Relatos do Mundo

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Um filme de Paul Greengrass como a nova coqueluche do streaming é de se estranhar (para não dizer que é de se lamentar). Porém, devemos deixar o autorismo de lado sempre que ele ameaça tolher nossa liberdade de ver o filme com os olhos livres de que o saudoso Carlão Reichenbach tanto falava. E pronto! Já tive testes mais difíceis que esse. Sei que não cairei no autorismo, e saberei apreciar, se for o caso, um filme desse diretor que até então sempre demonstrou uma incompetência impressionante no comportamento da câmera e na decupagem.

Primeira constatação: a incompetência continua, embora seja atenuada pela máquina da Netflix, cuja liberdade dada aos diretores parece durar até a primeira leitura do roteiro. O padrão de estilo da gigante do streaming logo puxa o estilo trôpego de Greengrass para um meio termo, em que a câmera treme menos que o habitual e a decupagem é menos frenética. Nesse quesito, talvez por tratar de um atentado violento na Noruega e suas consequências, como o crescimento da extrema-direita na Europa, o filme anterior do diretor para a Netflix, 22 de Julho, é um desastre, assim como o outro filme sobre esse mesmo atentado, também de 2018: Utoya. Em Relatos do Mundo, a decupagem de Greengrass continua sofrível. Vejam, por exemplo, que ele precisa de uns cinco ou seis planos para resolver algo que qualquer diretor razoável resolveria com um ou dois, no máximo. Bem, Peckinpah talvez filmasse em três, mas com um domínio muito maior (por vezes exemplar) do que cada angulação de câmera pode acrescentar ao drama. Os cinco ou seis planos de Greengrass diminuem o drama e parecem uma estratégia banal para criar dinamismo nas cenas. Um dinamismo falso, portanto.

Segunda constatação: nesse cinema padronizado da Netflix e sua tendência ao meio termo, ao polimento excessivo do estilo, incluindo aí o mau estilo de Greengrass, uma boa trama e bons atores conseguem que o filme seja ao menos passável, embora pareça cada vez mais difícil, talvez até impossível, que sejam memoráveis. A trama é baseada em livro de Paulette Jiles, adaptado como um feijão com arroz honesto por Luke Davies e pelo próprio Greengrass. Os atores principais parecem talhados para seus papeis: Tom Hanks tem mostrado o melhor de sua arte em filmes recentes como Sully ou The Post, mas mesmo em obras mais irregulares, como Ponte dos Espiões, ele nada de braçada. A menina que ele resgata de um território hostil e deve levar de volta ao lar, sem saber que não há lar para ela, é aquela que era a maior força de Transtorno Explosivo (2019), de Nora Fingscheidt, o filme alemão sobre uma criança terrível que encantou meio mundo (infelizmente, não a mim) na Mostra SP de 2019: Helena Zengel. Ela interpreta uma órfã dupla, primeiro de seus pais alemães, depois dos índios Kiowa que a acolheram.

Se previsibilidade fosse um problema, já rejeitaríamos o filme com menos de meia hora. Mas ajuda a boa escalação de Hanks e Zengel, ambos admiráveis, como de todo um elenco secundário, com destaque para Elizabeth Marvel como a dona de uma pensão em Dallas e Thomas Francis Murphy como um desprezível líder redneck. Ajuda também que a profissão do personagem de Hanks seja a de um contador de notícias, o que dá um certo frescor e permite algumas boas sacadas, como a do levante provocado por ele na pequena vila dos rednecks. Ele não narra apenas para analfabetos. Há toda uma arte do contar história, que um ator como Hanks sabe valorizar.

Passável, porém, não significa que seja de fato bom. Greengrass pode até tentar fazer um arroz e feijão saboroso para valorizar a história edificante e as atuações sublimes. Mas graças a sua inabilidade formal, o arroz ficou meio empapado e o feijão, duro e sem sal.

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