Olhar: Dia 3 – A Noite Amarela

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O 3º dia do Olhar de Cinema em Curitiba foi o dia da primeira exibição de A Portuguesa no Brasil. O novo longa de Rita Azevedo Gomes impressionou quem não a conhecia e também quem já acompanhava, pelo zum-zum-zum pós-sessão (conversei com algumas pessoas e meu sentido radar costuma ser bom para captar reações de estranhos).

Sobre esse filme que eleva e muito o sarrafo do cinema contemporâneo neste ano (se estrear no Brasil, é forte concorrente a melhor do ano), escreverei depois, com a calma que ele merece, consciente de que haverá novas oportunidades (passa no Centro Cultural São Paulo na semana que vem). Por enquanto, fiquemos aqui com o outro filme do dia, visto na última sessão, às 21h15 da noite, como convém.

Trata-se de A Noite Amarela, primeiro longa solo de Ramon Porto Mota, um dos diretores de O Nó do Diabo e de um curta bem bacana chamado O Hóspede, que chamou a atenção para o novo cinema paraibano em alguma Mostra Tiradentes passada.

A Noite Amarela subverte ferozmente os filmes de terror com adolescentes. Mas subverte tanto que se torna um portentoso enigma. Não é todo enigma que desejamos decifrar. Alguns filmes se tornam herméticos, mas continuam estúpidos, de modo que o suposto hermetismo mais nos afasta do que intriga. Porto Mota corre o risco de nos afastar em diversos momentos do filme, mas logo retoma as rédeas e nos mantém enredados nesse campo gravitacional do qual ninguém pode escapar.

Esse campo parece forçar os personagens a entrarem numa espécie de looping, forçados a repetir frases e a ocupar cada qual um quadro diferente; mesmo quando eles saem em três grupos de dois para procurar a garota desaparecida (já tragada por um quadro que não conseguimos ver), eles teimam em se separar, dividindo o quadro em alguns momentos chaves, em que algo do passado vem à tona, ou mesmo alguma birrinha tola aparece, e algo os impele de novo a se separarem.

O split-screen procura colocar mais de um dos adolescentes num mesmo quadro, embora o quadro esteja dividido. Mesmo assim, a dificuldade persiste. Nesse momento, já se abriram as portas da força que os mantém cada vez mais isolados em quadros que se perdem. Os embates anteriores ficam definitivamente para trás: rock contra tecno brega; narrativa da moça meio dark contra narrativa da princesinha; homens de um lado, mulheres do outro, e sobretudo uma resistência à mistura com as outras turmas (as quatro meninas roqueiras se bastam). O enigma da lua que não se mexe no céu se aprofunda cada vez mais, e a estátua da mão decepada parece dizer que não há saída.

A despedida é a imagem de celular que circula do nada pouco antes do fim, uma espécie de celebração do momento em que quase todos ocuparam o mesmo quadro (ficou de fora quem estava segurando a câmera). Estavam felizes, bêbados, num momento que não havíamos acompanhado e não sabemos se realmente aconteceu. Porque desde o começo a comunhão do quadro é quase uma impossibilidade, a não ser nas fotos que vemos dos amigos na balsa (enquanto as imagens em movimento da balsa os mostravam distanciados um do outro), ou nos planos mais abertos da chegada à ilha, ou ainda em alguns outros raros momentos (em que os sete amigos já não conseguem ocupar o mesmo quadro sem que algo, uma sombra ou uma fenda artificial, os separe). No final, todos serão tragados pela escuridão total, onde não há quadro possível.

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