Os novos de Gostoso

Na segunda parte desta modesta cobertura do Festival de São Miguel do Gostoso, que chega a sua sétima edição (primeira totalmente online), é a vez da mostra Nacional, que é a principal do evento por conter os filmes recentes. Não escreverei sobre os filmes vistos em outros festivais, Antena da Raça, Até o Fim e Cavalo, pois já escrevi sobre eles (quando tinha como escrever). Mas queria expor algumas ideias sobre os três filmes novos que vi entre 10 e 14 de março.

Açucena (foto), de Isaac Donato, é o tipo de filme que se fez muito no Brasil dos últimos anos. Encontra-se uma personagem interessante e ficamos a ver seus passos, seu cotidiano, suas manias. Apesar dessa mesmice na proposta, Donato consegue tirar algo novo por dois motivos: a personagem é realmente carismática, justificando nosso envolvimento com ela por 70 minutos; o diretor tem um olhar interessante e particular sobre as coisas e as pessoas e compõe alguns planos bem bonitos como resultado desse olhar (nem sempre a correspondência acontece como neste filme). Se por vezes sentimos que há um rebuscamento meio tolo da imagem, com recortes criados por figuras geométricas no quadro e a procura por encaixar as pessoas dentro deles, é sobretudo por uma vontade de pensar o espaço, recortando-o como forma de fazer justiça às características de uma mulher complexa que comemora ainda e sempre seu aniversário de sete anos. Isto é reiterado bastante ao longo dos 70 minutos, com as imagens das bonecas, os sete anões, os comentários dos amigos da mulher que se envolvem e a ajudam a levar adiante essa mania, até mesmo com as sete letras do nome dela e do título. É sempre bom quando um filme que está sempre ameaçado de se perder se recupera e sustenta uma força que se sobressai aos problemas.

Nũhũ yãg mũ yõg hãm: Essa Terra é Nossa continua a pesquisa pelas origens da dupla de diretores Isael e Sueli Maxacali, aqui com a ajuda de Carolina Canguçu e Roberto Romero, que também assinam a direção. O mergulho aqui é ainda mais profundo com relação ao longa anterior, As Mulheres Espírito. O homem branco é mostrado como o inimigo que de fato é (o genocídio indígena está comprovado) e a preservação da língua e dos costumes, com os espíritos yâmiyxop os guiando, ganha outra grandeza. Filme duro, poético, político e super focado (apesar da quadruplicidade de pontos de vista), com momentos inesquecíveis como o da caverna dos morcegos que antes moravam nos troncos das árvores derrubadas pelos fazendeiros, ou aquele em que o dono de um bar reclama de lâmpadas roubadas enquanto os índios têm vidas roubadas, ou ainda as longas perambulações entre campo e cidade, terra dos índios e terra roubada. Chama a atenção também a mulher falando na língua da tribo Tikmũm’ũn (Maxakali) e uma única palavra em português, que por isso se destaca: preconceito, palavra usada pelo homem branco, pelo visto sem equivalente na língua da tribo, para dar conta de um sentimento nefasto. Falar que Nũhũ yãg mũ yõg hãm é um filme necessário é pouco e deslocado. Trata-se de um filme que tende a ficar muito tempo em nossa memória justamente por ser tão bem construído, com imagens fortes e livres de tendências contemporâneas. Mais que um panfleto anti-genocídio, é um filme vivo, que nos impele a lutar as lutas certas.

O terceiro e último filme contemporâneo que vi dentro da 7ª edição da Mostra de Gostoso atende pelo curioso nome de Cidade Correria e é dirigido por Juliana Vicente. Parece ter dois filmes em um. O primeiro é muito mais interessante e começa com o Coletivo Bonobando chegando à cidade do Rio de Janeiro pelo mar, apresentando-se para uma câmera inquieta e no balanço do mar, que alterna entre os membros do coletivo em suas falas dentro do barco até que eles veem a cidade. Corta para os créditos e se inicia o segundo filme sem que o primeiro tenha deixado de existir, felizmente, embora seja bastante diminuído. Esse segundo filme mostra entrevistas com os membros sobre suas relações com o teatro, o coletivo, a cidade, o país, além de imagens de ensaios e da encenação propriamente dita. Interessa menos justamente por ser mais convencional, dentro de uma perspectiva de depoimentos, com o fundo negro de um palco, já muito explorada. O lado ensaístico, contudo, permanece e provoca alguns atritos na estrutura, mas parece cada vez mais relegado a um segundo plano, infelizmente. O mérito de mostrar o coletivo é inegável, e também o de chamar a atenção, gradualmente, para o preconceito, principalmente os de policiais e militares contra os moradores da comunidade. Nada disso é novo, mas ainda somos obrigados e repisar esses temas. E parece não haver mais formas de dizer o óbvio. Talvez o cinema brasileiro mais engajado não avance muito justamente porque a sociedade brasileira teima em regredir rumo à barbárie definitiva.

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