Autor Arquivo: Sérgio Alpendre

Fim do 14 º Fest Aruanda

baratoiacanga

Foram apenas quatro dias (dos sete que envolvem o festival em sua parte nuclear), mas deu para perceber o quanto o Fest Aruanda é especial. Há algo de mágico na cena nordestina. Ela é apaixonada, vibrante e contagiosa. Difícil ficar imune ao cinema feito na região, e em especial na Paraíba, que me parece ser a bola da vez. Mesmo quando os filmes são cheios de problemas, há algo neles que nos conquista. Claro, vistos em festival esses filmes tendem a ser vítimas de uma impressão equivocada. Mas essa impressão pode ser também negativa. Noves fora, posso confiar, por ora, na minha impressão inicial.

Escrevo aqui sobre um festival de filmes brasileiros, mas não necessariamente nordestinos. Ou seja, pode haver filmes de todo o Brasil. No caso, quero dizer que algo dessa paixão e da sede cultural que se respira (e muito bem) no nordeste passa para todo o festival. Fica um clima de comunhão, propiciado também pela vontade de reagir ao crime cultural do novo governo federal e pela consciência de que a cultura é muito importante, economicamente, seja para um país, uma região, um estado ou uma cidade. Essa consciência meio que comanda as reações aos filmes e a cada palavra dita pelos apresentadores, representantes dos filmes selecionados ou homenageados. E contagia até mesmo um observador distante.

Depois tem esses encontros inesperados que fazem toda a diferença e me fazem querer continuar acompanhando festivais. Lúcio Vilar, diretor artístico do festival, disse que fez uma disciplina comigo na USP, em 2011, eu iniciava o mestrado, ele, o doutorado. Depois, um jovem cineasta, Fábio Rogério, sentou ao meu lado no ônibus da volta para o hotel e disse que estava numa palestra sobre crítica que ministrei na UFSCar, em São Carlos, por volta de 2013, 2014, algo assim. Isso me lembra que eu esqueci de pedir o óbvio: o link do curta que ele dirigiu, um dos que perdi.

Passando para os filmes, pude finalmente ver O Barato de Iacanga, longa de Thiago Mattar sobre o Festival de Águas Claras, evento com quatro edições na pequena Iacanga, interior de São Paulo. Problema evidente do filme: a falta de imagens da primeira edição. Passamos para a segunda, a terceira e até mesmo a quarta, mas ficamos sem ver grandes imagens em movimento da edição inaugural, de 1975. As mais documentadas são a segunda (de 1981) e a terceira, de 1983. Elas são as responsáveis pelo festival ter saído de um certo underground (de boas bandas de rock progressivo ou hard rock) para uma ideia mais ampla de MPB, com participações de Alceu Valença, Luiz Gonzaga e João Gilberto, entre muitos outros. Tornou-se um festival mais plural, e isso o filme mostra bem. Como mostra, também, a maneira como o evento envolveu toda a comunidade de Iacanga. O alívio cômico das duas testemunhas das edições é bem-vindo, assim como as breves entrevistas com comerciantes locais. Mas aí surge também um problema, que afeta o filme somente em alguns momentos: a síndrome de Huguinho, Zezinho e Luisinho, que consiste em fazer com que a fala de um entrevistado continue imediatamente a fala de outro. Por sorte, essa mania do documentário televisivo acontece em poucos momentos. No geral, o filme é delicioso de se ver, principalmente para quem gosta de música brasileira.

No dia anterior, consegui acompanhar a sessão Sob o Céu Nordestino, com dois curtas e um longa. Giocondo Dias – Ilustre Clandestino, de Vladimir Carvalho, é decepcionante, no sentido de ser quadrado, extremamente convencional em seus 90 minutos, como uma longa reportagem televisiva. Claro que contém informações importantes. Para mim, uma delas é que Aloysio Nunes, que fez a parte mais destacada de sua carreira no PMDB de Orestes Quércia, ainda sente grande afeto por José Dirceu, companheiro da época em que ambos estavam no PCB. Muda bastante o espectro político, mas a admiração e a amizade continua, o que diz, de algum modo, tanto de Aloysio quanto de Dirceu.

Os dois curtas dessa sessão são Costureiras, de Mailsa Passos, Rita Ribes e Virgínia de O.Silva, e A Ética das Hienas, de Rodolfo de Barros. O primeiro está no velho esquema de entrevistas e  e se não traz invenção alguma, também não desrespeita um nível mínimo de qualidade. Trata-se então de um curta correto, nada mais que isso. A Ética das Hienas também é correto, principalmente no relato das incorreções típicas do Brasil. Um acerto trabalhista para poupar o pessoal da grana. O destaque vai para os atores: Tavinho Teixeira, Marcélia Cartaxo, Suzy Lopes e a nova promessa (ou já mais que isso) Daniel Porpino (protagonista do bom Desvio, longa paraibano da competitiva).

Finalmente, antes de seguir para o aeroporto de Jampa para voltar a Sampa, consegui ver De Longe, Ninguém Vê o Presidente, de Rená Tardin, que havia perdido na sessão de segunda. É um curta poderoso, que usa o áudio do discurso de Lula antes de sua prisão com imagens das montadoras de São Bernardo do Campo. Percebe-se a substituição do homem pela máquina, um dos motores de uma crise difícil de ser solucionada. Mostra também o carisma político de Lula (goste-se ou não dele), e a força de suas palavras e de seu lado comunicativo. O plano mais emblemático de ABC da Greve é inserido perto do final, e cai bem ali, foi uma inserção bem pensada, justa. Afinal, foi ali, em São Bernardo do Campo, discursando para os trabalhadores, que sua carreira de liderança popular se consolidou. As imagens fortes do curta, compostas (e juntadas) com cuidado, abriram uma sessão (a que comentei no último texto, que se encerra apropriadamente com o longa Partida), com quatro curtas e um longa, das mais inspiradas que pude ver em qualquer festival.

Quando o calor é maior no cinema (14º Fest Aruanda)

partida

O título sugere que os filmes exibidos na noite desta segunda passaram calor para a plateia. E aconteceu isso mesmo. Mas o calor a que me refiro foi causado pelo desligamento do ar condicionado (que já não estava grande coisa) em determinada altura, por causa da reclamação de algum friorento (foi o que me disseram). É o que sempre digo, pessoas friorentas normalmente andam com blusas, casacos, o diabo a quatro. Calorentos como eu só podem sofrer, porque mesmo se tirarmos a roupa no cinema o calor vai continuar. E o calor no cinema ontem era maior que o das ruas de João Pessoa.

Desabafo terminado, e muito suor depois, falemos dos filmes. Estes, brilharam. E o calor que veio deles foi muito mais fácil de receber. Foi uma das sessões mais especiais que já vivi em festivais. Infelizmente, perdi o primeiro dos quatro curtas que compuseram a sessão. O jantar atrasou e a sessão não, mas eu esperava que atrasasse, já que na noite anterior atrasou (e me disseram que nas outras noites também). Lei de Murphy, sabem como é. Felizmente encontrei o produtor no ônibus de volta ao hotel, e ele me prometeu passar o link. Aguardo então a visão de De Longe, Ninguém Vê o Presidente para comentar.

Os outros curtas me pareceram formidáveis, cada um a seu modo. O mais lynchiano é Gravidade, de Amir Admoni. Sempre achei que as melhores animações tendem a ser aquelas em que a trama não pode ser contada com atores. Claro, hoje a tecnologia faz James Dean interpretar de novo, o que para mim é uma aberração. Mas uma animação como Viagem de Chihiro, por exemplo, se beneficia de seu universo fantástico, com o onirismo e a ludicidade dominando a narrativa e amplificando o potencial dos traços. Gravidade me pareceu uma animação com técnica moderna (mas não entendo muito disso). Mas a técnica só importa para técnicos ou animadores. O que nos interessa nesse curta é o universo que ele proporciona. Duas pessoas (parecem homens) caem do céu amarrados por uma corda. Um deles está em cima de uma geladeira. Cai também um rádio gravador (primeira imagem do filme). Alguém observa a queda lá de baixo. Para quem cai, o jeito é relaxar e curtir a viagem.

Um Café e Quatro Segundos, de Cristiano Requião, é mais pé no chão. Sua força está no trabalho dos atores. Osmar Prado e Samir Murad são dois torturadores da época da ditadura militar. Um deles (Samir) está arrependido e amargurado. Não se conforma com as atrocidades que fez. O outro (Osmar) fala que era necessário para deter o comunismo e outras ladainhas desse tipo de gente. É impressionante como acreditamos que Osmar Prado é essa figura asquerosa, fascista e burra. Mas não nos surpreendemos tanto. Afinal, é um de nossos grandes atores.

Por último, Brasil, Cuba, de Bertrand Lira e Arturo de la Garza, encanta pelas imagens levemente embaçadas – um efeito anacrônico que funciona bem ao curta – de uma cidade em Cuba chamada Brasil. Retrato afetuoso de um país que atingiu níveis quase máximos de alfabetização e desconcentração de renda. O custo disso foi o autoritarismo. E o embargo econômico imposto pelos americanos, que não podiam mais explorar os cubanos. O filme é uma sucessão de imagens do cotidiano, tornadas oníricas pela textura do leve embaçamento, na contramão das imagens de Led que chegam de alguns curtas (e das projeções digitais). Achei bem bonita essa opção, mesmo que tenha sido causada por alguma calibragem errada do projetor (mas penso que não). Ficou com ar de tempo sustentado, de uma bolha do bem viver que só é possível na paz, com os cachorros e os velhos convivendo em harmonia.

Partida é o longa inspirado e inusitado de Caco Ciocler. Filme de percurso, de revelação da mentira do cinema, de falsas ficções e falsos documentários, mas também de inquietações e contradições muito reais. No dia do segundo turno das eleições de 2018, dia que vai ficar marcado como o “sim” ao fascismo pelo emburrecido povo brasileiro, Georgette Fadel resolve ir com o diretor e uma trupe ao Uruguai, para encontrar o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica, espécie de mentor de uma esquerda que deu certo, até certo ponto (o ponto que as elites permitem).

No caminho de ônibus (porque essas viagens têm de ser por estradas e não pelo céu), muitas coisas acontecem. Brigas falsas, brigas reais, verdades sendo escancaradas (meio falsas, meio reais) e antagonismos sendo forjados. Há ainda uma menina, simbolizando a esperança do futuro e da juventude (algo que Mujica sentiu, a que retornarei depois). No caminho do filme, as estratégias de falso drama são todas tornadas transparentes. Ouvimos conversas pessoais, telefonemas, relatos que nos informam dos planos para deixar o filme mais interessante. É um jogo o que propõe Ciocler ao espectador, um jogo em que seu próprio estatuto de ator global e pequeno burguês é questionado. A ideia de Georgette de se tornar candidata a presidenta da Brasil em 2022 é bombardeada por sua falta de abertura e calma, e o contraponto é o ator Leo Steinbruch, com o típico discurso reacionário que cansamos de ouvir. Georgette manda bem às vezes, em outras manda o piloto automático das palavras de ordem da esquerda moribunda.

Aplausos em cena aberta aconteceram quando o português mais brasileiro do cinema, o técnico de som Vasco Pimentel, explicou sua visão sobre o Brasil e os brasileiros, e por que gosta tanto de nosso país. Para ele, o Brasil e os brasileiros são um acidente, um povo que não devia existir, que estava destinado a ser explorado pelos portugueses. Muitas coisas derivam dessa condição, mas deixo ao futuro espectador (ou a quem se dispuser a rever o filme) as demais implicações. O fato é que foi uma senhora explanação, típica da erudição portuguesa, com um olhar de fora que só faz bem (que muitos não gostam e até não aceitam por limitação de suas mentes). Essas interrupções, programadas ou não, dão ao filme um tom de brincadeira do acaso que nos envolve e nos mantém presos a esse pequeno exército de Brancaleone.

O encontro com Mujica no final deve levar às lágrimas qualquer espectador com sangue nas veias e consciência do fracasso de nossas esquerdas. Quando ele aparece, a menina logo o abraça, e ele coloca sua mão em cima da cabeça dela, como uma espécie de passagem de cetro, de comunicação de uma ideia que precisa passar para as novas gerações mesmo que pule as gerações intermediárias. Georgette representa duas ou três gerações posteriores a de Mujica. Parece carregar ainda alguns vícios da geração que fracassou na implementação de uma humanidade mais igualitária (teria como não fracassar com a elite nojenta que temos na América Latina?). É necessário então passar a experiência adquirida, de prisão, da luta armada e da presidência, à geração que poderá chegar ao poder dali a 40 ou 50 anos, quando os ricos poderão comprar mais tempo de vida (segundo nos ensina Mujica).

Meu 1º dia no 14º Fest Aruanda: Dia de Desvio

desvio

Quis o destino que a primeira vez que eu viesse acompanhar o Fest Aruanda, em João Pessoa, fosse em sua décima quarta edição. Como já disse aqui ou alhures, 14 é meu número de sorte. Apesar disso, o primeiro terço da viagem de avião foi tensa. Nunca peguei uma turbulência como aquela, e nunca ouvi tantos gritos no avião. Mas passou. Acontece com as nuvens pesadas dos trópicos. Na chegada, um pouco atrasado, deu para ver ainda a última sessão do dia, com dois curtas e um longa, todos em competição. Antes, houve uma homenagem a João Batista de Andrade, com uma fala entusiasmada de Vladimir Carvalho. (imagino que Linduarte Noronha tenha sido o homenageado na primeira edição)

Os dois curtas são Quitéria, de Tiago A. Neves, e Balão Azul, de Alice Gomes. O primeiro é paraibano e conta a história do renascimento de uma mulher, que vivia em preto e branco, mas por resolução própria e força de vontade, resolve romper o monocromatismo para descobrir a cor em sua vida. Um tanto trivial a simbologia, mas no curta até que se resolve bem. E o diretor ainda tem a audácia de um movimento de câmera acintoso no final, marcando o renascimento.

Balão Azul é um filme infantil, com poesia idem. Não é mal dirigido, mas também não apresenta nada que seja marcante. O curta me pareceu um descanso entre a intensidade de Quitéria e a do longa paraibano que encerrou a sessão, como uma faixa de melodia mais morna entre dois petardos em um disco de rock (e falar de rock vem bem a calhar na preparação para o longa).

Desvio é esse longa, e foi dirigido por Arthur Lins com um tom que lembra bastante os primeiros filmes do Wim Wenders. Para completar a ligação, basta trocar o rock sessentista dos Kinks e do Lovin’ Spoonful pelo hardcore underground paraibano. Não é fácil imprimir esse tom de recorte, uma coisa meio cotidiana meio acerto de contas, por todo o tempo, e é compreensível que o filme patine um pouco no começo. Mas também no começo (no primeiro terço, mais ou menos) fica claro que ele é capaz de fazer alguns voos, principalmente na relação dos primos Pedro, que teve um indulto de natal em seu regime de prisão semi-aberta, e Pâmela, adolescente que não quer seguir os rumos dos pais e suas festas em igreja. Há uma cena de assalto que não é de todo bem realizada, mas não compromete. O pós-assalto, com a queimação do carro é um dos pontos altos do filme, e o corte certeiro nos leva para longe dali, da noite para o dia, encerrando a sequência de um modo bem convincente. Essas escolhas de planos e cortes elevam o filme e promovem um crescendo interessante, culminando em um final prosaico que cabe bem ao longa. Uma surpresa (se é que dá para falar em surpresa relacionada ao cinema paraibano a esta altura).

 

Sexta-feira, 15 de novembro de 2019

fordferrari

15h: Entro na demorada fila para ver Ford vs. Ferrari no Cinemark Mooca, um dos únicos cinemas que gosto dessa rede porque os filmes geralmente passam legendados e a projeção é melhor que a de outros cinemarks (talvez por ser um shopping mais novo). Na hora de escolher o lugar, essa prática maldita de nossos cinemas, noto que a sala está bem cheia, e escolho um lugar estrategicamente distante, na segunda fileira, onde ninguém mais senta. Para minha surpresa, o lugar não é ruim, pelo contrário. De lá vi o filme muito bem.

15h40 até 18h30, aproximadamente: Vejo o filme inteiro, que vai fácil apesar de suas duas horas e meia de duração, também porque a plateia estava silenciosa (o que é surpreendente para um shopping em feriado) e ri nos momentos que é para rir (não aquela riso de bobo alegre que nos acostumamos a ver nos cinemas paulistanos). Mais sobre o filme em breve no Olhar Digital. Mas adianto que Mangold dirige sobriamente, Matt Damon está ótimo e Christian Bale exagera na pose de matuto. Saio do cinema e o Shopping está tão cheio que penso logo em fugir dali. Ainda deu tempo de ver que na Saraiva estavam vendendo o Blu-ray de Coração Selvagem, do Lynch, por R$ 4,90.

Por volta das 23h30: Em casa, revejo o terço final de Um Olhar do Paraíso, de Peter Jackson, exibido pelo suspeito canal Paramount. Em dado momento, minhas suspeitas se confirmam: um comercial nada a ver entra num momento importante do filme. Mais tarde, antes mesmo de começarem os créditos finais, novo intervalo comercial intrusivo. Volta depois de uns 5 minutos com os créditos tão acelerados que é impossível ler um nome sequer. Termino pensando que se isso não é considerado um crime autoral pior que a pirataria, deveria ser.

Finalizando Gostoso

ambiente

Para encerrar a cobertura Gostoso 2019, resta falar de um longa visto, o paraibano Ambiente Familiar, de Torquato Joel.

Torquato fazia cinema na Paraíba antes que o estado fosse reconhecido como novo polo cinematográfico. É um veterano, da geração dos anos 1980, junto com Marcus Vilar. Torquato Joel procura, desde os seus primeiros filmes, imagens e narrativas poéticas. Ambiente Familiar não é diferente. Três amigos procuram superar coisas mal resolvidas de seus passados, vivendo juntos, como uma família. Os flashbacks são pretextos para brincar com o enquadramento (1.33:1) e criar imagens impactantes, embora nem sempre inteligíveis. Normalmente a falta de inteligibilidade não interfere no nosso julgamento, principalmente quando for resultado de algum recurso artístico ou cinematográfico. Mas por vezes notamos que é apenas um atalho para não precisar estruturar melhor a narrativa. Em Ambiente Familiar, às vezes tive essa impressão. Mas no geral é bem digno, até por sua pesquisa visual. Não é um filme fácil, e dos quatro longas da Mostra Panorama, é o único que não ficaria bem na Mostra Competitiva (imagino a plateia na praia se dispersando e dispersando os espectadores interessados, não ia funcionar).

Finalmente, a Mostra de Cinema de Gostoso, em sua sexta edição, confirma sua vocação de importante festival de cinema brasileiro. Mas como escrevi no balanço publicado na Folha de S.Paulo, é necessário tomar cuidado com o crescimento, que é bacana e bem-vindo, mas traz consigo alguns perigos. No ano passado foram 450 cadeiras na praia. Neste ano foram 650, e as sessões continuaram lotando. Isso é bom, claro. Devem ser criadas condições de receber essas pessoas, porque seria bom que elas aparecessem, principalmente do estado potiguar – mas por que não de todo o Brasil? Mas a Mostra não pode perder sua cara, seu foco. Se ganhar mais um dia, um outro filme na competição não faria mal. Se Gostoso começar a exportar cineastas (o que já se revelou uma possibilidade concreta), deve-se cuidar para que o coletivo não perca seu foco e sua força, que está na humildade e na vontade de aprender. O coletivo Nós do Audiovisual é uma pepita que precisa ser cuidada com carinho. Pelo que vi neste ano, a Mostra está no caminho certo.


P.S.

Há ainda os filmes da Mostra Panorama que eu havia visto em outras ocasiões. Então seguem links para os textos que fiz sobre: Diz que me Viu Chorar, de Maíra Bühler (https://sergioalpendre.com/2019/06/08/olhar-de-cinema-dias-1-e-2/), A Mulher da Luz Própria, de Sinai Sganzerla (https://sergioalpendre.com/2019/06/11/olhar-dia-5-matsumoto-sganzerla-ignez/) e Chão, de Camila Freitas (https://sergioalpendre.com/2019/06/12/olhar-dia-6-enquanto-estamos-aqui-o-sol-queima-o-chao/).

Ainda Gostoso

fendas

Fendas (foto), de Carlos Segundo, é um filme da consciência do mal-estar, da reordenação de uma vida, da tentativa de se encontrar em um território estranho e desafiador para renascer após um relacionamento fracassado. Um filme da procura.

Como tantos outros filmes assim, é necessário que nos identifiquemos com quem procura. No caso, precisamos ter empatia pela protagonista Catarina, uma pesquisadora de física quântica que está em Natal, onde também dá aulas para um único aluno. Poderia ser uma personagem em crise, e é, mas a crise já está dada e o que vemos é o movimento de saída da crise.

Sua pesquisa, para qualquer leigo no assunto que se interessa por arte, é buscar algum sentido na abstração. Ela amplia videos filmados (por vezes até do filme que estamos vendo, numa interessante brincadeira com as instâncias) até que as imagens se tornem borrões e os sons se tornem pouco ou nada identificáveis. A procura por um sentido na abstração da imagem e do som, mas também a procura por um sentido na abstração que é a mente humana, com seus desejos inconfessáveis e traumas por vezes difíceis de se explicar.

E o sucesso do filme passa pela excelência da interpretação de Roberta Rangel (atriz que nos lembra da saudosa Anecy Rocha, até pelo corte de cabelo). Sua personagem é composta de uma forma interessante, ainda que com alguns exageros – o grito com o email revela um desespero meio forçado, que não condiz com os momentos em que ela se encontra sozinha, contemplando belas vistas. A fala final poderia soar panfletária caso a atriz não tivesse sido feliz na composição dessa personagem. Ou seja, tudo que vemos antes, suas conversas e seus gestos, nos leva a essa frase, e com ela a um rompimento definitivo. A atriz faz com que a frase tola fique bem na fita, porque todos nós dizemos frases tolas, chavões de autoafirmação. E o dela, naquele momento, é plenamente justificável.

Os outros longas da competição são Casa, de Letícia Simões, e Pacarrete, de Allan Deberton. Bahia e Ceará na fita. Sobre o primeiro, escrevi brevemente durante o Olhar de Cinema de Curitiba, isto aqui:

“No filme brasileiro [Casa], filha, mãe e avó se encontram em Salvador e lidam com suas diferenças, principalmente entre a mãe e a avó, sendo que a filha é Letícia, a diretora do filme. Mas o encontro começa em 2015 e termina em 2017, com a avó já falecida. Há uma insistência em enquadramentos que cortam personagens. Num dos planos mais interessantes, vemos mãe e avó e só a ponta do nariz de Letícia (e mais alguma coisa de seu corpo), indicando que a diretora quer mesmo é jogar os holofotes naquelas que entende ser suas melhores personagens. De fato, são duas das personagens mais cativantes do cinema brasileiro recente. E se digo personagens é porque a verdade que elas mostram ali é claramente encenada para a câmera, pelo menos da parte da mãe, mais consciente de seu carisma (um carisma um tanto vilanesco, como a filha pretende forçosamente fazer-nos crer). Casa não é tão forte quanto o outro brasileiro da competição [Diz a Ela Que Me Viu Chorar], mas é bem digno. Se o filme mostra que o cinema baiano continua pulsante, mostra também que a crise de imaginário do cinema brasileiro recente continua, o que faz com que jovens cineastas muitas vezes procurem o real a qualquer custo, inventando a partir dele (isto está também no outro brasileiro do dia). Pelo menos agora já se trabalha melhor dentro desse registro.”

No debate aqui em Gostoso, (não vi debate algum, um pouco pelo calor do local onde eles são feitos, outro pouco por falta de tempo, e um outro pouco porque não tinha como ver todos, e ou via todos ou não via nenhum) disseram-me que a diretora pretendia que fosse ela a vilã do filme. Um tanto difícil num filme em primeira pessoa, mas pelos relatos que ouvi isso fez com que muitos desculpassem a falta de paciência demonstrada por ela (e das pessoas com ela) no convívio com as demais personagens. Pessoalmente, não sei se é necessário encontrar um vilão no filme. Quando falei em “carisma um tanto vilanesco” estava pensando mais na instância das pessoas tornadas personagens, não nas pessoas da vida real. A câmera muda o estatuto delas, e nada de errado, penso, em fazer com que a mãe seja levemente distorcida com esse filtro. Como também não me incomodo com a primeira pessoa, que é o agente promotor dessa distorção.

Sobre o outro longa, aquele que abriu a competição, e o quarto dessa mostra, escrevo agora.

Pacarrete é um presente para Marcélia Cartaxo. Uma possibilidade de atuação tão marcante quanto a de A Hora da Estrela, com a qual a atriz se consagrou no cinema. O público reconheceu. A crítica também. Há certo exagero na saudação do filme como uma obra-prima, mas quanto a isso já estamos acostumados.

A arquitetura da casa onde vivem Pacarrete (Cartaxo) e sua irmã Chiquinha (Zezita Matos) permite alguns planos bem estranhos, como aquele em que Maria, a faz tudo da casa, vai atender à campainha (a mesma que toca depois, soada pelas crianças que fogem) enquanto as irmãs estão postadas uma em cada cômodo entre a cozinha e a sala de entrada. Pacarrete de pé, à beira da pia, um pouco sem jeito por ter destratado Maria e em seguida saído de casa. Chiquinha à espera de algum entendimento entre as duas e feliz pela volta da irmã. Um plano bem estranho, mas que ajuda a montar o clima meio onírico que perpassa o filme e se consagra na metade final, e principalmente na cena final.

Num outro momento, após um acontecimento muito triste, Pacarrete põe-se a lavar a calçada, procurando um gesto mecânico que a faça esquecer a tristeza. Um momento de poesia que vem naturalmente, de pura observação do cotidiano, valorizado por uma atriz no auge de sua arte.

Marcélia Cartaxo é também a responsável por evitar o desequilíbrio do conjunto. Sua personagem beira o histrionismo, e a possibilidade de overacting era gritante, assim como a possibilidade de desequilíbrio, da atuação se sobressair ao filme. Com sua interpretação nuançada, dentro da personalidade forte de Pacarrete, ela consegue fazer com que tenhamos raiva das decisões da personagem, mas não da personagem em si. Faz com que procuremos entendê-la insistentemente, porque não temos a vontade de abandoná-la. Isso também possibilita um final de intensa poesia, que num tom errado poderia descambar para o patético, o que felizmente não acontece. Trabalhar assim, próximo ao risco, dignifica um autor em potencial e o prepara para audácias maiores.

Ou seja, Pacarrete é filme de atriz-autora, quase “um filme de Marcélia Cartaxo”, mas em certo sentido é exatamente isso. E pode ter provocado, da parte do diretor em seu primeiro longa, pela contensão e sábio entendimento de que o brilho maior precisava ser dela, o surgimento de um cineasta a ser acompanhado.

Gostoso em curtas

quebramar

Uma palhinha necessária sobre os curtas vistos aqui em São Miguel do Gostoso. (O média Sete Anos em Maio foi comentado em outro texto).

O melhor me pareceu Quebramar (foto), de Cris Lyra, em que um grupo de jovens lésbicas se reúne numa praia tranquila para relaxar e resistir ao mundo cada vez mais machista que encontram, apesar de algumas conquistas. Por meio de recortes de seus corpos, dos cabelos e das metades de rostos que por vezes formam o enquadramento, o filme parece procurar, a seu modo, uma identidade, e também um lugar pacífico no mundo. É interessante que tenha passado antes de um outro interessante filme de procura, o longa Fendas. Por mais que a procura seja um motivo frequente no cinema, poucos filmes dão voz à procura de modo tão contundente, especialmente pelo aspecto formal, quanto Quebramar. Um filme que aposta em deixar pontas soltas e funciona bem dentro desse registro, o que não é fácil. Essas jovens têm suas identidades o tempo todo questionadas. Elas sabem muito bem quem são, como querem viver e como querem amar. Mas a sociedade as empurra para um questionamento incessante de suas possibilidades. Vê-las em comunhão é tão gostoso quanto a risada solta de uma delas.

Juliana Antunes virou uma celebridade no circuito do novíssimo por seu irregular longa Baronesa. Em Plano Controle, exercita um pouco do humor tosco de alguns programas de YouTube, mas não posso dizer que se saiu bem. As voltas ao passado, com o respeito ao formato e às qualidades da imagem de cada época, são interessantes, mas cansam rapidamente (o que assusta, num curta de apenas 15 minutos). O comentário político também me soou um tanto infantil.

Marie, de Leo Tabosa, tem 25 minutos, mas ao contrário de Plano Controle, não cansa tanto. O que não quer dizer que seja melhor. A história de dois amigos de infância que se reencontram para um enterro tem um único momento empolgante que é o pedido de desculpa de Estevão (Rômulo Braga) para Marie (Wallie Ruy), provavelmente porque Estevão não aceitou tão bem a decisão de seu amigo de se tornar mulher (embora isso só seja verbalizado na tangente). No restante, a toada segue sem grandes cenas, mas também sem nada que tivesse me desagradado. É um curta que precisa do banho-maria para tornar potente o pedido de desculpas. Essa é sua limitação.

O potiguar Em Reforma, de Diana Coelho, tem sua força num certo naturalismo alcançado, mas a atriz principal precisava de um outro tratamento, provavelmente não naturalista, ou até anti-naturalista (na linha Straub-Huillet), porque não é fácil impor esse naturalismo em todo o elenco. A filha, por exemplo, se dá muito bem dentro desse registro, o que acentua a diferença das atuações. Não se trata de dizer que uma é melhor atriz que outra, já que só as vi neste único curta. O que importa, no caso, é entender o que se pode fazer com o elenco escolhido e o que se deve contornar.

O outro curta potiguar é um documentário. A Parteira, de Catarina Doolan, nos apresenta Donana, mulher de personalidade forte e crítica. O documentário é a porta de entrada natural para cineastas jovens, pois o risco da direção de atores dentro de um registro naturalista é minimizado ao máximo. Temos apenas a atuação das pessoas diante da câmera, uma atuação que diz respeito a certa verdade, mais do que a uma construção narrativa. A narrativa, por sua vez, é conduzida pela verdade que vem das pessoas. Mas ainda há o risco da má encenação, da colocação da câmera em lugares errados, da falta de ritmo ou de um desequilíbrio no tom (além de milhares de outros problemas que porventura surjam nas filmagens). Nesse quesito, o curta também se sai razoavelmente bem, tornando-se, após Quebramar e o média Sete Anos em Maio, o terceiro melhor da competitiva de curtas.

Entre os curtas do coletivo Nós do Audiovisual, deu novamente para sentir um agradável progresso, e é bom notar que está cada vez mais curta a distância entre esses curtas e os da competitiva. Diria até que Ando me Perguntando, apesar de sua irregularidade e de um final que ousa por não deixar tudo tão didático, mas simplesmente não funciona porque não foi bem encenado, perderia apenas para Quebramar e Sete Anos em Maio, na competição. O melhor dele é o aspecto cômico, que fez as crianças que estavam ao meu lado gargalhar em uma cena específica. Carta Branca tem certo interesse instantâneo, mas suas imagens foram logo esquecidas por causa da chegada de Sete Anos em Maio, o filme de encenação mais forte de toda a Mostra (esses curtas do coletivo se beneficiam porque passam antes em uma sessão que tende a chegar às 3 horas de duração, fora as apresentações, mas há sempre esse risco do esquecimento). Por fim, Júlia Porrada é o mais forte dos curtas do Coletivo. Além de ter nível para não fazer feio na competitiva, o curta tem como personagem-título uma senhora que é um verdadeiro achado, uma benção para qualquer documentarista. O risco era fazer dela um objeto de escárnio, ou deixar que a personagem leve o filme nas costas sem se preocupar com a forma (erro bem frequente em diretores inexperientes). Tudo isso foi evitado em uma direção correta, que alterna rigor com soltura de câmera à medida que vai destrinchando a sabedoria de Júlia Porrada. Infelizmente não vi Labirinteiras. Lamento.

 

 

Começando Gostoso

seteanos

A cobertura da 6ª Mostra de Cinema de Gostoso será mais curta que a do ano passado. Como estava em Paraty, cheguei mais ou menos na metade do festival, tendo visto os dois primeiros filmes da competitiva em outras ocasiões, e conferindo os dois últimos com a plateia de Gostoso.

Plateia que, neste ano, parece mais ruidosa. Podemos dizer até que ela boicotou Vermelha, de Getúlio Ribeiro, terceiro longa da Mostra Competitiva. Enquanto o filme se desenrolava na tela com a bela projeção 2K, o tablado de madeira virou uma passarela. Não passava um minuto sem que um grupo de pessoas andasse do início ao fim olhando para os lados, nem sempre à procura de lugar porque as andanças continuaram depois que alguns barulhentos foram embora, mas para ver quem estava ali. As pessoas conversavam aos berros, como se estivessem numa mesa de bar. Os dois casais atrás de mim mereciam um prêmio pela grosseria e falta de respeito. Eram mais velhos. Mas os jovens também aprontaram. No meio do filme sentou um casal jovem quase do meu lado. O desmiolado ficava fazendo barulho com uma sacola de plástico e comendo coisas fedidas. Depois passou a ver coisas no celular e a comentar o que via com a namorada ou amiga. Interesse zero pelo que se passava na tela. Respeito zero por quem tinha interesse.

Penso que essa grosseria tem um motivo. Acostumadas com a fluidez narrativa de Bacurau, exibido na noite anterior com público recorde, um filme que aprendeu direitinho a arte de um cinema de gênero bem feito, essas pessoas foram para ver Bacurau 2, mas encontraram o quase hermético Vermelha, só sossegando, um pouco, nas cenas de briga. E penso isso porque esse tipo de coisas existia no ano passado, mas não o tempo todo, e não em tão altos decibéis. Bacurau deve ter aberto os portais do inferno do pior tipo de espectador que todas as cidades têm. O espectador que está interessado em mais coisas externas do que no filme. Outro sinal de que isso pode ter acontecido foi a intensa movimentação de espectadores chegando após o média Sete Anos em Maio. Foi algo inédito, para mim, em Gostoso. Pobre Vermelha sofreu com isso.

E o longa não é ruim. É desconjuntado, demora para encontrar um foco, dificilmente pode ser considerado um filme bem sucedido. Mas há coisas nele que podemos reter. A opção do diretor Getúlio Ribeiro por uma estrutura documental revela-se insuficiente, e por vezes até atrapalha o filme de encontrar seu foco. Quando esse foco é encontrado, ou mesmo enquanto está aparecendo, surgem até cenas documentais belas, como a entrevista com a moça que raramente usa cabelo solto (mas a vemos bastante de cabelo solto depois disso). O auge é quando um credor bate à porta do protagonista, o tal de Gaúcho, com quatro capangas. Um vizinho vê tudo e aparece para ajudar com uma enorme vara. Não chegam a se bater por muito pouco. Cria-se um impasse, resolvido com a promessa de quitar a dívida em três dias. O que acontece depois é tão bizarro que não posso contar. Mas é parte do que responde pelo que o filme tem de melhor, sobretudo um diálogo bizarríssimo entre o credor e o protagonista Gaúcho. Isso, claro, se a festa que se fez em torno do filme permitiu que eu entendesse direito o que se passava ali. Nessas horas, links são fundamentais.

Falta falar sobre os filmes que vi em outros festivais ou dispositivos, mas fica para um post futuro. Por enquanto quero falar um pouco sobre Sete Anos em Maio, que confirma o amadurecimento de Affonso Uchoa, demonstrado em Arábia (codirigido por João Dumans, montador de Sete Anos em Maio). É bom ver que o filme de Uchoa, com seus 42 minutos plenamente justificáveis – é o tempo que o filme precisava ter, de acordo com seu diretor – anda circulando pelos festivais, geralmente avessos a essa duração intermediária (por culpa dos festivais, obviamente).

Na linhagem que surge com Murnau e Ford, passa por Straub-Huillet e desemboca em Pedro Costa, Uchoa se insere em algum ponto, sem que se atribua a ele a necessidade de estar em pé de igualdade com esses gigantes, o que seria injusto, e principalmente sem que a realidade brasileira, tão presente em seu cinema desde A Vizinhança do Tigre, deixe de ser a condutora da narrativa, ou uma de suas principais condutoras. Não se trata de derivação, como costumamos ver quando não se atinge uma assinatura própria, mas de filiação, como a que existe em praticamente qualquer autor.

No caso, não se trata apenas de falar da corporação policial como instrumento de poder que pode ser corrompido com muita facilidade e virar fascismo, como tem acontecido bastante. A questão para Uchoa está nas relações de poder, na corrupção da alma que é a posse de um revólver ou qualquer outra arma de fogo, ou vestir uma farda, ou responder a uma hierarquia militar muito rígida. A busca pelo poder, por si só, gera monstros. E não importa se esse poder seja executivo, judiciário ou legislativo, se for de alcance nacional ou numa rua de um bairro. O poder do guardinha da esquina, do homem que se vale do “você sabe com quem está falando”, ou daqueles que se acham no direito de fazer ameaças, é a podridão maior de nossos tempos, a falência moral e humana de um país violento como o Brasil. Claro que essa busca pelo poder é um mal necessário, mesmo dentro de uma anarquia, penso eu, por contraditório que seja. Mas é necessário estarmos sempre críticos e ela, evitando tanto o fanatismo quanto a crucificação.

No mais, Sete Anos em Maio mostra que tem alguma debilidade mental muito grave quem costuma dizer que “bandido bom é bandido morto”. Porque é muito óbvio que não dá para saber quem é o bandido na maior parte das vezes. E melhor que essa dúvida se instale em um filme habilmente enquadrado, fotografado, decupado e montado. Mais importante ainda, que tudo esteja em comunhão, sem que um elemento chame a atenção. Falta falar de muita coisa, mas por enquanto destaco a divisão em três terços – o repulsivo, a confissão (maior e melhor parte), o teste-confronto – que fortalece a estrutura narrativa e mostra uma engrenagem fascista por meio de suas vítimas, mas mostra também a necessidade de lutar contra essa engrenagem (parece óbvio, mas estamos à beira de um apocalipse).

E vou indo, vai o texto sem revisar mesmo, porque aqui internet boa tem sido mais rara que saci-pererê.

Encerrando Paraty

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Em 2019, uma destruição do panorama cultural brasileiro foi colocada em prática pelo governo Bolsonaro. O Sesc, instituição cultural importante no país, tornou-se um dos alvos preferidos de Paulo Guedes, o Ministro da Economia.

Nesse cenário, nada mais representativo de uma resistência do que a realização desta 3ª Mostra Sesc de Cinema, com curtas e longas de todo o Brasil, na paradisíaca Paraty, cidade histórica no estado do Rio de Janeiro.

A mostra começou no último dia 2, desafiando o calor da cidade histórica, e prosseguiu até 9 de novembro. A partir de 21 de novembro será a vez da cidade de São Paulo exibir os filmes escolhidos.

Formada por sessões das cinco regiões do país, a Panorama Brasil é a parte mais importante da Mostra, com filmes selecionados pelos sescs regionais em projeções no revitalizado Cinema da Praça, após 45 anos fechado.

Nela, filmes de estética televisiva convivem com pequenas aventuras no campo formal e até mesmo com um longa já respeitado de outros festivais, o baiano Ilha, de Glenda Nicácio e Ary Rosa.

Obviamente, a qualidade é bem variável. Por vezes, indesejavelmente variável. Mas é sempre interessante podemos ver produções do Acre, de Santa Catarina, do Paraná, do Pará ou de Mato Grosso do Sul, estados que ainda não se tornaram polos cinematográficos como Rio Grande do Sul, Ceará, Pernambuco, Bahia ou Paraíba. Dentro desse aspecto, a falta de apuro formal de alguns filmes é compreensível, já que trata-se de um processo lento de formação de público e também de formação de novos diretores e técnicos cinematográficos.

Marcando seu papel de resistência, a mostra faz homenagem a Adélia Sampaio, a primeira diretora negra a realizar um filme no Brasil. Amor Maldito (1984), aliás, é também o primeiro filme de amor lésbico realizado no país. Interessante retomá-lo em tempos de obscurantismo e Damares. Gosto do filme de Adélia, apesar de seus evidentes problemas de construção (o ritmo é um problema maior, por exemplo, na enorme sequência de tribunal). Creio ser um longa precioso de um certo momento em que filmar no Brasil já voltava a ser muito difícil (já que nunca foi fácil, mas entre 1974 e 1982 tivemos quase um oásis).

Mas a coqueluche de Paraty, com duas sessões esgotadíssimas para pessoas que aguentaram duas horas de fila, é a estreia na cidade do longa Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Paraty foi palco de um pequeno mas barulhento protesto de eleitores de Bolsonaro durante uma palestra com o jornalista Glenn Greenwald, durante a Flip, o Festival Literário de Paraty, neste ano. Nesse contexto um tanto avesso a demonstrações democráticas, Bacurau surge como uma provocação e tanto. Num mundo são, seria considerado apenas cinema, e dos bons. Um dos raros filmes brasileiros com noção de espetáculo e habilidade para a construção de uma narrativa que faça juz a esse espetáculo. Ou seja, finalmente aprendemos a copiar, numa evocação tortuosa de Paulo Emílio Salles Gomes.

No mais, a realização desta 3ª Mostra Sesc de Cinema, com seus altos e baixos, vem coroar a ideia de que a melhor forma de resistir à barbárie é por meio da cultura e da arte.

Balanço da 43ª Mostra SP

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Foi-se o tempo em que eu via entre 50 e 60 filmes a cada edição da Mostra SP. A média de quatro ou cinco filmes por dia ficou entre 1993 (quando comprei minha primeira credencial integral) e 2008, mais ou menos, quando reduziram a credencial de imprensa para o limite de 30 ingressos e eu percebi que não precisava ver mais do que isso.

De fato, essa percepção se deu quando o número de dias que se encerravam sem eu ter visto um filme que prestasse foi se tornando cada vez maior, e o número de apostas no escuro que se tornavam escolhas acertadas se aproximava cada vez mais de zero.

Mais tarde, as indicações de amigos e outros críticos e os premiados em festivais internacionais começaram a me parecer piores também. Isso quando filmes adorados em mostras passadas não se revelavam fiascos nas revisões.

Ainda assim, há uma relação sentimental forte com a Mostra, e a cada edição é grande a curiosidade de conferir algumas coisas. Nesta, até que vi bastante, perto das edições anteriores. Foram 24 filmes, entre cabines, links e sessões regulares.

Privilegiei os filmes portugueses, mas não pude ver todos. Technoboss, por exemplo, ficou longe do meu alcance. Queria confirmar se os relatos que ouvi (de que o filme é ruim) estavam certos ou se minha noção de autorismo está afiada (João Nicolau editou um belo livro sobre João César Monteiro, mas em matéria de filmes…).

Aqui arrisco uma lista dos 24 filmes que vi nesta edição (não conta o que eu já tinha visto antes). Está em ordem, do melhor ao pior. As cotações seguem o padrão da Folha de S.Paulo (de 1 a 5 estrelas), já que foi nesse veículo que fiz a cobertura, aqui continuada em forma de balanço. Essas cotações tendem a ser mais boazinhas que as da Revista Interlúdio.

O Paraíso Deve Ser Aqui (Elia Suleiman, 2019) * * * * *

Nazaré ou o cosmopolitismo euro/americano? Suleiman faz seu melhor filme demonstrando uma capacidade ainda maior de observar o que se passa à sua volta.

Bobo da Corte (Luiz Rosenberg Filho, 2019) * * * * *

O bobo põe-se a dormir. O cinema intenso, apaixonado e político de Rosemberg fará muita falta neste Brasil doente.

Amazing Grace (Alan  / Sydney Pollack, 2019-1972) * * * *

Síncopes musicais e espirituais. Um disco fora de série tem seu registro finalmente recuperado. Glória à tecnologia, que por vezes é vilã, mas aqui foi uma benção.

Campo (Tiago Hespanha, 2019) * * * *

Filme esquizofrênico e por vezes derivativo, com momentos muito belos de estranheza existencial. Wolfram + As Quatro Voltas + Os Campos Voltarão na mistura. Ensaístico e interessantemente referencial. Não vi o filme do Marcelo Pedroso sobre os militares. Sei que passou em Brasília e foi bem atacado. Não sei se ele está na mesma chave de Campo, mas se estiver, fico ainda mais interessado.

Parasita (Bong Joon-Ho, 2019) * * * *

O inusitado segura algumas soluções pouco felizes da trama. O talento do diretor também ajuda.

Papicha (Mounia Meddour, 2019) * * * *

Adoráveis adolescentes no terreno dos homens maus. Mas note-se que a protagonista e suas melhores amigas gostam da Argélia (e até mesmo de algumas cantadas machistas), e desejam tomá-la de volta, quando possível.

O Fantasma de Peter Sellers (Peter Medak, 2019) * * *

Opções delicadas, justificáveis pelo acerto de contas com um filme cheio de traumas.

Breve Miragem de Sol (Eryk Rocha, 2019) * * *

Esse tipo de câmera já quase se esgota, mas Rocha ainda extrai dela bastante coisa, principalmente quando extrapola nos movimentos, criando pequenas abstrações (e se distanciando do novo academicismo da câmera-personagem).

Pertencer (Burak Çevik, 2019) * * *

Dois filmes em um: o surpreendentemente bom e o convencionalmente razoável.

Hálito Azul (Rodrigo Areias, 2018) * * *

Areias, dos terríveis Tebas e Ornamento e Crime, se vira melhor no documentário…

Sem Seu Sangue (Alice Furtado, 2019) * * *

Interessante desafio ao espectador acostumado com didatismo. A cena da abstração na viagem de moto é um achado visual muito potente.

O Projecionista (Abel Ferrara, 2019) * * *

Irregular como os últimos de Ferrara, mas vale pelo retrato de uma cinefilia.

System Crasher (Nora Fingscheidt, 2019) * * *

Forte em alguns momentos, tolo em outros (como o final). Confesso que ainda não sei se merece mesmo a terceira estrela. Mas duas estrelas me pareceu injusto.

Surdina (Rodrigo Areias, 2019) * *

… Mas melhorou na ficção também, embora se mostre, aqui, mais convencional (um passo para trás como estratégia para controlar a afetação?). E este, em contrapartida, mereceria, talvez, meia estrela a mais.

Viveiro (Pedro Filipe Marques, 2019) * *

Não especialmente ruim, mas sem grandes atrativos, apesar de um ou outro plano mais rebuscado e do tema (cuidados com um campo de futebol onde jogam crianças) de certo modo original, dentro de um registro observacional que parece se satisfazer consigo mesmo, numa espécie de auto-anulação. Ou seja, a direção passa uma impressão de invenção da roda, quando é trivial na maior parte do tempo.

Lost Holiday (Michael & Thomas Matthews, 2019) * *

Um tanto tolo no geral, mas com seus momentos engraçados.

Family Romance, LLC (Werner Herzog, 2019) * *

Um Herzog com concessões em excesso a uma banalização da câmera documental na ficção. É um novo tipo de academicismo que se estabelece há anos no cinema internacional.

Synonymes (Nadav Lapid, 2019) * *

Lapid tem certa habilidade no acúmulo de planos e cenas, mas é difícil gostar de um filme com um protagonista tão idiota. Em toada semelhante à de Patrick, que por sua vez vai mais longe, e se afunda mais também.

Alva (Ico Costa, 2019) * *

Em cenário rural português, uma mistura de Por Que Deu a Louca no Senhor R?, o pior Fassbinder, com Crime e Castigo, obra-prima de Dostoievski. Infelizmente tem muito mais do primeiro.

Pacificado (Paxton Winters, 2019) * *

Olhar mais atencioso a uma vivência em comunidade, fruto da experiência do diretor, mas em uma trama convencional.

O Filme do Bruno Aleixo (João Moreira, Pedro Santo, 2019) * *

No YouTube é legal, em longa fica bem irregular.

Tristeza e Alegria na Vida das Girafas (Tiago Guedes, 2019) *

Calvin & Haroldo é uma óbvia inspiração. Mas o filme, além de mal filmado, é muito mais infantil – nível Amelie Poulain de poesia fácil – que a protagonista de dez anos.

Koko-Di Koko-Da (Johannes Nyholm, 2019) *

Ideia não muito original, mas promissora, é destruída logo no início porque o filme não existiria se as vítimas fossem menos imbecis.

Patrick (Gonçalo Waddington, 2019) *

Filme esquizofrênico, personagem esquizofrênico. Podia ser bom dentro desses termos, mas é insuportável.