Quando o calor é maior no cinema (14º Fest Aruanda)

partida

O título sugere que os filmes exibidos na noite desta segunda passaram calor para a plateia. E aconteceu isso mesmo. Mas o calor a que me refiro foi causado pelo desligamento do ar condicionado (que já não estava grande coisa) em determinada altura, por causa da reclamação de algum friorento (foi o que me disseram). É o que sempre digo, pessoas friorentas normalmente andam com blusas, casacos, o diabo a quatro. Calorentos como eu só podem sofrer, porque mesmo se tirarmos a roupa no cinema o calor vai continuar. E o calor no cinema ontem era maior que o das ruas de João Pessoa.

Desabafo terminado, e muito suor depois, falemos dos filmes. Estes, brilharam. E o calor que veio deles foi muito mais fácil de receber. Foi uma das sessões mais especiais que já vivi em festivais. Infelizmente, perdi o primeiro dos quatro curtas que compuseram a sessão. O jantar atrasou e a sessão não, mas eu esperava que atrasasse, já que na noite anterior atrasou (e me disseram que nas outras noites também). Lei de Murphy, sabem como é. Felizmente encontrei o produtor no ônibus de volta ao hotel, e ele me prometeu passar o link. Aguardo então a visão de De Longe, Ninguém Vê o Presidente para comentar.

Os outros curtas me pareceram formidáveis, cada um a seu modo. O mais lynchiano é Gravidade, de Amir Admoni. Sempre achei que as melhores animações tendem a ser aquelas em que a trama não pode ser contada com atores. Claro, hoje a tecnologia faz James Dean interpretar de novo, o que para mim é uma aberração. Mas uma animação como Viagem de Chihiro, por exemplo, se beneficia de seu universo fantástico, com o onirismo e a ludicidade dominando a narrativa e amplificando o potencial dos traços. Gravidade me pareceu uma animação com técnica moderna (mas não entendo muito disso). Mas a técnica só importa para técnicos ou animadores. O que nos interessa nesse curta é o universo que ele proporciona. Duas pessoas (parecem homens) caem do céu amarrados por uma corda. Um deles está em cima de uma geladeira. Cai também um rádio gravador (primeira imagem do filme). Alguém observa a queda lá de baixo. Para quem cai, o jeito é relaxar e curtir a viagem.

Um Café e Quatro Segundos, de Cristiano Requião, é mais pé no chão. Sua força está no trabalho dos atores. Osmar Prado e Samir Murad são dois torturadores da época da ditadura militar. Um deles (Samir) está arrependido e amargurado. Não se conforma com as atrocidades que fez. O outro (Osmar) fala que era necessário para deter o comunismo e outras ladainhas desse tipo de gente. É impressionante como acreditamos que Osmar Prado é essa figura asquerosa, fascista e burra. Mas não nos surpreendemos tanto. Afinal, é um de nossos grandes atores.

Por último, Brasil, Cuba, de Bertrand Lira e Arturo de la Garza, encanta pelas imagens levemente embaçadas – um efeito anacrônico que funciona bem ao curta – de uma cidade em Cuba chamada Brasil. Retrato afetuoso de um país que atingiu níveis quase máximos de alfabetização e desconcentração de renda. O custo disso foi o autoritarismo. E o embargo econômico imposto pelos americanos, que não podiam mais explorar os cubanos. O filme é uma sucessão de imagens do cotidiano, tornadas oníricas pela textura do leve embaçamento, na contramão das imagens de Led que chegam de alguns curtas (e das projeções digitais). Achei bem bonita essa opção, mesmo que tenha sido causada por alguma calibragem errada do projetor (mas penso que não). Ficou com ar de tempo sustentado, de uma bolha do bem viver que só é possível na paz, com os cachorros e os velhos convivendo em harmonia.

Partida é o longa inspirado e inusitado de Caco Ciocler. Filme de percurso, de revelação da mentira do cinema, de falsas ficções e falsos documentários, mas também de inquietações e contradições muito reais. No dia do segundo turno das eleições de 2018, dia que vai ficar marcado como o “sim” ao fascismo pelo emburrecido povo brasileiro, Georgette Fadel resolve ir com o diretor e uma trupe ao Uruguai, para encontrar o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica, espécie de mentor de uma esquerda que deu certo, até certo ponto (o ponto que as elites permitem).

No caminho de ônibus (porque essas viagens têm de ser por estradas e não pelo céu), muitas coisas acontecem. Brigas falsas, brigas reais, verdades sendo escancaradas (meio falsas, meio reais) e antagonismos sendo forjados. Há ainda uma menina, simbolizando a esperança do futuro e da juventude (algo que Mujica sentiu, a que retornarei depois). No caminho do filme, as estratégias de falso drama são todas tornadas transparentes. Ouvimos conversas pessoais, telefonemas, relatos que nos informam dos planos para deixar o filme mais interessante. É um jogo o que propõe Ciocler ao espectador, um jogo em que seu próprio estatuto de ator global e pequeno burguês é questionado. A ideia de Georgette de se tornar candidata a presidenta da Brasil em 2022 é bombardeada por sua falta de abertura e calma, e o contraponto é o ator Leo Steinbruch, com o típico discurso reacionário que cansamos de ouvir. Georgette manda bem às vezes, em outras manda o piloto automático das palavras de ordem da esquerda moribunda.

Aplausos em cena aberta aconteceram quando o português mais brasileiro do cinema, o técnico de som Vasco Pimentel, explicou sua visão sobre o Brasil e os brasileiros, e por que gosta tanto de nosso país. Para ele, o Brasil e os brasileiros são um acidente, um povo que não devia existir, que estava destinado a ser explorado pelos portugueses. Muitas coisas derivam dessa condição, mas deixo ao futuro espectador (ou a quem se dispuser a rever o filme) as demais implicações. O fato é que foi uma senhora explanação, típica da erudição portuguesa, com um olhar de fora que só faz bem (que muitos não gostam e até não aceitam por limitação de suas mentes). Essas interrupções, programadas ou não, dão ao filme um tom de brincadeira do acaso que nos envolve e nos mantém presos a esse pequeno exército de Brancaleone.

O encontro com Mujica no final deve levar às lágrimas qualquer espectador com sangue nas veias e consciência do fracasso de nossas esquerdas. Quando ele aparece, a menina logo o abraça, e ele coloca sua mão em cima da cabeça dela, como uma espécie de passagem de cetro, de comunicação de uma ideia que precisa passar para as novas gerações mesmo que pule as gerações intermediárias. Georgette representa duas ou três gerações posteriores a de Mujica. Parece carregar ainda alguns vícios da geração que fracassou na implementação de uma humanidade mais igualitária (teria como não fracassar com a elite nojenta que temos na América Latina?). É necessário então passar a experiência adquirida, de prisão, da luta armada e da presidência, à geração que poderá chegar ao poder dali a 40 ou 50 anos, quando os ricos poderão comprar mais tempo de vida (segundo nos ensina Mujica).

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