Autor Arquivo: Sérgio Alpendre

Godard e o entendimento dos filmes

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Poucos entendem que uma das questões principais do cinema de Godard é o desafio à capacidade de compreensão do espectador. Mais que desafio, é na verdade uma brincadeira com o medo que o espectador tem de não compreender o filme. Sempre foi assim, mas tornou-se mais evidente a partir do final dos anos 1960. Com o envelhecimento, Godard não arrefeceu. Pelo contrário: continua fazendo filmes para que os espectadores não entendam. A partir de Nossa Música, talvez antes, não me lembro, Godard elabora legendas em navajo english: de um monte de coisas que são ditas, a legenda nos informa simplesmente: “world, terrible” ou “Africa in pain”. Não são exemplos textuais, mas o sentido é esse, resumir as palavras traduzidas ao máximo; longos períodos se transformam em frases telegráficas, deixando apenas a essência do que é dito, e por vezes nem isso. São pistas. Ou mesmo pistas falsas.

No que isso prejudica nosso entendimento do filme se ao mesmo tempo muitas outras palavras aparecem, faladas ou escritas, poluindo a tela com os mais diversos tipos de fontes e contrariamente a algo que está em segundo ou terceiro plano, camadas que se debatem diante de nós?

Quem entende o francês melhor que eu já confessou também essa incapacidade de se entender tudo que é dito num filme de Godard, sobretudo os quatro últimos. O sentido do que é dito exige muito mais do que duas visões. E o sentido de tudo que é dito provavelmente sempre nos escapará.

Se não se entende que Godard é hiper racional e ao mesmo tempo fala diretamente aos sentidos, não se entende mesmo muito. Não se entende que as palavras e as imagens de seus filmes funcionam musicalmente, que sua mente funciona por colagens, trechos de coisas que ele lê, vê, ouve, e coloca nos filmes. É o ato de pegar um livro na estante, ler uma página e ir para outro canto ouvir Beethoven. Voltar à estante, pegar um outro livro e ler meia página, e sair para ver um trecho de Johnny Guitar. Falar em caleidoscópico parece meio simplório, mas é um pouco isso. Só que um caleidoscópio em que as imagens não se refletem; quando se multiplicam, elas se transformam totalmente.

E o que mais há para entender? Muitas coisas, e aos poucos vamos pegando algumas mais, até que, lá pela centésima revisão, o todo se revela. Ou se confunde totalmente. O que importa? É um dos maiores cineastas também porque o entendimento pleno de seus filmes não importa tanto. Algo de enigma deve permanecer para que a obra continue viva. Importa querermos captar algumas coisas, algo de sua verve crítica que absorvemos na incerteza.

Indie Festival (resiste)

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Stromboli

É uma boa notícia a do renascimento do Indie Festival em solo paulistano. Com troca de casa – agora será no CCSP e no Olido, dentro do circuito SPCine – e um acréscimo no título – virou Indie Festival (Resiste) – mas com o mesmo intuito de exibir filmes que dificilmente chegam em nosso circuito cada vez mais fechado ao que não é filme de super-heróis ou tenha algo a ver com a Globo. Basta perceber que o interessante Antologia da Cidade Fantasma, que estava programado para estrear no meio de janeiro, ainda não encontrou seu lugar de exibição em nossas telas, e será exibido no Indie (será uma pré-estreia mesmo ou mais um a não encontrar lugar no circuito?).

Na verdade, o intuito é ligeiramente diferente, pois esta é uma edição especial: exibir uma seleção de filmes que fizeram parte de edições passadas. Diretores como Apichatpong Weerasethakul (com o bom Cemitério do Esplendor), Hong Sang-soo (com Certo Agora, Errado Antes, um de seus melhores longas recentes), Kiyoshi Kurosawa (com Creepy, também um dos melhores que dirigiu na década de 2010), Lav Diaz (com Estação do Diabo), Philippe Grandrieux (com Apesar da Noite), entre outros estarão representados com filmes, não necessariamente os melhores que realizaram, mas os que marcaram edições passadas do festival.

O Indie Festival (Resiste) começou nesta quinta-feira, 30 de janeiro, com uma sessão vespertina de Cidade dos Sonhos, de David Lynch (no CCSP) e o documentário Nick Cave: 20000 Dias na Terra, de Iain Forsyth e Jane Pollard (no Olido). Ambos serão reprisados em fevereiro. O evento, por sinal, vai até 9 de fevereiro, oferecendo uma opção à concorrida Retrospectiva Seijun Suzuki que rola no IMS.

Haverá espaço também para um clássico indiscutível: Stromboli, de Roberto Rossellini, que passa no CCSP em 8 de fevereiro. É bom que passe já no fim. Como ver filmes novos depois desse monumento do cinema moderno?

De todo modo, a volta do Indie é um alento. Precisamos de mais alternativas aos cinemas viciados dos Shoppings, e as que temos não estão dando conta das novidades do cinema independente contemporâneo.

A programação pode ser conferida em formato word, aqui:

http://www.circuitospcine.com.br/filmes/indie-festival-resiste/

Anos 2010: meus 20 filmes preferidos

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Portugal dominou o cinema da década 2010-2019. Indiretamente, com o filme português do chileno Raul Ruiz (em 4º), e diretamente, com dois filmes de Manoel de Oliveira (7º e 12º), dois de Rita Azevedo Gomes (em 1º e em 20º), um do casal Torgal e Pimenta (em 3º), e um de Pedro Costa (um só porque não consegui ver Vitalina Varela).

Não foi algo pensado. Simplesmente peguei meu arquivo de notas e fui colocando os que tinham as notas maiores, para depois ordená-los. Só quando postei uma prévia da lista no Facebook é que percebi o grande número de filmes portugueses. Todos, exceto um, foram vistos antes de eu começar meu doutorado sobre o cinema português.

Foi uma década cinematográficamente menos interessante que a anterior, na qual Rohmer entraria com os três longas que fez, e caso concorressem com os filmes desta década entrariam também. No entanto, dois anos se destacam: 2010 e 2019.

Richard Jewell e O Traidor (se estrear mesmo em 2020), serão computados apenas na lista do ano em que estrearam no circuito brasileiro, ou seja, na lista que farei em janeiro de 2021. Mas na lista da década essa regra não existe. Para ela, uso a data de estreia mundial.

Rita Azevedo Gomes, Manoel de Oliveira e Clint Eastwood confirmam-se como os maiores da década, cada um com dois filmes na lista. Clint quase emplaca um terceiro (Sniper Americano), Gray quase entra com um segundo (Ad Astra), Godard também (Imagem e Palavra). Tarantino, Kiyoshi Kurosawa, Suleiman, Vecchiali, Bressane e Guiraudie também ficaram próximos. Estariam num top 30.

Por fim, entendo perfeitamente quem defende que a década de 2010 começou de fato em 2011, e por isso terminaria no final de 2020. Sim, entendo, mas não sigo essa ideia. Na mente e no coração das pessoas, a década já terminou. E os anos 2020 já começaram. Podemos gastar energia com coisas que são corretas, mas não com algo que não faz grande diferença em nossas vidas.

Cartas na mesa, veremos com quantas canastras terminaremos.

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  1. A Vingança de uma Mulher (Rita Azevedo Gomes, 2012)

Filme sem igual que confirmou, em 2012, Rita Azevedo Gomes como uma das maiores autoras do cinema contemporâneo. Um jogo não panfletário com as instâncias da representação e a posição da mulher na sociedade, de outros tempos e de hoje.

– texto: http://www.revistainterludio.com.br/?p=9657

  1. Era Uma Vez em Nova York (James Gray, 2013)

Cada vez mais este se confirmou como o melhor filme de Gray para mim. Já disse alhures que gosto do título brasileiro. O ideal seria só Imigrante, sem o artigo, mas pelo menos não estragaram a indefinição que o artigo do original (“the”) traz.

– texto: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/09/1513884-critica-era-uma-vez-em-ny-e-o-melhor-filme-do-ano.shtml

  1. Wolfram – A Saliva do Lobo (Joana Torgal e Rodolfo Pimenta, 2010)

Um dos ensaios fílmicos mais brilhantes que pude ver, com a abstração invadindo a observação e enriquecendo-a pela poesia. Filme para mostrar em aula de cinema, o que tenho feito com certa frequência.

  1. Mistérios de Lisboa (Raul Ruiz, 2010)

Ruiz se conecta com o melhor de seu trabalho maneirista (As Três Coroas do Marinheiro) e dialoga com a escola portuguesa como se a ela desde sempre pertencesse.

– texto: http://www.revistainterludio.com.br/?p=7016

  1. O Cavalo de Turim (Bela Tarr, 2011)

Filme denso, apocaliptico e tristemente belo que está no ápice da obra de Tarr, junto de Satantango.

– texto: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/02/1740794-com-planos-longos-o-cavalo-de-turim-merece-ser-visto-de-joelhos.shtml

  1. Já Visto Jamais Visto (Andrea Tonacci, 2014)

Memória e investigação no maior filme que o cinema brasileiro nos deu em toda a década.

– texto: http://www.revistainterludio.com.br/?p=9117

  1. O Estranho Caso de Angélica (Manoel de Oliveira, 2010)

Com 101 anos, Manoel de Oliveira filma esta pequena jóia que permanecia em seu coração desde a década de 1950.

– texto: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/08/1333937-critica-manoel-de-oliveira-celebra-o-cinema-com-o-estranho-caso-de-angelica.shtml

  1. Além da Vida (Clint Eastwood, 2010)

Um tanto tortuoso em seu desenvolvimento narrativo, mas nem por isso um filme menos belo. Raras vezes a junção de três diferentes histórias deu tão certo.

  1. Cavalo Dinheiro (Pedro Costa, 2014)

Ventura está de volta. E também as agruras dos que vivem à margem. Cabo Verde não é Portugal. O hospital não é um hotel e o soldado no elevador não é uma estátua. Dizia-se um filme sobre a Revolução dos Cravos.

  1. Vocês Ainda Não Viram Nada (Alain Resnais, 2012)

Como Rohmer, Resnais também encerrou sua carreira com grandes longas terminais. Este é o maior deles, e o mais terminal, apesar de ser o penúltimo.

– texto: http://www.revistainterludio.com.br/?p=5580

  1. La Sapienza (Eugène Green, 2014)

Foi uma década incerta para Eugène Green, um período da abertura de novos caminhos. Este, no entanto, tem a estatura de seus grandes trabalhos.

– texto: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/09/1679512-la-sapienza-reforca-trabalho-unico-e-sublime-de-eugene-green.shtml

  1. O Gebo e a Sombra (Manoel de Oliveira, 2012)

No último longa de Oliveira, Michael Lonsdale e Claudia Cardinale se juntam a Leonor Silveira, sua atriz desde Os Canibais (1988). Um pequeno filme grandioso, ao qual não ficamos imunes.

– texto: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/01/1398849-critica-diretor-de-filme-portugues-faz-jogo-sutil-de-silencios-e-segredos.shtml

  1. Cães Errantes (Tsai Ming Liang, 2013)

O digital caiu bem para Tsai, que aqui consegue elaborar um plano estático de 13 minutos plenamente justificáveis. Um assombro.

– texto: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/10/1361496-critica-vencedor-em-veneza-caes-errantes-tem-uma-cena-imovel-de-13-minutos.shtml

  1. O Caso Richard Jewell (Clint Eastwood, 2019)

Este não é nada tortuoso, e é quase tão belo quanto Além da Vida. É uma aula de desenvolvimento narrativo e de investigação a respeito de uma sociedade que nos torna heróis ou vilões com muita rapidez.

  1. Amanda (Mikhael Hers, 2018)

Não é fácil filmar com crianças. Ao mesmo tempo, a presença delas pode parecer um tipo de chantagem (gostamos mais do filme ou da criança?). Aqui, tudo converge para uma partida de tênis em que a reação de um jogador metaforiza a superação de um trauma. É brilhante.

– texto: https://sergioalpendre.com/2019/07/14/amanda/

  1. Filme Socialismo (Jean-Luc Godard, 2010)

Godard, um farol da modernidade, entra na década com um filme desconcertante e poderosamente político.

  1. O Traidor (Marco Bellocchio, 2019)

Bellocchio tem o dom de nos apresentar um tema de um modo inventivo e cativante. A sequência do julgamento em Roma está entre os grandes momentos do cinema na década.

  1. Three (Johnnie To, 2016)

Johnnie To em sua melhor forma num tiroteio em hospital que continua e ultrapassa a doideira que John Woo fez em The Killer. É um desaforado esse diretor.

  1. As Quatro Voltas (Michelangelo Frammartino, 2010)

Um cachorro, uma pedra e um rebanho. A observação e a graça se fazem com poucos elementos da vida simples do interior italiano.

  1. A Portuguesa (Rita Azevedo Gomes, 2019)

A poética de Rita se desenvolve aos poucos, enriquecida por uma segurança no ato de filmar e por um olhar para as coisas que fogem do óbvio.

Meus 20 filmes preferidos de 2019

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20 filmes lançados em circuito comercial no Brasil em 2019

  1. Amanda (Mikhael Hers, 2018)

A poesia brota das pequenas coisas, dos detalhes, como nos filmes de Rohmer, embora esteticamente diferente. Podemos nos identificar com a pequena Amanda, ou com o tio, ou com os dois e com a situação que enfrentam. E é impossível esquecer o momento “Elvis has left the building”.

– texto: https://sergioalpendre.com/2019/07/14/amanda/

  1. Fim da Viagem, Começo de Tudo (Kiyoshi Kurosawa, 2019)

Conhecer um outro país, uma outra cultura, para se conhecer melhor. E se conhecendo melhor, prepara-se para perseguir um sonho. Kiyoshi Kurosawa continua no topo de sua arte.

– texto: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/09/kiyoshi-kurosawa-faz-seu-melhor-filme-desde-sonata-de-toquio-de-2008.shtml

  1. O Paraíso Deve Ser Aqui (Elia Suleiman, 2019)

Um ator/autor em seu melhor filme. Elia Suleiman entende que o mundo está regido pelo absurdo, e por esse motivo não há lugar melhor que o seu próprio lugar. Monta-se um bunker e espera-se a procissão dos malucos passar.

– texto: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/10/autor-personagem-elia-suleiman-mescla-humor-e-politica-em-seu-melhor-filme.shtml

  1. Ad Astra (James Gray, 2019)

Filme um tanto incompreendido no Brasil, de um diretor que parece inquieto, por vezes indeciso, mas com um talento raro para alternância de registros e gêneros. A perseguição até o lado escuro da lua é um achado, assim como a ideia de capitalismo chegando ao espaço (não é nova, mas foi muito bem representada). As duas outras cenas de ação são desiguais (a do macaco selvagem é interessante, e a da entrada na nave é um momento forçado do filme), mas a primeira metade é tão forte como o melhor que Gray já nos deu.

– texto: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/09/protagonizada-por-brad-pitt-saga-espacial-ad-astra-atualiza-odisseia-de-2001.shtml

  1. Era uma Vez… em Hollywood (Quentin Tarantino, 2019)

Pela primeira vez Tarantino acerta em cheio em sua mania de correção histórica, talvez porque aqui ele trabalhe com a tragédia de poucas pessoas (Sharon Tate e seus amigos), não com temas ainda mais espinhosos como racismo e nazismo. Mesmo assim, não é fácil fazer essa operação sem tocar no ridículo.

– texto: https://olhardigital.com.br/cinema-e-streaming/noticia/resenha-era-uma-vez-em-hollywood/89566

  1. Imagem e Palavra (Jean-Luc Godard, 2018)

Godard, do alto de sua majestade em cinema, toca o “danem-se” e nos ensina a fazer cinema crítico e irreverente como poucos hoje são capazes de fazer. É, também, mais um capítulo de sua História(s) do Cinema.

– texto: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/03/e-impossivel-entender-totalmente-um-filme-de-godard-e-essa-e-sua-forca.shtml

  1. A Mula (Clint Eastwood, 2019)

Como quase todos os filmes de Clint, este também cresce com a revisão. A parte problemática é a festa na casa de Andy Garcia. Na revisão, o problema quase desaparece. Rápido, com cortes ousados e a mesma ambiguidade de sempre. Não imagino um outro cineasta branco fazendo uma cena como a do jovem descendente de imigrantes se sentindo ameaçado na batida policial (e sua dificuldade em colocar o cinto: um plano brilhante). Clint não foge das questões cruciais de nossos tempos, observando-as de perto.

  1. Fourteen (Dan Sallitt, 2018)

A poesia nas pequenas coisas, como em Amanda. Um filme que cresce na segunda metade, como Amanda. A reação de uma criança diante da morte, como em Amanda. As semelhanças param aí. Mas este filme de Sallitt é de primeira. Enfim, mais uma semelhança.

– texto: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/08/incrivelmente-realista-fourteen-acompanha-amizade-entre-duas-jovens.shtml

  1. Amor Até as Cinzas (Jia Zhangke, 2018)

Jia revê seus longas de ficção recentes, mas também retorna a Em Busca da Vida para entender as mudanças na China dos últimos anos. Nesse sentido, é uma atualização de Plataforma, longa de 2001 que cresce horrores em revisões.

  1. Bacurau (Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho, 2019)

Percebe-se no que Kleber evoluiu como cineasta e no que seu trabalho foi ajudado por uma instância crítica, a de um codiretor igualmente talentoso (e também bom em curtas). Uma parceria entrosada para um filme de longa gestação (o que talvez explique o ótimo entrosamento).

– texto: https://olhardigital.com.br/cinema-e-streaming/noticia/bacurau-e-triunfo-do-cinema-brasileiro/89969

  1. Se a Rua Beale Falasse (Barry Jenkins, 2018)

Belíssimo filme de Jenkins, muito superior ao badalado Moonlight.

  1. Diz a Ela Que Me Viu Chorar (Maíra Buhler, 2019)

Filme duro, formalmente inteligente, com um olhar atento para nossa desgraça atual.

– texto: https://sergioalpendre.com/2019/06/08/olhar-de-cinema-dias-1-e-2/

  1. Ama-San (Claudia Varejão, 2018)

Três mergulhadoras em um filme de rara e justa beleza plástica.

– texto: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/01/ama-san-mostra-a-beleza-do-cotidiano-de-mergulhadoras-do-japao.shtml

  1. 3 Faces (Jafar Panahi, 2018)

Qual é a estratégia necessária para se fazer notar neste mundo cheio de subcelebridades? Paixão, intolerância e desespero na fronteira da Turquia com o Irã.

  1. A Noite Amarela (Ramon Porto Mota, 2019)

O horror que partilha o enquadramento.

– texto: https://sergioalpendre.com/2019/06/09/olhar-dia-3-a-noite-amarela/

  1. O Clube dos Canibais (Guto Parente, 2019)

O horror cartunesco da elite brasileira.

– texto: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/10/o-clube-dos-canibais-convida-ao-suspense-com-trama-de-filme-trash-tratada-com-elegancia.shtml

  1. Assunto de Família (Hirokazu Koreeda, 2018)

Ligeiramente superior (e menos badalado) que Parasita.

  1. Um Amor Impossível (Catherine Corsini, 2018)

Virginie Efira é um assombro de atriz e de caso de amor com a câmera. Corsini é uma diretora de rara sensibilidade.

– texto: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/08/atriz-e-grande-destaque-de-longa-frances-sem-ofuscar-o-drama.shtml

  1. Parasita (Bong Joon Ho, 2019)

Um tanto superestimado (quanto disso não é por causa da Palma e dos Cahiers du Cinéma?), e um degrau abaixo de O Hospedeiro, mas ainda assim é forte na maior parte do tempo.

  1. Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar (Marcelo Gomes, 2019)

Gomes se reencontra muito bem no documentário.

– texto: https://sergioalpendre.com/2019/07/10/estou-me-guardando/

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+   Um filme aula: Varda por Agnès (2018), de Agnès Varda

+   Um filme/show farsesco: Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story by Martin Scorsese (estreia da Netflix)

+   Um filme não lançado: A Portuguesa (2019), de Rita Azevedo Gomes

+   Um lamento: não ter visto Abaixo da Gravidade (Edgard Navarro).

+   7 filmes que quase entraram nos 20 (e num ano mais fraco teriam entrado):

Vice, Temporada, Inferninho, Toy Story 4, Nós, O Irlandês, Dor e Glória.

John Wick 3: Parabellum

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No segundo exemplar desta estranha franquia, realizado em 2017, já tinha ficado claro que Nova York havia se transformado numa espécie de cidade de assassinos, e vislumbrava-se uma sátira ao cinema de ação hollywoodiano ao mesmo tempo em que o cinema de ação de Hong Kong era uma referência evidente.

Neste Capítulo 3, tudo isso se mantém, mas Stahelski está ainda melhor para filmar cenas de ação e de certa forma aprimora seu portfolio aproveitando-se de todos os ambientes possíveis, mesmo fora de Nova York, em Casablanca, por exemplo, como também em depósitos de armas, bibliotecas, sala de reflexões, complexos viários e outras sandices. A violência também me pareceu mais gráfica, o que reforça a semelhança com o cinema asiático.

John Wick não tem lar, não toma banho, não come e não dorme. Parece viver apenas como um boneco de ação, uma máquina de guerra, quase um imortal. Nesse sentido, tornou-se, como os outros assassinos do filme, um autômato, uma espécie de inteligência artificial super evoluída e com habilidades marciais. E no entanto, não é feito de cristal líquido, mas sangra, e sangra pra burro.

O mundo no filme é um lugar tão absurdo e distópico que parece uma fantasia bolsonarista/trumpista, em que todos andam carregados de armas, atiram cinco ou seis vezes para matar e agem segundo um código moral rígido, mas bem duvidoso. Faltou apenas matar em nome de Jesus, embora se possa pensar na Ordem do filme como uma religião, que as pessoas servem sem maiores questionamentos (já se matou bastante em nome do pobre Messias, que, no entanto, só queria pregar a paz).

Mas Stahelski está menos interessado em parábolas políticas (embora elas existam) do que em brincar com as possibilidades do cinema físico, com coreografias muito bem realizadas e acrobacias que desafiam o histórico do filme de ação. Há ainda alguma coisa de percussivo na massa sonora de socos, chutes e facadas. Em alguns momentos, se fecharmos os olhos, imaginamos um concerto de variadas percussões, com urros invadindo as batidas e nos lembrando que é só mais um filme violento de ação, ainda que um tanto mais talentoso que a média.

Ceylan e o autorismo

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Engraçado como o autorismo nos prega algumas peças. Não me entusiasmei com Distante, o filme com o qual tomei conhecimento do cinema de Nuri Bilge Ceylan, mas os filmes seguintes, Climas e Três Macacos, me desagradaram de fato. Quando estreou Era Uma Vez na Anatólia, tive receio, por conta desses filmes anteriores e de sua duração (2h37m). Mas me surpreendi com um filme forte e muito bem dirigido. Aí estreia Winter Sleep, e a duração (3h18m) me deixa novamente com um pé atrás, pois não dava para saber se Era Uma Vez na Anatólia era apenas um surto ou uma indicação de maturidade. E Winter Sleep me pareceu, e ainda me parece, o melhor filme de Ceylan.

Agora me deparo com seu mais recente, A Árvore dos Frutos Selvagens, com suas três horas e oito minutos, e não me sinto tão desafiado. Pelo contrário: começo a vê-lo tendo a lembrança dos dois belos e longos filmes anteriores, esperando encontrar ao menos um eco do brilho que neles vi. O autorismo me pegou.

Mas foi pouco o que me prendeu a este recente longa. Reconheço alguns momentos de beleza, mas num todo enfadonho, ou pior, desinteressante a meus olhos. Parte do motivo é o protagonista, um jovem nada simpático, meio arrivista meio arrogante (o ator, Dogu Demirkol, não ajuda). Ele passa o filme inteiro conversando com pessoas (incluindo sua mãe) para tentar entender sua condição de escritor fracassado e sua relação com o pai (o ótimo Murat Cemcir).

Essa flutuação no nível de interesse pelo que se passa na tela difere bastante A Árvore dos Frutos Selvagens de Winter Sleep, que, por sinal, tem um elenco mais afinado. Além disso, a duração, em A Árvore, me parece uma questão de grife, mais do que uma imposição da trama e da construção dos personagens (mas sei que esta é uma impressão que não está de acordo com a da maioria dos críticos).

Deixo o link para dois textos mais cuidados, um escrito por Cecília Barroso, que traduz bastante o que senti vendo o filme (curiosamente, é a mesma nota que dou, 6/10):

https://cenasdecinema.com/a-arore-dos-frutos-selvagens/

…outro assinado por Luis Miguel Oliveira, que é um pouco mais generoso em sua nota (3/5)*:

https://www.publico.pt/2019/03/28/culturaipsilon/critica/jovem-turco-1866841

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* quando penso de 0 a 10, um filme bom leva no mínimo 7 (às vezes 6,5); quando penso em estrelas, um filme bom leva 3. A Árvore seria 2/5 (ou 2,5, quando possível). Pode não ser muito lógico, eu sei, mas não precisa ser.

Sobre uma futura lista dos anos 2010

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Uma coisa que sempre evitei foi fazer listas antes do tempo. Se o ano termina às 23h59 de 31 de dezembro, só a partir do minuto seguinte eu solto uma lista dos melhores desse ano. Modo de falar, pois normalmente gosto de passar ainda alguns dias para ver as últimas estreias e os filmes que perdi no ano. Numa lista de década, ou, se quiserem, de um grupo de anos definidos pelos dois primeiros algarismos (sei que tecnicamente a década acaba no fim do ano que vem, mas não no espírito da maior parte dos mortais), não teria como ser diferente.

Claro, se me pedem, eu mando, numa boa. Mas não faço por conta própria. Prefiro esperar.

Só que não resisti à brincadeira de fazer já uma lista prévia com aqueles que considero os melhores filmes dos anos 2010. Os comentários a respeito da (fraca) lista dos Cahiers du Cinéma e as várias listas de diretores que circularam a partir dela, mais as diversas listas de amigos que pipocaram pelas redes sociais no mesmo dia e nos dias seguintes me fizeram começar a já aprontar a minha. E por que, nesse caso, não soltar uma prévia? Talvez até ajude, com alguma indicação, a pesquisa para outras listas. Pois o fiz, no Facebook. O resultado por enquanto é este:

01  A Vingança de uma Mulher (Rita Azevedo Gomes, 2012)
02  Era Uma Vez em Nova York (James Gray, 2013)
03  Wolfram – A Saliva do Lobo (Joana Torgal e Rodolfo Pimenta, 2010)
04  O Cavalo de Turim (Bela Tarr, 2011)
05  Mistérios de Lisboa (Raul Ruiz, 2010)
06  Já Visto Jamais Visto (Andrea Tonacci, 2014)
07  O Estranho Caso de Angélica (Manoel de Oliveira, 2010)
08  Além da Vida (Clint Eastwood, 2010)
09  Cavalo Dinheiro (Pedro Costa, 2014)
10  Amanda (Mikhael Hers, 2018)
11  O Gebo e a Sombra (Manoel de Oliveira, 2012)
12  Vocês Ainda Não Viram Nada (Alain Resnais, 2012)
13  O Fim da Viagem, o Começo de Tudo (Kiyoshi Kurosawa, 2019)
14  La Sapienza (Eugène Green, 2014)
15  Cães Errantes (Tsai Ming Liang, 2013)
16  A Portuguesa (Rita Azevedo Gomes, 2019)
17  Imagem e Palavra (Jean-Luc Godard, 2018)
18  O Estranho do Lago (Alain Guiraudie, 2013)
19  Sniper Americano (Clint Eastwood, 2014)
20  Ad Astra (James Gray, 2019)

O que pode mudar? Muitos filmes, e muitas posições. Eu diria que a segunda metade da lista, a metade de baixo, está mais fadada a sofrer mudanças. Principalmente porque não vi filmes que podem beliscar alguma posição, muitos deles surgiram na minha reta final do doutorado, entre 2018 e a primeira metade deste ano, e alguns antes. Isso não quer dizer que Sniper Americano e Ad Astra estejam mais ameaçados. Não sei exatamente quais cairão, uma vez que os filmes de 11º em diante se aproximam muito em qualidade.

O que me interessa, no entanto, não é o que pode mudar, mas o que essa lista prévia revela, para mim mesmo, a respeito do que entendo por cinema, dos meus gostos e defesas.

São sete filmes portugueses, cinco franceses, quatro americanos, um brasileiro, um chinês, um húngaro e mais um japonês.

Passei um ano em Portugal e voltei totalmente rendido à beleza do cinema português? Não necessariamente. Nenhum desses filmes foi visto durante minha estadia do outro lado do Atlântico, e só um deles foi visto depois. Além disso, apesar do doutorado, ainda me sinto mais conhecedor (embora sempre falte muito, não tem jeito) dos cinemas americano e japonês, do que do cinema português.

Para minha surpresa, deu isso. Costumo fazer listas sem a menor preocupação com ausências ou com o que irão falar dela. É meu gosto pura e simplesmente. Porque sempre achei que listas devem refletir gostos, não uma vontade de aparecer ou de ser justo com alguma causa, seja a do cinema brasileiro, seja a de filmes ideologicamente de acordo com o que penso, ou socialmente engajados. É só pelo gosto que se faz justiça em listas. Porque listas são parte de um jogo, uma brincadeira. Deve ser leve, no sentido de nunca talhada em pedra.

E o que entendi com minhas próprias escolhas é que muito do que defendo em cinema é contemplado pela tal de “escola portuguesa”, termo em que as aspas servem para que se entenda o quão plural é essa escola, para além dos enquadramentos rigorosos, da recusa ao naturalismo televisivo e do chiaroscuro. De fato, essa predileção me levou a Portugal para estudar o cinema português, e não o contrário.

É necessário ainda lembrar que a telenovela brasileira Gabriela foi um grande sucesso por lá no final dos anos 1970 e, segundo muitos, definiu os rumos estéticos de boa parte do cinema português. Contra essa estética se colocavam, à época, Manoel de Oliveira, com Amor de Perdição, e João César Monteiro, com Veredas, entre alguns outros (o cinema de António Reis e Margarida Cordeiro, de Trás-os-Montes, e o de Fernando Lopes de Uma Abelha na Chuva devem ser considerados aqui, além dos menos amados A Santa Aliança, de Eduardo Geada, e O Rico, o Camelo e o Reino, filme subestimado do subestimado, por vezes, António de Macedo).

Essa chamada (por eles) “escola portuguesa” está muito bem representada pelos sete filmes escolhidos. E o chileno Raul Ruiz muitas vezes se aproximou dela, então não surpreende que em seu último filme português tenha se aproximado novamente. E representam também muito do que eu defendo que deve ser o cinema. No mais, Rita Azevedo Gomes é responsável pelo melhor cinema contemporâneo, a meu ver, assim como Manoel de Oliveira é um dos meus cineastas preferidos de todos os tempos.

Fim do 14 º Fest Aruanda

baratoiacanga

Foram apenas quatro dias (dos sete que envolvem o festival em sua parte nuclear), mas deu para perceber o quanto o Fest Aruanda é especial. Há algo de mágico na cena nordestina. Ela é apaixonada, vibrante e contagiosa. Difícil ficar imune ao cinema feito na região, e em especial na Paraíba, que me parece ser a bola da vez. Mesmo quando os filmes são cheios de problemas, há algo neles que nos conquista. Claro, vistos em festival esses filmes tendem a ser vítimas de uma impressão equivocada. Mas essa impressão pode ser também negativa. Noves fora, posso confiar, por ora, na minha impressão inicial.

Escrevo aqui sobre um festival de filmes brasileiros, mas não necessariamente nordestinos. Ou seja, pode haver filmes de todo o Brasil. No caso, quero dizer que algo dessa paixão e da sede cultural que se respira (e muito bem) no nordeste passa para todo o festival. Fica um clima de comunhão, propiciado também pela vontade de reagir ao crime cultural do novo governo federal e pela consciência de que a cultura é muito importante, economicamente, seja para um país, uma região, um estado ou uma cidade. Essa consciência meio que comanda as reações aos filmes e a cada palavra dita pelos apresentadores, representantes dos filmes selecionados ou homenageados. E contagia até mesmo um observador distante.

Depois tem esses encontros inesperados que fazem toda a diferença e me fazem querer continuar acompanhando festivais. Lúcio Vilar, diretor artístico do festival, disse que fez uma disciplina comigo na USP, em 2011, eu iniciava o mestrado, ele, o doutorado. Depois, um jovem cineasta, Fábio Rogério, sentou ao meu lado no ônibus da volta para o hotel e disse que estava numa palestra sobre crítica que ministrei na UFSCar, em São Carlos, por volta de 2013, 2014, algo assim. Isso me lembra que eu esqueci de pedir o óbvio: o link do curta que ele dirigiu, um dos que perdi.

Passando para os filmes, pude finalmente ver O Barato de Iacanga, longa de Thiago Mattar sobre o Festival de Águas Claras, evento com quatro edições na pequena Iacanga, interior de São Paulo. Problema evidente do filme: a falta de imagens da primeira edição. Passamos para a segunda, a terceira e até mesmo a quarta, mas ficamos sem ver grandes imagens em movimento da edição inaugural, de 1975. As mais documentadas são a segunda (de 1981) e a terceira, de 1983. Elas são as responsáveis pelo festival ter saído de um certo underground (de boas bandas de rock progressivo ou hard rock) para uma ideia mais ampla de MPB, com participações de Alceu Valença, Luiz Gonzaga e João Gilberto, entre muitos outros. Tornou-se um festival mais plural, e isso o filme mostra bem. Como mostra, também, a maneira como o evento envolveu toda a comunidade de Iacanga. O alívio cômico das duas testemunhas das edições é bem-vindo, assim como as breves entrevistas com comerciantes locais. Mas aí surge também um problema, que afeta o filme somente em alguns momentos: a síndrome de Huguinho, Zezinho e Luisinho, que consiste em fazer com que a fala de um entrevistado continue imediatamente a fala de outro. Por sorte, essa mania do documentário televisivo acontece em poucos momentos. No geral, o filme é delicioso de se ver, principalmente para quem gosta de música brasileira.

No dia anterior, consegui acompanhar a sessão Sob o Céu Nordestino, com dois curtas e um longa. Giocondo Dias – Ilustre Clandestino, de Vladimir Carvalho, é decepcionante, no sentido de ser quadrado, extremamente convencional em seus 90 minutos, como uma longa reportagem televisiva. Claro que contém informações importantes. Para mim, uma delas é que Aloysio Nunes, que fez a parte mais destacada de sua carreira no PMDB de Orestes Quércia, ainda sente grande afeto por José Dirceu, companheiro da época em que ambos estavam no PCB. Muda bastante o espectro político, mas a admiração e a amizade continua, o que diz, de algum modo, tanto de Aloysio quanto de Dirceu.

Os dois curtas dessa sessão são Costureiras, de Mailsa Passos, Rita Ribes e Virgínia de O.Silva, e A Ética das Hienas, de Rodolfo de Barros. O primeiro está no velho esquema de entrevistas e  e se não traz invenção alguma, também não desrespeita um nível mínimo de qualidade. Trata-se então de um curta correto, nada mais que isso. A Ética das Hienas também é correto, principalmente no relato das incorreções típicas do Brasil. Um acerto trabalhista para poupar o pessoal da grana. O destaque vai para os atores: Tavinho Teixeira, Marcélia Cartaxo, Suzy Lopes e a nova promessa (ou já mais que isso) Daniel Porpino (protagonista do bom Desvio, longa paraibano da competitiva).

Finalmente, antes de seguir para o aeroporto de Jampa para voltar a Sampa, consegui ver De Longe, Ninguém Vê o Presidente, de Rená Tardin, que havia perdido na sessão de segunda. É um curta poderoso, que usa o áudio do discurso de Lula antes de sua prisão com imagens das montadoras de São Bernardo do Campo. Percebe-se a substituição do homem pela máquina, um dos motores de uma crise difícil de ser solucionada. Mostra também o carisma político de Lula (goste-se ou não dele), e a força de suas palavras e de seu lado comunicativo. O plano mais emblemático de ABC da Greve é inserido perto do final, e cai bem ali, foi uma inserção bem pensada, justa. Afinal, foi ali, em São Bernardo do Campo, discursando para os trabalhadores, que sua carreira de liderança popular se consolidou. As imagens fortes do curta, compostas (e juntadas) com cuidado, abriram uma sessão (a que comentei no último texto, que se encerra apropriadamente com o longa Partida), com quatro curtas e um longa, das mais inspiradas que pude ver em qualquer festival.

Quando o calor é maior no cinema (14º Fest Aruanda)

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O título sugere que os filmes exibidos na noite desta segunda passaram calor para a plateia. E aconteceu isso mesmo. Mas o calor a que me refiro foi causado pelo desligamento do ar condicionado (que já não estava grande coisa) em determinada altura, por causa da reclamação de algum friorento (foi o que me disseram). É o que sempre digo, pessoas friorentas normalmente andam com blusas, casacos, o diabo a quatro. Calorentos como eu só podem sofrer, porque mesmo se tirarmos a roupa no cinema o calor vai continuar. E o calor no cinema ontem era maior que o das ruas de João Pessoa.

Desabafo terminado, e muito suor depois, falemos dos filmes. Estes, brilharam. E o calor que veio deles foi muito mais fácil de receber. Foi uma das sessões mais especiais que já vivi em festivais. Infelizmente, perdi o primeiro dos quatro curtas que compuseram a sessão. O jantar atrasou e a sessão não, mas eu esperava que atrasasse, já que na noite anterior atrasou (e me disseram que nas outras noites também). Lei de Murphy, sabem como é. Felizmente encontrei o produtor no ônibus de volta ao hotel, e ele me prometeu passar o link. Aguardo então a visão de De Longe, Ninguém Vê o Presidente para comentar.

Os outros curtas me pareceram formidáveis, cada um a seu modo. O mais lynchiano é Gravidade, de Amir Admoni. Sempre achei que as melhores animações tendem a ser aquelas em que a trama não pode ser contada com atores. Claro, hoje a tecnologia faz James Dean interpretar de novo, o que para mim é uma aberração. Mas uma animação como Viagem de Chihiro, por exemplo, se beneficia de seu universo fantástico, com o onirismo e a ludicidade dominando a narrativa e amplificando o potencial dos traços. Gravidade me pareceu uma animação com técnica moderna (mas não entendo muito disso). Mas a técnica só importa para técnicos ou animadores. O que nos interessa nesse curta é o universo que ele proporciona. Duas pessoas (parecem homens) caem do céu amarrados por uma corda. Um deles está em cima de uma geladeira. Cai também um rádio gravador (primeira imagem do filme). Alguém observa a queda lá de baixo. Para quem cai, o jeito é relaxar e curtir a viagem.

Um Café e Quatro Segundos, de Cristiano Requião, é mais pé no chão. Sua força está no trabalho dos atores. Osmar Prado e Samir Murad são dois torturadores da época da ditadura militar. Um deles (Samir) está arrependido e amargurado. Não se conforma com as atrocidades que fez. O outro (Osmar) fala que era necessário para deter o comunismo e outras ladainhas desse tipo de gente. É impressionante como acreditamos que Osmar Prado é essa figura asquerosa, fascista e burra. Mas não nos surpreendemos tanto. Afinal, é um de nossos grandes atores.

Por último, Brasil, Cuba, de Bertrand Lira e Arturo de la Garza, encanta pelas imagens levemente embaçadas – um efeito anacrônico que funciona bem ao curta – de uma cidade em Cuba chamada Brasil. Retrato afetuoso de um país que atingiu níveis quase máximos de alfabetização e desconcentração de renda. O custo disso foi o autoritarismo. E o embargo econômico imposto pelos americanos, que não podiam mais explorar os cubanos. O filme é uma sucessão de imagens do cotidiano, tornadas oníricas pela textura do leve embaçamento, na contramão das imagens de Led que chegam de alguns curtas (e das projeções digitais). Achei bem bonita essa opção, mesmo que tenha sido causada por alguma calibragem errada do projetor (mas penso que não). Ficou com ar de tempo sustentado, de uma bolha do bem viver que só é possível na paz, com os cachorros e os velhos convivendo em harmonia.

Partida é o longa inspirado e inusitado de Caco Ciocler. Filme de percurso, de revelação da mentira do cinema, de falsas ficções e falsos documentários, mas também de inquietações e contradições muito reais. No dia do segundo turno das eleições de 2018, dia que vai ficar marcado como o “sim” ao fascismo pelo emburrecido povo brasileiro, Georgette Fadel resolve ir com o diretor e uma trupe ao Uruguai, para encontrar o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica, espécie de mentor de uma esquerda que deu certo, até certo ponto (o ponto que as elites permitem).

No caminho de ônibus (porque essas viagens têm de ser por estradas e não pelo céu), muitas coisas acontecem. Brigas falsas, brigas reais, verdades sendo escancaradas (meio falsas, meio reais) e antagonismos sendo forjados. Há ainda uma menina, simbolizando a esperança do futuro e da juventude (algo que Mujica sentiu, a que retornarei depois). No caminho do filme, as estratégias de falso drama são todas tornadas transparentes. Ouvimos conversas pessoais, telefonemas, relatos que nos informam dos planos para deixar o filme mais interessante. É um jogo o que propõe Ciocler ao espectador, um jogo em que seu próprio estatuto de ator global e pequeno burguês é questionado. A ideia de Georgette de se tornar candidata a presidenta da Brasil em 2022 é bombardeada por sua falta de abertura e calma, e o contraponto é o ator Leo Steinbruch, com o típico discurso reacionário que cansamos de ouvir. Georgette manda bem às vezes, em outras manda o piloto automático das palavras de ordem da esquerda moribunda.

Aplausos em cena aberta aconteceram quando o português mais brasileiro do cinema, o técnico de som Vasco Pimentel, explicou sua visão sobre o Brasil e os brasileiros, e por que gosta tanto de nosso país. Para ele, o Brasil e os brasileiros são um acidente, um povo que não devia existir, que estava destinado a ser explorado pelos portugueses. Muitas coisas derivam dessa condição, mas deixo ao futuro espectador (ou a quem se dispuser a rever o filme) as demais implicações. O fato é que foi uma senhora explanação, típica da erudição portuguesa, com um olhar de fora que só faz bem (que muitos não gostam e até não aceitam por limitação de suas mentes). Essas interrupções, programadas ou não, dão ao filme um tom de brincadeira do acaso que nos envolve e nos mantém presos a esse pequeno exército de Brancaleone.

O encontro com Mujica no final deve levar às lágrimas qualquer espectador com sangue nas veias e consciência do fracasso de nossas esquerdas. Quando ele aparece, a menina logo o abraça, e ele coloca sua mão em cima da cabeça dela, como uma espécie de passagem de cetro, de comunicação de uma ideia que precisa passar para as novas gerações mesmo que pule as gerações intermediárias. Georgette representa duas ou três gerações posteriores a de Mujica. Parece carregar ainda alguns vícios da geração que fracassou na implementação de uma humanidade mais igualitária (teria como não fracassar com a elite nojenta que temos na América Latina?). É necessário então passar a experiência adquirida, de prisão, da luta armada e da presidência, à geração que poderá chegar ao poder dali a 40 ou 50 anos, quando os ricos poderão comprar mais tempo de vida (segundo nos ensina Mujica).

Meu 1º dia no 14º Fest Aruanda: Dia de Desvio

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Quis o destino que a primeira vez que eu viesse acompanhar o Fest Aruanda, em João Pessoa, fosse em sua décima quarta edição. Como já disse aqui ou alhures, 14 é meu número de sorte. Apesar disso, o primeiro terço da viagem de avião foi tensa. Nunca peguei uma turbulência como aquela, e nunca ouvi tantos gritos no avião. Mas passou. Acontece com as nuvens pesadas dos trópicos. Na chegada, um pouco atrasado, deu para ver ainda a última sessão do dia, com dois curtas e um longa, todos em competição. Antes, houve uma homenagem a João Batista de Andrade, com uma fala entusiasmada de Vladimir Carvalho. (imagino que Linduarte Noronha tenha sido o homenageado na primeira edição)

Os dois curtas são Quitéria, de Tiago A. Neves, e Balão Azul, de Alice Gomes. O primeiro é paraibano e conta a história do renascimento de uma mulher, que vivia em preto e branco, mas por resolução própria e força de vontade, resolve romper o monocromatismo para descobrir a cor em sua vida. Um tanto trivial a simbologia, mas no curta até que se resolve bem. E o diretor ainda tem a audácia de um movimento de câmera acintoso no final, marcando o renascimento.

Balão Azul é um filme infantil, com poesia idem. Não é mal dirigido, mas também não apresenta nada que seja marcante. O curta me pareceu um descanso entre a intensidade de Quitéria e a do longa paraibano que encerrou a sessão, como uma faixa de melodia mais morna entre dois petardos em um disco de rock (e falar de rock vem bem a calhar na preparação para o longa).

Desvio é esse longa, e foi dirigido por Arthur Lins com um tom que lembra bastante os primeiros filmes do Wim Wenders. Para completar a ligação, basta trocar o rock sessentista dos Kinks e do Lovin’ Spoonful pelo hardcore underground paraibano. Não é fácil imprimir esse tom de recorte, uma coisa meio cotidiana meio acerto de contas, por todo o tempo, e é compreensível que o filme patine um pouco no começo. Mas também no começo (no primeiro terço, mais ou menos) fica claro que ele é capaz de fazer alguns voos, principalmente na relação dos primos Pedro, que teve um indulto de natal em seu regime de prisão semi-aberta, e Pâmela, adolescente que não quer seguir os rumos dos pais e suas festas em igreja. Há uma cena de assalto que não é de todo bem realizada, mas não compromete. O pós-assalto, com a queimação do carro é um dos pontos altos do filme, e o corte certeiro nos leva para longe dali, da noite para o dia, encerrando a sequência de um modo bem convincente. Essas escolhas de planos e cortes elevam o filme e promovem um crescendo interessante, culminando em um final prosaico que cabe bem ao longa. Uma surpresa (se é que dá para falar em surpresa relacionada ao cinema paraibano a esta altura).