A Divorciada

divorciada

Norma Shearer, maior estrela da MGM na época, é a divorciada do título. O grande momento deste filme de Robert Z. Leonard é aquele em que ela pratica a arte do flerte com diversos homens de todas as procedências que estejam de acordo com sua classe social. Mas não vemos ela ou os homens. Vemos apenas as mãos. Um deles reclama que as americanas são gélidas, ao que ela responde afastando sua mão da dele com um leve piparote, e assumindo-se não gélida, mas cautelosa. Este é um típico momento do início do cinema falado, quando parte dos experimentos bem sucedidos do mudo já não funcionavam tão bem e era necessário buscar outros.

Leonard é o tipo de diretor (também produtor) que depende de uma conjunção de fatores para fazer um bom filme. Um desses fatores é o momento do pre-code hollywoodiano, entre 1930 e 1934, quando as produções, assombradas ou provocadas por um código de produção que havia sido estabelecido recentemente, mas ainda sem efeito prático (o que viria a acontecer somente em 1934), ousavam nos temas e no tratamento como um meio de aproveitar os últimos suspiros de uma certa liberdade ou até mesmo esgarçar as fronteiras desta, invocando uma possível inutilidade do código.

Nesse sentido, A Divorciada (The Divorcee, 1930) é um dos filmes mais famosos do pre-code, mas não é dos mais ousados, nem dos melhores.  O código foi assinado em abril de 1930, e o filme foi lançado em maio, sendo portanto o primeiro filme a desafiar o código – que será ainda mais desafiado nos três anos seguintes, incluindo nudez, orgias, adultérios e muita violência (nos filmes de gangsters). Ainda assim é forte o suficiente para nos chamar a atenção para algumas coisinhas: trata-se de uma mulher com nome de homem (Jerry), dividida entre três homens que a amam – Ted, com quem ela se casa, Don, com quem ela tem um caso extraconjugal para se vingar de Ted, que já tinha tido um affair, e Paul, aquele que parece mais apaixonado e devotado. No momento em que Jerry e Ted resolvem se divorciar, Jerry o informa que “estavam quites”, já que ela também tinha traído ele (ele jamais saberá que a traição foi com Don, então seu melhor amigo). Após uma briga em que Jerry é obrigada a se colocar como mulher forte, ela afirma: “De agora em diante, você é o único homem para o qual minha porta estará fechada”, na fala mais pre-code de todo o filme.

Ted, Don e Paul. Os próprios nomes sugerem a ideia de mapear os arquétipos do homem burguês americano. E, de fato, tudo que esses homens fazem irá confirmar essa ideia. Ted é o pragmático. Já que seu trabalho envolve muitas viagens, ele trata de arrumar uma amante (nada nos impede de pensar que ele pode ter uma amante em cada um dos lugares para onde o trabalho manda). Don é o bon vivant, um hedonista que parece só ter tempo para festas e diversões. Paul, nome “francês”, tem um caráter melancólico. É talentoso, querido por todos, mas nunca é escolhido em primeiro lugar. Não pode ficar com o amor de sua vida porque desfigurou uma mulher para sempre em um acidente provocado por uma atitude infantil (a velocidade como meio de aplacar a mágoa). Somados, os três homens não se equivalem à força de Jerry. Mas ela precisa escolher um deles, para não ficar divorciada. E escolhe Ted, menos por um amor irrestrito do que por ser o que sobrou, uma vez que escolher Paul implica na infelicidade de uma amiga e Don havia se mostrado egoísta e aproveitador (além de solidário à brodagem masculina).

O filme já abre com uma sequência estranha, localizada numa espécie de estalagem que reúne quase todos os personagens do filme e expõe a liberdade de costumes do grupo e uma certa promiscuidade velada. Interessante a maneira como todos esses personagens estão ali sem muita explicação a não ser testemunharem o anúncio repentino do casamento entre Ted e Jerry, que são chamados como se fossem gado. Para o espectador de hoje, mal acostumado com qualquer coisa que seja antiga, venha dos anos 90 ou dos 30, o filme vai parecer muito esquisito e mesmo teatral, e essa sequência inicial explicita esse sentimento. Mas é drástica a mudança que envolve os três homens e a mulher com nome de homem (e ponto de vista masculino, segundo ela própria define). Pensamos tratar-se de uma mulher muito além do seu tempo, mas os acontecimentos posteriores à sua vingança negarão um pouco essa impressão. Isso atenua um pouco o “fator pre-code” do filme, que ainda assim é exemplar daquele momento de loucuras na tela.

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