Dau Natasha e Dau Degeneração

O projeto DAU foi pensado por Ilya Khrzhanovskiy e Sergei Adoniev (produtor) para dar conta do sistema totalitário soviético em uma série de filmes que são acompanhados de instalações e outros formatos. Na Mostra SP pudemos ver dois dos longas filmados por Ilya e diretores convidados: DAU. Natasha e DAU. Degeneração. O primeiro tem mais de duas horas, o segundo, mais de seis horas. Ambos tratam de personagens às voltas com a opressão socialista, entendendo que tudo ruiu porque todos eram oprimidos, até mesmo funcionários de alto escalão. Pelo que o projeto mostra, até que o regime soviético durou bastante com tanta auto-sabotagem disfarçada de preocupação socialista. Obviamente, o projeto carrega nas tintas críticas, exagerando um tanto para tornar tudo mais chocante. Isso não é um pecado. A arte pode muito bem funcionar pela caricatura ou pelo grotesco. O problema maior é quando se faz cinema burocrático, utilizando-se a estética formatada da ocasião, sem um mínimo pensamento se essa estética é adequada ao material que se quer mostrar.

Dau Degeneração me lembrou uma versão porcamente filmada de Viagem dos Comediantes, de Angelopoulos. Como se o prazer, sobretudo o sexual, fosse proibido na União Soviética, logo aparece um burocrata para colocar fim ao hedonismo. Não há viva alma que se abstenha de todo o prazer e sobreviva com saúde mental. Os burocratas, então, matam de insanidade. Mas Angelopoulos compõe um importante painel da Grécia sob uma ditadura militar enquanto Ilya  Khrzhanovsiy e Ilya Permyakov parecem se satisfazer em demolir qualquer regra de dramaturgia cinematográfica, mas não sabem bem o que colocar no lugar a não ser imagens que só chocam jovens que sofrem de mil gatilhos.

O que eles propõem, nos anos 1970 seria chamado de pueril. Temos algumas cenas de sexo quase explícito, alguma nudez, pênis eretos ejaculando duas vezes no filme, situações de assédio sexual e uma matança de porco filmada pelo puro choque (e pelo choque de outros personagens) e a matança (da qual só vimos o resultado) de pessoas que se tornaram desnecessárias para o regime. Isso em seis horas de câmera trôpega.

DAU. Natasha deve ser visto primeiro. Sobretudo porque é bem menor, mas também porque é o longa inaugural, aquele que delimita esteticamente a faceta cinematográfica do projeto e apresenta o ambiente soviético dos anos 1950. Ilya Khrzhanovsiy aqui tem a co-direção de Jekaterina Oertel (que é sua co-diretora em outros longas do projeto). Aqui, o sexo é mais explícito que em Degeneração, embora sem tomadas de detalhe (como abundam nos filmes de sexo explícito) e sem ejaculações (como em Degeneração). A câmera se movimenta o tempo todo, como no outro filme, e temos a mesma falta de foco e olhar do que se filma, porque se filma de qualquer jeito, pouco importando o melhor ângulo para cada cena (a não ser nas de sexo). A cena da humilhação íntima com uma garrafa é deplorável, também pelo jeito como é filmada – os diretores parecem igualar o sexo à humilhação, pois o tratamento é o mesmo, a garrafa como um pênis (não só como substituto, mas como extensão), e assim é na cabeça do torturador.

Esse movimento da câmera sem critério e sem sentido que observa-se nos dois longas (e, imagino, em todos os outros), que não provoca sequer uma sensação de que somos testemunhas das cenas, de que estamos perto dos personagens, é o que faz ser penoso passar mais de seis horas, ou mesmo mais de duas horas, vendo um desses filmes. Porque se ali estivéssemos, como testemunhas privilegiadas das ações, não ficaríamos olhando de um lado para o outro como alguém que parece zombar dos interlocutores. Penso na longa e intercalada cena de Degeneração, em que um professor explica ao burocrata, com o auxílio de uma lousa, os riscos e possibilidades futuras para o regime socialista. Uma cena que teria muito a ganhar se houvesse um cuidado formal muito maior, mesmo se convencional, que valorizasse o que é dito e as expressões de quem diz e quem ouve. A câmera trôpega serve então para poucos momentos do filme, geralmente quando os jovens se divertem ou alguma baderna específica se inicia. Mesmo assim, haveria melhores maneiras de filmar, melhores lugares para colocar a câmera. Sei que aí o filme seria dirigido por mim e não por eles. Bem, esse é o problema. O filme deles é um troço insuportável. Estou certo de que faria algo ao menos passável com o mesmo material e o mesmo orçamento.

Há alguma saída para essa moda nefasta? Creio que não. Ela já parecia esgotada há dez anos e continuam filmando assim, principalmente na Europa Oriental.

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