Não Lamento Minha Juventude

naolamento

Não tenho dúvida de que Não Lamento Minha Juventude seja o maior dos filmes de Kurosawa – um átomo acima de Trono Manchado de Sangue, Homem Mau Dorme Bem e Barba Ruiva – e um dos maiores filmes feitos no Japão. Mas ao contrário dos outros três, obras perfeitamente (ou quase) acabadas no aspecto formal e também no aspecto conceitual (e talvez devesse adicionar Céu e Inferno nessa turma), Não Lamento Minha Juventude é um filme de juventude, de riscos, excessos, explosão. O que dá muito certo nele acontece talvez por preceder algum momento de indecisão, e os momentos de indecisão serão cada vez mais raros no cinema de Kurosawa, o que por vezes tira um pouco de vida.

E no entanto, sempre é bom lembrar: são muitos os momentos do filme em que tudo dá muito certo. Ao olhar retrospectivamente, já sob a censura da ocupação, para a era do militarismo e da perseguição a artistas e intelectuais nos anos 1930 e início dos 40, Kurosawa revela incrível sensibilidade e um olho calibrado para o cinema mais moderno da época, com largos toques de vanguarda (sobretudo a soviética, mas não só).

Os primeiros 15 minutos merecem figurar em qualquer antologia dos grandes momentos do cinema. Nele vemos alguns professores e alunos da Universidade de Kyoto saindo para um piquenique. Fazem parte do círculo do professor mais influente, pai de Yukie (Setsuko Hara). Entre os alunos, dois jovens apaixonados por Yukie: o arrojado Noge e o pacato Itokawa. Yukie se comporta com eles ainda de maneira ambígua. Parece inicialmente tender para Itokawa (já veremos por que), mas sua inércia a desanima. Noge, ao contrário, a conquista sem saber com seu jeito rebelde e politizado. Um impasse na hora de atravessar um rio. Ambos estendem a mão a ela, mas ela ainda não sabe quem escolher. Noge então a pega no colo e a leva a salvo para a outra margem. Itokawa ressente-se de não ter feito nada antes. Yukie, para equilibrar o jogo, porque é de seu interesse manter os dois na disputa, brinca com o quepe de Itokawa. Depois, brinca com o quepe de novo, já como provocação infantil. E sai correndo, tendo todos os outros alunos atrás dela. Mas a montagem de Kurosawa foca na subida do morro, no movimento, e os planos se aproximam dos três que formam o triângulo amoroso. Movimento e corte, dignos do melhor Renoir, num procedimento que será repetido no final, com a mãe de Noge indo atrás de Yukie. Belíssimos momentos, muito influenciados por Dovjenko e Boris Barnett.

No alto do morro e no restante do dia, o clima parece propício para Yukie desfilar seu charme e encantar seus amigos. É uma moça mimada, que não percebe o mal do mundo e se irrita com as falas politizadas de Noge (uma irritação que não esconde o interesse amoroso). Itokawa, por sua vez, faz tudo que ela quer. Yukie sabe que com Itokawa teria uma vida tranquila, mas tediosa. E com Noge teria uma vida na montanha russa, e isso a atrai. Acaba assim o primeiro tempo. Na verdade, aos 14 minutos e meio de duração. Na sequência seguinte, o tempo narrativo passou. Noge foi preso como subversivo, mas consegue a liberdade após cinco anos graças à influência de seu amigo Itokawa, que parece usá-la como moeda de troca. No retorno, Noge está mudado, aparentemente despolitizado, um homem tolo. Isso desagrada Yukie, que resolve sair da casa dos pais e buscar a independência em Tóquio. Começa assim o seu processo de amargo crescimento. Em Tóquio, algum tempo depois, ela reencontra Noge, para uma relação em comum não muito longa, que Kurosawa nos mostra em uma pequena sequência com cenas de grande beleza e durações variadas.

A ocupação fez bem a Kurosawa. Ele pode olhar para os anos militares de forma bem crítica e ser contrário à toda forma de autoridade, até mesmo a de Noge, que reaje à alienação de seus pares com certa arrogância. No momento mais importante do filme, aquele que sela o romance entre Yukie e Noge, Kurosawa se mostra já um mestre, em seu quinto longa-metragem. O tempo na prisão fez Noge refletir melhor para saber qual era a hora de agir. Ele passou a entender que é necessário um longo momento de espera para melhor combater as forças inimigas. E expõe essa ideia de forma um tanto enigmática para Yukie, que entende como falta de fibra. E Kurosawa mostra essa consciência com muitas sombras (Noge obviamente reduzido a uma sombra na parte mais importante de sua fala), muito silêncio (e o momento típico de seus filmes, em que nada se ouve e não se percebe movimento algum por intermináveis segundos – muitos anos antes do cinema de Béla Tarr ou Lisandro Alonso, ou mesmo Antonioni), e um dos cortes mais fantásticos da história do cinema, quando Noge vai atrás de Yukie sem saber que ela estava parada no corredor de acesso ao seu escritório. A bolsa dela cai, após o encontro fazer com que ela dê meio giro em seu corpo. Plano fechado na bolsa, logo após o giro. Lembra Renoir, quinze anos depois de A Cadela, e Bellocchio, mais de meio século antes de A Hora da Religião.

Não Lamento Minha Juventude é o único filme de Kurosawa com protagonista feminina, descontando-se o fato de que A Mais Bela tem sua força no lado documental e no grupo de mulheres (o que, para um individualista como Kurosawa é atípico), e que a mulher do filme seguinte, Um Domingo Maravilhoso, conscientemente mais interessante que o homem, não chega a ser protagonista, ou, pelo menos, a única protagonista. A mimada Yukie, que evolui para uma mulher centrada, e depois emancipada (ou no caminho de), permite a Setsuko Hara uma das grandes interpretações de sua carreira, com trejeitos que Ozu não permitiria que ela usasse em seus filmes (uma giradinha ao levantar do piano; gestos muito expressivos enquanto trancada no quarto, quando Kurosawa faz com que diversos planos muito parecidos se sucedam). O jovem cineasta (36 anos quando o filme foi lançado) parecia maduro. Os filmes seguintes revelam que esse amadurecimento ainda não tinha se concretizado, e este belíssimo filme de 1946 seria então um milagre de juventude.

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