Agente Secreto

Agente Secreto, de Alfred Hitchcock, é outro filme de espionagem, um pouco na linha de Os 39 Degraus, seu longa anterior, mas com outra estrutura (não a do falso culpado e da dupla perseguição, embora com um “homem errado”) e bem menos celebrado do que deveria. Aqui, como bem observaram Rohmer e Chabrol, nasce o vilão charmoso e sedutor que terá seu ponto máximo no James Mason de Intriga Internacional. A trama não tem tantas viradas como se costuma dizer e o elenco é sublime.

John Gielgud é o agente inglês que tem a missão de matar um espião alemão sob disfarce. Para isso conta com a ajuda de sua esposa, Madeleine Carroll, e de um excêntrico aliado, Peter Lorre. Eis a trama, que tem lá suas complicações, derivadas de pistas falsas e de uma certa inexperiência dos agentes – o que não deixa de ser interessante e humano, afinal (há uma certa antecipação do esquema marido e esposa de Cortina Rasgada). A partir disso, Hitchcock constrói uma narrativa em que seu dom de criar imagens de impacto e poesia se revelam.

Quando Gielgud e Lorre estão na igreja e descobrem o organista morto, temos a melhor sequência do filme. Eles vão até a torre porque alguém se aproxima, e o barulho dos sinos de sobrepõe ao diálogo. Mas Hitchcock alterna ouvidos e bocas, que preenchem a tela num efeito impressionante. Outro momento excelente é o do cachorro que prevê o assassinato de seu dono nos alpes suíços. O desespero do pobre animal para abrir a porta, o choro no final, a reação de Carroll ao perceber que o cachorro sentira tudo que estava acontecendo… É de uma genialidade que coloca o filme em posição melhor do que a que tem sido reservada a ele. A sequência parcialmente muda na fábrica de chocolates é outro achado, assim como o clímax final, como é de praxe em Hitchcock, mesmo em filmes menores como O Mistério do Número 17.

O realizador não ficou muito satisfeito com o resultado, principalmente porque Gielgud e Carroll estão em crise de consciência com a missão. Mas na conversa com Truffaut, ambos mostram que não lembram muito bem do filme, que tem sido sempre subestimado, até mesmo por mim (sempre achei um dos mais fracos da fase inglesa). Infelizmente, esse livro magnífico também tem suas falhas. Mas poucos estão empenhados em rever os filmes e se colocar contra entrevistador e entrevistado se julgarem necessário.

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