Gostoso, dia 2, parte 2: Ilha

ilha

Para falar de Ilha, quero antes dizer algumas palavras sobre Café com Canela, longa de estreia de Glenda Nicácio e Ary Rosa que ficou um bom tempo em cartaz em São Paulo (viva!). Infelizmente vi apenas uma vez um e outro. Voltarei a eles após alguma futura revisão.

Meses atrás reclamava-se no facebook que este filme estava sendo mal visto porque era julgado pelo prisma da forma em detrimento à beleza que dele poderia se extrair. Pois o que mais me surpreendeu é que a questão formal está o tempo todo em Café com Canela, de modo que não vejo como falar da beleza sem falar um pouco, por menos que seja, da forma. E para isso não é necessário ser elitista ou pedante. Basta falar de cinema.

Entre erros homéricos e acertos animadores, o filme da dupla se constrói afirmando-se como a tentativa de fazer um longa cinematograficamente, com soluções formais de juvenil ousadia, que por vezes até funcionam, e personagens carismáticos o suficiente para sustentar o que não funciona (o ponto de vista do cachorro, por exemplo). Esse tipo de esgarçamento da linguagem costuma aparecer em aberrações como 2 Coelhos, não em um filme como Café com Canela, o que me encheu de surpresa já nos primeiros minutos.

O longa me ganhou logo no início, com um depoimento sofrido do ator Babu Santana, disparado o mais conhecido do elenco. Após um registro típico do cinema brasileiro recente, que se assemelha a um falso documentário (o depoimento de um falso personagem real), ele pede uma cerveja, e o corte nos leva a uma outra instância dramatúrgica, de um encontro entre os personagens do filme em um bar. É uma cena armada que desmorona o plano anterior, intimista, levando o filme para uma outra instância de compreensão. É também uma brincadeira das mais inteligentes com o naturalismo.

Mais adiante, a tela se divide em três para dar conta de três portas que dão para a rua. Mas por um momento não percebemos que é a tela que está dividida. Parece mais uma casa com três portas, como a que dá lugar a alguns bares, e algumas moradias, em partes antigas das cidades nordestinas. Com o trânsito das poucas pessoas que passam pela rua é que percebemos o efeito. Funciona, porque aproxima esses vizinhos também na forma, deixando claro que eles são próximos na trama que começa a se desenhar.

* * *

(Daqui em diante, é por sua conta e risco. Se não gosta de spoilers, deixe para ler depois. Aviso porque o filme ainda não foi tão visto quanto Café com Canela)

E chegamos a Ilha, o segundo longa de Glenda Nicácio e Ary Rosa. É um filme estruturado inteligentemente para atenuar os maus resultados de todas as possibilidades de riscos, que continuam a mil, agora melhor blindadas. Um cineasta que perdeu o tesão pelo cinema e filma agora de forma blasé (a se acreditar no outro personagem, convenhamos), um menino que queria abraçar o cinema e não deixaram, um pai arcaico e grosseiro, uma mãe submissa, um jovem traficante que também é cineasta frustrado, uma ilha paradisíaca que não é filmada como cartão postal (a não ser em um ou outro plano), e, sobretudo, uma vontade louca de pensar nas possibilidades do cinema.

Há um sequestro. O cineasta que perdeu o tesão é obrigado a fazer um filme para o cineasta frustrado. O que se quer, na verdade, é a continuação de um aprendizado, o de ensinar a filmar (mas isso descobriremos só no final). O aluno é rebelde, não aceita mais palavras cheias de empáfia. Quer um jogo mais direto com o professor. Tão direto que envolve o sexo. E finalmente temos uma sucessão de filmes em que o sexo homossexual é naturalizado, porque antes de tudo o homossexual é naturalizado em cena. Não é mais objeto de escândalo. Não é mais estereotipado como até pouco tempo. Ilha está na ponta desse movimento de normatização da diversidade sexual porque dá conta da bissexualidade como algo natural na juventude atual, algo que se experimenta em festas, nos intervalos das aulas, ou enquanto se mata aulas. Nas ruas e pelo contato com outros jovens, de qualquer classe social, em contextos que fogem à dominação burguesa patriarcal (daí a idiotice dos que combatem a ideologia de gênero).

Mas eu falava dos riscos de Ilha, e eles são quase todos de ordem formal. Desta vez também tem o plano subjetivo de um cachorro, mas dura apenas dois segundos. O mais interessante é a mistura de instâncias entre a câmera do filme dentro do filme, a do making of do filme dentro do filme e a do filme propriamente dito (e com isso eu talvez tenha batido o recorde da incidência da palavra “filme” em um único parágrafo). Essa mistura de instâncias, na matemática, nos diz que é uma minoria que responde pela câmera do filme propriamente dito.

A mais bela cena é aquela em que o cineasta conta uma história triste para o sequestrador enquanto ambos fumam um baseado, no canto esquerdo do enquadramento scope que me lembrou Shohei Imamura, cineasta, aliás, que gostava de filmar longe dos centros urbanos. Essa cena, ao que tudo indica, não é filmada pelo parceiro do sequestrador, e por isso não é do making of. A história seria verdadeira ou não? O cara é roteirista, lembra o sequestrador, e por isso é um mestre em contar histórias. Mas que história conta Ilha? De que história pode dizer um personagem de um filme que se interroga o tempo todo e com isso interroga também o cinema? Certamente, não uma história no sentido comercial cinematográfico. Nesse sentido, só a sua história seria possível dentro do filme, qualquer outra seria uma mentira, e por isso ele não acredita, ou não quer acreditar, na história contada pelo cineasta. É uma história necessária apenas dentro do filme, como intervalo idílico do filme dentro do filme (lá vou eu novamente…). Pelo que lembro, a cena é resolvida em um único plano estático. E se assim não for, penso que a ideia tenha sido um pouco nessa direção, pois os cortes, se existem, estão bem integrados, invisíveis como no cinema clássico.

O mais interessante de Ilha é que ele entrega todos os seus estratagemas. No primeiro plano já se discute se é melhor com a câmera mais afastada, dando conta da solidão do personagem sequestrado, ou num close up. Num outro momento, fala-se da Síndrome de Estocolmo quando já adivinhávamos que uma relação forte, seja de que ordem fosse, iria surgir entre sequestrador e sequestrado. Finalmente, a mistura de instâncias, quando explicitada, torna possível uma cena linda em que filho mata o pai simbolicamente, sendo que o filho, na juventude, já havia sido interpretado por um outro ator, justamente na cena em que ele é apanhado no começo de um “ménage a trois”. Essa cena remete de algum modo àquela de Café com Canela, em que o genro apoia a cabeça da sogra em seu colo para fazer um carinho. Cena afetiva e aflitiva, porque sogra, como o pai de Ilha, está com doença terminal.

Ilha é levemente prejudicado por um final que não está à altura do que apresentou até então. Não digo do último plano, que é belo, poético, mas de tudo que acontece depois da saída da ilha e nos levou até esse plano. O cineasta burocrático é prisioneiro da redoma do amadurecimento, sim, mas também da ordem do bem filmar e do cinema palatável para chegar aos festivais (incluindo os internacionais), e das falas cuidadosas para não ferir sensibilidades, e das amizades e alianças estratégicas. Ilha, que tem chegado aos festivais com seu escárnio e sua visão crítica, procura dar conta de tudo isso, e nem sempre acerta. Mas quando acerta chega a comover. É um passo adiante em relação ao já interessantíssimo Café com Canela.

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