Ainda Gostoso

fendas

Fendas (foto), de Carlos Segundo, é um filme da consciência do mal-estar, da reordenação de uma vida, da tentativa de se encontrar em um território estranho e desafiador para renascer após um relacionamento fracassado. Um filme da procura.

Como tantos outros filmes assim, é necessário que nos identifiquemos com quem procura. No caso, precisamos ter empatia pela protagonista Catarina, uma pesquisadora de física quântica que está em Natal, onde também dá aulas para um único aluno. Poderia ser uma personagem em crise, e é, mas a crise já está dada e o que vemos é o movimento de saída da crise.

Sua pesquisa, para qualquer leigo no assunto que se interessa por arte, é buscar algum sentido na abstração. Ela amplia videos filmados (por vezes até do filme que estamos vendo, numa interessante brincadeira com as instâncias) até que as imagens se tornem borrões e os sons se tornem pouco ou nada identificáveis. A procura por um sentido na abstração da imagem e do som, mas também a procura por um sentido na abstração que é a mente humana, com seus desejos inconfessáveis e traumas por vezes difíceis de se explicar.

E o sucesso do filme passa pela excelência da interpretação de Roberta Rangel (atriz que nos lembra da saudosa Anecy Rocha, até pelo corte de cabelo). Sua personagem é composta de uma forma interessante, ainda que com alguns exageros – o grito com o email revela um desespero meio forçado, que não condiz com os momentos em que ela se encontra sozinha, contemplando belas vistas. A fala final poderia soar panfletária caso a atriz não tivesse sido feliz na composição dessa personagem. Ou seja, tudo que vemos antes, suas conversas e seus gestos, nos leva a essa frase, e com ela a um rompimento definitivo. A atriz faz com que a frase tola fique bem na fita, porque todos nós dizemos frases tolas, chavões de autoafirmação. E o dela, naquele momento, é plenamente justificável.

Os outros longas da competição são Casa, de Letícia Simões, e Pacarrete, de Allan Deberton. Bahia e Ceará na fita. Sobre o primeiro, escrevi brevemente durante o Olhar de Cinema de Curitiba, isto aqui:

“No filme brasileiro [Casa], filha, mãe e avó se encontram em Salvador e lidam com suas diferenças, principalmente entre a mãe e a avó, sendo que a filha é Letícia, a diretora do filme. Mas o encontro começa em 2015 e termina em 2017, com a avó já falecida. Há uma insistência em enquadramentos que cortam personagens. Num dos planos mais interessantes, vemos mãe e avó e só a ponta do nariz de Letícia (e mais alguma coisa de seu corpo), indicando que a diretora quer mesmo é jogar os holofotes naquelas que entende ser suas melhores personagens. De fato, são duas das personagens mais cativantes do cinema brasileiro recente. E se digo personagens é porque a verdade que elas mostram ali é claramente encenada para a câmera, pelo menos da parte da mãe, mais consciente de seu carisma (um carisma um tanto vilanesco, como a filha pretende forçosamente fazer-nos crer). Casa não é tão forte quanto o outro brasileiro da competição [Diz a Ela Que Me Viu Chorar], mas é bem digno. Se o filme mostra que o cinema baiano continua pulsante, mostra também que a crise de imaginário do cinema brasileiro recente continua, o que faz com que jovens cineastas muitas vezes procurem o real a qualquer custo, inventando a partir dele (isto está também no outro brasileiro do dia). Pelo menos agora já se trabalha melhor dentro desse registro.”

No debate aqui em Gostoso, (não vi debate algum, um pouco pelo calor do local onde eles são feitos, outro pouco por falta de tempo, e um outro pouco porque não tinha como ver todos, e ou via todos ou não via nenhum) disseram-me que a diretora pretendia que fosse ela a vilã do filme. Um tanto difícil num filme em primeira pessoa, mas pelos relatos que ouvi isso fez com que muitos desculpassem a falta de paciência demonstrada por ela (e das pessoas com ela) no convívio com as demais personagens. Pessoalmente, não sei se é necessário encontrar um vilão no filme. Quando falei em “carisma um tanto vilanesco” estava pensando mais na instância das pessoas tornadas personagens, não nas pessoas da vida real. A câmera muda o estatuto delas, e nada de errado, penso, em fazer com que a mãe seja levemente distorcida com esse filtro. Como também não me incomodo com a primeira pessoa, que é o agente promotor dessa distorção.

Sobre o outro longa, aquele que abriu a competição, e o quarto dessa mostra, escrevo agora.

Pacarrete é um presente para Marcélia Cartaxo. Uma possibilidade de atuação tão marcante quanto a de A Hora da Estrela, com a qual a atriz se consagrou no cinema. O público reconheceu. A crítica também. Há certo exagero na saudação do filme como uma obra-prima, mas quanto a isso já estamos acostumados.

A arquitetura da casa onde vivem Pacarrete (Cartaxo) e sua irmã Chiquinha (Zezita Matos) permite alguns planos bem estranhos, como aquele em que Maria, a faz tudo da casa, vai atender à campainha (a mesma que toca depois, soada pelas crianças que fogem) enquanto as irmãs estão postadas uma em cada cômodo entre a cozinha e a sala de entrada. Pacarrete de pé, à beira da pia, um pouco sem jeito por ter destratado Maria e em seguida saído de casa. Chiquinha à espera de algum entendimento entre as duas e feliz pela volta da irmã. Um plano bem estranho, mas que ajuda a montar o clima meio onírico que perpassa o filme e se consagra na metade final, e principalmente na cena final.

Num outro momento, após um acontecimento muito triste, Pacarrete põe-se a lavar a calçada, procurando um gesto mecânico que a faça esquecer a tristeza. Um momento de poesia que vem naturalmente, de pura observação do cotidiano, valorizado por uma atriz no auge de sua arte.

Marcélia Cartaxo é também a responsável por evitar o desequilíbrio do conjunto. Sua personagem beira o histrionismo, e a possibilidade de overacting era gritante, assim como a possibilidade de desequilíbrio, da atuação se sobressair ao filme. Com sua interpretação nuançada, dentro da personalidade forte de Pacarrete, ela consegue fazer com que tenhamos raiva das decisões da personagem, mas não da personagem em si. Faz com que procuremos entendê-la insistentemente, porque não temos a vontade de abandoná-la. Isso também possibilita um final de intensa poesia, que num tom errado poderia descambar para o patético, o que felizmente não acontece. Trabalhar assim, próximo ao risco, dignifica um autor em potencial e o prepara para audácias maiores.

Ou seja, Pacarrete é filme de atriz-autora, quase “um filme de Marcélia Cartaxo”, mas em certo sentido é exatamente isso. E pode ter provocado, da parte do diretor em seu primeiro longa, pela contensão e sábio entendimento de que o brilho maior precisava ser dela, o surgimento de um cineasta a ser acompanhado.

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