Autor Arquivo: Sérgio Alpendre

Sexta-feira, 15 de novembro de 2019

fordferrari

15h: Entro na demorada fila para ver Ford vs. Ferrari no Cinemark Mooca, um dos únicos cinemas que gosto dessa rede porque os filmes geralmente passam legendados e a projeção é melhor que a de outros cinemarks (talvez por ser um shopping mais novo). Na hora de escolher o lugar, essa prática maldita de nossos cinemas, noto que a sala está bem cheia, e escolho um lugar estrategicamente distante, na segunda fileira, onde ninguém mais senta. Para minha surpresa, o lugar não é ruim, pelo contrário. De lá vi o filme muito bem.

15h40 até 18h30, aproximadamente: Vejo o filme inteiro, que vai fácil apesar de suas duas horas e meia de duração, também porque a plateia estava silenciosa (o que é surpreendente para um shopping em feriado) e ri nos momentos que é para rir (não aquela riso de bobo alegre que nos acostumamos a ver nos cinemas paulistanos). Mais sobre o filme em breve no Olhar Digital. Mas adianto que Mangold dirige sobriamente, Matt Damon está ótimo e Christian Bale exagera na pose de matuto. Saio do cinema e o Shopping está tão cheio que penso logo em fugir dali. Ainda deu tempo de ver que na Saraiva estavam vendendo o Blu-ray de Coração Selvagem, do Lynch, por R$ 4,90.

Por volta das 23h30: Em casa, revejo o terço final de Um Olhar do Paraíso, de Peter Jackson, exibido pelo suspeito canal Paramount. Em dado momento, minhas suspeitas se confirmam: um comercial nada a ver entra num momento importante do filme. Mais tarde, antes mesmo de começarem os créditos finais, novo intervalo comercial intrusivo. Volta depois de uns 5 minutos com os créditos tão acelerados que é impossível ler um nome sequer. Termino pensando que se isso não é considerado um crime autoral pior que a pirataria, deveria ser.

Finalizando Gostoso

ambiente

Para encerrar a cobertura Gostoso 2019, resta falar de um longa visto, o paraibano Ambiente Familiar, de Torquato Joel.

Torquato fazia cinema na Paraíba antes que o estado fosse reconhecido como novo polo cinematográfico. É um veterano, da geração dos anos 1980, junto com Marcus Vilar. Torquato Joel procura, desde os seus primeiros filmes, imagens e narrativas poéticas. Ambiente Familiar não é diferente. Três amigos procuram superar coisas mal resolvidas de seus passados, vivendo juntos, como uma família. Os flashbacks são pretextos para brincar com o enquadramento (1.33:1) e criar imagens impactantes, embora nem sempre inteligíveis. Normalmente a falta de inteligibilidade não interfere no nosso julgamento, principalmente quando for resultado de algum recurso artístico ou cinematográfico. Mas por vezes notamos que é apenas um atalho para não precisar estruturar melhor a narrativa. Em Ambiente Familiar, às vezes tive essa impressão. Mas no geral é bem digno, até por sua pesquisa visual. Não é um filme fácil, e dos quatro longas da Mostra Panorama, é o único que não ficaria bem na Mostra Competitiva (imagino a plateia na praia se dispersando e dispersando os espectadores interessados, não ia funcionar).

Finalmente, a Mostra de Cinema de Gostoso, em sua sexta edição, confirma sua vocação de importante festival de cinema brasileiro. Mas como escrevi no balanço publicado na Folha de S.Paulo, é necessário tomar cuidado com o crescimento, que é bacana e bem-vindo, mas traz consigo alguns perigos. No ano passado foram 450 cadeiras na praia. Neste ano foram 650, e as sessões continuaram lotando. Isso é bom, claro. Devem ser criadas condições de receber essas pessoas, porque seria bom que elas aparecessem, principalmente do estado potiguar – mas por que não de todo o Brasil? Mas a Mostra não pode perder sua cara, seu foco. Se ganhar mais um dia, um outro filme na competição não faria mal. Se Gostoso começar a exportar cineastas (o que já se revelou uma possibilidade concreta), deve-se cuidar para que o coletivo não perca seu foco e sua força, que está na humildade e na vontade de aprender. O coletivo Nós do Audiovisual é uma pepita que precisa ser cuidada com carinho. Pelo que vi neste ano, a Mostra está no caminho certo.


P.S.

Há ainda os filmes da Mostra Panorama que eu havia visto em outras ocasiões. Então seguem links para os textos que fiz sobre: Diz que me Viu Chorar, de Maíra Bühler (https://sergioalpendre.com/2019/06/08/olhar-de-cinema-dias-1-e-2/), A Mulher da Luz Própria, de Sinai Sganzerla (https://sergioalpendre.com/2019/06/11/olhar-dia-5-matsumoto-sganzerla-ignez/) e Chão, de Camila Freitas (https://sergioalpendre.com/2019/06/12/olhar-dia-6-enquanto-estamos-aqui-o-sol-queima-o-chao/).

Ainda Gostoso

fendas

Fendas (foto), de Carlos Segundo, é um filme da consciência do mal-estar, da reordenação de uma vida, da tentativa de se encontrar em um território estranho e desafiador para renascer após um relacionamento fracassado. Um filme da procura.

Como tantos outros filmes assim, é necessário que nos identifiquemos com quem procura. No caso, precisamos ter empatia pela protagonista Catarina, uma pesquisadora de física quântica que está em Natal, onde também dá aulas para um único aluno. Poderia ser uma personagem em crise, e é, mas a crise já está dada e o que vemos é o movimento de saída da crise.

Sua pesquisa, para qualquer leigo no assunto que se interessa por arte, é buscar algum sentido na abstração. Ela amplia videos filmados (por vezes até do filme que estamos vendo, numa interessante brincadeira com as instâncias) até que as imagens se tornem borrões e os sons se tornem pouco ou nada identificáveis. A procura por um sentido na abstração da imagem e do som, mas também a procura por um sentido na abstração que é a mente humana, com seus desejos inconfessáveis e traumas por vezes difíceis de se explicar.

E o sucesso do filme passa pela excelência da interpretação de Roberta Rangel (atriz que nos lembra da saudosa Anecy Rocha, até pelo corte de cabelo). Sua personagem é composta de uma forma interessante, ainda que com alguns exageros – o grito com o email revela um desespero meio forçado, que não condiz com os momentos em que ela se encontra sozinha, contemplando belas vistas. A fala final poderia soar panfletária caso a atriz não tivesse sido feliz na composição dessa personagem. Ou seja, tudo que vemos antes, suas conversas e seus gestos, nos leva a essa frase, e com ela a um rompimento definitivo. A atriz faz com que a frase tola fique bem na fita, porque todos nós dizemos frases tolas, chavões de autoafirmação. E o dela, naquele momento, é plenamente justificável.

Os outros longas da competição são Casa, de Letícia Simões, e Pacarrete, de Allan Deberton. Bahia e Ceará na fita. Sobre o primeiro, escrevi brevemente durante o Olhar de Cinema de Curitiba, isto aqui:

“No filme brasileiro [Casa], filha, mãe e avó se encontram em Salvador e lidam com suas diferenças, principalmente entre a mãe e a avó, sendo que a filha é Letícia, a diretora do filme. Mas o encontro começa em 2015 e termina em 2017, com a avó já falecida. Há uma insistência em enquadramentos que cortam personagens. Num dos planos mais interessantes, vemos mãe e avó e só a ponta do nariz de Letícia (e mais alguma coisa de seu corpo), indicando que a diretora quer mesmo é jogar os holofotes naquelas que entende ser suas melhores personagens. De fato, são duas das personagens mais cativantes do cinema brasileiro recente. E se digo personagens é porque a verdade que elas mostram ali é claramente encenada para a câmera, pelo menos da parte da mãe, mais consciente de seu carisma (um carisma um tanto vilanesco, como a filha pretende forçosamente fazer-nos crer). Casa não é tão forte quanto o outro brasileiro da competição [Diz a Ela Que Me Viu Chorar], mas é bem digno. Se o filme mostra que o cinema baiano continua pulsante, mostra também que a crise de imaginário do cinema brasileiro recente continua, o que faz com que jovens cineastas muitas vezes procurem o real a qualquer custo, inventando a partir dele (isto está também no outro brasileiro do dia). Pelo menos agora já se trabalha melhor dentro desse registro.”

No debate aqui em Gostoso, (não vi debate algum, um pouco pelo calor do local onde eles são feitos, outro pouco por falta de tempo, e um outro pouco porque não tinha como ver todos, e ou via todos ou não via nenhum) disseram-me que a diretora pretendia que fosse ela a vilã do filme. Um tanto difícil num filme em primeira pessoa, mas pelos relatos que ouvi isso fez com que muitos desculpassem a falta de paciência demonstrada por ela (e das pessoas com ela) no convívio com as demais personagens. Pessoalmente, não sei se é necessário encontrar um vilão no filme. Quando falei em “carisma um tanto vilanesco” estava pensando mais na instância das pessoas tornadas personagens, não nas pessoas da vida real. A câmera muda o estatuto delas, e nada de errado, penso, em fazer com que a mãe seja levemente distorcida com esse filtro. Como também não me incomodo com a primeira pessoa, que é o agente promotor dessa distorção.

Sobre o outro longa, aquele que abriu a competição, e o quarto dessa mostra, escrevo agora.

Pacarrete é um presente para Marcélia Cartaxo. Uma possibilidade de atuação tão marcante quanto a de A Hora da Estrela, com a qual a atriz se consagrou no cinema. O público reconheceu. A crítica também. Há certo exagero na saudação do filme como uma obra-prima, mas quanto a isso já estamos acostumados.

A arquitetura da casa onde vivem Pacarrete (Cartaxo) e sua irmã Chiquinha (Zezita Matos) permite alguns planos bem estranhos, como aquele em que Maria, a faz tudo da casa, vai atender à campainha (a mesma que toca depois, soada pelas crianças que fogem) enquanto as irmãs estão postadas uma em cada cômodo entre a cozinha e a sala de entrada. Pacarrete de pé, à beira da pia, um pouco sem jeito por ter destratado Maria e em seguida saído de casa. Chiquinha à espera de algum entendimento entre as duas e feliz pela volta da irmã. Um plano bem estranho, mas que ajuda a montar o clima meio onírico que perpassa o filme e se consagra na metade final, e principalmente na cena final.

Num outro momento, após um acontecimento muito triste, Pacarrete põe-se a lavar a calçada, procurando um gesto mecânico que a faça esquecer a tristeza. Um momento de poesia que vem naturalmente, de pura observação do cotidiano, valorizado por uma atriz no auge de sua arte.

Marcélia Cartaxo é também a responsável por evitar o desequilíbrio do conjunto. Sua personagem beira o histrionismo, e a possibilidade de overacting era gritante, assim como a possibilidade de desequilíbrio, da atuação se sobressair ao filme. Com sua interpretação nuançada, dentro da personalidade forte de Pacarrete, ela consegue fazer com que tenhamos raiva das decisões da personagem, mas não da personagem em si. Faz com que procuremos entendê-la insistentemente, porque não temos a vontade de abandoná-la. Isso também possibilita um final de intensa poesia, que num tom errado poderia descambar para o patético, o que felizmente não acontece. Trabalhar assim, próximo ao risco, dignifica um autor em potencial e o prepara para audácias maiores.

Ou seja, Pacarrete é filme de atriz-autora, quase “um filme de Marcélia Cartaxo”, mas em certo sentido é exatamente isso. E pode ter provocado, da parte do diretor em seu primeiro longa, pela contensão e sábio entendimento de que o brilho maior precisava ser dela, o surgimento de um cineasta a ser acompanhado.

Gostoso em curtas

quebramar

Uma palhinha necessária sobre os curtas vistos aqui em São Miguel do Gostoso. (O média Sete Anos em Maio foi comentado em outro texto).

O melhor me pareceu Quebramar (foto), de Cris Lyra, em que um grupo de jovens lésbicas se reúne numa praia tranquila para relaxar e resistir ao mundo cada vez mais machista que encontram, apesar de algumas conquistas. Por meio de recortes de seus corpos, dos cabelos e das metades de rostos que por vezes formam o enquadramento, o filme parece procurar, a seu modo, uma identidade, e também um lugar pacífico no mundo. É interessante que tenha passado antes de um outro interessante filme de procura, o longa Fendas. Por mais que a procura seja um motivo frequente no cinema, poucos filmes dão voz à procura de modo tão contundente, especialmente pelo aspecto formal, quanto Quebramar. Um filme que aposta em deixar pontas soltas e funciona bem dentro desse registro, o que não é fácil. Essas jovens têm suas identidades o tempo todo questionadas. Elas sabem muito bem quem são, como querem viver e como querem amar. Mas a sociedade as empurra para um questionamento incessante de suas possibilidades. Vê-las em comunhão é tão gostoso quanto a risada solta de uma delas.

Juliana Antunes virou uma celebridade no circuito do novíssimo por seu irregular longa Baronesa. Em Plano Controle, exercita um pouco do humor tosco de alguns programas de YouTube, mas não posso dizer que se saiu bem. As voltas ao passado, com o respeito ao formato e às qualidades da imagem de cada época, são interessantes, mas cansam rapidamente (o que assusta, num curta de apenas 15 minutos). O comentário político também me soou um tanto infantil.

Marie, de Leo Tabosa, tem 25 minutos, mas ao contrário de Plano Controle, não cansa tanto. O que não quer dizer que seja melhor. A história de dois amigos de infância que se reencontram para um enterro tem um único momento empolgante que é o pedido de desculpa de Estevão (Rômulo Braga) para Marie (Wallie Ruy), provavelmente porque Estevão não aceitou tão bem a decisão de seu amigo de se tornar mulher (embora isso só seja verbalizado na tangente). No restante, a toada segue sem grandes cenas, mas também sem nada que tivesse me desagradado. É um curta que precisa do banho-maria para tornar potente o pedido de desculpas. Essa é sua limitação.

O potiguar Em Reforma, de Diana Coelho, tem sua força num certo naturalismo alcançado, mas a atriz principal precisava de um outro tratamento, provavelmente não naturalista, ou até anti-naturalista (na linha Straub-Huillet), porque não é fácil impor esse naturalismo em todo o elenco. A filha, por exemplo, se dá muito bem dentro desse registro, o que acentua a diferença das atuações. Não se trata de dizer que uma é melhor atriz que outra, já que só as vi neste único curta. O que importa, no caso, é entender o que se pode fazer com o elenco escolhido e o que se deve contornar.

O outro curta potiguar é um documentário. A Parteira, de Catarina Doolan, nos apresenta Donana, mulher de personalidade forte e crítica. O documentário é a porta de entrada natural para cineastas jovens, pois o risco da direção de atores dentro de um registro naturalista é minimizado ao máximo. Temos apenas a atuação das pessoas diante da câmera, uma atuação que diz respeito a certa verdade, mais do que a uma construção narrativa. A narrativa, por sua vez, é conduzida pela verdade que vem das pessoas. Mas ainda há o risco da má encenação, da colocação da câmera em lugares errados, da falta de ritmo ou de um desequilíbrio no tom (além de milhares de outros problemas que porventura surjam nas filmagens). Nesse quesito, o curta também se sai razoavelmente bem, tornando-se, após Quebramar e o média Sete Anos em Maio, o terceiro melhor da competitiva de curtas.

Entre os curtas do coletivo Nós do Audiovisual, deu novamente para sentir um agradável progresso, e é bom notar que está cada vez mais curta a distância entre esses curtas e os da competitiva. Diria até que Ando me Perguntando, apesar de sua irregularidade e de um final que ousa por não deixar tudo tão didático, mas simplesmente não funciona porque não foi bem encenado, perderia apenas para Quebramar e Sete Anos em Maio, na competição. O melhor dele é o aspecto cômico, que fez as crianças que estavam ao meu lado gargalhar em uma cena específica. Carta Branca tem certo interesse instantâneo, mas suas imagens foram logo esquecidas por causa da chegada de Sete Anos em Maio, o filme de encenação mais forte de toda a Mostra (esses curtas do coletivo se beneficiam porque passam antes em uma sessão que tende a chegar às 3 horas de duração, fora as apresentações, mas há sempre esse risco do esquecimento). Por fim, Júlia Porrada é o mais forte dos curtas do Coletivo. Além de ter nível para não fazer feio na competitiva, o curta tem como personagem-título uma senhora que é um verdadeiro achado, uma benção para qualquer documentarista. O risco era fazer dela um objeto de escárnio, ou deixar que a personagem leve o filme nas costas sem se preocupar com a forma (erro bem frequente em diretores inexperientes). Tudo isso foi evitado em uma direção correta, que alterna rigor com soltura de câmera à medida que vai destrinchando a sabedoria de Júlia Porrada. Infelizmente não vi Labirinteiras. Lamento.

 

 

Começando Gostoso

seteanos

A cobertura da 6ª Mostra de Cinema de Gostoso será mais curta que a do ano passado. Como estava em Paraty, cheguei mais ou menos na metade do festival, tendo visto os dois primeiros filmes da competitiva em outras ocasiões, e conferindo os dois últimos com a plateia de Gostoso.

Plateia que, neste ano, parece mais ruidosa. Podemos dizer até que ela boicotou Vermelha, de Getúlio Ribeiro, terceiro longa da Mostra Competitiva. Enquanto o filme se desenrolava na tela com a bela projeção 2K, o tablado de madeira virou uma passarela. Não passava um minuto sem que um grupo de pessoas andasse do início ao fim olhando para os lados, nem sempre à procura de lugar porque as andanças continuaram depois que alguns barulhentos foram embora, mas para ver quem estava ali. As pessoas conversavam aos berros, como se estivessem numa mesa de bar. Os dois casais atrás de mim mereciam um prêmio pela grosseria e falta de respeito. Eram mais velhos. Mas os jovens também aprontaram. No meio do filme sentou um casal jovem quase do meu lado. O desmiolado ficava fazendo barulho com uma sacola de plástico e comendo coisas fedidas. Depois passou a ver coisas no celular e a comentar o que via com a namorada ou amiga. Interesse zero pelo que se passava na tela. Respeito zero por quem tinha interesse.

Penso que essa grosseria tem um motivo. Acostumadas com a fluidez narrativa de Bacurau, exibido na noite anterior com público recorde, um filme que aprendeu direitinho a arte de um cinema de gênero bem feito, essas pessoas foram para ver Bacurau 2, mas encontraram o quase hermético Vermelha, só sossegando, um pouco, nas cenas de briga. E penso isso porque esse tipo de coisas existia no ano passado, mas não o tempo todo, e não em tão altos decibéis. Bacurau deve ter aberto os portais do inferno do pior tipo de espectador que todas as cidades têm. O espectador que está interessado em mais coisas externas do que no filme. Outro sinal de que isso pode ter acontecido foi a intensa movimentação de espectadores chegando após o média Sete Anos em Maio. Foi algo inédito, para mim, em Gostoso. Pobre Vermelha sofreu com isso.

E o longa não é ruim. É desconjuntado, demora para encontrar um foco, dificilmente pode ser considerado um filme bem sucedido. Mas há coisas nele que podemos reter. A opção do diretor Getúlio Ribeiro por uma estrutura documental revela-se insuficiente, e por vezes até atrapalha o filme de encontrar seu foco. Quando esse foco é encontrado, ou mesmo enquanto está aparecendo, surgem até cenas documentais belas, como a entrevista com a moça que raramente usa cabelo solto (mas a vemos bastante de cabelo solto depois disso). O auge é quando um credor bate à porta do protagonista, o tal de Gaúcho, com quatro capangas. Um vizinho vê tudo e aparece para ajudar com uma enorme vara. Não chegam a se bater por muito pouco. Cria-se um impasse, resolvido com a promessa de quitar a dívida em três dias. O que acontece depois é tão bizarro que não posso contar. Mas é parte do que responde pelo que o filme tem de melhor, sobretudo um diálogo bizarríssimo entre o credor e o protagonista Gaúcho. Isso, claro, se a festa que se fez em torno do filme permitiu que eu entendesse direito o que se passava ali. Nessas horas, links são fundamentais.

Falta falar sobre os filmes que vi em outros festivais ou dispositivos, mas fica para um post futuro. Por enquanto quero falar um pouco sobre Sete Anos em Maio, que confirma o amadurecimento de Affonso Uchoa, demonstrado em Arábia (codirigido por João Dumans, montador de Sete Anos em Maio). É bom ver que o filme de Uchoa, com seus 42 minutos plenamente justificáveis – é o tempo que o filme precisava ter, de acordo com seu diretor – anda circulando pelos festivais, geralmente avessos a essa duração intermediária (por culpa dos festivais, obviamente).

Na linhagem que surge com Murnau e Ford, passa por Straub-Huillet e desemboca em Pedro Costa, Uchoa se insere em algum ponto, sem que se atribua a ele a necessidade de estar em pé de igualdade com esses gigantes, o que seria injusto, e principalmente sem que a realidade brasileira, tão presente em seu cinema desde A Vizinhança do Tigre, deixe de ser a condutora da narrativa, ou uma de suas principais condutoras. Não se trata de derivação, como costumamos ver quando não se atinge uma assinatura própria, mas de filiação, como a que existe em praticamente qualquer autor.

No caso, não se trata apenas de falar da corporação policial como instrumento de poder que pode ser corrompido com muita facilidade e virar fascismo, como tem acontecido bastante. A questão para Uchoa está nas relações de poder, na corrupção da alma que é a posse de um revólver ou qualquer outra arma de fogo, ou vestir uma farda, ou responder a uma hierarquia militar muito rígida. A busca pelo poder, por si só, gera monstros. E não importa se esse poder seja executivo, judiciário ou legislativo, se for de alcance nacional ou numa rua de um bairro. O poder do guardinha da esquina, do homem que se vale do “você sabe com quem está falando”, ou daqueles que se acham no direito de fazer ameaças, é a podridão maior de nossos tempos, a falência moral e humana de um país violento como o Brasil. Claro que essa busca pelo poder é um mal necessário, mesmo dentro de uma anarquia, penso eu, por contraditório que seja. Mas é necessário estarmos sempre críticos e ela, evitando tanto o fanatismo quanto a crucificação.

No mais, Sete Anos em Maio mostra que tem alguma debilidade mental muito grave quem costuma dizer que “bandido bom é bandido morto”. Porque é muito óbvio que não dá para saber quem é o bandido na maior parte das vezes. E melhor que essa dúvida se instale em um filme habilmente enquadrado, fotografado, decupado e montado. Mais importante ainda, que tudo esteja em comunhão, sem que um elemento chame a atenção. Falta falar de muita coisa, mas por enquanto destaco a divisão em três terços – o repulsivo, a confissão (maior e melhor parte), o teste-confronto – que fortalece a estrutura narrativa e mostra uma engrenagem fascista por meio de suas vítimas, mas mostra também a necessidade de lutar contra essa engrenagem (parece óbvio, mas estamos à beira de um apocalipse).

E vou indo, vai o texto sem revisar mesmo, porque aqui internet boa tem sido mais rara que saci-pererê.

Encerrando Paraty

bacurau2

Em 2019, uma destruição do panorama cultural brasileiro foi colocada em prática pelo governo Bolsonaro. O Sesc, instituição cultural importante no país, tornou-se um dos alvos preferidos de Paulo Guedes, o Ministro da Economia.

Nesse cenário, nada mais representativo de uma resistência do que a realização desta 3ª Mostra Sesc de Cinema, com curtas e longas de todo o Brasil, na paradisíaca Paraty, cidade histórica no estado do Rio de Janeiro.

A mostra começou no último dia 2, desafiando o calor da cidade histórica, e prosseguiu até 9 de novembro. A partir de 21 de novembro será a vez da cidade de São Paulo exibir os filmes escolhidos.

Formada por sessões das cinco regiões do país, a Panorama Brasil é a parte mais importante da Mostra, com filmes selecionados pelos sescs regionais em projeções no revitalizado Cinema da Praça, após 45 anos fechado.

Nela, filmes de estética televisiva convivem com pequenas aventuras no campo formal e até mesmo com um longa já respeitado de outros festivais, o baiano Ilha, de Glenda Nicácio e Ary Rosa.

Obviamente, a qualidade é bem variável. Por vezes, indesejavelmente variável. Mas é sempre interessante podemos ver produções do Acre, de Santa Catarina, do Paraná, do Pará ou de Mato Grosso do Sul, estados que ainda não se tornaram polos cinematográficos como Rio Grande do Sul, Ceará, Pernambuco, Bahia ou Paraíba. Dentro desse aspecto, a falta de apuro formal de alguns filmes é compreensível, já que trata-se de um processo lento de formação de público e também de formação de novos diretores e técnicos cinematográficos.

Marcando seu papel de resistência, a mostra faz homenagem a Adélia Sampaio, a primeira diretora negra a realizar um filme no Brasil. Amor Maldito (1984), aliás, é também o primeiro filme de amor lésbico realizado no país. Interessante retomá-lo em tempos de obscurantismo e Damares. Gosto do filme de Adélia, apesar de seus evidentes problemas de construção (o ritmo é um problema maior, por exemplo, na enorme sequência de tribunal). Creio ser um longa precioso de um certo momento em que filmar no Brasil já voltava a ser muito difícil (já que nunca foi fácil, mas entre 1974 e 1982 tivemos quase um oásis).

Mas a coqueluche de Paraty, com duas sessões esgotadíssimas para pessoas que aguentaram duas horas de fila, é a estreia na cidade do longa Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Paraty foi palco de um pequeno mas barulhento protesto de eleitores de Bolsonaro durante uma palestra com o jornalista Glenn Greenwald, durante a Flip, o Festival Literário de Paraty, neste ano. Nesse contexto um tanto avesso a demonstrações democráticas, Bacurau surge como uma provocação e tanto. Num mundo são, seria considerado apenas cinema, e dos bons. Um dos raros filmes brasileiros com noção de espetáculo e habilidade para a construção de uma narrativa que faça juz a esse espetáculo. Ou seja, finalmente aprendemos a copiar, numa evocação tortuosa de Paulo Emílio Salles Gomes.

No mais, a realização desta 3ª Mostra Sesc de Cinema, com seus altos e baixos, vem coroar a ideia de que a melhor forma de resistir à barbárie é por meio da cultura e da arte.

Balanço da 43ª Mostra SP

suleiman

Foi-se o tempo em que eu via entre 50 e 60 filmes a cada edição da Mostra SP. A média de quatro ou cinco filmes por dia ficou entre 1993 (quando comprei minha primeira credencial integral) e 2008, mais ou menos, quando reduziram a credencial de imprensa para o limite de 30 ingressos e eu percebi que não precisava ver mais do que isso.

De fato, essa percepção se deu quando o número de dias que se encerravam sem eu ter visto um filme que prestasse foi se tornando cada vez maior, e o número de apostas no escuro que se tornavam escolhas acertadas se aproximava cada vez mais de zero.

Mais tarde, as indicações de amigos e outros críticos e os premiados em festivais internacionais começaram a me parecer piores também. Isso quando filmes adorados em mostras passadas não se revelavam fiascos nas revisões.

Ainda assim, há uma relação sentimental forte com a Mostra, e a cada edição é grande a curiosidade de conferir algumas coisas. Nesta, até que vi bastante, perto das edições anteriores. Foram 24 filmes, entre cabines, links e sessões regulares.

Privilegiei os filmes portugueses, mas não pude ver todos. Technoboss, por exemplo, ficou longe do meu alcance. Queria confirmar se os relatos que ouvi (de que o filme é ruim) estavam certos ou se minha noção de autorismo está afiada (João Nicolau editou um belo livro sobre João César Monteiro, mas em matéria de filmes…).

Aqui arrisco uma lista dos 24 filmes que vi nesta edição (não conta o que eu já tinha visto antes). Está em ordem, do melhor ao pior. As cotações seguem o padrão da Folha de S.Paulo (de 1 a 5 estrelas), já que foi nesse veículo que fiz a cobertura, aqui continuada em forma de balanço. Essas cotações tendem a ser mais boazinhas que as da Revista Interlúdio.

O Paraíso Deve Ser Aqui (Elia Suleiman, 2019) * * * * *

Nazaré ou o cosmopolitismo euro/americano? Suleiman faz seu melhor filme demonstrando uma capacidade ainda maior de observar o que se passa à sua volta.

Bobo da Corte (Luiz Rosenberg Filho, 2019) * * * * *

O bobo põe-se a dormir. O cinema intenso, apaixonado e político de Rosemberg fará muita falta neste Brasil doente.

Amazing Grace (Alan  / Sydney Pollack, 2019-1972) * * * *

Síncopes musicais e espirituais. Um disco fora de série tem seu registro finalmente recuperado. Glória à tecnologia, que por vezes é vilã, mas aqui foi uma benção.

Campo (Tiago Hespanha, 2019) * * * *

Filme esquizofrênico e por vezes derivativo, com momentos muito belos de estranheza existencial. Wolfram + As Quatro Voltas + Os Campos Voltarão na mistura. Ensaístico e interessantemente referencial. Não vi o filme do Marcelo Pedroso sobre os militares. Sei que passou em Brasília e foi bem atacado. Não sei se ele está na mesma chave de Campo, mas se estiver, fico ainda mais interessado.

Parasita (Bong Joon-Ho, 2019) * * * *

O inusitado segura algumas soluções pouco felizes da trama. O talento do diretor também ajuda.

Papicha (Mounia Meddour, 2019) * * * *

Adoráveis adolescentes no terreno dos homens maus. Mas note-se que a protagonista e suas melhores amigas gostam da Argélia (e até mesmo de algumas cantadas machistas), e desejam tomá-la de volta, quando possível.

O Fantasma de Peter Sellers (Peter Medak, 2019) * * *

Opções delicadas, justificáveis pelo acerto de contas com um filme cheio de traumas.

Breve Miragem de Sol (Eryk Rocha, 2019) * * *

Esse tipo de câmera já quase se esgota, mas Rocha ainda extrai dela bastante coisa, principalmente quando extrapola nos movimentos, criando pequenas abstrações (e se distanciando do novo academicismo da câmera-personagem).

Pertencer (Burak Çevik, 2019) * * *

Dois filmes em um: o surpreendentemente bom e o convencionalmente razoável.

Hálito Azul (Rodrigo Areias, 2018) * * *

Areias, dos terríveis Tebas e Ornamento e Crime, se vira melhor no documentário…

Sem Seu Sangue (Alice Furtado, 2019) * * *

Interessante desafio ao espectador acostumado com didatismo. A cena da abstração na viagem de moto é um achado visual muito potente.

O Projecionista (Abel Ferrara, 2019) * * *

Irregular como os últimos de Ferrara, mas vale pelo retrato de uma cinefilia.

System Crasher (Nora Fingscheidt, 2019) * * *

Forte em alguns momentos, tolo em outros (como o final). Confesso que ainda não sei se merece mesmo a terceira estrela. Mas duas estrelas me pareceu injusto.

Surdina (Rodrigo Areias, 2019) * *

… Mas melhorou na ficção também, embora se mostre, aqui, mais convencional (um passo para trás como estratégia para controlar a afetação?). E este, em contrapartida, mereceria, talvez, meia estrela a mais.

Viveiro (Pedro Filipe Marques, 2019) * *

Não especialmente ruim, mas sem grandes atrativos, apesar de um ou outro plano mais rebuscado e do tema (cuidados com um campo de futebol onde jogam crianças) de certo modo original, dentro de um registro observacional que parece se satisfazer consigo mesmo, numa espécie de auto-anulação. Ou seja, a direção passa uma impressão de invenção da roda, quando é trivial na maior parte do tempo.

Lost Holiday (Michael & Thomas Matthews, 2019) * *

Um tanto tolo no geral, mas com seus momentos engraçados.

Family Romance, LLC (Werner Herzog, 2019) * *

Um Herzog com concessões em excesso a uma banalização da câmera documental na ficção. É um novo tipo de academicismo que se estabelece há anos no cinema internacional.

Synonymes (Nadav Lapid, 2019) * *

Lapid tem certa habilidade no acúmulo de planos e cenas, mas é difícil gostar de um filme com um protagonista tão idiota. Em toada semelhante à de Patrick, que por sua vez vai mais longe, e se afunda mais também.

Alva (Ico Costa, 2019) * *

Em cenário rural português, uma mistura de Por Que Deu a Louca no Senhor R?, o pior Fassbinder, com Crime e Castigo, obra-prima de Dostoievski. Infelizmente tem muito mais do primeiro.

Pacificado (Paxton Winters, 2019) * *

Olhar mais atencioso a uma vivência em comunidade, fruto da experiência do diretor, mas em uma trama convencional.

O Filme do Bruno Aleixo (João Moreira, Pedro Santo, 2019) * *

No YouTube é legal, em longa fica bem irregular.

Tristeza e Alegria na Vida das Girafas (Tiago Guedes, 2019) *

Calvin & Haroldo é uma óbvia inspiração. Mas o filme, além de mal filmado, é muito mais infantil – nível Amelie Poulain de poesia fácil – que a protagonista de dez anos.

Koko-Di Koko-Da (Johannes Nyholm, 2019) *

Ideia não muito original, mas promissora, é destruída logo no início porque o filme não existiria se as vítimas fossem menos imbecis.

Patrick (Gonçalo Waddington, 2019) *

Filme esquizofrênico, personagem esquizofrênico. Podia ser bom dentro desses termos, mas é insuportável.

 

Indicações para a 43ª Mostra SP

satantango

Há muito tempo não faço indicações para a Mostra SP em meu blog (se é que algum dia eu fiz). De todo modo, desta vez veio a ideia de fazer, pensando nas muitas pessoas que compram o pacote de vinte ingressos.

Esta lista de indicações então terá três partes. Dez filmes essenciais (que já vi e recomendo com muita força), mais dez que são apostas (pois ainda não os vi, mas pretendo ver), e mais cinco brasileiros que ainda não vi, porque é melhor selecionar 25 para ver 20, uma vez que a programação nem sempre permite ver todos os selecionados. Para quem quiser comprar o pacote de 20 (ou comprar ingressos avulsos) e me xingar (ou agradecer) depois.

Aviso aos navegantes: achei a seleção portuguesa pouco inspirada: cadê os filmes da Rita Azevedo Gomes, do Pedro Costa e do José Oliveira? Ainda está em vigor o lance do ineditismo, mesmo com o adiamento do Festival do Rio? Se estiver, é triste para o cinéfilo paulistano.

Se você puder ver apenas 10 filmes na Mostra:

O Jardim das Espumas (Luiz Rosemberg Filho, 1970) – A explosão da juventude. O berro incontido da revolta. Ideias se engalfinhando à procura de espaço.

Crônica de um Industrial (Luiz Rosemberg Filho, 1978) – O filme mais equilibrado do diretor, mas ainda tortuoso, melancólico, com a consciência de um certo fracasso existencial.

Berlim-Jerusalém (Amos Gitai, 1989) – Gitai em seu filme mais inventivo.

Satantango (Béla Tarr, 1991) – Um filme que vale por três ou quatro, dada sua enorme duração. E é obra-prima.

Água Fria (Olivier Assayas, 1994) – Talvez o melhor filme do irregular Assayas.

Crônica de um Desaparecimento (Elia Suleiman, 1996) – Suleiman ainda tateante, de juventude, mas já talentoso.

Intervenção Divina (Elia Suleiman, 2002) – Diretor implacável (Buster Keaton de sua geração) na relação Israel-Palestina.

Phoenix (Christian Petzold, 2014) – Um filme com a principal característica da carreira de Petzold: melhora com o tempo.

Diz a Ela que me Ouviu Chorar (Maíra Bühler, 2019) – O nome poético está à altura de um filme que surpreende pela riqueza do olhar.

Bobo da Corte (Luiz Rosemberg Filho, 2019) – Que belíssimo testamento de um dos diretores que mais se arriscaram no cinema brasileiro.

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Se você puder apostar em mais 10 filmes:

O Farol (Robert Eggers) – Afinal A Bruxa é um belo filme.

Parasita (Bong Joon-ho) – Ter ganhado Cannes importa menos do que a esperança de que algo bom pode surgir desse diretor.

O Paraíso Deve Ser Aqui (Elia Suleiman) – Volta esperada com ansiedade.

O Projecionista (Abel Ferrara) – Terá voltado à forma nosso bravo Ferrara?

O Diabo Entre as Pernas (Arturo Ripstein) – Pela importância do diretor para o cinema mexicano dos anos 70 e 80.

O Fantasma de Peter Sellers (Pater Medak) – Como andará o esteta (nem sempre bem-sucedido) Medak?

Amazing Grace (Alan Elliott) – Por Sydney Pollack, que dirigiu as imagens originais, e por Aretha Franklin, “the queen of soul”.

Family Romance, Ltda (Werner Herzog) – De Herzog podemos esperar tudo. Até mesmo uma obra-prima ou uma bomba.

Passagens (Lucia Nagib e Samuel Paiva) – Dois estudiosos aplicados e inteligentes, desta vez do outro lado dos trabalhos. Vale conferir.

Sibyl (Justine Triet) – Indicação mais pela fenomenal atriz Virginie Efira que pela diretora (que pode surpreender).

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E se quiser apostar em mais 5 brasileiros novos (vistos ou não vistos)

A Jangada de Welles (Petrus Cariry e Firmino Holanda) – It’s All True em crítica social.

Babenco – Alguém tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou (Bárbara Paz) – Babenco era irregular, mas fez grandes filmes. Interessa essa homenagem a ele, feita por quem viveu anos a seu lado.

Banquete Coutinho (Josafá Veloso) – Investigação sobre o cinema de um grande realizador.

Sete Anos em Maio (Affonso Uchôa) – Uchôa novamente solo, após Arábia.

Enquanto Estamos Aqui (Clarissa Campolina, Luiz Pretti) – Visto em Curitiba, no Olhar de Cinema. Uma espécie de News From Home (de Chantal Akerman) atualizado e mais modesto.

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Obs.:  A Vida Invisível tem estreia marcada para 31 de outubro, segundo o Filme B. A menos que você goste de filas, vale esperar. Já vi Chão e Casa, ambos recomendáveis. Outros filmes chegam já com elogios, a conferir: Pacarrete e Raia 4.

Atualização: A Vida Invisível teve estreia adiada para 21 de novembro.

Esquizofrênico, não conservador

dondraper

– Em todos os primeiros turnos desde 2006, à exceção do último, nas eleições para prefeito, governador ou presidente, votei à esquerda do PT (para o qual eu votei nos segundos turnos todos). No entanto, sou ainda chamado, por razões políticas, de conservador, ou pior, reacionário, por pessoas muito mais conservadoras (descobri mais uma que me entende desse modo, recentemente). Alguns até me conhecem e deviam saber a besteira que pensam. Sei quem são, e não as quero mal. Só quero que saibam que estão comendo bola. Esse pensamento tortuoso pode explicar, para alguns desses vacilões, o motivo de eu não ter gostado de Aquarius, Doméstica ou da retirada dos filmes do CinePE por causa do filme do Olavo (que até hoje não vi). Para elas, eu não gostei por ser conservador. Admito que posso ter errado na maneira de criticar algumas coisas (a retirada dos filmes do CinePE, por exemplo, eu critiquei de forma bem dura). Certa vez um amigo muito querido me falou de uma certa iconoclastia no piloto automático que ele via em mim, e tive de concordar com ele. Diabos, todos nós temos coisas com as quais devemos lutar. Mas essa pecha de conservador está errada. Nada contra conservadores, em princípio. Conheço alguns inteligentíssimos e humanos, incluindo conservadores de esquerda. Mas não é uma característica que eu tenha, politicamente falando. Em artes, vá lá. Não tolero a transformação do cinema em videogame, por exemplo, assim como grande parte da arte contemporânea não causa impacto algum em mim. O problema é a mania de enquadrar e encaixotar, que é um dos grandes males da humanidade, e de nossa esquerda, e eu sempre procurei criticar isso. A direita também tem esse mal, é claro, mas a direita tem males muito piores, incluindo a atual tolerância com o fascismo.

– A série Hip-Hop Evolution, da Netflix, me fez retomar o entusiasmo pelo rap dos anos 1990. Desde então, ando ouvindo Wu-Tang Clan, 2Pac, Goodie Mob, TLC, Dr. Dre e outras coisas que já me impressionavam na época e hoje me contagiam totalmente. Gosto de Kanye West e, principalmente, de Kendrick Lamar, entre outros rappers atuais. Mas a fase de ouro do rap foi mesmo nos anos 1990.

– O que achei de Mad Men: muito bem interpretada, construida e dirigida até a quarta temporada. Da quinta em diante a direção sofre um certo abalo, como se não precisasse mais de uma excelência que antes era vista em todos os episódios. Depende mais de nossa familiaridade com os personagens e com isso abdica de uma construção visual mais sólida. Uma série vive dessa familiaridade, e ajuda muito que todos os atores, sem exceção, estejam à beira da perfeição em seus papeis. Mad Men é uma aula de casting e direção de atores como raramente se viu na televisão mundial. Por isso continua boa, embora o brilho frequente nas primeiras temporadas tenha se tornado mais raro – no final, por exemplo, e em alguns episódios das últimas três temporadas(aquele que termina com “Tomorrow Never Knows” é um primor).

– Voltando ao assunto musical. Teve a celeuma com Milton Nascimento, que teria dito que a MPB de hoje é uma merda. Já surgiram aqueles que atacam o Milton por ele ter essa opinião. Entendo quem defenda que é a música que faz sucesso que é ruim, e que muitas coisas boas estão sendo feitas ainda na música brasileira. Eu sei disso. A questão é que na proporção simplesmente não dá para negar a decadência da música brasileira nos últimos 40 anos. Nos anos 1980 ainda era possível ouvir rescaldo de grande música (Moraes Moreira, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Guilherme Arantes, o próprio Milton, Djavan e tantos outros ainda fizeram grandes discos nessa década), além de algumas coisas geniais que iam surgindo (Arrigo, Itamar, Patife Band, Rumo, Picassos Falsos), mas não se compara com o auge que nossa música atingiu nos anos 1970 (o auge, na verdade, pode ser situado entre 1960 e 1984, um período realmente de ouro em matéria de riqueza de estilos e ambições. Na Bahia, em Pernambuco e no Ceará, por exemplo, tinha mais coisas boas do que em todo o território nacional hoje. Sim, continuo buscando as coisas. Tenho amigos e irmão músicos, que me indicam discos interessantes. Costumo acompanhar programas de músicas novas. Há, certamente, músicos brilhantes. A quantidade e a duração dessa qualidade é que costuma perder feio para outras épocas.

– Nos cinemas, vi e adorei Ad Astra (texto meu na Folha), O Fim da Viagem, o Começo de Tudo (idem), Bacurau (comentário no Olhar Digital) e devo dizer que este ano, no circuito comercial, me parece ser o melhor da década. A ver vamos.

Os Conselhos da Noite

conselhos

Não sabia bem como escrever sobre esse belo filme português e por isso demorei um bocado para começar este texto, que eu também não soube continuar, e por isso demorei mais um bocado, maior que o primeiro, para terminá-lo.

Em primeiro lugar, José Oliveira é um amigo muito querido d’além mar e apesar de me considerar um crítico capaz de separar amizade da apreciação de uma obra, fiquei com receio também por outros motivos, como irei expor aqui.

Vi Os Conselhos da Noite numa cópia ainda não terminada enviada pelo produtor, e também amigo, Daniel Pereira, embora eu tenha achado ela bem prontinha já, faltando alguns ajustes de finalização que não chegam a prejudicar o julgamento. O que quero dizer é que confio na minha percepção, mesmo sendo uma cópia de trabalho e mesmo eu tendo visto uma vez. Claro, revisões virão, quando o filme finalmente for exibido oficialmente. Mas por enquanto a impressão foi bem positiva.

Há um quê do José (um grande quê, na verdade) nesse protagonista taciturno que descobre uma cidade muito diferente da que ele deixou. Esse é um motivo óbvio para meu receio, mas prossigamos. Não se passou muito tempo, mas a cidade cresceu muito rapidamente. Essa cidade é Braga, que eu conheci em grande parte na companhia do José e de outro amigo querido, o João Palhares, a dupla programadora do cineclube Lucky Star (locação da imagem que ilustra este post), também em Braga. Mas principalmente o José, com seu carro, me levou a um monte de lugares que revi no filme, lugares que adorei conhecer e adorei rever em cena. E no filme eles ficaram lindos, evocando uma poesia que eu já suspeitava existir na cidade. Eis um outro motivo.

É a cidade do bar perto de uma velha igreja, do Convento no alto de uma montanha, onde tinha uma descida que fazia o carro subir, uma mágica que o José me mostrou. Ali tinha também um parque, onde Hiroatsu Suzuki quase se viciou na Coca Cola Zero, por minha culpa. E reconheci o belo jardim do centro, e a livraria Centésima Página, onde comprei um belo livro português do Hitchcock. E um restaurante onde fui com o José e mais três amigos. E algumas ruas, a rodoviária, o clima frio e agradável da cidade. Não lembro o nome dos lugares direito, mas não vou consultar. Lembro da impressão que tive ao visitá-los com meus amigos bracarenses, e a impressão que eu tive ao revisitá-los no filme.

Há alguma coisa de Clint Eastwood também, no protagonista, o de Honkytonk Man, principalmente. E algo do Lucky, com Harry Dean Stanton. Sei que o José amou este último filme e talvez eu tenha sido induzido a encontrar a semelhança. Mas penso que não. Penso que Lucky é de fato uma influência para Os Conselhos da Noite. Assim como a impressão de que a cidade já virou outra coisa. Não necessariamente pior, mas certamente outra. E Matar Saudade, do Fernando Lopes, me pareceu outra influência, embora eu também possa ter sido condicionado pela consciência de que é outro filme adorado pelo José (outro motivo para o receio, obviamente).

Quer dizer, o que O Atirador tinha do José (e da Marta, e do Mário), o que Longe tinha do José, de certo modo soou pouco perto do que Os Conselhos da Noite tem do José. E percebe-se a produção maior em relação aos outros (intuo tensão no set, pois José é tímido, chegado às pequenas reuniões, mas é também agregador, embora ele não tenha muita consciência disso). E por mais que eu veja tanto do meu amigo, tenho quase certeza que o filme seja forte para quem nunca viu ou leu o José, ou nunca dele ouviu falar.

A tentativa de objetivar minha relação com o filme eu deixo para depois. Por enquanto, um recado ao meu amigo José: “Vai, e dá-lhes trabalho.”