Nicho Novembro 2020 – Mostra de Filmes

Nestes tempos em que o racismo não só se mostrou longe de superado, mas teve um aumento em sua intensidade e efetividade, com os racistas perdendo a vergonha de se assumir como tal, qualquer pessoa decente fica mais sensível a narrativas negras, a corpos pretos em filmes de todo o mundo. Por esse motivo o maior desafio de ver a programação de cinema do Nicho 54 e lidar com os filmes exibidos é justamente conseguir separar nossa tristeza atual e nosso ódio ao racismo e identificar elementos cinematográficos nas obras, se as operações que as regem foram bem ou mal sucedidas e se as realizações nos mostram algum nível de excelência e adequação entre o que se quer mostrar e a maneira como se mostra.

Nesse sentido, vamos da insuficiência estética simpática e lynchiana de In Hollywoodland e da inconsistência de conjunto do longa alagoano Cavalo até a sensibilidade e a habilidade cinematográficas demonstradas no curta americano De Repente a Escuridão ou nos filmes da produtora angolana Geração 80, Lúcia no Céu com Semáforos e Ar Condicionado, ou ainda no impressionante filme de Ruanda, Aquário. Vamos também da gangorra dos erros e acertos que se juntam num conjunto poético dos curtas Receita de Caranguejo e Colunas ao impactante filme denúncia “estou puto com o mundo e minha terra” que é esse impressionante A Última Gota de Óleo, e à investigação sobre a imagem dos negros na tela que engloba o já visto e o também já visto – mas num todo arranjado de forma única – em Tudo que é Apertado Rasga.

Na programação estimulante do Nicho, pudemos ver aparelhos de ar condicionado que caem como se estivessem no céu, refletindo o dar de ombros de uma elite angolana que mal se preocupa com os que andam sobre o chão (característica das elites de todo o mundo, provavelmente). No mesmo filme, Ar Condicionado, o grande destaque entre os filmes que vi do Nicho, o delírio do protagonista dentro de um carro que é só carcaça, uma das cenas mais belas do cinema contemporâneo pelo uso acertado da música e pela entrada e saída do delírio, a precisão de uma montagem que se arrisca e acerta em cheio. Pudemos ver também uma menina dançando graciosamente enquanto observa o pai maltratando a arte de se expressar com o corpo (De Repente a Escuridão), ou a relação homem e mulher sendo totalmente tomada por sensações e palavras que as descrevem em forma de poesia (Lúcia no Céu com Semáforos), ou ainda um homem praguejando para a câmera tendo por trás toda a destruição ambiental que ele ajuda a fazer com seu trabalho necessário – a dor é também de sua culpa e de sua condição, aprisionado em um emprego insalubre (A Última Gota de Óleo).

Infelizmente, os diversos compromissos de novembro me impediram de ver a programação nos últimos dois dias. Se mantiveram o bom nível da programação, e não há razões para acreditar que algo diferente aconteceu, é certo que o Nicho 54, também em sua faceta programação de filmes, terá vida longa e frutífera.

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