Gostoso, dia 2, parte 1

meunomeedaniel

O dia começa com mais um curta do coletivo Nós do Audiovisual, com produção da Heco e direção assinada por todos. Trata-se de uma homenagem a um antigo cajueiro da região de Gostoso (passamos por ele na estrada e um jovem do coletivo, que estava no carro, nos avisou). É, no final, uma brincadeira com o terror.

Logo em seguida entra Mesmo com Tanta Agonia, de Alice Andrade Drummond, que precisa da belíssima música de Neneh Cherry (“Woman”) para amarrar todas as pontas soltas. A reter a deliciosa festa captada pelas meninas com muita alegria e charme, a nos lembrar que as crianças podem salvar o mundo. O terceiro curta é do Rio Grande do Norte, o que comprova uma possibilidade de forte polo futuro do estado, mais um do nordeste a ser uma esperança para a filmografia brasileira, depois de Pernambuco, Bahia, Ceará e Paraíba (a confirmar se Alagoas, do qual vi curtas interessantes na Mostra Sururu em 2014, vingou de fato ou ficou pelo caminho). P’s parte do texto de Michel Foucaul, “Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão”, texto que há havia sido adaptado por René Allio em 1976. É austero, tem uma proposta dura e corajosa, a transposição para o sertão nordestino é interessante, mas falta algo para engrenar de fato, e esse algo não vem com a cena pós-créditos (ou no meio dos créditos, já não lembro mais).

O longa Meu Nome é Daniel surge em seguida prometendo ser um tanto enfadonho. A impressão vai diminuindo até que o filme se ajeita bem, mostrando um jovem com um problema de saúde não identificado. Acontece que esse jovem é o próprio diretor do filme, Daniel Gonçalves, que aparece em 99,9% dos planos. Ele arregimenta uma série de videos, atuais e passados (a maioria), em qualidades distintas (alguns em VHS estão sofríveis, o que contribui com o tom memorialista) de seu cotidiano: as crises, a relação com os familiares, a sorte de ter nascido em  uma casa com posses, os amigos de escola, a primeira transa, o primeiro beijo. Com meia hora lembrei de Tarnation (Jonathan Caouette, 2003) – e Flavia Guerra confessou ter lembrado também – pelo tom corajoso, álbum de família, de enfrentamento das situações (em todo caso, ela usa o filme americano em aula, eu nunca mais o revi, então foi bom ter a confirmação dela de que minha lembrança era justificada). Filme de montagem, realizado com inteligência e sensibilidade, com um personagem-diretor carismático, que sabe conduzir sua narrativa na frente e por trás da câmera.

P.S: quem me conhece sabe que esqueço as coisas mais óbvias e essenciais para um bom convívio. Pois esqueci de agradecer publicamente o convite feito pela Flávia Miranda e pelo Eugênio Puppo, diretor e curador do festival. Agradeço então aqui, o que já fiz pessoalmente.

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