Sol Alegria

sol alegria

Sol Alegria apela conscientemente para o desconcerto. Não só porque mistura sexo e religião, ícones sagrados e promiscuidade, elegância e atrevimento. Ou por deixar evidentes as múltiplas referências (Fassbinder, Schroeter, Syberberg, Bressane, César Monteiro) e fazer o que quer com elas, até mesmo mandando-as para os quintos dos infernos quando necessário. Ou por incluir uma sequência enorme, quase insuportável, de circo, já no terço final do filme. É desconcertante também por nos deixar rendidos à explosão anarquista que o move e às ideias formais que dão vazão a essa explosão. E ainda por perseguir a mesma veia estilística de Batguano e inflá-la, torná-la desmesurada, louca, estúpida por vezes. Ou por ter evoluído tão sensivelmente de Luzeiro Volante a Batguano e de Batguano a Sol Alegria, acompanhando a evolução do cinema brasileiro na segunda metade da década de 2010, justamente o período em que se tornou cada vez mais ameaçado.

Tavinho Teixeira dirige. Não só o filme, a trupe de atores, os demais elementos em cena, mas os veículos (caminhonete, carro, avião). É um condutor do caos e dos motores, à procura da liberdade que só os grandes encontram. Tavinho quer ser grande cineasta, e ninguém deve censurá-lo. E anda de ré, com o filme e com o veículo, encontrando e empurrando o espectador, vítima de uma afronta. O retrovisor mostra o público para os atores, que fogem do caos que eles mesmos implantaram. E se vê em cena, o filme. O elenco todo se vê. E temos o acúmulo de registros, texturas, ritmos, silêncios, gritos. Ora o condutor acelera demais, ora desacelera com igual perigo, dando de ombros para o comedimento e o equilíbrio.

Nada desse caos poderia ser traduzido apropriadamente sem uma rigorosa mise en scène. Tão rigorosa que absorve o caos e permite que os elementos se digladiem entre si. Ou seja, o rigor é destruído pelo caos implantado. Uma mise en scène da autodestruição. Não lembro de ter visto algo assim a não ser em trechos de alguns filmes que flertam com a vanguarda. Nunca em uma obra como essa, em que a autodestruição é um princípio, um objetivo. Os atores e atrizes interpretam contra si mesmos e contra os outros. Por vezes, se juntam numa batalha de expressividade. Há espelhamentos das camadas de cinismo que revela (como em Monteiro). É a encenação que se volta contra tudo. Contra uma ideia de Brasil, uma ideia de cinema, uma ideia de representação. Contra qualquer tipo de autoridade (como em Monteiro), contra a estupidez (como em Monteiro), contra a própria encenação (ao contrário de Monteiro). Sol Alegria não é tanto um filme, é mais uma delirante batalha pela anarquia e pelo caos. É também um clamor pelo enfrentamento.

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