Encerrando 2020: Até o Fim e outros filmes

Um apanhado de pequenos textos sobre filmes que vi nos últimos dias. Até o Fim está em destaque no título, apesar de ter me decepcionado com ele, porque era o que eu mais queria ver entre esses filmes.

Antebellum, de Gerard Bush & Christopher Renz **

Pelo que pude perceber, foi recebido com posições extremas este filme com a estrela Janelle Monáe (que ainda pode ser considerada muito mais estrela musical do que cinematográfica, e não é este filme que mudará isso). Como muitas vezes em que essas posições extremadas acontecem, tendo a ficar no meio do caminho, sem entender muito bem o porque de tanta raiva e tanto maravilhamento, reconhecendo coisas bacanas no filme (a estrutura narrativa, algumas cenas de impacto na fazenda sulista, a perseguição final), e coisas que, a meu ver, não funcionam (as três amigas no restaurante e a viagem no uber errado, a interpretação decepcionante de Monáe, que não se mostrou à altura quando mais exigida). Vale ver, sim, pela estrutura e porque ela vai se tornando mais interessante com o passar do tempo, mas o filme termina criando expectativas que não se confirmam de todo.

A Assistente, de Kitty Green **

Kitty Green vai fundo em sua escolha estética e somente a abandona em alguns momentos de crise da personagem principal. O momento mais forte é aquele em que ela vai se queixar ao maior chefe das regalias que o chefe do setor dela dá a uma nova contratada, que ela considera mais jovem e bonita. É como se na série Mad Men ficasse muito mais evidente o protagonismo de Peggy, sem uma divisão com o protagonismo de Don Draper. Curioso que estamos numa produtora de cinema de médio porte, mas o ambiente é o mesmo de qualquer repartição burocrática das empresas. Poderia ser uma administradora de cartão de crédito. Talvez seja um modo de dizer que de arte e criação o cinema tem muito pouco, sobretudo nos Estados Unidos.

Até o Fim, de Glenda Nicácio e Ary Rosa **

Em Até o Fim, a dupla Glenda Nicácio e Ary Rosa resolve deixar os experimentos formais dos seus outros longas em favor de um experimento com a dramaturgia. E eis que, nesse processo, parecem um tanto perdidos, vendo à distância o forte de Café com Canela e, principalmente Ilha. Esperava bem mais desse terceiro longa, que a esta altura já pode ser considerado “aquele difícil terceiro longa”, numa referência ao “that dificult third album” que se tornou clichê na imprensa musical britânica. Porque nessa lavagem de roupa suja entre as irmãs, sobram câmeras perdidas (quando é muito perdida até fica interessante, pela abstração resultante, mas não é tão frequente), grandes angulares que parecem ter escapado de um filme do Lanthimos e alguns cortes que, ao contrário do que acontece em Café com Canela, não conseguem criar um atrito engenhoso dentro das cenas. Uma pena, porque a entrada em cena, mais ou menos na metade do filme, da irmã caçula, mulher trans que não é bem aceita pela irmã mais velha, poderia proporcionar cenas muito fortes caso os diretores tivessem um controle dessa dramaturgia. Inclusive porque os diálogos são colocados com muita propriedade a partir da entrada dessa personagem e a atriz manda muito bem em falas que poderiam ser apenas de um manual antitransfobia, mas mesmo com a direção trôpega atingem uma força inesperada. Ela merece uma segunda estrela.

Babenco – Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer Parou, de Barbara Paz **

Não entendo a opção de mostrar os filmes de Babenco todos em preto e branco. Entendo que ela tem duas funções, manter o padrão visual em todo o filme e destoar dos demais documentários de cineastas e filmes. Mas me pareceu uma opção equivocada, que enfraquece as imagens originais em favor de um outro projeto estético, distante dos que Babenco tinha adotado (sofrem mais os do periodo áureo do autor, de Lúcio Flávio a Brincando nos Campos do Senhor). No mais, este documentário começa bem e termina decepcionante conforme a carreira do próprio Babenco vai se mostrando menos forte. Pior ainda que os trechos escolhidos e a maneira de integrar tudo no preto e branco fazem parecer que seus últimos filmes são piores do que realmente são.

Be Natural: A História Não Contada da Primeira Cineasta do Mundo , de Pamela B.Green ***

O filme de Pamela B.Green é redondinho no sentido didático (comercial), com umas animações bonitinhas, sacadas interessantes que mostram a circularidade do tempo e entrevistas com especialistas como Kevin Brownlow. Mas é quadradinho (dentro de um aspecto bem contemporâneo) no sentido formal. Vale muito ver porque é história, e há um claro envolvimento da diretora com essa cineasta que, de fato, teve a carreira mais longa entre os chamados pioneiros da sétima arte (além dela, Thomas Edison, Louis Lumière e Georges Méliès, como o próprio filme ilustra num gráfico). Pioneira inclusive no trabalho com som sincronizado, ainda em estado incipiente, no início do século 20. Edison, Lumière e Méliès foram inovadores antes de Guy fazer seus melhores filmes, mas enquanto eles foram aos poucos sendo ultrapassados pelos novos cineastas que surgiam, Alice Guy manteve-se na ponta da invenção até pelo menos o início dos anos 1910.

It Feels So Good, de Haruhiko Arai ***

Meu problema com o cinema japonês dos anos 1990 em diante não é que carece de bons filmes, é que carece de filmes magníficos. Os filmes que vejo, exceto quando assinados por alguns poucos suspeitos como Kiyoshi Kurosawa ou Takeshi Kitano (e mesmo assim, nem sempre), raramente alcançam um patamar mais alto no meu panteão. Ficam todos perto do meio, entre duas e três estrelas, na linguagem sempre imprecisa das cotações. Isso acontece com It Feels So Good, drama erótico com cenas ousadas, que lembram os roman porno da Nikkatsu, atualizados para uma maior frontalidade de elementos como espermas, ereções, mas nada que chegue ao nível de um Império dos Sentidos, filme franco-nipônico de Nagisa Oshima. O jovem casal de ex-namorados trata de aproveitar os últimos dias de sexo incessante antes que a noiva se case com um soldado. Isso com o mítico Monte Fuji prestes a entrar em erupção (a analogia com o vulcão sexual está posta, portanto). O veterano roteirista Arai, em seu quarto longa como diretor, tem intimidade com o pinku eiga e consegue veracidade nas cenas de sexo sem cair no explícito, além de realizar alguns belos planos – o das hélices parece meio equivocado de início, pela composição, mas termina se justificando pelo comportamento dos amantes, que têm, durante todo o filme, uma atuação bem convincente.

The Man in the Woods, de Noah Buschel **

O lado David Lynch me interessa bem mais que o lado Guy Maddin, mas o filme parece se decidir pelo último no terço final. Alguns personagens são interessantes, como o homem do trailer e a professora politizada. Por outro lado, a presença de Sam Waterston me parece bem equivocada e seu personagem um tanto prejudicial para a trama.

Yamiyhex – As Mulheres Espírito, de Sueli & Isael Maxacali ***

A vida em conflito numa tribo indígena filmada com liberdade com relação às convenções do “bem filmar”, e com um olhar preciso e contundente. Acompanhamos os rituais e as disputas entre homens e mulheres, com estratégias de batalha e um desenvolvimento da trama que foge até mesmo das convenções do cinema indígena.

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O padrão de cotações é o mesmo da Revista Interlúdio:

0 – ruim

1 – mediano

2 – interessante

3 – bom

4 – ótimo

5 – sensacional

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