Encerrando 2021 – Pt. 2: Zimba, Um Dia com Jerusa e outros filmes

Zimba (2021), de Joel Pizzini

Aparentemente, um documentário convencional sobre Ziembinski. Mas com Joel Pizzini, sempre há algo que foge ao convencional. Aqui, temos um zigue-zague cronológico dos mais interessantes, em que os caminhos criativos do ator e diretor polonês radicado no Brasil são pensados por meio de imagens de arquivo e recriações dos ensaios – e uma espécie de making of – da montagem original da peça Vestido de Noiva (1943), de Nelson Rodrigues.

Um Dia com Jerusa (2020), de Viviane Ferreira

É bem curioso este filme sobre as raízes negras do bairro do Bixiga, em São Paulo, por meio de algumas personagens que nele habitam, principalmente duas: Silvia, uma jovem que faz pesquisa de mercado para uma marca de sabão em pó, e Jerusa, a entrevistada que parece sabotar a ideia de pesquisa por responder sempre de maneira indireta, cheia de rodeios (alguns bem interessantes, aliás). Claro está que a jovem é uma má profissional, e por isso pode ser um ótimo ser humano, e dessa forma aprender com as histórias de Jerusa – como era o bairro, das paixões de juventude, do Saracura, um dos inúmeros rios subterrâneos da cidade – mesmo que de início ela nada queira.

Após um começo convidativo, surge uma cena em uma banca de revistas no Anhangabaú. Essa cena tem um desenrolar bem tolo, mas o final é curioso. Após o piti da possível cliente, ela se afasta da banca enquanto o dono, um oriental, espia a mulher de forma furtiva, deixando cair os jornais ao mesmo tempo. Uma coisa de burlesco, que lembra coisas do Takeshi Kitano, talvez propositadamente. Há também algo de Júlio Bressane na maneira como a música e as lembranças invadem a narrativa, como quando a jovem que entrevista Jerusa tem uma espécie de visão da senhora em sua juventude comemorando uma vitória da escola de samba Vai Vai, uma das instituições do Bixiga. Um Bressane apaziguado, decerto, palatável para uma plateia mais ampla, mas não é difícil pensar nessa filiação que pode até ser acidental, mas não menos bela por isso.

Obrigado, Carla Oliveira, por me lembrar de ver este belo filme.

Selvagem (2021), de Diego da Costa

Ficção a partir das ocupações das escolas públicas pelos estudantes secundaristas em 2015 (caramba, parece que foi há dois ou três anos!). Selvagem tem uma série de problemas de mise en scène e, principalmente, de montagem, mas algumas ideias de realização nos entregam coisas como uma troca de olhares entre dois adolescentes apaixonados, que nos tocam também pela delicadeza de olhar da direção. Num filme de adolescentes, os adultos estragam com suas frases feitas. Os pais destoam totalmente, incluindo o típico fascista de classe média. Os professores parecem existir apenas como acessórios. Atuações amadoras de adolescentes são bem mais digeríveis do que personagens adultos mal desenvolvidos. E o filme encontra alguma beleza com os adolescentes.

Má Sorte no Amor ou Pornô Casual (2021), de Radu Jude

O mais interessante neste novo longa de Radu Jude é acompanhar as deambulações da protagonista por Bucareste em tempos de pandemia. Depois de 20 minutos, cansa um pouco. Mas o filme muda totalmente a narrativa quase aos 40 minutos, tornando-se temporariamente algo muito solto que Radu procura amarrar de maneira postiça, ou seja, uma narrativa livre, ou uma não-narrativa. Colagem frágil de motivos, piadas, provocações. No terceiro movimento, o mais “cinema romeno do século 21”, vemos uma discussão entre os professores, diretores e pais de alunos de uma escola sobre o que fazer com a professora que teve o video sexual com seu marido vazado na internet (as imagens explícitas que vemos no início e vamos rever parcialmente durante o debate). O filme se encerra com um truque tolo: três finais possíveis.

Se é sobre a história da Romênia de 1989 até hoje, envolto em uma parábola sobre sexo, a coisa obviamente desandou. Se liga a queda de Ceausescu à pandemia, penso ser até mais pueril. E se é só uma piada, como o próprio filme insiste tanto em sugerir, é uma piada sem graça alguma. O que ele pretendia ou não, importa pouco ou nada. A questão é que o filme parece girar em falso quase o tempo todo. E os trechos de sexo explícito, que num filme de Júlio Bressane funcionam muito bem, aqui parecem apenas elementos para chocar ou pregar artificialmente uma certa libertinagem contra os conservadores asquerosos que debatem no final.

A Última Noite no Soho (Last Night in Soho, 2021), de Edgar Wright

Em Algum Lugar do Passado com Meia Noite em Paris, pegando o mais superficial dos dois e desenvolvendo de modo pouco inventivo (sonhos, espelhos, bullying no curso de moda). É uma espécie de sonho invertido da swinging London dos anos 1960, uma descida ao inferno do Soho para mostrar o que havia por trás da busca de jovens moças pelo estrelato. O horror vai contaminar tudo na segunda metade. Não é um bom filme, mas Edgar Wright sofre mais com isso porque não caiu nas graças do autorismo, alvo dos tomates que deveriam ir em maior número para filmes de autores consagrados (Annette e The Card Counter, por exemplo).

Imperdoável (The Unforgivable, 2021), de Nora Fingscheidt

O que System Crasher, o filme anterior da diretora alemã, tem de superestimado, este seu novo trabalho, rodado nos EUA, tem de subestimado. O engraçado é que, na real, não acho nenhum deles grande coisa. Ambos têm certo interesse na premissa e um desenvolvimento irregular. Este é mais redondinho na comunicabilidade, como um típico enlatado da Netflix, ajeitado com cuidado para um grande público, com uma série de não ditos que qualquer espectador saberá completar. É o que faz com que seja fácil vê-lo até o fim, mas é também uma limitação.

Meu Nome é Bagdá (2020), de Caru Alvez de Souza

Confesso que esse modo de filmar já me cansou há uns dez anos. Essa ideia da câmera viva me parece uma bobagem que no cinema brasileiro parece longe de acabar, infelizmente. Resta-me torcer para que alcance o máximo de suas possibilidades. Em Meu Nome é Bagdá, há algo bem interessante quando o naturalismo ultrapassa suas limitações e capta algumas conversas como se a câmera estivesse escondida (o sonho de todo naturalismo, mas raramente alcançado). A interação entre os skatistas e entre Bagdá, jovem que não adere à ordem binária da sociedade, e os adultos ao seu redor, por exemplo, alcança momentos bem bonitos. Gosto bastante dos momentos breves de videoclipe, com os jovens andando de skate em câmera lenta e um jazz moderno de fundo, belas fugas do naturalismo (algumas poderiam ser mais longas, aliás) e é bacana que o filme termine com um desses momentos. O movimento anti-patriarcado é sempre bem-vindo, e o confronto no final com o rapaz abusador da turma é forte e bem levado, mas cenas como a da batida policial são tolas – tratar policial paulistano como um ignorante preconceituoso, grosseiro e violento é a coisa mais óbvia de se fazer para nos deixar revoltados. Não era necessário isso para sentirmos empatia por Bagdá. Há outro momento canhestro com os jogadores de futebol, mas a diretora o salva com a fantasia.

Por esses motivos e pelas sequências de festa (que parecem um genérico de sequências semelhantes em filmes jovens dos últimos anos) não posso dizer que o filme é de todo bem resolvido. Aliás, essa estética geralmente me soa muito calculada para parecer que não é calculada. Isso acontece com alguma frequência no cinema contemporâneo. Tendo a preferir o cálculo assumido do rigor de estilo como modo de observação e contemplação das coisas. Obviamente é possível fazer ótimos filmes com essa câmera solta, mas tem sido bastante raro.

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