De Repente, no Último Verão

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O que mais me espanta nesse filme cruel de Joseph L. Mankiewicz, realizado em 1959 em preto e branco, é o transtornado Montgomery Clift como um neurocirurgião especialista em lobotomias.

Suas falas com tremores, sua feição de psicopata, seu olhar de suicida em potencial, informam que não foi fácil contracenar mais uma vez com Elizabeth Taylor, a paixão de sua vida desde, que eu lembre, Um Lugar ao Sol (1951), o grande melodrama noir de George Stevens.

Nessa escolha de elenco reside a crueldade do filme, que se torna ainda mais estranho ao mostrar que a pessoa mais perto do normal de todo o filme é justamente aquela que é acusada de louca, e a mais perturbada é aquela que deve cuidar profissionalmente dessa louca. Não me parece um acidente.

Ilustrador de roteiro, cineasta da palavra, cineasta sem olhar… Já ouvi falar essas coisas e muitas mais de Mankiewicz, que aqui parece enfrentar diretamente essas acusações fazendo um filme que, muitas vezes, parece cair direitinho nelas. Afinal, as palavras de Tennessee Williams e Gore Vidal têm um peso ameaçador e é difícil um cineasta se libertar delas e ainda confrontar a máquina hollywoodiana.

Mas é só ilusão. O olhar vivo de Taylor se cruza com o olhar perturbado de Clift sob a vigilância do olhar tenebroso de Katharine Hepburn. E temos assim a melodia de olhar de que falava Nicholas Ray. E Mankiewicz mostra que sua direção ainda é plenamente cinematográfica, capaz de resistir até às pressões de uma megaprodução como Cleópatra (1963).

De Repente, No Último Verão, como bem apontou Angélica Garcia Manso em seu ótimo livro El Cine Frente al Espejo, sobre a obra de João César Monteiro, apresenta uma série de paralelismos com À Flor do Mar (1986), do grande cineasta português. Segundo a autora,

“quando Laura instala Robert no quarto que serviu de atelier de pintura de seu finado marido Virgílio, o náufrago interroga a sua anfitriã quando se deu a morte de seu marido, Laura responde com a expressão ‘Suddenly, last summer’, o que constitui indubitavelmente, uma referência explícita” (p. 78).

Há também uma relação entre os mortos presentes nos dois filmes, Sebastian Venable no filme de Mankiewicz, Virgílio no de Monteiro. Ambos ligados à produção artística. Poeta, o primeiro, pintor, o segundo. E há ainda outros fatores que ligam os dois filmes, expostos no trabalho da investigadora, incluindo frames comparativos, quando possível.

Prefiro outros longas de Mankiewicz: O Fantasma Apaixonado (1947), Quem é o Infiel? (1949), A Malvada (1950), A Condessa Descalça (1954). Até, dependendo do dia, Eles e Elas (1955). Mas não há, entre seus filmes, um mais cruel e doente que De Repente, No Último Verão.

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