada. Não sei se foi o carisma do ator principal, Christian Malheiros (que não me pareceu bom, diga-se, mas tem algo com a câmera que permite uma posterior evolução), mas o sono meio que se afastou e não voltou até agora, possibilitando estas linhas um tanto febris na madrugada gostosense.

 

Bohemian Rhapsody

bohemian

Minha infância, nos anos 1970, foi marcada pela adoração dos discos de Roberto Carlos dos anos 60. Demorei para entender, e adorar, o disco da praia, de 1969, hoje um dos meus preferidos (junto aos de 1972 e de 1974).

A febre Roberto Carlos foi substituída naquele momento pela aquisição dos primeiros LPs internacionais – as coletâneas azul e vermelha dos Beatles e Flowers, dos Rolling Stones. Isso em 1980, ou 1979, talvez. Paralelamente, ouvia e gravava o que mais gostava da programação da Rádio Cidade (The Police, Elton John, Chiliwack, entre outras coisas da passagem de uma década a outra) daqui de São Paulo.

No comecinho de 1981, ganhei o meu primeiro disco do Queen: The Game, que era o disco do momento. Fui devidamente convertido, ainda na pré-adolescência. Logo em seguida, meus pais me compraram A Night at the Opera, e eu passei a lamentar não ter idade para ir a um dos shows deles no Morumbi. Um amigo meu, dois anos mais velho, ou quase isso, foi, e me deixou cheio de inveja pela primeira vez na minha vida (porém, nunca tive inveja dos brinquedos caros dos meus amigos de infância – sempre preferi as brincadeiras de rua, jogar bola, tirar massinha de casas em construção e brincar de polícia e ladrão).

A adoração isolada ao Queen durou mais ou menos um ano e meio, quando descobri o rock básico e infantil do AC/DC e do Kiss. Daí para coisas mais pesadas foi um pequeno pulo: Iron Maiden, Judas Priest, Saxon, etc. Adorava Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple também. Penso que comecei a gostar dessas bandas obrigatórias na mesma época. Ou junto com AC/DC e Kiss, não lembro ao certo. Ia ao centro da cidade, que era muito mais seguro em 1982 que qualquer lugar de São Paulo hoje, e voltava com um ou dois discos debaixo do braço, dependendo do tamanho da mesada, preocupado com o sacolejar do ônibus e as empurradas dos adultos.

O certo é que minha paixão pelo Queen nunca deixou de existir. Pode ter sido eclipsada, de tempos em tempos, por alguma (re)descoberta momentânea. Mas era só botar pra tocar e relembrar a genialidade de Freddie Mercury, Brian May, John Deacon e Roger Taylor.

Com tudo isso, parecia impossível assistir a Bohemian Rhapsody, de Bryan Singer, e não ficar emocionado. A simples tentativa de se biografar no cinema a aventura desses quatro geniais estudantes que despontaram para o estrelato pela incrível musicalidade e pelo carisma de seu vocalista já parecia capaz de me fazer ao menos esperar o filme com alguma ansiedade.

Não que eu esperasse algo bom. Na verdade, achava bem difícil que isso acontecesse. Biografias musicais raramente funcionam no cinema, ainda mais numa Hollywood tão presa a fórmulas de sucesso. A questão é simplesmente ver na telona a cinebiografia de uma de minhas bandas do coração. Imagino que foi isso que sentiu meu grande amigo Alexandre Carvalho quando saiu The Doors, do Oliver Stone, outra cinebiografia fraca.

O filme é tido como uma cinebiografia de Freddie Mercury (o principal compositor da música “Bohemian Rhapsody”). Dada a ligação do cantor com a banda, e apesar do retrato morno que se faz dos outros três integrantes, cabe mais como uma cinebiografia do Queen (e talvez o oposto tenha acontecido com o filme de Stone).

News of the World

O problema não é bem a vazão exagerada ao sentimentalismo. A música do Queen, principalmente a partir de 1980, presta-se a isso. Não foi isso que me deixou emocionado, contudo, mas a beleza das músicas, a ideia por trás de cada composição, ideia que o filme deixa entrever mal e mal por trás das máscaras hollywoodianas colocadas em cima dos compositores, e uma certa imaginação de bolha na cronologia dos eventos (bolha é o fã de discos, segundo outro grande amigo, o Bento Araujo).

E é nessa cronologia que mora o maior problema do filme para um bolha. Porque ver uma turnê logo após o lançamento de A Night at the Opera, com um show no Rio de Janeiro em que todo o público canta “Love of My Life”, não é algo legal para quem espera um retrato mais fidedigno da evolução da banda. Bem, o disco é de 1975 e eles só fariam show no Rio em 1985, no Rock in Rio, tendo feito dois shows em São Paulo em 1981, transmitidos pela Bandeirantes, que flagrou a plateia cantando “Love of My Life” no lugar de Mercury.

Até aí, problema menor. Imaginemos que a força dramática daquela cena ali, ainda num relativo começo de carreira, tenha sido melhor para as pretensões comerciais do filme. Mas colocar, cenas depois, Brian May compondo “We Will Rock You” porque ficou entusiasmado com a participação da plateia, aí já é demais. Até aceito que alguma plateia tenha cantado junto “Love of My Life” antes de 1977 (quando “We Will Rock You” saiu). Mas não uma plateia enorme como as que eles tiveram no Morumbi ou no Rock in Rio. É liberdade poética demais para um bolha.

Na primeira turnê americana da carreira deles, que aconteceu em 1974, para promover Queen II, eles tocam “Fat Bottomed Girls”, de 1978 (do disco Jazz). Não consta nos autos que eles tocassem essa música em 1974, nem que eles já a tivessem composto. Não fazia muito sentido, aliás, essa letra sacana na fase em que eles estavam. Mas OK, a música ilustra bem uma faceta da banda. Que tenham adiantado seu surgimento em quatro anos não me parece motivo para queimar o filme.

Como antes de ser bolha, sou um crítico de cinema (não o “antes” de passado, mas o “antes” do exercício das funções, pelo menos neste blog), esse desprezo com a cronologia seria um problema menor se a narrativa se comportasse bem com ele. Mas a impressão é de que a narrativa independe dessas coisas, e só se tirou tudo da ordem por preguiça ou pressa de roteirista.

Incomoda também que essas figuras essenciais do rock setentista sejam retratados como personagens de enredos baratos. Brian, Roger e John são os roqueiros de classe média, presos às famílias e a uma ideia de educação britânica por vezes quebrada pela postura de contestação que costumava existir no rock da época. Freddie, elemento claro e postiço de contraposição dramatúrgica, é a energia que se recusa a ser represada, e conforme vem a fama ele vai mais e mais decaindo num estilo de vida louca que, sabemos de tantos outros filmes, inclusive das duas últimas versões de Nasce uma Estrela, que não leva longe. E aí os quatro deixam de ser músicos talentosos e ousados para serem meros elementos de um enredo melodramático que se prende demais a uma fórmula de redenção (o show do Live Aid em 1985), que por sua vez se presta lamentavelmente bem (comercialmente falando) a retratos de artistas talentosos e problemáticos.

E se tudo é fórmula, o filme respira melhor nos raros momentos em que, como a própria banda ousou fazer nos anos 70, dribla essa fórmula gloriosamente: os momentos em que eles são vistos no estúdio, com os técnicos ou discutindo e vibrando entre eles, ou quando Rami Malek consegue tirar Freddie da redoma e age como uma pessoa, não como o retrato de uma estrela decadentista – o momento da briga pela entrada ou não de “I’m In Love With My Car” na obra-prima A Night at the Opera, por exemplo, ou na reunião em que convence os executivos da gravadora a gravar esse mesmo disco, cuja concepção é considerada ousada pelos engravatados.

Gosto também de como é mostrada a relação de Freddie com sua melhor amiga e antiga namorada, Mary Austin. Sei que atende às exigências da fórmula que tanto critiquei. Mas os desempenhos de Malek e de Lucy Boynton escapam das convenções e nos entregam alguma verdade.

Verdade mesmo, só a bela música dessa banda sem igual. E essa música, bem ou mal, está em Bohemian Rhapsody. É o que permite que o filme seja facilmente assistível mesmo que nosso julgamento não seja favorável.

Hierarquia mizoguchiana

akasenchitai

Incapaz de rankear os filmes de Mizoguchi, divido-os em grupos. E dentro desses grupos, o rankeamento também se torna quase impossibilitado. Porque a cada série de revisões, um filme desponta como soberano, melhor de todos os tempos, filme único para a ilha deserta. O desta vez foi Rua da Vergonha (foto acima), que antecipa a Nuberu Bagu (a nouvelle vague japonesa) e é um dos filmes mais cruéis e tocantes que existem.

O conceito de obra-prima, para os mais rigorosos, impõe a escolha de apenas uma, a maior obra de um autor, sua obra-prima. Com alguns diretores (Mizoguchi, Ford, Buñuel, Hitchcock) isso cai por terra. Se Mizoguchi não tiver pelo menos umas 15 obras-primas em sua carreira, o cinema não nos terá dado mais do que 30. Como o cinema nos deu mais de 30 obras-primas, é certo que Mizoguchi tem pelo menos 18, as apontadas abaixo (cheguei a esse número espontaneamente, e à divisão em partes iguais, também – descontando aí revisões menos entusiasmadas que podem ser revertidas no futuro e filmes perdidos).

Minha divisão leva em conta alguns estágios de obra-prima (puristas, podem se horrorizar). O cineasta em questão merece.

  1. OS MELHORES FILMES DE TODOS OS TEMPOS

São aqueles filmes que provocam síncopes, levam ao choro, ao estremecimento das pernas, à emoção incontida. Filmes que permitem a afirmação: “Mizoguchi é o maior de todos”. Em ordem cronológica, seriam os seguintes:

Conto dos Crisântemos Tardios (1939)

Senhorita Oyu (1951)

Oharu – A Vida de uma Cortesã (1952)

Contos da Lua Vaga (1953)

O Intendente Sansho (1954)

Rua da Vergonha (1956)

  1. AS OBRAS-PRIMAS ABSOLUTAS

Estão num patamar ligeiramente inferior ao dos filmes acima, mas seriam, ainda assim, obras essenciais, que qualquer pessoa deve ver. E se for estudante de cinema, deve ver uma vez por semana:

As Irmãs de Gion (1936)

Os 47 Ronin (1941-42)

A Mulher Infame (1954)

Os Amantes Crucificados (1954)

A Imperatriz Yang Kwei Fei (1955)

A Nova Saga do Clã Taira (1955)

  1. AS OBRAS-PRIMAS

Filmes magníficos, estupendos, merecedores de superlativos, que pouquíssimos conseguem fazer. Um deles é Mizoguchi, que ousou fazer 12 ainda melhores que estes:

A Decadência de Osen (1934)

Elegia de Osaka (1936)

Utamaro e suas Cinco Mulheres (1946)

O Destino de Madame Yuki (1950)

Senhora Musashino (1951)

Os Músicos de Gion (1953)

Indiretas e carapuças

mayhem

O facebook difundiu uma prática que desfere uns bons golpes no pensamento usando uma arma quase letal: a picuinha. O sujeito lê alguma coisa, fica sem coragem de iniciar ou entrar na discussão, ou com preguiça, e faz um post com uma clara indireta à pessoa que ele quer contestar no outro post, mas tem medo ou preguiça. Eu entendo muito bem a preguiça. Facebook é maquiagem, e contestar alguém em seu perfil significa borrar a maquiagem desse alguém, e não demorarão para surgir respostas de todos os tipos, cada vez mais distantes da verdade. Geralmente quem tem preguiça deixa passar, não faz nada e esquece o que leu depois de pouco tempo. Mas alguns preguiçosos se juntam aos intriguistas nas indiretas, alimentando esse círculo danoso de picuinhas facebookianas como quem vive de sentir prazer na provocação. Tenho lido tantas nos últimos meses, de tantas pessoas diferentes, que penso já ter virado moda. Faz parte do cotidiano dessas pessoas, que acordam pensando: “contra quem será a indireta de hoje?”.

Serei sincero: eu também gosto de uma fofoca. Não sou de ferro. Mas sempre que é possível contribuir para alguma discussão nas redes sociais, eu vou lá e contribuo, ou tento contribuir, mesmo sendo mal visto por muitos que se sentem acuados, sem motivo para tanto. O sentir-se acuado eu também entendo. O facebook, entre coisas boas e ruins, serviu para aumentar nossa paranóia, algo que as famigeradas indiretas contribuem bastante para manter a nível Parallax View (pode trocar por A Conversação, se preferir). Nada contra quem se sente acuado, tudo contra as famosas indiretas. Elas só servem para espalhar carapuças e dinamitar o pensamento.

(aliás, não vesti nenhuma das carapuças que estão no ar; o post, que também lança algumas carapuças, como efeito colateral, foi motivado puramente pela observação).