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Música e lágrimas (sobre Euphoria)

Texto escrito em junho de 2019 e engavetado por esquecimento.

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Creio já ter escrito, no antigo chip hazard, que música e pintura foram minhas primeiras paixões, antes do cinema.

A música veio antes. Minha mãe conta que desde bebê eu não parava de cantar. Depois vieram as paixões pela música do Roberto Carlos (fase dos anos 60), Beatles, Queen, Rolling Stones, heavy metal, progressivo, new wave, pós-punk, nessa ordem, para depois abrir para ainda outros estilos.

A pintura surgiu ainda na adolescência, porque minha mãe e minhas duas tias pintavam amadoristicamente e as três tinham a coleção de pintura da Abril Cultural que eu devorei na época.

O cinema sempre esteve à sombra dessas duas outras paixões, e quando passou na frente meio que foi um pouco influenciado por elas, de modo que uma música bem usada num filme ou um enquadramento com valor pictórico chamam minha atenção de pronto.

Tem, obviamente, o lado oposto dessa moeda. Se a música, mesmo quando excelente, é mal usada, o filme tende a cair na minha percepção, como é o caso do mau uso de “Fala”, dos Secos e Molhados, que puxa para baixo A História da Eternidade.

Qualquer dia elaboro uma lista com os que considero bons usos de grandes músicas no cinema. Por enquanto, chamou-me a atenção “Fly me to the Moon”, na versão de Bobby Womack, no segundo episódio da série Euphoria, da HBO.

Nessa série, as semelhanças com a obra de Larry Clark e seu sensacionalismo no trato com as inquietações adolescentes me afastavam, mas algumas coisas me atraíam. Não só Zendaya, que interpreta a protagonista Rue, mas sua irmã e sua mãe no filme são atrizes excelentes. As amigas adolescentes, em grande parte, fazem ótimas interpretações. Há, sobretudo, um traficante do bem chamado Fez, que cuida de Zendaya sem abrir mão de fazer algum dinheiro vendendo e comprando de gente muito perigosa.

Aí surge o clipe com a música de Womack, inserida num momento em que Rue tenta resgatar memórias de seu último ano para um exercício escolar. Uma sequência musical como essa, muito bem concatenada dentro da narrativa, levanta uma série que ia na corda bamba, entre um acerto tímido e o fiasco. Não chegou a me levar as lágrimas, como o título  do post, inspirado no título brasileiro de The Glenn Miller Story (Anthony Mann, 1954), pode sugerir. Mas reconheço sua beleza e a delicadeza na escolha da música.

A série, devo dizer, continuou na corda bamba até o fim [da primeira temporada, única que vi]. Gosto de algumas coisas e o episódio depalmiano do parque de diversões é excelente na direção, mas tem um lado sensacionalista que me incomoda bastante, sobretudo porque parece ser a intenção dos criadores mostrar o lado podre de ser adolescente.

Orgulho e Preconceito e Zumbis

O mundo se torna uma outra coisa quando, desde o século 19, os humanos já precisam lidar com zumbis. Muitas mulheres, por exemplo, já eram empoderadas pela necessidade de se proteger e dominar artes marciais para continuarem com seus cérebros. O fato de Pride and Prejudice and Zombies (2016) ser um filme de época, baseado livremente no famoso livro de Jane Austen (que Joe Wright filmara com sucesso em 2005), implica um orçamento maior, que provoca colateralmente a necessidade de planos surpreendentemente bem filmados, ao menos do ponto de vista da produção, já que ninguém será tolo de torrar uma grana numa produção tosca. Por esse motivo, a primeira metade, com a construção de um universo paralelo em que zumbis atacavam a Inglaterra vitoriana, é bem interessante, com sacadas boas como a das moscas que farejam carne morta com habilidade e se tornam armas importantes contra os mortos-vivos. Infelizmente, a conta do cinema de ação chega e o filme se torna enfadonho na segunda metade, porque já tem tempo que produtores e diretores acreditam que basta ter ação para entreter e chamar público, não precisa muita inteligência, ao menos não o tempo todo.

Vi três longas anteriores de Burr Steers. O melhor, sem dúvida, é Charlie St. Cloud (2010). O pior, Igby Goes Down, espécie de sucesso indie de 2002. Interessantes, mas não de todo satisfatórios, são este filme de zumbis e o mais conhecido dele, 17 Again (2009). O que surpreende em sua carreira é a habilidade de se mover em diferentes registros. Pride and Prejudice and Zombies é bem superior a diversos filmes recentes da moda, mas é evidente que um filme que tem zumbis no nome sofrerá preconceito de antemão. Os que gostam de filmes de zumbis não embarcarão no que o filme tem de melhor: a contextualização histórica  modificada para acomodar, dentro da ambiência requintada da nobreza do século 19, a ameaça dos zumbis. Os que gostam de dramas históricos serão ainda mais contrariados, pois não aceitarão a contaminação da seriedade por uma diversão inconsequente até certo ponto.

Top 20 de 2021

Neste segundo ano de pandemia, novamente a tarefa de elaborar a lista anual torna-se complicada. Isto porque prefiro limitar o escopo de filmes elegíveis a um denominador comum, seja o de estreias no cinema, ou cinema + streaming, para contemplar a nova realidade de muitas estreias. Como no ano passado adotei a lista de primeiras exibições comerciais, sigo neste ano.

Contudo, lembrar exatamente o que passou pela primeira vez em 2021 e o que eu só pude ver nesse ano nem sempre é fácil. Lembro, por exemplo, que vi Lua Vermelha na Mostra SP de 2020, logo, este filme que estreou em 2021 na Mubi torna-se inelegível. Já A Chorona, que teve exibição comercial na Mostra SP de 2019, teve também estreia comercial no circuito brasileiro em 2021. Torna-se elegível só porque eu não o tinha visto na Mostra? Ou perde a chance de entrar neste ano porque deveria ter entrado na lista de 2019? Optei por não colocar, até porque o ótimo diretor Bustamante está representado com outro belo filme.

A regra, então, é híbrida. Filmes que tiveram primeira exibição comercial em 2021 e filmes que estrearam nos cinemas (mas não no streaming), desde que eu não tenha visto em anos anteriores. É justo? Não sei. Mas é um modo de tornar a lista uma mistura de experiência pessoal com experiência coletiva. Ainda mais porque na minha lista de melhores de 2019 não entraram exibições em mostras e festivais.

Ano que vem, com as estreias no streaming sendo mais fiscalizadas pela cinefilia e os cinemas abertos graças à vacinação, provavelmente só serão elegíveis para minha lista de melhores de 2022 os filmes que tiverem exibições comerciais no país, em circuito ou streaming, durante o ano. Por enquanto, estamos ainda na exceção.

Mesmo com uma maior permissividade, a nota de corte deste ano foi ainda mais baixa que a do ano anterior, e provavelmente a mais baixa de todas as minhas listas anuais – pensando nos vinte melhores de cada ano, mesmo em anos em que a lista publicada tinha menos filmes (o vigésimo em minha cabeça seria bem superior ao vigésimo de 2021). Isso explica por que muitos filmes ausentes da lista têm níveis de qualidade semelhantes a outros que estão na lista.

1 – Capitu e o Capítulo (2020), de Júlio Bressane

Bressane, a seu modo peculiar, lê Machado de Assis e a literatura do século 19, mas pensa o cinema e a cultura brasileira dos séculos 20 e 21 no mesmo processo.

2 – Benedetta (2021), de Paul Verhoeven

O vulgar e o erudito num abraço cinematográfico típico do diretor. Seria Benedetta uma santa? Não importa. O que importa é que ela amava e sentia o prazer da carne.

3 – Crime Culposo (Careless Crime, 2020), de Shahram Mokri

Filme sobre muitas coisas, incluindo encenação e recepção aos filmes. Camadas de representações e uma tragédia sendo espiada ao fundo. Tão inteligente quanto perturbador.

4 – From Bakersfield to Mojave (2021), de James Benning

O melhor dos filmes recentes de James Benning, com um plano antológico com trens-serpentes.

5 – Cry Macho (2021), de Clint Eastwood

Filme de mestre, em tom menor, retomando motivos e inspirações.

6 – Undine (2020), de Christian Petzold

Melhor filme de Petzold junto com Yella.

7 – Um Dia com Jerusa (2020), de Viviane Ferreira

A poesia como motor do cinema. Os rios subterrâneos de São Paulo compõem belas memórias.

8 – Diários de Otsoga (2021), de Miguel Gomes e Maureen Fazendeiro

Provavelmente o melhor filme sobre pandemia. Não só: sobre fazer cinema e socializar numa pandemia.

9 – Tremores (Temblores, 2019), de Jayro Bustamante

Um dos filmes que mais cresceram em minha memória, do mesmo diretor do ótimo La Llorona (que passou na Mostra SP em 2019). Infelizmente, tem sido subestimado.

10 – A Crônica Francesa (The French Dispatch, 2021), de Wes Anderson

A história do meio é mais fraca. Benicio Del Toro arrasa na melhor história, a primeira.

11 – Eu Estava em Casa, Mas… (Ich War Zuhause, aber, 2019), de Angela Schanelec

Nunca pensei que a Escola de Berlin teria dois filmes em alguma lista anual minha.

12 – Zeros e Uns (Zeros and Ones, 2021), de Abel Ferrara

Outro filme forte de pandemia e um dos melhores recentes do diretor.

13 – Sanctorum (2019), de Joshua Gil

Gosto muito dos momentos à Herzog, em que o diretor compõe imagens bem fortes.

14 – Zimba (2021), de Joel Pizzini

Um exemplo de documentário biográfico.

15 – Sonhos de Damasco (Damascus Dreams, 2021), de Émilie Serri

Melancolia e revolta, esperança e luta (a seu modo), um belo canto à Síria que já existiu.

16 – Drive My Car (Doraibu Mai Ka, 2021), de Ryusuke Hamaguchi

Sinceramente, não vejo tudo isso no cinema de Hamaguchi. Este deve ser o melhor filme dele, mas tem problemas, como os outros.

17 – Memória (2021), de Apichatpong Weerasethakul

Do sempre endeusado Joe, um filme belo, instigante, com uma das melhores interpretações de Tilda Swinton. Mas está longe de ser genial como pintaram.

18 – No Taxi do Jack (2021), de Susana Nobre

Como trabalhar com questões profundas de forma simples.

19 – A Mão de Deus (É Stata la Mano di Dio, 2021), de Paolo Sorrentino

Enfim um filme bom desse diretor. E da Netflix, que costuma uniformizar bons diretores (mas pelo jeito melhora os maus).

20 – First Cow (2020), de Kelly Reichardt

A impressão que sempre tive é que a boa cineasta Reichardt poderia fazer um grande filme. Talvez este seja o começo do caminho.

Encerrando 2021 – Pt. 2: Zimba, Um Dia com Jerusa e outros filmes

Zimba (2021), de Joel Pizzini

Aparentemente, um documentário convencional sobre Ziembinski. Mas com Joel Pizzini, sempre há algo que foge ao convencional. Aqui, temos um zigue-zague cronológico dos mais interessantes, em que os caminhos criativos do ator e diretor polonês radicado no Brasil são pensados por meio de imagens de arquivo e recriações dos ensaios – e uma espécie de making of – da montagem original da peça Vestido de Noiva (1943), de Nelson Rodrigues.

Um Dia com Jerusa (2020), de Viviane Ferreira

É bem curioso este filme sobre as raízes negras do bairro do Bixiga, em São Paulo, por meio de algumas personagens que nele habitam, principalmente duas: Silvia, uma jovem que faz pesquisa de mercado para uma marca de sabão em pó, e Jerusa, a entrevistada que parece sabotar a ideia de pesquisa por responder sempre de maneira indireta, cheia de rodeios (alguns bem interessantes, aliás). Claro está que a jovem é uma má profissional, e por isso pode ser um ótimo ser humano, e dessa forma aprender com as histórias de Jerusa – como era o bairro, das paixões de juventude, do Saracura, um dos inúmeros rios subterrâneos da cidade – mesmo que de início ela nada queira.

Após um começo convidativo, surge uma cena em uma banca de revistas no Anhangabaú. Essa cena tem um desenrolar bem tolo, mas o final é curioso. Após o piti da possível cliente, ela se afasta da banca enquanto o dono, um oriental, espia a mulher de forma furtiva, deixando cair os jornais ao mesmo tempo. Uma coisa de burlesco, que lembra coisas do Takeshi Kitano, talvez propositadamente. Há também algo de Júlio Bressane na maneira como a música e as lembranças invadem a narrativa, como quando a jovem que entrevista Jerusa tem uma espécie de visão da senhora em sua juventude comemorando uma vitória da escola de samba Vai Vai, uma das instituições do Bixiga. Um Bressane apaziguado, decerto, palatável para uma plateia mais ampla, mas não é difícil pensar nessa filiação que pode até ser acidental, mas não menos bela por isso.

Obrigado, Carla Oliveira, por me lembrar de ver este belo filme.

Selvagem (2021), de Diego da Costa

Ficção a partir das ocupações das escolas públicas pelos estudantes secundaristas em 2015 (caramba, parece que foi há dois ou três anos!). Selvagem tem uma série de problemas de mise en scène e, principalmente, de montagem, mas algumas ideias de realização nos entregam coisas como uma troca de olhares entre dois adolescentes apaixonados, que nos tocam também pela delicadeza de olhar da direção. Num filme de adolescentes, os adultos estragam com suas frases feitas. Os pais destoam totalmente, incluindo o típico fascista de classe média. Os professores parecem existir apenas como acessórios. Atuações amadoras de adolescentes são bem mais digeríveis do que personagens adultos mal desenvolvidos. E o filme encontra alguma beleza com os adolescentes.

Má Sorte no Amor ou Pornô Casual (2021), de Radu Jude

O mais interessante neste novo longa de Radu Jude é acompanhar as deambulações da protagonista por Bucareste em tempos de pandemia. Depois de 20 minutos, cansa um pouco. Mas o filme muda totalmente a narrativa quase aos 40 minutos, tornando-se temporariamente algo muito solto que Radu procura amarrar de maneira postiça, ou seja, uma narrativa livre, ou uma não-narrativa. Colagem frágil de motivos, piadas, provocações. No terceiro movimento, o mais “cinema romeno do século 21”, vemos uma discussão entre os professores, diretores e pais de alunos de uma escola sobre o que fazer com a professora que teve o video sexual com seu marido vazado na internet (as imagens explícitas que vemos no início e vamos rever parcialmente durante o debate). O filme se encerra com um truque tolo: três finais possíveis.

Se é sobre a história da Romênia de 1989 até hoje, envolto em uma parábola sobre sexo, a coisa obviamente desandou. Se liga a queda de Ceausescu à pandemia, penso ser até mais pueril. E se é só uma piada, como o próprio filme insiste tanto em sugerir, é uma piada sem graça alguma. O que ele pretendia ou não, importa pouco ou nada. A questão é que o filme parece girar em falso quase o tempo todo. E os trechos de sexo explícito, que num filme de Júlio Bressane funcionam muito bem, aqui parecem apenas elementos para chocar ou pregar artificialmente uma certa libertinagem contra os conservadores asquerosos que debatem no final.

A Última Noite no Soho (Last Night in Soho, 2021), de Edgar Wright

Em Algum Lugar do Passado com Meia Noite em Paris, pegando o mais superficial dos dois e desenvolvendo de modo pouco inventivo (sonhos, espelhos, bullying no curso de moda). É uma espécie de sonho invertido da swinging London dos anos 1960, uma descida ao inferno do Soho para mostrar o que havia por trás da busca de jovens moças pelo estrelato. O horror vai contaminar tudo na segunda metade. Não é um bom filme, mas Edgar Wright sofre mais com isso porque não caiu nas graças do autorismo, alvo dos tomates que deveriam ir em maior número para filmes de autores consagrados (Annette e The Card Counter, por exemplo).

Imperdoável (The Unforgivable, 2021), de Nora Fingscheidt

O que System Crasher, o filme anterior da diretora alemã, tem de superestimado, este seu novo trabalho, rodado nos EUA, tem de subestimado. O engraçado é que, na real, não acho nenhum deles grande coisa. Ambos têm certo interesse na premissa e um desenvolvimento irregular. Este é mais redondinho na comunicabilidade, como um típico enlatado da Netflix, ajeitado com cuidado para um grande público, com uma série de não ditos que qualquer espectador saberá completar. É o que faz com que seja fácil vê-lo até o fim, mas é também uma limitação.

Meu Nome é Bagdá (2020), de Caru Alvez de Souza

Confesso que esse modo de filmar já me cansou há uns dez anos. Essa ideia da câmera viva me parece uma bobagem que no cinema brasileiro parece longe de acabar, infelizmente. Resta-me torcer para que alcance o máximo de suas possibilidades. Em Meu Nome é Bagdá, há algo bem interessante quando o naturalismo ultrapassa suas limitações e capta algumas conversas como se a câmera estivesse escondida (o sonho de todo naturalismo, mas raramente alcançado). A interação entre os skatistas e entre Bagdá, jovem que não adere à ordem binária da sociedade, e os adultos ao seu redor, por exemplo, alcança momentos bem bonitos. Gosto bastante dos momentos breves de videoclipe, com os jovens andando de skate em câmera lenta e um jazz moderno de fundo, belas fugas do naturalismo (algumas poderiam ser mais longas, aliás) e é bacana que o filme termine com um desses momentos. O movimento anti-patriarcado é sempre bem-vindo, e o confronto no final com o rapaz abusador da turma é forte e bem levado, mas cenas como a da batida policial são tolas – tratar policial paulistano como um ignorante preconceituoso, grosseiro e violento é a coisa mais óbvia de se fazer para nos deixar revoltados. Não era necessário isso para sentirmos empatia por Bagdá. Há outro momento canhestro com os jogadores de futebol, mas a diretora o salva com a fantasia.

Por esses motivos e pelas sequências de festa (que parecem um genérico de sequências semelhantes em filmes jovens dos últimos anos) não posso dizer que o filme é de todo bem resolvido. Aliás, essa estética geralmente me soa muito calculada para parecer que não é calculada. Isso acontece com alguma frequência no cinema contemporâneo. Tendo a preferir o cálculo assumido do rigor de estilo como modo de observação e contemplação das coisas. Obviamente é possível fazer ótimos filmes com essa câmera solta, mas tem sido bastante raro.

Curso: O Sonho de Fellini

Diretor que se tornou adjetivo, Federico Fellini esteve na linha de frente do neorrealismo italiano, antes de se tornar um dos autores mais conhecidos da história do cinema.

O presente curso procura entender o percurso desse visionário artista por meio de um entendimento de sua própria evolução dentro do cinema italiano, naquela época em que os grandes diretores surgiam aos montes no país.

Passaremos por todos os filmes que Fellini dirigiu, e nos deteremos nos mais importantes, analisando-os à luz de autores e historiadores que investigaram sua obra.

1 – Com as tintas do realismo.

– Dos primeiros passos no roteiro à estreia na direção.

– A consolidação com Os Boas Vidas e A Estrada.

– Despedindo-se do neorrealismo com Noites de Cabíria.

2 – O reconhecimento de uma autoria

– Nasce um outro Fellini: A Doce Vida

– Nasce o Fellini dos sonhos: Oito e Meio

– Desbravando a crise criativa: Julieta dos Espíritos.

3 – Fellini, o iconoclasta

– De Satyricon a Roma, os filmes irmãos de uma cidade imaginária.

– O autor que vira adjetivo: Amarcord e Casanova.

– Contrapontos emotivos: Os Palhaços, Ensaio de Orquestra.

4 – A maturidade de um louco.

– O controverso Cidade das Mulheres.

– A última obra-prima: E La Nave Va

– Vendo o passado com ternura: Ginger e Fred, Entrevista.


O QUE: curso O SONHO DE FELLINI

QUANDO: de 27/01 a 17/02, quintas-feiras, das 19h às 22h – Carga horária total: 4 encontros – 12 horas

QUANTO: R$160,00 (1 parcela) curso (ou R$80,00 por aula)

ONDE: plataforma online – ZOOM

COMO (telefone corrigido):

inscrições pelo (24) 992 566 532 ou e-mail escolaculturalpetropolis@gmail.com

Encerrando 2021: Benedetta, A Chorona, Sanctorum…

Benedetta (2021), de Paul Verhoeven

Dentro de uma perspectiva mercadologica, Verhoeven vai do gosto baixo ao gosto alto, de Jesus Franco a Dreyer, sem passar pelo gosto médio. É por isso que ele põe abaixo essa perspectiva e desconcerta um público que se ofende com tudo, mas não costuma se desconcertar com nada, pois o desconcerto se tornou parte do “circuito de arte” (essa expressão lamentável que Verhoeven torna sem sentido mais uma vez). Ainda não é um retorno à sua melhor forma, mas já dá para ficarmos mais esperançosos.

A Chorona (La Llorona, 2019), de Jayro Bustamante

Neste impressionante longa guatemalteco, o primeiro plano mostra uma senhora rezando. A câmera lentamente se afasta revelando outras mulheres ao redor, numa espécie de ritual. Esse mesmo procedimento será repetido algumas vezes no filme. Pode significar que Bustamante está falando de algo mais amplo do que uma história de feitiçaria. Quando essa abertura temática fica evidente, até pelo desenvolvimento da trama, ele faz o procedimento inverso, com a câmera se aproximando aos poucos de personagens que conversam, como se quisesse estudar esses burgueses contraditórios de visão fantasiosa do mundo.

De fato, os problemas de seu país são desnudados nesta trama que alia força estética à crítica política e social. A família de Enrique Monteverde (Julio Diaz), um ex-ditador acusado de genocídio do povo indígena (inspirado no ditador real Efraín Ríos Montt), é tratada com uma impressionante profundidade, em que a culpa burguesa pode dar os braços ao preconceito e ao medo do comunismo como em boa parte das elites mundiais. A interpretaçao de Julio Diaz é impressionante. Seu personagem por vezes parece realmente doente, em outras está perfeitamente são. Nas duas situações, ele fuma e persegue mulheres. Vale destacar todo o elenco, na verdade: a esposa de Enrique, a filha politicamente consciente (ou em vias de se tornar) e ao mesmo tempo temerosa de abandonar a boa vida burguesa, a empregada que desencadeia a vingança, a chefe das empregadas, até mesmo as crianças estão muito bem.

Num país com pouca tradição cinematográfica, embora tenha um primeiro filme de ficção já em 1912 e um sucesso autoral em O Silêncio de Neto (Luis Argueta, 1994), além de uma produção mais frequente na última década (Bustamante, aliás, é um dos responsáveis por isso), é impressionante que A Chorona seja filmado como se fosse de um veterano dos anos 1960, quase como um Marco Bellocchio latino-americano.

Tremores (Temblores, 2019), de Jayro Bustamante

Quando um homem de meia idade se assume homossexual, desestablizando a família e o meio em que vive, algumas reações homofóbicas surgem, mas também reações de despeito que se transformam temporariamente em homofobia. A surpresa da revelação pode fazer estremecer um ambiente construído dentro da lógica patriarcal heterossexual, o que tende a mudar no futuro com as novas configurações familiares tornando-se mais frequentes e conhecidas. Mas o diretor nos insere num ambiente evangélico, com suas crenças e preconceitos (como em qualquer comunidade muito religiosa e, por isso, limitada pelo fanatismo). Isto é o que move este Tremores, um longa quase tão bom quanto A Chorona, e que já mostrava, meses antes na cronologia oficial de primeira exibição pública, o cineasta como um nome a ser seguido.

Bustamante filma bem (pecado para parte da cinefilia) e filma a burguesia (outro pecado). Não qualquer burguesia, vale repetir, mas a burguesia evangélica e a ideia absurda de “cura gay” que transforma o protagonista em um zumbi. Se 50% do que narra em seu filme for real (quero dizer, não algo exagerado cinematograficamente), a sociedade guatemalteca é ainda mais podre que a brasileira, o que nos diz muito do que pode acontecer se o fascismo obscurantista continuar no poder por aqui.

Zeros and Ones (2021), de Abel Ferrara

Em This Sporting Life, o próprio Ferrara, num filme ensaio em formato diário, mostrava a Roma que adotou como morada totalmente deserta por causa da pandemia. Agora, faz um thriller dos mais estranhos e pós-apocalípticos num mundo de incertezas, rodado na mesma Roma deserta e escura. É um dos filmes mais enigmáticos de Ferrara. Seu maior parentesco é com New Rose Hotel, mas há diálogo com seus últimos filmes, sobretudo Siberia.

Sanctorum (2019), de Joshua Gil

Muito forte quando vai para a abstração dos planos hipnóticos à Herzog, ora causada pela distância e ângulo da câmera, como numa cena de execução, ora pela própria natureza e seus segredos; um tanto tocante, mas também mais próximo do comum quando está próximo das pessoas, exceto por alguns momentos que lembram o cinema de Apichatpong. De todo modo, um filme cheio de ideias, como se fosse uma estreia (mas é o segundo longa para cinema do diretor, após alguns telefilmes).

Marighella

Os modelos de Wagner Moura para a realização deste filme, confessos ou inconfessos, foram os dois longas Tropa de Elite, o cinema dos irmãos Dardenne e o cinema de fluxo. Penso como seria se os modelos fossem O Traidor, de Marco Bellocchio ou o cinema político italiano dos anos 1970.

Moura parece acreditar que a melhor maneira de inserir o espectador dentro de uma ação é colocando-o no meio da cena, usando para isso uma câmera na mão, movendo-se trôpega e indecisa mesmo quando a cena implica apenas em observação calculada de alguma situação, como acontece logo no início, um pouco antes de vermos o protagonista entrar no cinema onde será baleado.

Fico me perguntando se alguém, diante de uma situação dessas, prefere chacoalhar a cabeça ou realizar com ela vários movimentos horizontais, como se estivesse tentando tirar água dos ouvidos ou balançando ao som de um rock. Penso que essa maneira escolhida para a direção de Marighella seja a menos realista possível, pois reflete muito mais uma orientação modificada por alguma substância do que pela nossa observação real do dia a dia. Nosso campo de visão é maior que o campo de visão de uma lente, mesmo que seja uma grande angular. Logo, não faz sentido colocar o espectador no meio de uma ação (exemplo: a cena do assalto ao banco) se a visão dele for muito mais prejudicada do que seria a de uma testemunha qualquer. Mas essa balela da sensação real é muito difundida atualmente, e a câmera no tripé é confundida com academicismo por muita gente, cinéfilos e profissionais de cinema que parecem desconhecer 90% da história do cinema.

A estética de Marighella é que pode ser chamada de acadêmica, já que é o beabá da realização cinematográfica e televisiva há pelo menos uns vinte anos. Privilegia o corre-corre no lugar da observação, a sensação no lugar da reflexão, a sujeira no lugar da limpeza. Com a exceção do primeiro binômio, e mesmo assim parcialmente, todas as outras escolhas não são necessariamente ruins, mas tornam-se ruins quando parecem as únicas saídas de direção, seja quando os personagens correm ou fogem, seja quando observam ou pensam, ou ainda quando tais escolhas submetem a ação a uma confusão física e mental. É precisamente o que acontece aqui.

Temos uma câmera mal pensada e mal operada por cerca de duas horas e meia. Temos ainda slogans saindo da boca de personagens (alguém devia ter avisado que o momento da aula – “não é revolução, é golpe” – é ridículo), montagens paralelas que promovem dualidades óbvias e atores mal aproveitados. Um desastre completo? Quase. Em alguns momentos, Bruno Gagliasso consegue driblar a caricatura de seu personagem vilanesco e atingir algo mais complexo. Adriana Esteves entrega alguma dramaticidade e Seu Jorge, ao contrário do que muito se disse, não compromete. Wagner Moura foi parcialmente bem sucedido ao evitar o maniqueísmo, embora a pobreza e obviedade dos diálogos lute contra e a ambiguidade surja apenas em raros momentos, sufocada pelo retrato dos militares como sádicos, covardes e ignorantes (o que são, de fato, como provou o brasil de bolsonaro), mas artisticamente uma nuance mínima que seja seria bem-vinda.

Existe um único momento em que a opção pela câmera no meio da ação é bem-sucedida, tanto pela opção em si quanto na execução: no tiroteio que acontece bem na metade do filme, em que Marighella surge para ajudar os revolucionários perseguidos pelos fascistas. A sequência ainda termina com um suicídio impressionante, que me lembrou um assassinato de Os Infiltrados, de Martin Scorsese. Por fim, os momentos de quebra da quarta parede são interessantes também.

É pena que um filme tão importante, lançado num dos diversos momentos em que o país abraçou o fascismo sem precisar tapar o nariz, seja tão irregular política e esteticamente.

Breve balanço da 45ª Mostra SP

Diários de Otsoga

Já tem uns dez anos que meu envolvimento com a Mostra SP não é o mesmo. Algo se perdeu nessa relação. O cinema, decerto, não é mais o mesmo. O mercado fala mais alto, e com isso os filmes se tornaram cada vez mais planejados dentro de esquemas de venda, seja para festivais pelo mundo, seja para um tipo de circuito e até para as plataformas de streaming, cada qual com seus vícios. Para aumentar ainda mais o meu desinteresse, programaram um monte de sessões exclusivamente presenciais com a pandemia de Covid-19 ainda em curso, e num momento perigoso, quando todos parecem estar relaxando nas medidas de segurança, até mesmo, pelo que me disseram, algumas salas de cinema (o Belas Artes – novamente, pelo que me informaram – teria sido a campeã do desrespeito aos protocolos da pandemia, enquanto o Cinesesc foi o que mais levou a sério). Li que a intenção da mostra era fazer uma programação inteiramente em formato híbrido, com sessões presenciais para alguns filmes e online para todos os filmes selecionados. A ideia era ótima e seria uma baita bola dentro da organização, para além da dificuldade de se levantar um evento desse porte em tempos como estes e num país como este. Alguns produtores irresponsáveis, contudo, não quiseram ceder seus filmes para exibições online, e por isso esses filmes foram exibidos unicamente em salas de cinema. E quando se chama o público para as salas, com cinéfilos o dia inteiro vendo filmes, como esperar que todos usem máscaras o tempo todo? Houve fiscalização dentro das salas com as sessões em andamento? Creio que não.   

Claro, a covid-19 é só um fator. Há aquele esboçado no início, do nível dos filmes. Como explicar, por exemplo, que um filme terrível como o novo de Nadav Lapid, Ahed’s Knee, seja visto como um dos melhores de toda a programação? Seria o caso de delírio coletivo? Ou as viradinhas na câmera, à Xavier Dolan, teriam entrado na moda? Outro delírio parece ter sido com Mia Hansen-Love, cujo cinema coxinha (quase tanto quanto o de Olivier Assayas) parece agradar justamente aqueles que viviam rotulando todo mundo de coxinhas (até que alguns desses coxinhas viraram fascistas no decorrer da década passada). Bergman Island tem ingredientes na medida certa para agradar a cinefilia burguesa que interrompe tudo para acompanhar a mostra. Mas não passa disso, um filme burguês e razoável para quem quer parecer inteligente, uma versão melhorada do abominável A Grande Festa do Cinema (2012), com o qual Raya Martin esgarçou os limites do arrivismo cinematográfico. Titane é delírio de Cannes que virou delírio na Mostra, mas isso já era esperado. Escrevi sobre o filme de Julia Ducournau para o Leitura Fílmica. Tem ainda o inventário de fofuras cinematográficas da Geórgia, o irregular What do We See When We Look at the Sky, de Alexandre Koberidze, que sofre também de um exagero em sua duração (150 minutos). Poderia ter uns 30 ou 40 minutos a menos se eliminasse boa parte de suas firulas paparicadoras de plateias cansadas de tanto filme duro de festival. Sobre Annette, já disse tudo que queria no Leitura Fílmica.

Do outro lado, algumas surpresas. Ana Katz surge com seu melhor filme até aqui: O Cão que Não se Cala, uma espécie de premonição da Covid disfarçada de elogio ao homem comum. Miguel Gomes se une a Maureen Fazendeiro para fazer o belo Diários de Otsoga (texto no Leitura Fílmica), diário com a “cronologia invertida” que, graças a essa estratégia, se torna um filme original sobre a pandemia. Inácio Araujo o chamou de experimento radical. Mas não vejo esse radicalismo no filme. Vejo algo mais lúdico, simples, agradável de se ver como nenhum filme de Miguel Gomes havia sido (nem Tabu e Aquele Querido Mês de Agosto). Também de Portugal, a surpresa incompreendida No Taxi de Jack, de Susana Nobre, é muito mais valioso do que muitos filmes inflados que pude ver (alguns eu vi porque foram inflados) na programação. O filme fala de coisas profundas de um modo simples, mas muita gente entendeu como dependente de um personagem, o que discordo totalmente. Aliás, acho um ótimo personagem o do taxista, mas o filme fala de outras coisas, procura outros entendimentos sobre o ser português e as condições do exilado, que não necessariamente passam pelo personagem.

Outros filmes interessantes, mas nem tanto, ou não tão surpreendentes são: Azor, de Andreas Fontana, uma espécie de Costa-Gavras com momentos de Marco Bellocchio, embora o primeiro prevaleça; Wheel of Fortune and Fantasy, de Ryusuke Hamaguchi, superior ao anterior dele, Asako I e II, mas ainda insuficiente para justificar tamanho endeusamento desse cineasta; o tocante longa romeno Întregalde, de Radu Muntean, que traz um senhor senil para compensar a estupidez do outro personagem masculino; o irregular, mas com momentos bem curiosos, Eu Era Um Homem Comum, de Christopher Makoto Yogi; e o português Listen, de Ana Rocha de Sousa, uma espécie de Ken Loach revigorado.

Não pude ver alguns filmes de grande importância como Memória, de Apichatpong Wheerasethakul, Marx Pode Esperar, de Marco Bellocchio, entre outros. Gosto sempre de ver alguns brasileiros da programação, mas neste ano não consegui ver nenhum. Também não pude rever os filmes do grande Paulo Rocha, mas pelo que me disseram, não foram bem programados, recebendo aquele tipo de desleixo que costuma acontecer com os filmes de retrospectiva nas últimas edições. Com tanta oferta de filmes em tantos festivais online e canais de streaming, contudo, a ansiedade da cinefilia já não faz mais sentido.

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*** Para alguns comentários rápidos sobre os filmes vistos na Mostra visitem o meu perfil no letterboxd.

Cry Macho – Por Carla Oliveira e Sérgio Alpendre

Cry Macho – O Caminho para a Redenção (Cry Macho, 2021), de Clint Eastwood

Todo mundo ama cowboys e palhaços

Por Carla Oliveira e Sérgio Alpendre

Em Menina de Ouro (2004), o treinador de boxe vivido por Clint Eastwood confessa à  atleta pela qual desenvolveu sentimentos paternais que poderia encerrar sua vida sendo proprietário de um restaurante de beira da estrada semelhante ao que ela o levou para provar uma torta de limão em meio a uma viagem pelas estradas estadunidenses na qual seus laços são estreitados. Na obra-prima As Pontes de Madison (1995), seu personagem, um fotógrafo errante e solitário, apaixona-se por uma mulher que lhe indica um caminho em meio à sua jornada, dança enamorado e faz planos de passar o resto de sua vida com ela. Trocando a especialidade da casa de torta de limão por tamales e as canções de jazz na voz de Johnny Hartmann pelo bolero “Sabor a Mi(interpretado por Eydie Gormé, junto ao grupo mexicano Los Panchos), podemos dizer que, em Cry Macho, o personagem vivido por Clint Eastwood encontra um destino feliz.

Já nos anos 1960, antes de se tornar diretor, Eastwood construiu uma persona cinematográfica sólida, que procurou sistematicamente desconstruir com personagens fragilizados por algum motivo (Josey Wales, 1976, Bronco Billy, 1980, Firefox, 1982, Dívida de Sangue, 2002) ou de forte sensibilidade artística (Honkytonk Man, de 1982, servindo também como exemplo de fragilidade), ao mesmo tempo em que, movido talvez por um sentimento de criar um filme contra o outro, fortalecia a persona do homem sem nome e com passado sombrio em filmes como O Estranho Sem Nome (1973) ou Cavaleiro Solitário (1985). Nos anos 1990, ficou famoso o choro de seu personagem em Na Linha de Fogo (Wolfgang Petersen, 1993), e a desconstrução definitiva chegava com As Pontes de Madison.

Cry Macho, ao carregar características de personagens passados vividos pelo astro, é mais um filme-súmula do cineasta. Seu protagonista, Mike Milo, é viúvo, como o Will Munny de Os Imperdoáveis (1991) e o Kowalski de Gran Torino (2008). Do mesmo modo que o Frankie Dunn de Menina de Ouro, Milo também é um protagonista sem futuro, um fantasma esperando o momento de morrer. Como o jornalista Steve Everett de Crime Verdadeiro (1999), Milo também se encontra em descrédito na sua profissão. É craque nos cavalos, como em Bronco Billy. Se dá bem com animais, a exemplo do Philo Beddoe de Doido para Brigar… Louco para Amar (James Fargo, 1978) e Punhos de Aço (Buddy Van Horn, 1980). 

Como outros personagens constituintes da complexa persona cinematográfica eastwoodiana, Milo é assombrado por fantasmas do passado. Era campeão de rodeio e teve um acidente que o afastou das arenas, conforme nos informam os quadros em sua parede. De sua vida pessoal, sabemos, por ele mesmo, numa bela cena noturna dentro de uma pequena capela, que teve uma esposa e um filho, ambos falecidos em um acidente de carro. Ele conta, com a voz embargada de incontida emoção, que bebeu muito para superar, e teve sua vida de volta quando o organizador de rodeios Howard Polk (o cantor Dwight Yoakam) o transformou em campeão.

Tempos depois, vivendo sua velhice com certa liberdade, sem “nada que valha a pena ser roubado”, mas solitário e sem grandes perspectivas, é procurado por Howard, que precisa de alguém para buscar seu filho no México. O menino, agora com 13 anos, estaria sob a guarda da mãe, uma caricatura de gangster latina que não deixa ele visitar o pai nos EUA. Por que um senhor de 90 anos seria a figura ideal para essa missão? Porque Howard conta com o imaginário do menino, que pode ser seduzido pela ideia de ser um autêntico cowboy (“everybody loves cowboys and clowns”, dizia a música em Bronco Billy na voz de Ronnie Milsap).

Milo atravessa com facilidade a fronteira entre os Estados Unidos e o México e percorre uma longa distância até chegar na capital do país, onde vivia o filho de Howard. Este percurso, traçado por ele de forma solitária, não parece ser transformador e nem mesmo divertido, como era para Earl, personagem de A Mula (2018), que cruzava a fronteira mexicana para transportar drogas ilícitas. O road movie, por excelência, desenvolve-se no trajeto de volta, quando Milo conta com a companhia do adolescente que deve conduzir aos EUA e do seu galo de briga Macho. Rafael se apresentou a Milo como um menino rebelde, desamparado, sem amor parental e vítima de abusos físicos praticados por um dos capangas de sua mãe. A estrada será para ele um espaço de amadurecimento e de desenvolvimento de intimidade em suas relações. Milo não lhe entrega seu chapéu de cowboy em um primeiro momento. Rafo, no princípio, trapaceia e até furta um carro. Lembramos de peripécias semelhantes cometidas pelo tio e o sobrinho em Honkytonk Man e mesmo entre o menino e seu sequestrador em Um Mundo Perfeito (1993).

O ponto de virada para Milo, no entanto, vai se dar quando ele decide fazer uma parada em uma pequenina cidade mexicana para tomar um café. Entra no restaurante de Marta, uma viúva que vive com suas netas. Ela havia perdido seu marido, filha e genro para uma doença infecciosa. Imprevistos fazem com que Milo, Rafo e Macho permaneçam mais tempo nesta localidade perdida. A relação de Milo com Marta e suas netas se estreita, e um dos maiores trunfos do filme é fazer-nos perceber esse estreitamento pela relação entre os olhares de Milo e Marta, como também da pequena neta com deficiência auditiva. Milo encontra um cavalo a ser domado e ensina a Rafo a sua arte. Sua proximidade com os animais faz com que vários moradores o procurem para obterem conselhos sobre as doenças de seus bichos. É quando Milo brinca que o estão confundindo com o Dr. Dolittle. Ele entende que poderia viver para sempre neste lugar, mas segue seu caminho até a fronteira para cumprir a missão de entregar Rafo a seu pai, sabendo, neste momento, que o interesse de Howard pelo menino é financeiro (quer barganhar ganhos da antiga sociedade com a mãe).

Cry Macho é um dos filmes mais simples entre todos os que Eastwood dirigiu. Essa simplicidade, contudo, não deve ser vista como um sinal de uma suposta falta de interesse, mas como uma vontade de ir à essência das coisas – a vida no campo, a proximidade com os animais, a revitalização por uma mudança radical (mudança de país, a constituição de uma nova família). Mesmo os obstáculos são facilmente transponíveis, sem as complicações que as tramas (ou os roteiristas) costumam inventar para amplificar conflitos e causar tensão nas plateias. Quase podemos dizer que o principal conflito de Milo é consigo mesmo, e ao que parece ele já está prestes a superá-lo mesmo antes de receber a missão. Obviamente a lembrança, a necessidade de voltar ao assunto, traz à tona velhos traumas, mas isso acontece com qualquer ser humano. Nossas dores podem ser superadas, mas jamais serão apagadas. 

Simplicidade, aliás, sempre foi a tônica de Eastwood quando se trata de filmar. Cineasta da economia, de uma salutar preferência pela espontaneidade e por fazer poucas tomadas, Eastwood continua mestre na arte da concisão, por mais que seus detratores (mesmo que de parte de sua obra) pensem que esse é um atalho normalmente usado para salvar seus filmes mais fracos de um julgamento negativo. A concisão do cineasta está na maneira como ele domina o ritmo, algo que não está no roteiro, mas numa consciência do tempo de cada plano. Ajuda que Joel Cox seja seu montador mais frequente, aquele que melhor entende a linguagem eastwoodiana, e consiga cortar quase sempre no tempo certo, ajudando seus filmes a evitar ao máximo excessos sentimentais e o caos coreográfico nas poucas cenas de ação.

O galo de rinha Macho é o destaque nestas cenas de ação. É ele quem desfere o golpe contra o capanga enviado pela mãe na busca por Rafo. Milo até havia dado um soco no estereotipado personagem, mas sua expressão corporal é combalida, seu caminhar é envergado. Ele encontra a oportunidade de ensinar a Rafo que aquilo de ser macho é superestimado. Desiludido com a imagem dos pais, o menino, sem muitas expectativas, decide que quer se arriscar e cruzar a fronteira. Faz isto a pé e recebe, em terras texanas, um abraço desajeitado do pai. Há um lugar no norte mexicano onde ele sabe que será bem-vindo, o acolhedor restaurante onde dançam Marta e Milo.

* texto anteriormente publicado no zinematógrafo #30 (outubro de 2021)

Olhar de Cinema 2021: Kamal Aljafari

Não conhecia os filmes do palestino Kamal Aljafari e me surpreendi ao encontrar um cinema de estética rigorosa, olhar arguto histórica e politicamente e uma boa capacidade de estruturação narrativa, incluindo aí um tipo de humor que tem ligeiro parentesco com o de seu colega palestino mais famoso, Elia Suleiman, embora seja menos provocativo, ainda que igualmente politizado.

Já no primeiro curta, Visite o Iraque (2003), Aljafari alcança humor e comentário político somente pela concatenação das entrevistas com moradores de um bairro em Genebra, sem a necessidade de explicitar seu viés por meio de narração ou letreiros, como tanto vemos no cinema contemporâneo.

O primeiro longa, O Telhado (2006), tem uma pegada mais contemporânea. Documentário observacional sobre questões como sentir um lar, que toca fundo em todo palestino e será o mote principal do cinema desse diretor. Os tempos, as angulações de câmera, as paredes, as ruas e os rostos compõem um painel de um não pertencimento. Sentimos o cotidiano pesado, a falta de perspectiva que não impede um resquício de esperança. Lembra um pouco, no tom e no desejo de entender seu contexto e como ele afeta as pessoas, o cinema brasileiro dos últimos anos.

Se o curta Varandas (2007) parece um tolo e arbitrário exercício em split-screen, o segundo longa, Porto da Memória (2008), é a cristalização da consonância entre tema e estilo no cinema de Aljafari. É o filme no qual os muros de seu cinema encontram os melhores ecos nas pessoas e no que elas falam. Trata-se de ter uma casa, numa primeira instância, e de ter um lar, num sentido mais amplo e apropriado, já que estamos em Jaffa, outrora uma cidade palestina, engolida pela israelense Tel-Aviv em 1950. O sentido de lar encontra num gato sua melhor expressão. Folgado em cima do pequeno terminal que está sobre o aparelho de TV, ele parece reagir às imagens de um filme religioso, o rabo batendo na tela e uma das patas caindo para cima da imagem. Momento singelo de um animal que gosta de ocupar pequenos territórios, apossando-se deles como os palestinos não podem fazer. Uma imagem símbolo do cinema desse cineasta.

De repente, um videoclipe se funde à trama, numa das sequências mais belas do cinema recente. Mas não é a única fusão entre imagens de fontes diferentes. Um filme de Chuck Norris (Comando Delta, do palestino Menahem Golan, 1986), rodado parcialmente em Jaffa, é exibido, primeiro na TV, acelerado, depois ocupando toda a tela, mostrando como Hollywood se serviu de um território para mostrar seus habitantes como vilões. Pela inteligência na apropriação de outras imagens dentro de um registro ficcional e documental ao mesmo tempo, Porto da Memória é o ápice do cinema de Aljafari até hoje.

A excelência de Porto da Memória faz Recordação (2015), seu longa seguinte, ser um tanto decepcionante, embora esteja longe de ser indigesto. Apropriando-se de imagens de filmes rodados em Jaffa, tornando-as fragmentárias, dentro de um formato mais experimental (no sentido básico mesmo, de experimentar com essas imagens), Aljafari não consegue dar um sentido maior à colagem em relação ao que ele já tinha mostrado antes: a representação de Jaffa, antiga cidade palestina, agora reduto palestino da cidade de Tel-Aviv, nas telas de cinema. Os momentos videoclipe e filme de Chuck Norris fundindo-se na narrativa de Porto da Memória dizia, de forma muito mais sucinta e poética, tudo que tenta este aqui em seus setenta parcialmente silenciosos minutos de duração. Na verdade, o melhor de Recordação está nos créditos finais, quando um belo e autobiográfico poema em prosa vai subindo na tela indicando as passagens dos outros filmes com lugares e pessoas que contavam sua história e a de seus antepassados.

Em seus dois últimos filmes, Aljafari investiga a captação. No curta It’s a Long Way to Anphioxus (2019), as pessoas que esperam algo que nem elas sabem o que é testemunham a dominação dos números, do digital. O cinema já era quase totalmente digital em 2019, da captação à exibição. Mas a que custo? O digital é fugidio, e por isso engana. No longa Um Verão Incomum (2020), o diretor aproveita a ideia de usar imagens de uma câmera de segurança para fazer cinema mudo. Na verdade, faz uma espécie de longa equivalente às vistas de Lumière. No lugar de um minuto, oitenta (curiosamente, é o filme mais longo de Aljafari). Nesse sentido, é um retorno de mais de 120 anos o que promove este diretor, mas na contramão do revisionismo kitsch de um Guy Maddin. O vídeo parece sujo, coisa dos anos 1990, cinema regressivo. As imagens seriam de 2006 e o cineasta aproveita também para fazer humor (com o homem das camisas azuis, por exemplo). É um filme curioso, centrado num conceito que ele explora até se esgotar. Porém, ao contrário do que acontece em Recordação, o poema autobiográfico em prosa que o encerra não joga a favor.

Já o cinema de Kamal Aljafari parece longe de se esgotar. Ele trabalha em duas frentes: o imprevisível e a repetição, com os dois últimos longas tendendo duplamente à repetição, tanto por um repetir o procedimento do outro como pelas escolhas internas de cada um. Outras dualidades aparecem: os números e as letras, a plasticidade e a sujeira nas imagens, o político e o banal, o desafiador e o ultrajante – por vezes um em decorrência do outro. Sempre sob um risco que por vezes o atropela. Mas é mais interessante, sempre, o artista que se arrisca.