5ª Mostra de Cinema de Gostoso

socrates

Em São Miguel do Gostoso – RN, a noite começa a chegar às 17h, e é possível ver a lua subindo de um lado enquanto o sol desce do outro. Estamos há uma hora e meia de Natal, e o caminho mais rápido é por uma estrada quase só de retões. A cidade chega perto dos 10 mil habitantes, e antes das 18h já está completamente escura. Em compensação, antes das 5 da manhã o sol já começa a castigar. E quem já viu o sol nascer no nordeste sabe a beleza que é.

A tela instalada na praia é grande, e a projeção é boa. Muito entra e sai de gente, e pessoas passando na nossa frente e crianças correndo a todo momento, o que atrapalha um bocado a concentração. Mas é o preço a se pagar por um festival que traz cinema a uma cidade simpática e carente. Quem pode reclamar disso? Quero dizer que o preço é baixo, e uma vez que nos acostumamos à bagunça, nossa concentração volta mais depressa, ainda mais quem está acostumado a festivais do tipo (Tiradentes não é muito diferente, assim como qualquer outro que envolve a comunidade local, o que é o mais importante, claro).

Os filmes do primeiro dia não animaram muito. Mas foi interessante ver o trabalho do coletivo daqui, chamado Nós do Audiovisual, com um curta, Derradeiro é seu nome,  razoavelmente bem filmado pela jovem Renata Alves. Um curta que eu não entendi direito (culpa minha, decerto). Assim como foi bacana rever Guaxuma, da Nara Normande, uma adorável e criativa animação que eu havia visto em Gramado.

Os outros filmes são o curta potiguar Codinome Breno, de Manoel Batista, que é tocante pelo tema (o pai de Breno foi enquadrado como subversivo durante os anos de chumbo), e é conduzido de maneira eficaz, ainda que meio esquizofrênica – começa de um jeito, vira outra coisa e depois muda de novo (como gosto de coisas esquizofrênicas, até certo ponto, isso não me incomodou). O curta é didático e necessário nestes dias em que uma classe média emburrecida pede a ditadura militar de volta, ou que artistas tapados dizem que nunca existiu ditadura no Brasil, enquanto é o contrário o correto: jamais estivemos perto de um regime comunista.

Fechando a noite vem o longa paulista Sócrates, do qual não gosto, mas devo reconhecer que Alex Moratto, o diretor, nos leva com habilidade para lados que não esperávamos. Eu pelo menos não esperava, para quebrar com essa terceira pessoa do plural meio suspeita. Infelizmente, surpresas só acontecem de vez em quando, porque na maior parte do tempo o protagonista menor de idade vai sofrendo o que a vida lhe reserva, com direito a tudo o que imaginávamos que poderia acontecer a partir da morte de sua mãe e dado o problema inicial.

O filme lembra muito Querô, de Carlos Cortez. Talvez por ser fruto da Querô Filmes, braço do Instituto Querô, dirigido também por Cortez. OK, mas garanto que mesmo sem saber disso a lembrança de um virá ao se ver o outro, num déjà vu inevitável.

Há um outro fator a não se desprezar. Vi o filme extremamente cansado, como sempre fico no primeiro dia de qualquer festival (voo atrasado, pouco sono por medo de não acordar e perder o voo, correria na chegada para pegar a sessão), e em momento algum dei a famigerada pescada. Não sei se foi o carisma do ator principal, Christian Malheiros (que não me pareceu bom, diga-se, mas tem algo com a câmera que permite uma posterior evolução), mas o sono meio que se afastou e não voltou até agora, possibilitando estas linhas um tanto febris na madrugada gostosense.

 

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