Gostoso, dia 4, parte 1: fora da competição

lembro

No quarto dia da Mostra de Gostoso, parece ter havido uma pequena pane de comunicação pela cidade. A caminho da sessão vespertina, alguns pingos mostravam que as nuvens escuras podiam ser ameaças de fato, e não puro enfeite, como foram nos dias anteriores. Durante a sessão, composta por um curta e um longa, ambos paulistas, a energia foi interrompida por uns cinco minutos. Na saída, o celular revelou-se com péssimo funcionamento e a internet da pousada parece ter ido à praia sem perspectiva de retorno. É parte do charme da cidade, a primeira de onde o Brasil faz a curva em direção ao Ceará, que a comunicação com o resto do país seja dificultado. Assim, os pequenos animais podem passear livremente: o lagarto e o sapo que vi na entrada me saudaram simpaticamente para uma noite que promete ser mais quente que o normal.

O curta é Liberdade, de Pedro Nishi e Vinicius Silva. Investiga o passado do bairro Liberdade, antes de se tornar o lar dos orientais no Brasil, quando era habitado por africanos, como também hoje, quando voltou a ser habitado por africanos, mais haitianos e refugiados. A igreja central, agora cercada por estabelecimentos comerciais, a Praça da Liberdade, antigo Largo da Forca, onde eram executados os escravos e os criminosos, a convivência entre imigrantes de todo o mundo, sobretudo uma japonesa e um guineense. Belíssimo retrato de um Brasil que tende a ser apagado, agora mais do que nunca. A negritude, contudo, é tirada das sombras em uma das sequências mais poderosas do cinema brasileiro atual.

O longa é Lembro Mais dos Corvos, de Gustavo Vinagre, que, a exemplo de Fabiana, exibido ontem em competição, pega uma pessoa real para investigar sua vida. Só que o filme de Vinagre é mais direto, assume-se como o retrato de uma vida. Talvez por isso seja mais forte e bem sucedido. Julia Katharine é carismática. Mulher transexual, conta histórias de sua vida até a exaustão, e o filme acerta em deixar evidente seu desconforto, até que ele se torna impossível de continuar. Deixa evidente também a longa amizade entre ela, uma atriz, e o diretor, responsável por sua estreia no cinema. Essa amizade permitiu que o embaraço de contar histórias diante de uma equipe de filmagem fosse menor, e tornasse possível o longa de 80 minutos.

A câmera de Vinagre é sempre tateante, buscando a melhor distância no zoom – o que faz com que às vezes pareça um Rossellini televisivo mais pobre – e explicitando, conscientemente ou não, suas inseguranças quanto à melhor maneira de filmar. Esse filme que se constrói diante de nossos olhos se fortalece, assim, pela cumplicidade entre todos os envolvidos: equipe, Julia e nós. Ao final, sentimo-nos muito mais próximos de Júlia. Ela se torna também nossa amiga, e somos agradecidos por ela nos ter confiado suas histórias, reais ou não.

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