Ilusões Perdidas

Na Paris do século 19 mostrada por Giannoli após Balzac, uma boa crítica pode ser comprada por duas centenas de francos. Se a prática persistiu ao longo dos séculos, teríamos uma boa explicação para certas defesas estapafúrdias feitas nos Cahiers du Cinéma nos últimos anos. Do mesmo modo que a construção de uma polêmica motivada por críticas contrastantes, compradas pelo mesmo editor em jornais concorrentes, ajudaria na venda dos livros e na reputação dos escritores (“para se tornar famoso, você precisa de um inimigo famoso”, diz o editor interpretado por Gerard Depardieu). Nesse universo, ler os livros não é importante para se fazer uma boa crítica. A escolha certa das palavras basta.

Lembrei durante o visionamento que seis editoras brasileiras rejeitaram um texto de Machado de Assis enviado às cegas no final do século 20, numa reportagem da Folha de S.Paulo. Ou seja, passou-se das críticas compradas ao desconhecimento completo da arte. Lembrei também que Jean Douchet costumava dizer que os franceses prezavam os “jogos de palavras”, o que sempre deixa uma desconfiança, mesmo nos melhores críticos franceses de sempre (Douchet entre eles, obviamente).  

Mas um artista, mesmo um gênio como Balzac – o que diremos de um Giannoli? – que não reconhece a crítica como uma forma de arte (século 19, auge do entendimento da crítica como uma instância parasitária, dizia Northrop Frye), terá sempre diante de si o desafio do ego ferido, o que o torna pouco confiável também, ainda mais quando dramatiza um estado de coisas que tem muito de seu imaginário (o de Giannoli mais do que o de Balzac).

O protagonista começa a ganhar nossa simpatia quando diz que é incapaz de criticar o livro do inimigo por ser muito bem escrito. E no momento seguinte se torna ainda mais pequeno, pois fez o que seu editor queria: demoliu o livro. Neste Barry Lyndon fragilizado, os melhores momentos são os mais rápidos, em que o diretor imprime um ritmo scorseseano, menos kubrickiano. As intrigas de salão, os podres de homens que se vestem com a arrogância do lado certo, seja qual for esse lado, compõem o que é mais forte em Ilusões Perdidas. Jamais um filme monarquista, tampouco anti-monarquista. Sendo fiel a Balzac nesse ponto, é a natureza humana que está sendo explicitada por uma câmera que passa pelo buraco da fechadura.

Giannoli pinta um retrato terrível do jornalismo e da crítica, das editoras e dos produtores de arte, dos influenciadores e do público. Quando tudo é regido pelo dinheiro, como acreditar na pureza dos julgamentos e na nobreza das intenções? Hoje, os muitos que se vendem – na crítica, na produção artística, no atravessamento – disfarçam melhor. Alguns nem percebem que (ou quando) se vendem. O estrago é o mesmo.

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