Autor Arquivo: Sérgio Alpendre

Top 20 2020

Neste ano atípico, em que os cinemas só estiveram abertos até o meio de março, não faz muito sentido pensar em uma lista com os melhores filmes lançados no circuito brasileiro, como fiz em todos os anos (exceto em 2018 e 2019, listas de melhores de 2017 e 2018, porque nesses anos não acompanhei o circuito brasileiro do início ao fim). Mas não queria passar batido em mais um ano, uma vez que houve, de um modo incerto e inesperado, um calendário de exibições brasileiro, seja no circuito das plataformas de streaming, seja no de festivais online. Logo, a lista dos meus 20 preferidos (sempre o número, não vou mudar justamente neste ano em que ele aparece duas vezes) tem só filmes que tiveram alguma exibição pública no Brasil. Depois, mais seis filmes que destaco entre os vi por interesse maior ou curiosidade, mas que (até onde sei) não tiveram exibições públicas no país.

As duas listas estão em ordem decrescente de preferência (do 1 ao 20, do 1 ao 6).

* Os filmes que tiveram textos meus estão já com os links acoplados a seus títulos. Basta clicar e acessar o texto original.

** Os filmes que vi no Ecrã e no Nicho foram comentados em textos de balanço aqui neste blog.

Filmes com estreia comercial ou exibição em algum festival no Brasil

O Caso Richard Jewell (Clint Eastwood) visto no cinema

É o melhor dos Eastwoods recentes, com um domínio de ritmo, direção de elenco, estrutura narrativa e comportamento da câmera que só um grande mestre poderia ter.

Retrato de uma Jovem em Chamas (Celine Sciamma) cinema

Só pela cena do primeiro beijo já merece uma vaga nesta lista. Mas Sciamma revela um amadurecimento incrível em cada longa, culminando nesta jóia.

Viagem Fantasma (Stephen Broomer) Ecrã

Da natureza à abstração é um projeto de filme que tenho há alguns anos e resolvi retomar após a descoberta deste belo filme de Stephen Broomer, a partir das imagens amadoras de viagens feitas por Ellwood F.Hoffman, captadas nos anos 1960.

Ar Condicionado (Fradique) Nicho

Belíssimo filme da produtora angolana Geração 80. Uma maneira sui generis de narrar uma história simples e algumas cenas delirantes de antologia formam um coquetel poderosíssimo.

Dias (Tsai Ming Liang) Mostra SP

Não é tão forte quanto Cães Errantes, mas é forte o suficiente para mostrar que Tsai ainda está em forma, assim como seu ator, Lee Kang Sheng.

Martin Eden (Pietro Marcello) – cinema

O filme mais convencional de Marcello confirma sua boa mão como diretor e criador de imagens fortes em tramas que buscam alguma maneira de driblar o óbvio.

Luz nos Trópicos (Paula Gaitán) – Olhar

Paula Gaitán faz seu melhor filme. Mais do que isso: o filme vai crescendo até uma hora final muito forte, e um plano final de rara beleza, que nos faz querer continuar vendo as imagens.

Cabeça de Nêgo (Déo Cardoso) Tiradentes

Um dos filmes mais fortes da nova geração de diretores brasileiros. Um dos muitos exemplos surgidos nos últimos três ou quatro anos de que o cinema brasileiro tem finalmente atingido um estágio animador, depois de algumas batidas de cabeça naturais pela necessidade de renovação.

Lua Vermelha (Lois Patiño) Mostra SP

Filme de mistérios, mais do que de mistério, de imagens inquietantes, mais do que belas, ainda que também belas, e um desenvolvimento que jamais resvala no óbvio.

Guerra (José Oliveira e Marta Ramos) Mostra SP

Filme de amigos. Vítima de uma dureza maior para não soar tendencioso ou agraciado pela generosidade do contato pessoal? Creio ter maturidade para fugir desses riscos. Na dúvida, fiquem com as imagens fortes criadas pelos diretores, e com o último trabalho do também amigo José Lopes, falecido em dezembro de 2019.

Campo (Tiago Hespanha) – cinema

Mais um filme surpreendente do ainda surpreendente cinema português, dentro de um registro que eles dominam bem, o documentário contemplativo e ensaístico.

Monos – Entre o Céu e o Inferno (Alejandro Landes) – cinema

Tinha passado batido por mim esta estreia do colombiano Monos nos cinemas brasileiros. Como não pisarei numa sala de cinema antes de uma vacina, nem acompanhei as estreias de perto. Mas vi que estava em ótima posição na lista do Ruy Garnier e fui conferir, encontrando um filme cheio de ideias visuais, que me lembrou um Los Conductos (o belo filme de Camilo Restrepo) mais redondo (embora também mais enigmático em suas implicações políticas) e inspirado. Anotado o nome de Landes entre os cineastas a serem seguidos de perto.

61. A Verdade Interior (Sofia Brito) Ecrã

Belo filme que mostra, entre outras coisas, o processo criativo de James Benning, mais organizado por sensações do que pela razão, em que a diretora assume sua dificuldade com a língua inglesa, humanizando-se diante da câmera por sua fragilidade na comunicação.

A Forma do que Está por Vir (Lisa Marie Malloy e J.P. Sniadecki) Ecrã

Lembra Andarilho e Acidente, de Cao Guimarães, e os diretores tiveram a sorte de encontrar um senhor que não é só hippie, mas uma figura sui generis, dessas que seguram um filme desse tipo. Ele se chama Sundog, o que sugere uma aproximação (homenagem? brincadeira?) com o compositor maldito Moondog, falecido em 1999, cuja aparência era bem semelhante a do protagonista desse filme.

Technoboss (João Nicolau) cinema

Poderia ser um filme de ator, pois Miguel Lobo Antunes, gestor cultural e irmão do escritor António Lobo Antunes, domina o filme e o chama de seu. Mas João Nicolau também mostrou que evoluiu como diretor em relação a seus outros longas. Faz um filme bem forte e esquisito, sendo que a esquisitice também é parte determinante de sua força.

Não Há Mal Algum (Mohammed Rasoulof) Mostra SP

Quatro episódios mostrando a dor de se matar um ser humano. O tema se impõe e surge como um choque, num filme que, mesmo quando aposta no convencional, pode nos surpreender. Meu episódio preferido é o último, o que ajuda a tornar o todo mais impressionante.

A Pastora e as Sete Canções (Pushpendra Singh) Mostra SP

Parece um filme que eu via na Mostra dos anos 1990, e isso é um elogio, porque naquela época ainda era possível sermos surpreendidos por algo alienígena no cinema contemporâneo.

Sportin’ Life (Abel Ferrara) Mostra SP

O melhor dos filmes recentes de Ferrara. Dá conta de sua recente carreira, de sua parceria com Willem Dafoe e da pandemia, que ele mostra filmando as ruas vazias de Roma.

Vento Seco (Daniel Nolasco) Olhar

Sexo explícito homossexual num Brasil mais conservador do que nunca. Mas isso seria pouco do ponto de vista cinematográfico, embora seja muito como chacoalhão em mentes fracas. A questão é que Nolasco tem uma câmera segura, que valoriza as cenas de sexo e flerte. Tem momentos que lembra o Mascaro de Boi Neon, mas são poucos e não anulam a força do longa.

Yamiyhex – As Mulheres Espírito (Sueli e Isael Maxacali) – Tiradentes

Filme de olhar raro, que mostra um desejo de contornar todas as convenções cinematográficas possíveis.

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+ (menções honrosas)

Be Natural: A História Não Contada da Primeira Cineasta do Mundo (Pamela B.Green) – cinema

Partida (Caco Ciocler) – cinema

É Rocha e Rio, Negro Léo (Paula Gaitán) – Ecrã

O Oficial e o Espião (Roman Polanski) – cinema

Três Verões (Sandra Kogut) – Spcine

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Filmes que não tiveram exibição pública no Brasil

Dwelling in the Fuchun Mountains (Gu Xiaogang)

O lado paisagista de Jia Zhangke é acentuado neste filme que procura integrar as histórias das vidas que mostra às belas paisagens chinesas. É um filme muito bonito, mas essa beleza toda parece servir à ideia de comunhão com a natureza e suas estações, criando planos difíceis de esquecer, como um enorme, em que o moço nada uma boa distância e ainda entabula um longo diálogo.

Nunca Raramente Às Vezes Sempre (Eliza Hittman)

Duas adolescentes viajam a Nova York para que uma delas possa abortar. Dessa trama simples Hittman extrai um mundo bem singelo e verdadeiro, filmado de modo a nos mostrar o aprendizado das duas personagens ao enfrentar as penúrias da vida.

The Woman Who Ran (Hong Sang-Soo)

Como sempre em Hong Sang-soo, o filme vai se insinuando, como quem não quer nada, e no final estamos vidrados, querendo mais.

Relic (Natalie Erika James)

Um filme sobre o envelhecer do corpo feminino e sua aceitação. Três gerações de mulheres enfrentam os fantasmas desse envelhecimento sem se dar conta que há uma transmissão de experiência entre elas. É o filme de horror mais belo que vi no ano passado.

First Cow (Kelly Reichardt)

Talvez seja o filme mais rigoroso e formalista de Kelly Reichardt, com um enquadramento 1.33 que reforça o posicionamento das pessoas dentro dos recortes de paisagens que ela filma muito bem.

On Paradise Road (James Benning) O filme pandêmico de Benning trabalha mais uma vez com duração e simetria, apenas com tomadas internas, dentro de sua própria casa. O momento mais notável é quando vemos Uma Aventura na Martinica, de Hawks, na TV. Dentro de um plano imóvel e longo, o ritmo e o movimento do melhor cinema clássico americano.

Encerrando 2020: Até o Fim e outros filmes

Um apanhado de pequenos textos sobre filmes que vi nos últimos dias. Até o Fim está em destaque no título, apesar de ter me decepcionado com ele, porque era o que eu mais queria ver entre esses filmes.

Antebellum, de Gerard Bush & Christopher Renz **

Pelo que pude perceber, foi recebido com posições extremas este filme com a estrela Janelle Monáe (que ainda pode ser considerada muito mais estrela musical do que cinematográfica, e não é este filme que mudará isso). Como muitas vezes em que essas posições extremadas acontecem, tendo a ficar no meio do caminho, sem entender muito bem o porque de tanta raiva e tanto maravilhamento, reconhecendo coisas bacanas no filme (a estrutura narrativa, algumas cenas de impacto na fazenda sulista, a perseguição final), e coisas que, a meu ver, não funcionam (as três amigas no restaurante e a viagem no uber errado, a interpretação decepcionante de Monáe, que não se mostrou à altura quando mais exigida). Vale ver, sim, pela estrutura e porque ela vai se tornando mais interessante com o passar do tempo, mas o filme termina criando expectativas que não se confirmam de todo.

A Assistente, de Kitty Green **

Kitty Green vai fundo em sua escolha estética e somente a abandona em alguns momentos de crise da personagem principal. O momento mais forte é aquele em que ela vai se queixar ao maior chefe das regalias que o chefe do setor dela dá a uma nova contratada, que ela considera mais jovem e bonita. É como se na série Mad Men ficasse muito mais evidente o protagonismo de Peggy, sem uma divisão com o protagonismo de Don Draper. Curioso que estamos numa produtora de cinema de médio porte, mas o ambiente é o mesmo de qualquer repartição burocrática das empresas. Poderia ser uma administradora de cartão de crédito. Talvez seja um modo de dizer que de arte e criação o cinema tem muito pouco, sobretudo nos Estados Unidos.

Até o Fim, de Glenda Nicácio e Ary Rosa **

Em Até o Fim, a dupla Glenda Nicácio e Ary Rosa resolve deixar os experimentos formais dos seus outros longas em favor de um experimento com a dramaturgia. E eis que, nesse processo, parecem um tanto perdidos, vendo à distância o forte de Café com Canela e, principalmente Ilha. Esperava bem mais desse terceiro longa, que a esta altura já pode ser considerado “aquele difícil terceiro longa”, numa referência ao “that dificult third album” que se tornou clichê na imprensa musical britânica. Porque nessa lavagem de roupa suja entre as irmãs, sobram câmeras perdidas (quando é muito perdida até fica interessante, pela abstração resultante, mas não é tão frequente), grandes angulares que parecem ter escapado de um filme do Lanthimos e alguns cortes que, ao contrário do que acontece em Café com Canela, não conseguem criar um atrito engenhoso dentro das cenas. Uma pena, porque a entrada em cena, mais ou menos na metade do filme, da irmã caçula, mulher trans que não é bem aceita pela irmã mais velha, poderia proporcionar cenas muito fortes caso os diretores tivessem um controle dessa dramaturgia. Inclusive porque os diálogos são colocados com muita propriedade a partir da entrada dessa personagem e a atriz manda muito bem em falas que poderiam ser apenas de um manual antitransfobia, mas mesmo com a direção trôpega atingem uma força inesperada. Ela merece uma segunda estrela.

Babenco – Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer Parou, de Barbara Paz **

Não entendo a opção de mostrar os filmes de Babenco todos em preto e branco. Entendo que ela tem duas funções, manter o padrão visual em todo o filme e destoar dos demais documentários de cineastas e filmes. Mas me pareceu uma opção equivocada, que enfraquece as imagens originais em favor de um outro projeto estético, distante dos que Babenco tinha adotado (sofrem mais os do periodo áureo do autor, de Lúcio Flávio a Brincando nos Campos do Senhor). No mais, este documentário começa bem e termina decepcionante conforme a carreira do próprio Babenco vai se mostrando menos forte. Pior ainda que os trechos escolhidos e a maneira de integrar tudo no preto e branco fazem parecer que seus últimos filmes são piores do que realmente são.

Be Natural: A História Não Contada da Primeira Cineasta do Mundo , de Pamela B.Green ***

O filme de Pamela B.Green é redondinho no sentido didático (comercial), com umas animações bonitinhas, sacadas interessantes que mostram a circularidade do tempo e entrevistas com especialistas como Kevin Brownlow. Mas é quadradinho (dentro de um aspecto bem contemporâneo) no sentido formal. Vale muito ver porque é história, e há um claro envolvimento da diretora com essa cineasta que, de fato, teve a carreira mais longa entre os chamados pioneiros da sétima arte (além dela, Thomas Edison, Louis Lumière e Georges Méliès, como o próprio filme ilustra num gráfico). Pioneira inclusive no trabalho com som sincronizado, ainda em estado incipiente, no início do século 20. Edison, Lumière e Méliès foram inovadores antes de Guy fazer seus melhores filmes, mas enquanto eles foram aos poucos sendo ultrapassados pelos novos cineastas que surgiam, Alice Guy manteve-se na ponta da invenção até pelo menos o início dos anos 1910.

It Feels So Good, de Haruhiko Arai ***

Meu problema com o cinema japonês dos anos 1990 em diante não é que carece de bons filmes, é que carece de filmes magníficos. Os filmes que vejo, exceto quando assinados por alguns poucos suspeitos como Kiyoshi Kurosawa ou Takeshi Kitano (e mesmo assim, nem sempre), raramente alcançam um patamar mais alto no meu panteão. Ficam todos perto do meio, entre duas e três estrelas, na linguagem sempre imprecisa das cotações. Isso acontece com It Feels So Good, drama erótico com cenas ousadas, que lembram os roman porno da Nikkatsu, atualizados para uma maior frontalidade de elementos como espermas, ereções, mas nada que chegue ao nível de um Império dos Sentidos, filme franco-nipônico de Nagisa Oshima. O jovem casal de ex-namorados trata de aproveitar os últimos dias de sexo incessante antes que a noiva se case com um soldado. Isso com o mítico Monte Fuji prestes a entrar em erupção (a analogia com o vulcão sexual está posta, portanto). O veterano roteirista Arai, em seu quarto longa como diretor, tem intimidade com o pinku eiga e consegue veracidade nas cenas de sexo sem cair no explícito, além de realizar alguns belos planos – o das hélices parece meio equivocado de início, pela composição, mas termina se justificando pelo comportamento dos amantes, que têm, durante todo o filme, uma atuação bem convincente.

The Man in the Woods, de Noah Buschel **

O lado David Lynch me interessa bem mais que o lado Guy Maddin, mas o filme parece se decidir pelo último no terço final. Alguns personagens são interessantes, como o homem do trailer e a professora politizada. Por outro lado, a presença de Sam Waterston me parece bem equivocada e seu personagem um tanto prejudicial para a trama.

Yamiyhex – As Mulheres Espírito, de Sueli & Isael Maxacali ***

A vida em conflito numa tribo indígena filmada com liberdade com relação às convenções do “bem filmar”, e com um olhar preciso e contundente. Acompanhamos os rituais e as disputas entre homens e mulheres, com estratégias de batalha e um desenvolvimento da trama que foge até mesmo das convenções do cinema indígena.

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O padrão de cotações é o mesmo da Revista Interlúdio:

0 – ruim

1 – mediano

2 – interessante

3 – bom

4 – ótimo

5 – sensacional

Top 20… de 2009

Enquanto não sei o que fazer com a lista de 2020, e se vai haver mesmo tal lista, segue uma que encontrei no antigo Chip Hazard, infelizmente tirado do ar pelo UOL. É de 16 de janeiro de 2010, com os filmes que estrearam comercialmente em São Paulo durante o ano anterior.

Hoje, obviamente faria algumas mudanças, mas os primeiros lugares me pareceram bem justos. A Troca estaria em posição melhor (que ano para o Clint), Inimigos Públicos mais para baixo e Arrasta-me Para o Inferno mais para cima. Os comentários são da época.

1) Gran Torino, de Clint Eastwood

Christ all friday!!!

2) Amantes (Two Lovers), de James Gray

O melhor filme de um grande diretor.

3) Deixa Ela Entrar (Let the Right One In), de Tomas Alfredson

Eu deixo.

4) Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes

Uma delícia de filme. Vasco, o mito. 

5) Moscou, de Eduardo Coutinho

A brilhante encruzilhada de uma carreira.

6) Inimigos Públicos (Public Enemy), de Michael Mann

Carne picotada com muita habilidade.

7) Desejo e Perigo (Lust: Caution), de Ang Lee

Carne, carne, carne…

8) As Ervas Daninhas (Les Herbes Folles), de Alain Resnais

Decepcionante, pois não é a obra-prima que eu esperava. Mas é desconcertante. 

9) A Troca (Changelling), de Clint Eastwood

Na revisão cai um pouco, mas tem dois dos 10 melhores momentos do cinema em 2009.

10) Horas de Verão (L’Heure D’Été), de Olivier Assayas

Ocaso de uma geração, rebento de outra.

11) Vocês, os Vivos (Du Levande), de Roy Andersson

Ai, quem é que não gosta de quem só faz o mesmo filme?

12) Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds), de Quentin Tarantino 

Pelos dois primeiros capítulos.

13) Arrasta-me Para o Inferno (Drag me to Hell), de Sam Raimi 

Bruxa bem mais assustadora que a de Blair.

14) Inútil (Useless), de Jia Zhang-ke

A brancura estética.

15) O Lutador (The Wrestler), de Darren Aronofsky

“I knew right from the beginning / that you would end up winnin'”

16) Presságio (Knowing), de Alex Proyas

Cage correndo e o mundo derretendo.

17) Aconteceu em Woodstock (Taking Woodstock), de Ang Lee

Bela viagem de ácido.

18) Milk – A Voz da Igualdade (Milk), de Gus Van Sant

A primeira metade é espetacular.

19) A Erva do Rato, de Júlio Bressane

Como aproveitar a persona cinematográfica de Selton Mello.

20) Annabazys, de Joel Pizzini e Paloma Rocha

Estimulante, dá vontade de ver Glauber.

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Só entraram na lista filmes que estrearam no circuito comercial de São Paulo durante 2009.

Encerrando 2020 – Undine

Não entendo bem o fascínio que o cinema de Christian Petzold provoca em alguns cinéfilos. Com a exceção de Yella e Gespenster, com os quais tenho uma relação mais sólida, seus filmes, comigo, costumam ficar num gostar pouco entusiasmado no todo, embora sempre com alguns momentos notáveis.

Em Undine, a personagem-título é interpretada por Paula Beer, talvez a sucessora mais marcante de Nina Hoss, atriz mais constante nos filmes anteriores de Petzold. Christoph é interpretado por Franz Rogowski, espécie de Joaquin Phoenix alemão, que já havia filmado com Petzold no longa imediatamente anterior, Em Trânsito, que conta também com Paula Beer.

Este novo longa já se apresenta diferente, com um diretor mais disposto a tentar alguns truques novos ou reciclar habilmente os velhos truques, seja pela encenação (quando a câmera acompanha o olhar de Undine para seu ex, enquanto ela vai trabalhar e ele espera no café), seja pela narrativa (o aquário que se quebra e forma um novo casal). Depois vem o plano em que Christoph acompanha a chegada do trem, e o breve afogamento de Undine, filmado como se fosse um sonho. E aí, com a momentânea estabilidade do casal, o filme fica um pouco modorrento (há sempre alguma barriga nos filmes de Petzold). O inesperado voltará mais tarde.

Acontecem coisas inverossímeis como a ligação de um homem dado como morto e a força descomunal de Undine para assassinar seu ex-namorado por afogamento. Petzold se serve desses momentos para recolocar seu filme nos eixos, como se precisasse da estranheza como modo de sobrevivência de seu cinema (sempre foi um pouco assim, penso aqui ao lembrar dos filmes anteriores). Quando remete ao suicídio de Anju no O Intendente Sansho de Mizoguchi, opera-se um milagre e a partir daí tudo se torna possível, o que nos abre portas para acompanhar o filme sem a previsibilidade que o ameaçava em seu miolo.

Se o desfecho, como quase sempre acontece nos filmes de Petzold, é inferior às expectativas criadas, isto acontece um pouco por sua própria tendência ao inesperado e às soluções narrativas menos óbvias.

Últimos dias do ano

1. Em outros anos, é nesta época que vou atrás dos lançamentos importantes, de filmes que perdi, apesar de interessado, de filmes elogiados por críticos ou cinéfilos que respeito. Neste ano, nem sei como fazer isso. Ou melhor, sei, mas é um universo tão grande de filmes que eu nem sei por onde começar. As estreias no cinema aconteceram até o meio de março. Depois foi só em streaming ou em sala de cinema para quem quer se arriscar (não há lugar seguro numa epidemia como essa). De todo modo, o controle dessas coisas foi dificultado pelo ineditismo da situação. É também por esse motivo, mas principalmente por não gostar de fazer listas do tipo “filmes que vi pela primeira vez no ano”, sem um universo definido e que tenha algo de comum com outros cinéfilos, que neste ano não farei lista alguma de melhores.

2. Foi o ano dos festivais em streaming. Como perdi mais uma vez a Mostra de Tiradentes, em janeiro, não pude acompanhar presencialmente festival algum (o último tendo sido o Fest Aruanda, em dezembro do ano passado). Alguns festivais online eu acompanhei bem (Ecrã, Olhar, Mostra SP), outros acompanhei bem menos ou nada (Forum Doc, Indie, CinePE, Festival de Brasília, entre muitos outros). Não foi por falta de interesse. Não se pode ver tudo.

3. Isto não é uma retrospectiva do ano. Mesmo porque 2020 ainda não acabou e talvez eu faça um novo post antes de acabar. Mas foi o ano em que descobri a possibilidade de dar cursos online, algo que sempre evitei por sentir que faltava interação com os alunos. Estava enganado, e a possibilidade de dar aulas para 80% ou mais de pessoas de outras cidades, que não conseguiriam acompanhar os cursos se fossem presenciais, é uma das grandes vantagens do formato. Sinto falta, obviamente, dos encontros e das aulas presenciais. Não vejo a hora de voltar a uma sala de aula que não seja a minha casa. Mas é inevitável, pelo menos para mim, a manutenção dos cursos online em paralelo com os presenciais.

4. Foi também o ano em que muitos deram a desculpa da pandemia para precarizar serviços e trabalhos. Talvez a maior vítima foi o jornalismo. Tanto o impresso quanto o televisivo já não eram grande coisa, e estão piores a cada dia, com excesso de repetições, manchetes com distorções, reportagens sobre as pessoas que ignoram o distanciamento social e parecem alimentar a vontade de outras pessoas ignorarem também, reforçando um círculo vicioso do egoísmo e da irresponsabilidade. Essa pobreza me parece ser uma opção. O jornalismo, hoje, principalmente no Brasil, é exceção. Está em 10% dos maiores jornais, em uma porcentagem não muito maior em veículos independentes e em 20%, mais ou menos da Globonews e da TV Cultura, apesar do viés neoliberal dos patrões. Na hora de saber por onde nos informarmos, temos, aí sim, uma escolha difícil.

5. Tive dois meses intensos entre festivais de cinema e cursos inéditos, que me deixaram bem ocupado (felizmente). Com isso este blog ficou sem atualizações semanais. Esta semana foi de descanso. Na próxima as coisas devem voltar ao eixo. E que venha a vacina. E que venha para todos e sem maior atraso (é pedir muito de um governo incompetente como esse, para dizer o mínimo).

Fellini, ranqueado

Terminado o curso sobre o cinema de Federico Fellini e a revisão de quase todos os seus filmes, resolvi criar este ranking, do melhor ao pior.

Na nova série de revisões, dois filmes subiram bastante: Julieta dos Espíritos e Cidade das Mulheres. Julieta dos Espíritos continua 8 e 1/2 no mergulho na fantasia e no onirismo da mesma maneira que Roma continua Satyricon no retrato dos romanos, antes continentais, agora restritos a uma cidade, e Entrevista continua Roma na audácia do documental íntimo e saudosista, reduzindo a cidade romana a uma cidade cinematográfica, a Cinecittá. Cidade das Mulheres continua Casanova na derrocada do macho latino. Duplas de filmes, espelhamentos. E La Nave Va aperfeiçoa Ensaio de Orquestra. Noites de Cabíria aperfeiçoa A Estrada.

As revisões confirmaram também que o Fellini que mais me toca é o delirante, do onirismo e do grotesco. O Fellini realista eu admiro mais à distância, com a exceção de Noites de Cabíria, que já está num movimento de saída do neorrealismo para a narrativa fragmentada e irrealista dos filmes seguintes.

Hoje, dezembro deste terrível 2020, a ordem seria esta, subdividida em blocos de aceitação:

As obras-primas:

Satyricon

Roma

E La Nave Va

A Doce Vida

Noites de Cabíria

Os sublimes

8 e 1/2

Amarcord

Casanova

Julieta dos Espíritos

Os ótimos

Cidade das Mulheres

Os Boas Vidas

A Trapaça

Toby Dammit

Os Bons

Entrevista

Ensaio de Orquestra

A Estrada

As Tentações do Sr. Antônio

Os Palhaços

Os bons

A Voz da Lua

Abismo de um Sonho

Ginger e Fred

O razoável

Mulheres e Luzes

Nicho Novembro 2020 – Mostra de Filmes

Nestes tempos em que o racismo não só se mostrou longe de superado, mas teve um aumento em sua intensidade e efetividade, com os racistas perdendo a vergonha de se assumir como tal, qualquer pessoa decente fica mais sensível a narrativas negras, a corpos pretos em filmes de todo o mundo. Por esse motivo o maior desafio de ver a programação de cinema do Nicho 54 e lidar com os filmes exibidos é justamente conseguir separar nossa tristeza atual e nosso ódio ao racismo e identificar elementos cinematográficos nas obras, se as operações que as regem foram bem ou mal sucedidas e se as realizações nos mostram algum nível de excelência e adequação entre o que se quer mostrar e a maneira como se mostra.

Nesse sentido, vamos da insuficiência estética simpática e lynchiana de In Hollywoodland e da inconsistência de conjunto do longa alagoano Cavalo até a sensibilidade e a habilidade cinematográficas demonstradas no curta americano De Repente a Escuridão ou nos filmes da produtora angolana Geração 80, Lúcia no Céu com Semáforos e Ar Condicionado, ou ainda no impressionante filme de Ruanda, Aquário. Vamos também da gangorra dos erros e acertos que se juntam num conjunto poético dos curtas Receita de Caranguejo e Colunas ao impactante filme denúncia “estou puto com o mundo e minha terra” que é esse impressionante A Última Gota de Óleo, e à investigação sobre a imagem dos negros na tela que engloba o já visto e o também já visto – mas num todo arranjado de forma única – em Tudo que é Apertado Rasga.

Na programação estimulante do Nicho, pudemos ver aparelhos de ar condicionado que caem como se estivessem no céu, refletindo o dar de ombros de uma elite angolana que mal se preocupa com os que andam sobre o chão (característica das elites de todo o mundo, provavelmente). No mesmo filme, Ar Condicionado, o grande destaque entre os filmes que vi do Nicho, o delírio do protagonista dentro de um carro que é só carcaça, uma das cenas mais belas do cinema contemporâneo pelo uso acertado da música e pela entrada e saída do delírio, a precisão de uma montagem que se arrisca e acerta em cheio. Pudemos ver também uma menina dançando graciosamente enquanto observa o pai maltratando a arte de se expressar com o corpo (De Repente a Escuridão), ou a relação homem e mulher sendo totalmente tomada por sensações e palavras que as descrevem em forma de poesia (Lúcia no Céu com Semáforos), ou ainda um homem praguejando para a câmera tendo por trás toda a destruição ambiental que ele ajuda a fazer com seu trabalho necessário – a dor é também de sua culpa e de sua condição, aprisionado em um emprego insalubre (A Última Gota de Óleo).

Infelizmente, os diversos compromissos de novembro me impediram de ver a programação nos últimos dois dias. Se mantiveram o bom nível da programação, e não há razões para acreditar que algo diferente aconteceu, é certo que o Nicho 54, também em sua faceta programação de filmes, terá vida longa e frutífera.

44ª Mostra Internacional de São Paulo – Parte 3

Mamãe Mamãe Mamãe, de Sol Berruezo Pichon-Rivière

Crianças pulam, saias ao vento, colares. Um pequeno corpo na piscina. O que aconteceu com a boia? Uma mãe desesperada, uma TV desligada, a mesa posta. Como filmar uma tragédia familiar? Como filmar o luto, a superação? Crianças vivem numa casa grande com piscina e vegetação. São todas meninas. Filme de mulheres, maduras, avós, mães, adolescentes, infantis, com idades que diferem bastante apesar da pequena distância numeral – porque entre 6 e 10 anos, 10, 11 e 12, ou 12 e 15 (idades das garotas que vemos em cena) já são mundos bem diferentes a serem explorados.

Enquadramentos calculadamente imperfeitos. A esta altura, o cálculo, se não é demasiado (e não é aqui), torna-se bem-vindo em meio ao monte de câmeras incertas e fluxos vazios que este filme também tem, mas em número discreto e como recursos pontuais. O filme de Pichon-Rivière marca um retorno (que me pareceu consciente) ao cinema que Lucrecia Martel realizou com O Pântano (2001) e Menina Santa (2004), seus melhores filmes. Ou seja, o da procura por recortes (nos enquadramentos e na dramatização) que nos informam de um todo de maneira lúdica.

É um filme curto, com pouco mais de uma hora, em que primas estão apartadas do sofrimento de mãe e tia, em que as imagens do passado surgem como lembranças que trazem de volta uma vida, em que as brincadeiras tornam-se suspensas no tempo pela suspeita de culpa e pelo não entendimento de um caminho possível fora do silêncio ou da tentativa de isolamento (estratégia dificultada pelo medo da menstruação). O começo é muito forte, pelo acidente e pela direção. Depois o filme vai se tornando um pouco mais comum, mas jamais desinteressante, e com toques de inesperada poesia na relação entre as meninas.

Por mais que seja golpe fácil fazer um filme centrado nas reações das crianças, há ainda a necessidade de uma boa direção para dar conta das possibilidades em cena. Quando Martel realizou seu primeiro longa, Pichon-Rivière, nascida em 1996, era uma menina de quatro para cinco anos. Mamãe Mamãe Mamãe é seu primeiro longa, quase vinte anos após o de Martel. O cinema argentino quase se renova com o sopro da poesia e da infância, pelas mãos de uma jovem e talentosa diretora, mais uma vez.

A Morte do Cinema e do Meu Pai Também, de Dani Rosenberg

Nome tão pomposo para filme tão simples, por vezes simplório. Filmar o pai, filmar a casa, o hospital. Filmar a história em curso, e sabe-se lá mais o quê. Como o pai está morrendo, não pode mais haver filme. Mesmo assim, há um filme que fala da impossibilidade de haver um filme. A morte do cinema já foi tematizada em obras melhores. Aqui, raramente alcança algo além do trivial. Um ou outro plano interessante em meio a uma série de imagens de família, muitas delas desprovidas de qualquer pensamento ou olhar, algumas poucas engenhosas (como quando o pai do diretor é visto no monitor enquanto uma trilha é tocada no estúdio por uma banda revelada pelo movimento da câmera). As cenas de agonia do pai são tão mais cruéis porque filmadas de um modo cruel, com o pai e com o cinema.

A Pastora e as Sete Canções, de Pushpendra Singh

De repente, me senti numa Mostra SP dos anos 1990, em uma sessão vespertina do Cinesesc ou do Cinearte, tendo contato com uma cultura distante e uma cinematografia aplicada. Todos os anos a Mostra nos oferecia filmes assim, alguns bons, eventualmente muito bons, outros tantos descartáveis. Este, felizmente, vai ficar. As cores e os enquadramentos remetem aos anos 1990, mas a força da protagonista, a pastora Laila, nos traz de volta ao século 21.

Há um desencadeamento inteligente das situações que procuram aprisionar Laila à posição de mulher submissa, tendo ao menos três homens em sua órbita, nem sempre com as melhores intenções. Mas ela protesta por meio das canções, que nem sempre estão de acordo com o que se espera dela (“você está grávida, cante uma canção de esperança”).

Muito se fala de Isso Não é um Enterro, É uma Ressurreição, mas este A Pastora e as Sete Canções é claramente superior, andando por caminhos semelhantes. Ambos falam de costumes arcaicos e da vida rural. Em ambos as mulheres lutam contra imposições masculinas. Finalmente, nos dois longas a protagonista termina se desnudando como forma de enfrentamento. No primeiro, contra as autoridades locais. No segundo, contra o próprio futuro que parece imposto a Laila. Que só o primeiro esteja recebendo loas é um dos mistérios do circuito de festivais.

Prazer, Camaradas!, de José Filipe Costa

Em 1975, Portugal passava por intensas transformações e uma esperança de que a Revolução dos Cravos desse muitos frutos, não sem uma série de tropeços e certo caos. Muitas cooperativas surgiram no sul e no centro de Portugal, por vezes com a ideia de alfabetizar a população. Também no cinema houve formação de cooperativas, e muitos filmes etnográficos e ensaísticos procuravam dar a conhecer esse Portugal que ninguém mostrava. Chama a atenção, em Nós Por Cá Todos Bem, filmaço de Fernando Lopes realizado entre 1975 e 1976, um muro com os dizeres: “O 25 de abril não chegou aqui”. Era um sinal crítico de que a revolução ficou mesmo por Lisboa e o resto do país continuava atrasado. O filme de Lopes, por sinal, tem uma similaridade com este Prazer, Camaradas!, de José Filipe Costa: em ambos a música tem uma boa parcela de importância. Ali, Sérgio Godinho. Aqui, José Afonso e Sylvester.

A proposta de José Filipe Costa é captar o momento em que portugueses de fora do país e estrangeiros foram a Portugal para participar de uma cooperativa educacional em Aveiras de Cima, freguesia de Azambuja, município próximo a Lisboa. O mais forte é o humor, que vem sobretudo das diferenças de costumes e das observações cotidianas como a maneira dos homens de sentar nas bicicletas. Alemães e ingleses, de costumes mais avançados, se deparam com o machismo rural português. As cenas com as mulheres são hilárias, já no começo, na alfabetização e nas orientações para lavar a louça. E logo elas irão se rebelar: “como só nós trabalhamos e os homens comem e dormem?”. Em entrevista para Jorge Mourinha, o diretor, que tem estudos acadêmicos sobre o cinema desse período de Portugal, conta que muitos dos atores não profissionais que estão no filme são os mesmos que na época foram a Aveiras de Cima. O lance de eles reviverem, hoje, as situações que viveram na época é um de seus grandes achados. Um faz-de-conta com a consciência da experiência já vivida, lembra Filipe Costa.

Observação pessoal: “Caluda! Caluda”, dizia sempre meu avô, nativo de Arrifana, freguesia da Guarda. É o que diz um personagem durante uma reunião que sai do controle. Não costumo ver esse chamado ao silêncio em filmes portugueses. Tanto que até pensava que pudesse ser um dialeto de Arrifana. Penso que o filme fale muito aos portugueses até por mostrar essas raízes rurais de um país hoje já muito diferente. 

Vencidos da Vida, de Rodrigo Areias

Um homem cuida de um cinema. Os filmes que ele passa variam: um homem se envolve com uma mulher misteriosa que nada num lago, um anão e suas inseguranças ao trabalhar num circo, um fotógrafo desenvolve uma relação sexual violenta com sua modelo. O desejo de experimentar é sempre saudável. Mas por vezes, muitas vezes, não dá em nada interessante. É o caso deste novo longa do português Rodrigo Areias, cineasta que se sai um pouco melhor quando se aproxima do realismo, como no seu longa anterior de ficção, Surdina.

Walden, de Bojena Harackova

Narrativa em dois tempos sobre Jana, que deixou o país e volta depois de muitos anos para se conectar a algo mal resolvido do passado. Um lago está no centro de suas angústias, como também um namorado envolvido em pequenos crimes. Alguns diálogos são ridículos e a parte mais atual não tem força alguma. Unindo essas duas falhas está o terrível diálogo de Jana com o polonês num bar, já perto do final (pior ainda porque há um desperdício de Fabienne Babe, atriz que faz Jana mais velha e é uma das mais marcantes do cinema francês). A liberdade nas sequências de juventude, com os brilhos nos olhares e os encontros entre os amigos, tem algo de interessante, e os conflitos entre pais e filhos rendem algumas boas cenas também. De alguma forma nos sentimos atraídos pelo desenrolar da narrativa, mas o filme nunca chega a empolgar, permanecendo sempre perto do limite do descartável. Há uma participação como ator do cineasta lituano Sharunas Bartas.

44ª Mostra Internacional de São Paulo – Parte 2

Não Há Mal Algum

Sem mais delongas, vamos aos filmes…

City Hall, de Frederick Wiseman

Está logo no começo um dos trechos mais fortes do filme: há um casamento civil entre duas mulheres. A escrivã diz as palavras do ritual e no final as declara “hus ops… married” (“mari ops… casados”). A cena termina com a risada tímida de uma delas. Muitas coisas num simples e rápido momento: a necessidade de se habituar e se enquadrar aos novos tempos e novas configurações familiares, o costume de pronunciar “husband and wife” que provoca o pequeno lapso, a emoção das noivas e a beleza do ritual das alianças selando um amor que até pouco tempo não era permitido de ser mostrado às claras.

Esses momentos de beleza não anulam o fato de que Wiseman pede que o acompanhemos nessa jornada detalhista (e ainda assim insuficiente) pelas funções da prefeitura de uma grande cidade, no caso, Boston, cidade governada pelo Partido Democrata desde 1930. O prefeito Marty Walsh, seus assessores, seus compromissos com os diversos eventos, mesmo aqueles mais corriqueiros, são filmados por Wiseman com calma e atenção aos detalhes que farão a diferença no final. E é uma viagem de 4 horas e meia. Entramos num ônibus imaginário que não sai de Boston, o que já é mais do que a biblioteca da viagem parecida, a de Ex-Libris – New York Public Library (2017), já um filme que pedia entrega do espectador, com suas mais de três horas de duração.

E é o outro lado da viagem promovida em Monrovia, Indiana (2018), em que a cidade é menor, os espaços muito mais abertos que os de Boston e Nova York, o conservadorismo impera (já na primeira conversa tem Jesus para todos os lados, o casamento tradicional é realizado numa igreja cristã) e o ambiente é mais rural (além da viagem ser mais curta, com duas horas e vinte minutos. Monrovia, Indiana, por sinal, termina com um enterro, imagens impressionantes que comprovam a habilidade de Wiseman para iniciar e principalmente encerrar um filme, qualquer que seja o assunto.

Na ocasião de Ex-Libris, já houve quem dissesse que Wiseman tinha perdido o controle da duração de seus filmes, que ele já não teria mais condições de escolher a duração adequada ao que pretendia mostrar. Isso já tinha sido dito a respeito daquele que é talvez o seu trabalho mais bem acabado até hoje, National Gallery, com suas precisas três horas esmiuçando o grande museu londrino. É mais do que natural que essa questão ressurja agora com as quatro horas e meia de City Hall. Ela tende a ressurgir sempre que algum filme desafia a duração média esperada, algo entre 90 e 130 minutos. O que me parece estar em jogo, mais do que não saber o que cortar ou como cortar, é uma nova sensibilidade do público, habituado às horas de uma série que maratona nas plataformas de streaming. Wiseman parece apostar nesse tipo de imersão tornada mais comum nos últimos anos. Isso explica por que tanto tempo em reuniões como a dos veteranos de guerra ou em discussões internas. Ele parece apostar que o público, sobretudo o norte-americano, terá interesse no funcionamento de uma prefeitura, que o afeta diariamente nas coisas essenciais e, por tabela, afeta qualquer habitante de uma cidade grande o suficiente para ter essas atribuições todas em seu poder executivo. E com essa aposta, é possível dizer que qualquer duração seria justificável, o que não se aplicaria a um filme narrativo, documental ou ficcional.

Se há uma liberdade nessa escolha, há também uma limitação, porque tudo é tão esmiuçado que o filme ganha umas barrigas, que me parecem variáveis de espectador para espectador. Uns podem vibrar com as reuniões inclusivas, outros podem achá-las cansativas, um tanto idealizadas para a câmera, talvez, e principalmente distantes de nossa realidade brasileira onde parece imperar a lei do homem mais rico e branco. Uns podem curtir os momentos em que a neve enfeita a cidade, as frutas e legumes enfeitam as prateleiras de supermercados ou ainda  a transitoriedade das sequências, da praça à polícia, da sede da prefeitura a um evento público. Outros podem encontrar em boa parte das conversas, e principalmente no comportamento da câmera durante elas, um convencionalismo que já ameaçava alguns filmes mais recentes de Wiseman, e que era habilmente contornado em National Gallery.

Frederick Wiseman é sábio e termina City Hall com uma meia hora muito forte, tanto pelas cerimônias quanto pela conversa sobre racismo. Isso nos deixa com uma impressão de que o filme, por se fechar muito bem, seja mais redondo, o que sua constituição de filme de acúmulo não torna possível. Com sua duração imponente e seus temas inclusivos, parece impor um julgamento superlativo ao espectador progressista. Como uma espécie de sonho de um mundo ideal que se torna possível na rica cidade da costa leste dos EUA.

O Despertar de Fanny Lye, de Thomas Clay

O filme de Thomas Clay começa com o tempo calmo dos filmes oitentistas e noventistas de Clint Eastwood, vira o Pasolini de dois terços da Trilogia da Vida (não se passa na Idade Média, mas vá lá), e logo se transforma no Kubrick de Laranja Mecânica (o poder do falo). O que vem depois? Nada que modifique o juízo de que é um filme o tempo todo numa corda bamba sem rede de proteção. Esse é seu maior valor. Basta? Vejamos.

A ideia do despertar de uma mulher é só uma parte de um despertar maior, de um ideal iluminista já atualizado para o século 20 (numa dessas liberdades históricas bem ao gosto do cinema contemporâneo) em meados do século 17, numa Inglaterra puritana e temente a Deus. A alegoria pode funcionar também de outro lado: um casal temente a Deus, que transa apenas para a procriação e come do que planta e caça, tem sua vida virada do avesso com a chegada de um anjo caído e sua companheira. O filme de Pasolini muda, então, e agora é Teorema. O tempo também muda. Não mais o de Clint Eastwood ultrajado por uma câmera que se movimenta como num filme de David Fincher, mas um tempo estranho, que lembra algo como O Reflexo do Mal (Philipe Ridley, 1990), por sinal, também um filme inglês.

Engraçado que nos primeiros 40, talvez 50 minutos, apesar de o tempo e algo na decupagem ter me remetido a Clint Eastwood (cujos filmes revi recentemente para um curso), achei que não precisaria invocar outros filmes ou cineastas para falar de O Despertar de Fanny Lye. Seu estilo era vibrante o suficiente para evitar as comparações.

A sedução de Fanny por Thomas é só um desvio para impressionar os atuais impressionáveis. O filme logo recupera seu curso. Mas que curso? Aquele em que não sabemos o que acontecerá em seguida. E a cada virada o filme nos surpreende e joga com nossas expectativas, com quem é mais malvado na história e quem tem sua redenção (o que de certo modo também o liga a Eastwood, como a Robert Aldrich). A sedução de Fanny já não era como pensávamos, ela vai mudando enquanto se desenrola. A vingança também não será como pensamos que seria conforme intuimos o momento de sua realização. O lado Rastros de Ódio, com o sinal da morte e a percepção subsequente de que eles não deviam ter deixado a casa, previsivelmente, poupa as mulheres. O que vem depois? O despertar. A lenda.

Clay anda bem próximo a uma narrativa e decupagem clássicas para subvertê-las com mais choque. Anda no paralelo para poder cortar a linha em momentos estratégicos, e com isso torna-se bem contemporâneo. Ajuda que seu talento seja mais sensível que o de outros enfant terribles do cinema narrativo atual, e que as atuações sejam todas impressionantes, mesmo para os altos padrões britânicos. Ainda bem, pois seu pendor para o exagero está sempre a ponto de lhe tirar o chão.

Isso Não é um Enterro, É uma Ressurreição, de Lemohang Jeremiah Mosese  

Entendo o fascínio com este filme do Lesoto, a admiração por suas belas imagens e, principalmente o encantamento com a protagonista, um desses achados que carregam um filme nas costas. Mas em momento algum me senti genuinamente interessado no desenvolvimento desse drama ecológico de contornos sociais. Na maior parte do tempo me pareceu um apanhado de imagens belas sem uma espinha dorsal que as sustentam. Cada plano, cada cena, tem sua força isoladamente, e isso é difícil de negar. Há exceções: uma luz meio publicitária aqui, uma frouxidão ali. Em alguns momentos, o filme me lembrou Veredas (1978), a obra-prima de João César Monteiro, e também Uma Canção para Beko (Nizamettin Ariç, 1992) o primeiro longa-metragem curdo, visto em uma Mostra SP do início dos anos 1990 (ou estou sendo enganado pela memória, como também posso estar sendo levado pelo exotismo?).

Na cobertura do Olhar destaquei essa característica dos filmes atuais de lembrarem outros, no que parece uma condição, por vezes uma prisão. Esses parentescos não constituem um mal em si, ainda mais numa filmografia que pode nos prender pelo exotismo e pela humanismo. Aqui, o problema me pareceu mesmo a falta de unidade, que leva a essa falta de conexão entre o ver e o reter. Vi o filme com olhos gentis, no sentido de que o filme me levou a isso. Não é mau, é bem filmado, razoavelmente bem estruturado. Mas não consegui reter muito de suas imagens. Elas não ficaram comigo por muito tempo. Tampouco tenho vontade de rever.

Não Há Mal Algum, de Mohammad Rasoulof

Imaginemos o espectador ideal diante do filme. Ele não sabe nada do que se trata e começa a ver Não Há Mal Algum. Vê o cotidiano de uma família iraniana em Teerã. Pai, mãe e filha, entre o trabalho e a escola, entre a ajuda à avó debilitada e as compras do supermercado. O marido tinge os cabelos da esposa, ajuda a filha nas tarefas domésticas. A esposa recebe o salário do marido e se desentende com o caixa que nunca a reconhece. As ruas da cidade, o trânsito, os semáforos, os estacionamentos. Muitos documentários não conseguem atingir esse tipo de real, embora esteja em suas metas justamente a busca pelo real.

E, no entanto, há um drama forte em Não Há Mal Algum. O drama de matar pessoas. Após mais de meia hora vendo o cotidiano de um pai de família, vemos ele apertando o botão que executa, ao mesmo tempo, cinco ou seis condenados. Eles são enforcados, excrementos saem de seus corpos. Tudo seco, cruel. A banalidade da execução, entre um gole e outro, após um inocente lavar de frutas e legumes, surge como um golpe. Talvez esse anestesiamento do executor seja a única maneira de ficar incólume à crueldade de tirar a vida de outras pessoas. O episódio acaba e dá lugar a um outro, mais próximo do cinema de ação, em que um novato deve fazer sua primeira execução num tipo de presídio militar, mas planeja uma fuga com sua namorada. O momento “Bella Ciao” é um tanto tolo, mas o episódio tem alguma força. No terceiro episódio, outra bobeira. Após uma terrível descoberta, o protagonista (desse episódio em particular) sai correndo pela mata e mergulha seu rosto num riacho, com a câmera do lado de dentro do riacho a flagrar seu desespero. Novamente, é uma escolha tola da direção que não abala a qualidade de encenação e dramaturgia e a força do episódio, em consonância com quase todo o filme, no que diz respeito à dor de se matar alguém. Ele termina com uma despedida, e o quarto e último episódio começa com um reencontro no aeroporto. A tensão e os motivos para ela nos são fornecidos aos poucos e o episódio se torna um fechamento lógico para um filme episódico que consegue contornar muito bem o risco da irregularidade (quando um episódio fica muito mais fraco que os outros).

O mais forte de Não Há Mal Algum é sua decupagem, a divisão do filme em planos e cenas que começa a dar corpo ao material que será filmado, mesmo que por vezes a montagem corte celebrações ou encontros de modo um tanto desajeitado. A decupagem de Rasoulof privilegia a dramaturgia em detrimento do estilo, mas tem aquela arte que alguns grandes diretores do clássico segredaram, de saber a hora certa do corte e o plano certo para suceder um outro. Assim, quando o homem do quarto episódio tem uma crise de tosse, ele chama sua esposa, e o corte nos leva à jovem para a qual ele se exibia, e ela está com um olhar que pode significar reprovação (“eu estava entrando na onda desse velho?”) ou pena, ou mesmo preocupação pela saúde dele. Dito assim, não parece grande coisa. Mas é no tempo, nas escolhas de mise en scène e na montagem acertada, porque já bem determinada pela decupagem, que o filme encontra seu melhor caminho. Essa arte quase sempre parece perdida, mas de vez em quando aparece alguém, seja mais ligado ao clássico, seja voltado para o moderno, para resgatá-la: Marco Bellocchio, Celine Sciamma, Rita Azevedo Gomes. Há um forte lado melodramático, que surge no segundo episódio e vai aumentando até culminar no quarto, que tem uma revelação típica das novelas de Janete Clair e uma certa ligação com o segundo – com a reaparição de “Bella Ciao” em uma versão desfigurada, ou uma melodia semelhante à de “Bella Ciao” (nesse caso, seria proposital?). Isto pode afastar quem tem preconceito contra esse tipo de registro. Pena, pois perderão um belo filme decente (que seria ainda mais belo sem as tolices mencionadas).   

Nariz Sangrando Bolsos Vazios, de Bill Ross IV e Turner Ross

Pode parecer uma ode ao saudosismo, já nos créditos que imitam os de filmes americanos dos anos 1970. Nariz Sangrando Bolsos Vazios é um lamento pelo que passou, por uma era que não volta mais, pelo fim de um espaço, um bar, que vai fechar. Há duas maneiras de se lamentar isso: guardando na memória com carinho e tristeza ou atacando os agentes de mudanças. No primeiro caso estão sonhadores, decadentes e melancólicos, no segundo, ressentidos e psicopatas. O primeiro senhor que entra no bar, cabelos longos e brancos presos com um rabo de cavalo, se orgulha de ter arruinado sua vida sóbrio e só depois ter se tornado alcoólatra. Esse é o clima do filme, dado logo nos dez primeiros minutos. Um encontro de simpáticos “has beens”, homens e mulheres que devem ter vivido um belo sonho e estragado muitas coisas pelo caminho. Mas estão ali, bebendo pela sobrevivência e celebrando a amizade e os encontros. Como o filme flagra o dia inteiro no bar, até o amanhecer do dia seguinte, os frequentadores vão ficando cada vez mais bêbados. E aí alguns ficam amargos, outros soturnos, outros melancólicos e alguns até mais alegres. Onde se encontrarão a partir de agora? Podem todos eleger um outro bar, mas nunca será a mesma coisa. Nem todos frequentarão esse novo bar. Aquele espaço, com aquelas pessoas específicas, jamais se repetirá. Os irmãos diretores tiveram a sensibilidade de permitir que todos os sentimentos possíveis aflorassem no filme. É um mosaico das reações humanas à finitude.

Ordem Moral, de Mário Barroso

É comum vermos excelentes diretores de fotografia naufragarem na realização de filmes. Se não naufragam, ficam bem aquém das possibilidades do material com que trabalham. Alguns realizadores, como Fassbinder ou Carlos Reichenbach, fazem muito bem o jogo duplo, talvez por terem formações mais de cineastas (e pensadores) do que de diretores de fotografia, embora realizem muito bem esta segunda função.

Mário Barroso tem história. Tornou-se o diretor de fotografia de alguns filmes de Manoel de Oliveira a partir de O Meu Caso (1986), e de João César Monteiro a partir de A Comédia de Deus (1995). Nesse ofício, é um dos maiores de Portugal, à altura de Acácio de Almeida ou Elso Roque. Na realização, arriscou-se em filmes densos, embora mais próximos do convencional, como Amor de Perdição, ele que já havia interpretado o escritor Camilo Castelo Branco em Francisca (Manoel de Oliveira, 1981). Mas o filme mostrou-se uma adaptação modesta de uma obra que já tinha sua versão definitiva para o cinema, a de Manoel de Olvieira, em 1979.

É com Ordem Moral, seu quarto longa, que ele tenta um novo salto rumo à realização de um cinema de prestígio. Mas ao tentar fugir da chamada “escola portuguesa”, da mise en scène mais rigorosa, frequentemente estática e mergulhada no claro-escuro e em enquadramentos pictóricos, quase litúrgicos, a tal escola que ele mesmo ajudou a desenvolver como diretor de fotografia, Barroso por vezes resvala no novelesco, na decupagem quase televisiva que se aproxima demais do academicismo.

Maria de Medeiros é uma força. Ela faz muito bem sua personagem, a herdeira do Diário de Notícias, Maria Adelaide Coelho da Cunha, que se apaixona pelo motorista de sua família e ao mesmo tempo se vinga dos adultérios de seu marido crápula, Alfredo da Cunha (que se acha dono do jornal e quer vendê-lo). Os atores não estão bem, principalmente o motorista amante. Não acreditamos que uma mulher forte dessas irá se apaixonar por ele. Num cinema que preza tanto a narrativa e a dramaturgia, essa é uma falha incontornável. Acompanhamos então o sofrimento de uma mulher por causa da ganância masculina sem ter uma forte obra cinematográfica em troca.

Sportin’ Life, de Abel Ferrara

“Um documentário sobre o ato de fazer um documentário”. É a explicação insuficiente, meio brincalhona, do próprio Ferrara, em cena deste ensaio fílmico sobre a parceria Ferrara-Dafoe, sobre a ida a festivais para promover o filme (no caso, Siberia, na última edição do Festival de Berlin, último evento cinematográfico pré-pandemia), sobre a criação e o ato de flagrar coisas ao acaso, sobre os encontros e cerimônias e sobre o cinema como uma arte coletiva, dentro da qual a contribuição dos atores e atrizes, dos diretores de fotografia e de outros envolvidos é tão grande quando a de Ferrara. Sim, é sobre tudo isso e algo mais. Em pouco mais de uma hora passamos por diversos mundos e sentimentos.

Ferrara é esperto e faz deste filme algo muito mais imprevisível e livre do que um making of para extras de blu-rays. De fato, como extra de blu-ray ele jamais serviria. Porque é um filme a parte, o melhor que o cineasta realizou desde Go Go Tales. As palavras de Dafoe dão uma boa dica da forma com que a parceria entre eles funciona, num nível de colaboração e cumplicidade que transcende a relação habitual entre diretor e ator. Ferrara também dá sua estocada em Donald Trump, colocando dentro de um calendário com o mês de fevereiro todas as asneiras ditas a respeito do coronavírus. A câmera pulsa como Ferrara, viva, por vezes trôpega, seja filmando uma conversa do diretor com a plateia, seja filmando um ensaio da banda que o acompanha, ou num Q&A com jornalistas. Essa pulsação vem bem a calhar para tornar o filme vivo, um documento da paixão de um cineasta.

Cenas de Siberia, Tommaso, Pasolini, 444, The Addiction, Go Go Tales. Por que essas escolhas, esses filmes? Por que Dafoe lê uma crítica negativa do jornal The Guardian para Siberia? A construção busca dar algum sentido ao caos do mundo e da criação e é uma força no filme. Tem também as queimações do filme dos outros: Mark Peranson anunciando o próprio texto sobre o Pinnocchio de Roberto Benigni no Village Voice, outras pessoas afetadas da área de cinema (o que talvez seja involuntário). Tem ainda as cenas do show de rock em que Ferrara canta e toca guitarra (mais do que queimação de filme, uma ideia do boa gente que topa tudo), reportagens com políticos e autoridades sanitárias lidando com a Covid 19, momentos de Nova York, Lisboa, Londres e sobretudo muitas cenas de festivais, dos microfones se amontoando, das câmeras que flagram todas as mesmas coisas, tudo isso de uma maneira meio improvisada, solta, em harmonia com o clima festivo e muitas vezes superficial dos eventos de cinema pelo mundo.

Pode parecer um filme meio picareta, no sentido de ser fácil, até meio óbvio de vez em quando, principalmente quando o assunto é a pandemia (e ainda assim me tocou mais que Coronation), embora em outras vezes pareça atirar para tudo quanto é lado (uma forma corajosa de se arriscar a jamais ter um foco, mas por sorte não deu errado).  De todo modo, seria uma picaretagem mais talentosa que a dos últimos documentários de Ferrara. E com um momento mágico: quando Ferrara fala dos velhos truques, das chaves antigas que abrem novas portas e é gentilmente interrompido por uma interjeição de aprovação de Willem Dafoe, para então todos caírem na risada cúmplice. Tão lindo que dá vontade de rever Siberia. Mas melhor rever Sportin’ Life.

Tentehar – Arquitetura do Sensível, de Paloma Rocha e Luis Abramo

Um verdadeiro filme de horror que mostra o massacre indígena e a doença do bolsonarismo em estado de consolidação nos últimos meses de 2018. Muito acertada a fala da indígena: quem agora acusa o fascismo finalmente conheceu o Brasil, que para os índios sempre foi um país fascista. Um país construído pelo ódio ao diferente e pelo descaso contra quem pode menos. A conexão do ontem com o hoje é melhor feita em Antena da Raça, dos mesmos diretores. Aqui, a costura razoavelmente boa, mas ficamos nos perguntando até que ponto é antropologia ou exercício em masoquismo.

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observações:

– Nesta segunda parte, devo dizer que o Mostra Play continuou travando mais do que o desejável, mesmo diminuindo a qualidade de exibição para 720p (às vezes até menos). Acho essa uma parte importante que, convenhamos, não deu certo nesta mostra. Nada foi tão terrível como a exibição de Havel. Travava constantemente, sem dar sinal de que algum dia iria retornar. Até que eu reiniciasse a página, passasse pela vinheta novamente, o que na décima vez já se tornou insuportável, chegasse ao ponto onde parou e tivesse que reiniciar depois de uns vinte minutos por causa de nova travada. Tenho acompanhado festivais online desde o início da pandemia e sempre vi muitos filmes em streaming. Nunca passei por experiência tão desagradável quanto na tentativa de ver esse filme. No mais, reclamações de filmes travando não foram minoritárias, ainda que muitas pessoas, sabe-se lá por que (não é velocidade de internet, disso estou certo), viram sem problemas.

– Outro problema é a tal biblioteca para a imprensa. Já é ruim ter de escolher todos os 30 filmes reservados para jornalistas antes do início do evento. Se mudarmos de ideia ou atentarmos para algum outro que tenha escapado da peneira, temos de comprar. Mas tem um problema maior. Me programei para dar play em alguns filmes na segunda, dia 2, de manhã, pois a data de expiração deles estava nesse dia para 12h15. Mas deu 0h e eles expiraram, inexplicavelmente. Esse tipo de confusão deve ser evitado, pois destrói planejamentos e nos obriga a comprar o filme que estava programado para sair horas depois. Não comprei nenhum deles, porque pagar 6 reais para ver filme que trava não é um bom negócio. Mas ao menos um desses filmes, o turco 9,75, eu tinha bastante curiosidade de ver. Se esse problema for apenas com os jornalistas, menos mal. Mas não deixa de ser um problema facilmente solucionável, penso.

44ª Mostra Internacional de São Paulo – Dias

Um post intermediário para…

Dias, de Tsai Ming Liang

O radicalismo apontado por alguns se confirma. Dias é mesmo o filme mais radical de Tsai Ming Liang. Não há falas. Mas há, sem dúvida, uma nova espécie de súmula do personagem vivido por Lee Kang Sheng, mesmo que aqui divida novamente o protagonismo com outro ator, Anong Houngheuangsy. Quando Lee está no meio do mato e coloca a mão na cabeça para esticar seu pescoço, lembramos automaticamente de O Rio (1997). Ele de fato está com dores terríveis, como se tivesse pulado novamente em águas poluídas ou tivesse uma recaída nas dores daquele filme. Quando vemos Anong tirando água das goteiras dos baldes no chão de sua casa em Bangkok, viajamos até O Buraco (1999); e de fato o apartamento e a água também remetem àquele filme. Quando o rosto de Lee aparece em meio ao reflexo da chuva no exterior de sua casa em Taipei, pensamos em Cães Errantes. Há outras retomadas.

Essa súmula não se dá sem a sensação de que todo humor parece ausente no filme. O humor que aparecia com o acúmulo da lentidão em Jornada para o Oeste, o famoso filme do monge que funciona como um interlúdio na carreira de Tsai, ou o que aparecia mais desajeitado no interlúdio francês Visage (2009) partiu de férias e o que sobra é uma ampliação do clima de desesperança de Cães Errantes (2013). Um sentimento de solidão que nem um encontro profissional que se torna amoroso pode aplacar.

O que é de certa forma uma novidade em Tsai é a câmera documental que persegue Lee Kang Sheng pelas ruas da cidade, com o movimento urbano e as pessoas invadindo o espaço cênico. Essa invasão do documental era bem tímida em Cães Errantes, mas se estabelece com peso em Dias. O efeito colateral é que esse desejo maior pelo documental, suspeito que pela câmera digital de menor porte e por isso mais solta, traz também um certo desleixo nos enquadramentos que antes eram reservados a momentos específicos dos filmes e agora estão mais ou menos espalhados por toda a duração (mesmo na celebrada cena da massagem). Isso pode significar um respiro no rigor estético do diretor, mas também um enfraquecimento de seus pressupostos.

Voltando ao radicalismo que de fato se observa no filme, não há nenhum plano que chegue aos 13 minutos de Lee Kang Sheng olhando para uma parede/tela de cinema em Cães Errantes. O mais próximo disso são os dois planos de massagem, de oito e dez minutos, respectivamente, um plano pós massagem de cerca de dez minutos também, que envolve uma caixinha de música com o tema de Luzes da Ribalta, do Chaplin (só Tsai para fazer, a essa altura da história do cinema, planos longos com caixinha de música e não soar patético) e termina com a luz do quarto se apagando após a saída de Lee, e mais uns dois ou três planos de duração um pouco menor. Mesmo com o aumento do radicalismo, notamos que a câmera não fica totalmente estática enquanto acontece a massagem, ela se move discretamente, reenquadrando os atores com lentidão. Porém, o radicalismo é responsável por instantes como o plano de uma fachada do que parece ser uma fábrica antiga, em que percebemos algum movimento do lado de dentro, perceptível pela diferença de iluminação e pelas janelas envelhecidas e manchadas pelo tempo. Tsai sempre teve momentos de instalação em seus filmes. O advento da câmera digital de pequeno porte parece ter aberto definitivamente essa porta e ele não teve pudores de atravessá-la. O plano não é longo para os padrões dele, tem cerca de três minutos, mas é indicativo de uma tendência que se observa em outros pontos do filme. Ou seja, por um lado, Tsai suaviza seu registro e o contamina com o documental. Por outro, a contaminação se dá pelo outro lado e vai até o extremo do contemplativo, sem que o espectador tenha a escolha de abandonar ou não o plano, como quem abandona uma instalação. Ele impõe o tempo e abandonar o plano é de algum modo abandonar também o filme, ou não respeitar suas diretrizes.

Outro ponto é a mudança física no corpo de Lee Kang Sheng, que engordou e envelheceu de Cães Errantes para cá, ou seja, num espaço de sete anos. Essa mudança reflete no humor. Já não é mais um personagem que tenta empregos e subempregos. É alguém que tem dinheiro para um tratamento para a dor que irradia do pescoço para todo o corpo, tem condições de um quarto de hotel em Bangkok e de pagar por um massagista que faz relaxamento final e tal, mas permanece um desiludido, um homem amargurado, e até certo ponto fracassado, dentro da lógica capitalista de sucesso a qualquer custo (e ele tentou de tudo, de ator pornô a cartaz ambulante nos outros filmes de Tsai). No hotel, Lee finalmente encontra Anong, o outro ator, que é o tal massagista de que falei anteriormente. É o momento em que as duas partes se juntam, como em Vive L’Amour (1994) e Que Horas São Aí? (2001), e retorna o homoerotismo de O Rio e Eu Não Quero Dormir Sozinho (2006). Elas se juntam, mas ao final a solidão continua, Lee em Taipei, Anong em Bankok, este vislumbrando um futuro muito semelhante ao de Lee, simbolizado pela caixinha de música herdada.

Se o último plano do filme termina após cerca de sete minutos com Anong se afastando da câmera até desaparecer numa rua de Bangkok, o penúltimo é mais forte e termina com Lee acordando e contemplando o nada, amargando a dor silenciosa de sua existência. O fato de terminar com Anong e não com Lee configuraria uma passagem de cetro? Haverá continuação para o drama de um ou ambos desses solitários?