Olhar, dia 5: Matsumoto, Sganzerla, Ignez…

funeral

Toshio Matsumoto é da mesma geração dos três da Shochiku – Nagisa Oshima, Masahiro Shinoda e Yoshishige Yoshida – que deflagraram a Nova Onda japonesa, também conhecida como Nuberu Bagu. Contudo, por ser mais radical e por ter feito, durante quase toda a década de 1960, apenas curtas, ele se tornou membro do movimento posterior, de um cinema experimental que conjugava sexo, violência e ativismo político com uma radicalidade formal permitida, justamente, pelos excessos da Nuberu Bagu. Foi graças a filmes como O Enforcamento (1968) e Três Bêbados Ressuscitados (1968), de Oshima, Eros + Massacre (1969) e Purgatório Eroica (1970), de Yoshida, e Duplo Suicídio em Amijima (1969), de Shinoda, entre outros de Shohei Imamura, Susumu Hani, Yasuso Masumura e Seijun Suzuki, que a explosão que é O Funeral das Rosas (1969) torna-se possível.

Confesso que prefiro, em geral, os filmes da Nuberu Bagu, tanto os mais experimentais, sobretudo na segunda metade dos anos 1960, quanto os de juventude (Noite e Névoa no Japão, de Oshima; As Termas de Akitsu, de Yoshida; Desejo Assassino, de Imamura, etc.) do que os filmes radicais dessa turma que vai passar os anos 1970 botando fogo no cinema do país (o diretor mais talentoso dessa turma, pelo menos na questão da mise en scène, talvez seja Akio Jissoji). E percebo muita influência de Oshima e de Seijun Suzuki neste primeiro longa de Matsumoto (a cena da briga na rua, por exemplo, lembra O Portal da Carne, de Suzuki). Aliás, perguntado por Aaron Cutler se podia apresentar O Funeral das Rosas, tive de declinar, pois não lembrava muito dele, tendo-o descoberto e visto unicamente há cerca de 15 anos (cenas que eu pensava que eram dele devem ser do primeiro longa de Shuji Terayama, por exemplo, longa que, por sinal, parece comportado comparado ao de Matsumoto).

Algo no Funeral, em seu radicalismo ostensivo, me parece girar em falso. É como se o filme ficasse cada vez mais dependente de suas cenas de impacto, culminando no final sangrento: a interdição do olhar. Purgatório Eroica termina com um caminho sem saída para também refletir a quase impossibilidade do cinema japonês na virada para os anos 1970 e seguindo nesta década, e O Funeral das Rosas segue o mesmo impasse. É o que o faz tão belo, e ao mesmo tempo tão desesperançado. Por outro lado, não deve ser ignorado o modo como ele explicita o fazer cinematográfico, colocando a equipe de filmagem em cena, deixando pontas de negativo e até colocando um comentarista externo ao filme ainda antes do final, e com isso tudo amplifica o distanciamento crítico. Mas Imamura já tinha feito isso, com sutileza, em Desejo Assassino (1964) e de certo modo provocava ainda mais inquietações. De todo modo, O Funeral das Rosas talvez seja mesmo o melhor e maior exemplo do cinema radical japonês pós-Nuberu Bagu, tendo sido lançado enquanto a Nuberu Bagu começava a agonizar (e Oshima, contraditoriamente, fazia seus melhores filmes: Garoto, 1969, e Cerimônias, 1970).

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A outra sessão do dia foi A Mulher da Luz Própria, de Sinai Sganzerla, sobre sua mãe, Helena Ignez. É corajoso e pertinente o modo como Ignez se assume como vítima do machismo da sociedade brasileira porque se envolveu com outro homem enquanto seu marido de então, Glauber Rocha, se envolvia com outra mulher no Rio e nada sofreu com isso. É curioso, embora seja compreensível, como ela rejeita o epíteto de musa (do cinema novo e depois do cinema dito marginal).

O filme de Sinai dá conta da multiplicidade de registros nas atuações de sua mãe, uma atriz que conseguia mudar completamente a expressão do rosto conforme o filme pedia. Isso fez dela uma atriz única, sem igual no cinema brasileiro, talvez mesmo no mundo. Quando passa para a direção, deixa uma ideia de que parece ter sentido alguma resistência, talvez por pensarem que estivesse se aproveitando do espólio do marido, quando de fato estava com a missão de terminar seus projetos não terminados. Foi um ato de heroísmo ter filmado a continuação do Bandido da Luz Vermelha, pois ela sabia que haveria esse tipo de questionamento imbecil, como se ela não tivesse o direito, ou mesmo a missão, como ela diz, de continuar o que construiu com Sganzerla. Assim como pode haver o mesmo questionamento besta sobre o caráter íntimo e pessoal do filme de Sinai, o que, convenhamos, é o que faz dele realmente tocante.

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Tel-Aviv em Chamas, de Sameh Zoabi, é um filme israelense/palestino (em coprodução com Luxemburgo, França e Bélgica) sobre um jovem trabalhador de TV palestino e um militar israelense que se envolvem inusitadamente. O jovem palestino tem de passar todos os dias por um posto de comando israelense, pois mora em Jerusalém, mas trabalha em Ramallah. Lida então com militares quase sempre mal intencionados ou mal preparados, para acompanhar a gravação de uma novela palestina de sucesso: Tel-Aviv em Chamas, que se passa em 1967, pouco antes da Guerra dos Seis Dias entre Israel e Arábia. Um dia ele conhece o comandante do posto e sua vida muda. A esposa do comandante é fã da novela e essa relação faz com que ele passe a ser seu roteirista, mesclando costumes palestinos e israelenses e desagradando os que bancam a novela. Nesse fogo cruzado entre a vontade do comandante israelense e a dos produtores palestinos ele precisa encontrar uma solução conciliadora.

Falar de telenovela é um pretexto para que o filme se inicie da pior maneira possível: uma edulcorada imagem cheia de filtros e luzes, espécie de exagero do visual telenovelesco pelo mundo. Quando entendemos que vemos uma gravação, e que a trama vai orbitar na produção dessa novela, as imagens melhoram, mas só um pouco. A câmera é solta demais, bem de acordo com a estética qualquer nota que tem dominado o cinema contemporâneo há mais de dez anos, quando muitos diretores pararam de se importar com enquadramento e posição de câmera e resolveram que só o trabalho dos atores importa. Pode até dar certo, mas o mais comum é faltar cinema na equação. E a relação entre o agora roteirista e o comandante prossegue num tom entre o cômico (quando lembra um Tiros na Broadway bem menos inspirado), o tenso e o crítico.

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