Meus 20 filmes preferidos de 2019

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20 filmes lançados em circuito comercial no Brasil em 2019

  1. Amanda (Mikhael Hers, 2018)

A poesia brota das pequenas coisas, dos detalhes, como nos filmes de Rohmer, embora esteticamente diferente. Podemos nos identificar com a pequena Amanda, ou com o tio, ou com os dois e com a situação que enfrentam. E é impossível esquecer o momento “Elvis has left the building”.

– texto: https://sergioalpendre.com/2019/07/14/amanda/

  1. Fim da Viagem, Começo de Tudo (Kiyoshi Kurosawa, 2019)

Conhecer um outro país, uma outra cultura, para se conhecer melhor. E se conhecendo melhor, prepara-se para perseguir um sonho. Kiyoshi Kurosawa continua no topo de sua arte.

– texto: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/09/kiyoshi-kurosawa-faz-seu-melhor-filme-desde-sonata-de-toquio-de-2008.shtml

  1. O Paraíso Deve Ser Aqui (Elia Suleiman, 2019)

Um ator/autor em seu melhor filme. Elia Suleiman entende que o mundo está regido pelo absurdo, e por esse motivo não há lugar melhor que o seu próprio lugar. Monta-se um bunker e espera-se a procissão dos malucos passar.

– texto: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/10/autor-personagem-elia-suleiman-mescla-humor-e-politica-em-seu-melhor-filme.shtml

  1. Ad Astra (James Gray, 2019)

Filme um tanto incompreendido no Brasil, de um diretor que parece inquieto, por vezes indeciso, mas com um talento raro para alternância de registros e gêneros. A perseguição até o lado escuro da lua é um achado, assim como a ideia de capitalismo chegando ao espaço (não é nova, mas foi muito bem representada). As duas outras cenas de ação são desiguais (a do macaco selvagem é interessante, e a da entrada na nave é um momento forçado do filme), mas a primeira metade é tão forte como o melhor que Gray já nos deu.

– texto: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/09/protagonizada-por-brad-pitt-saga-espacial-ad-astra-atualiza-odisseia-de-2001.shtml

  1. Era uma Vez… em Hollywood (Quentin Tarantino, 2019)

Pela primeira vez Tarantino acerta em cheio em sua mania de correção histórica, talvez porque aqui ele trabalhe com a tragédia de poucas pessoas (Sharon Tate e seus amigos), não com temas ainda mais espinhosos como racismo e nazismo. Mesmo assim, não é fácil fazer essa operação sem tocar no ridículo.

– texto: https://olhardigital.com.br/cinema-e-streaming/noticia/resenha-era-uma-vez-em-hollywood/89566

  1. Imagem e Palavra (Jean-Luc Godard, 2018)

Godard, do alto de sua majestade em cinema, toca o “danem-se” e nos ensina a fazer cinema crítico e irreverente como poucos hoje são capazes de fazer. É, também, mais um capítulo de sua História(s) do Cinema.

– texto: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/03/e-impossivel-entender-totalmente-um-filme-de-godard-e-essa-e-sua-forca.shtml

  1. A Mula (Clint Eastwood, 2019)

Como quase todos os filmes de Clint, este também cresce com a revisão. A parte problemática é a festa na casa de Andy Garcia. Na revisão, o problema quase desaparece. Rápido, com cortes ousados e a mesma ambiguidade de sempre. Não imagino um outro cineasta branco fazendo uma cena como a do jovem descendente de imigrantes se sentindo ameaçado na batida policial (e sua dificuldade em colocar o cinto: um plano brilhante). Clint não foge das questões cruciais de nossos tempos, observando-as de perto.

  1. Fourteen (Dan Sallitt, 2018)

A poesia nas pequenas coisas, como em Amanda. Um filme que cresce na segunda metade, como Amanda. A reação de uma criança diante da morte, como em Amanda. As semelhanças param aí. Mas este filme de Sallitt é de primeira. Enfim, mais uma semelhança.

– texto: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/08/incrivelmente-realista-fourteen-acompanha-amizade-entre-duas-jovens.shtml

  1. Amor Até as Cinzas (Jia Zhangke, 2018)

Jia revê seus longas de ficção recentes, mas também retorna a Em Busca da Vida para entender as mudanças na China dos últimos anos. Nesse sentido, é uma atualização de Plataforma, longa de 2001 que cresce horrores em revisões.

  1. Bacurau (Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho, 2019)

Percebe-se no que Kleber evoluiu como cineasta e no que seu trabalho foi ajudado por uma instância crítica, a de um codiretor igualmente talentoso (e também bom em curtas). Uma parceria entrosada para um filme de longa gestação (o que talvez explique o ótimo entrosamento).

– texto: https://olhardigital.com.br/cinema-e-streaming/noticia/bacurau-e-triunfo-do-cinema-brasileiro/89969

  1. Se a Rua Beale Falasse (Barry Jenkins, 2018)

Belíssimo filme de Jenkins, muito superior ao badalado Moonlight.

  1. Diz a Ela Que Me Viu Chorar (Maíra Buhler, 2019)

Filme duro, formalmente inteligente, com um olhar atento para nossa desgraça atual.

– texto: https://sergioalpendre.com/2019/06/08/olhar-de-cinema-dias-1-e-2/

  1. Ama-San (Claudia Varejão, 2018)

Três mergulhadoras em um filme de rara e justa beleza plástica.

– texto: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/01/ama-san-mostra-a-beleza-do-cotidiano-de-mergulhadoras-do-japao.shtml

  1. 3 Faces (Jafar Panahi, 2018)

Qual é a estratégia necessária para se fazer notar neste mundo cheio de subcelebridades? Paixão, intolerância e desespero na fronteira da Turquia com o Irã.

  1. A Noite Amarela (Ramon Porto Mota, 2019)

O horror que partilha o enquadramento.

– texto: https://sergioalpendre.com/2019/06/09/olhar-dia-3-a-noite-amarela/

  1. O Clube dos Canibais (Guto Parente, 2019)

O horror cartunesco da elite brasileira.

– texto: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/10/o-clube-dos-canibais-convida-ao-suspense-com-trama-de-filme-trash-tratada-com-elegancia.shtml

  1. Assunto de Família (Hirokazu Koreeda, 2018)

Ligeiramente superior (e menos badalado) que Parasita.

  1. Um Amor Impossível (Catherine Corsini, 2018)

Virginie Efira é um assombro de atriz e de caso de amor com a câmera. Corsini é uma diretora de rara sensibilidade.

– texto: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/08/atriz-e-grande-destaque-de-longa-frances-sem-ofuscar-o-drama.shtml

  1. Parasita (Bong Joon Ho, 2019)

Um tanto superestimado (quanto disso não é por causa da Palma e dos Cahiers du Cinéma?), e um degrau abaixo de O Hospedeiro, mas ainda assim é forte na maior parte do tempo.

  1. Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar (Marcelo Gomes, 2019)

Gomes se reencontra muito bem no documentário.

– texto: https://sergioalpendre.com/2019/07/10/estou-me-guardando/

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+   Um filme aula: Varda por Agnès (2018), de Agnès Varda

+   Um filme/show farsesco: Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story by Martin Scorsese (estreia da Netflix)

+   Um filme não lançado: A Portuguesa (2019), de Rita Azevedo Gomes

+   Um lamento: não ter visto Abaixo da Gravidade (Edgard Navarro).

+   7 filmes que quase entraram nos 20 (e num ano mais fraco teriam entrado):

Vice, Temporada, Inferninho, Toy Story 4, Nós, O Irlandês, Dor e Glória.

John Wick 3: Parabellum

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No segundo exemplar desta estranha franquia, realizado em 2017, já tinha ficado claro que Nova York havia se transformado numa espécie de cidade de assassinos, e vislumbrava-se uma sátira ao cinema de ação hollywoodiano ao mesmo tempo em que o cinema de ação de Hong Kong era uma referência evidente.

Neste Capítulo 3, tudo isso se mantém, mas Stahelski está ainda melhor para filmar cenas de ação e de certa forma aprimora seu portfolio aproveitando-se de todos os ambientes possíveis, mesmo fora de Nova York, em Casablanca, por exemplo, como também em depósitos de armas, bibliotecas, sala de reflexões, complexos viários e outras sandices. A violência também me pareceu mais gráfica, o que reforça a semelhança com o cinema asiático.

John Wick não tem lar, não toma banho, não come e não dorme. Parece viver apenas como um boneco de ação, uma máquina de guerra, quase um imortal. Nesse sentido, tornou-se, como os outros assassinos do filme, um autômato, uma espécie de inteligência artificial super evoluída e com habilidades marciais. E no entanto, não é feito de cristal líquido, mas sangra, e sangra pra burro.

O mundo no filme é um lugar tão absurdo e distópico que parece uma fantasia bolsonarista/trumpista, em que todos andam carregados de armas, atiram cinco ou seis vezes para matar e agem segundo um código moral rígido, mas bem duvidoso. Faltou apenas matar em nome de Jesus, embora se possa pensar na Ordem do filme como uma religião, que as pessoas servem sem maiores questionamentos (já se matou bastante em nome do pobre Messias, que, no entanto, só queria pregar a paz).

Mas Stahelski está menos interessado em parábolas políticas (embora elas existam) do que em brincar com as possibilidades do cinema físico, com coreografias muito bem realizadas e acrobacias que desafiam o histórico do filme de ação. Há ainda alguma coisa de percussivo na massa sonora de socos, chutes e facadas. Em alguns momentos, se fecharmos os olhos, imaginamos um concerto de variadas percussões, com urros invadindo as batidas e nos lembrando que é só mais um filme violento de ação, ainda que um tanto mais talentoso que a média.

Ceylan e o autorismo

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Engraçado como o autorismo nos prega algumas peças. Não me entusiasmei com Distante, o filme com o qual tomei conhecimento do cinema de Nuri Bilge Ceylan, mas os filmes seguintes, Climas e Três Macacos, me desagradaram de fato. Quando estreou Era Uma Vez na Anatólia, tive receio, por conta desses filmes anteriores e de sua duração (2h37m). Mas me surpreendi com um filme forte e muito bem dirigido. Aí estreia Winter Sleep, e a duração (3h18m) me deixa novamente com um pé atrás, pois não dava para saber se Era Uma Vez na Anatólia era apenas um surto ou uma indicação de maturidade. E Winter Sleep me pareceu, e ainda me parece, o melhor filme de Ceylan.

Agora me deparo com seu mais recente, A Árvore dos Frutos Selvagens, com suas três horas e oito minutos, e não me sinto tão desafiado. Pelo contrário: começo a vê-lo tendo a lembrança dos dois belos e longos filmes anteriores, esperando encontrar ao menos um eco do brilho que neles vi. O autorismo me pegou.

Mas foi pouco o que me prendeu a este recente longa. Reconheço alguns momentos de beleza, mas num todo enfadonho, ou pior, desinteressante a meus olhos. Parte do motivo é o protagonista, um jovem nada simpático, meio arrivista meio arrogante (o ator, Dogu Demirkol, não ajuda). Ele passa o filme inteiro conversando com pessoas (incluindo sua mãe) para tentar entender sua condição de escritor fracassado e sua relação com o pai (o ótimo Murat Cemcir).

Essa flutuação no nível de interesse pelo que se passa na tela difere bastante A Árvore dos Frutos Selvagens de Winter Sleep, que, por sinal, tem um elenco mais afinado. Além disso, a duração, em A Árvore, me parece uma questão de grife, mais do que uma imposição da trama e da construção dos personagens (mas sei que esta é uma impressão que não está de acordo com a da maioria dos críticos).

Deixo o link para dois textos mais cuidados, um escrito por Cecília Barroso, que traduz bastante o que senti vendo o filme (curiosamente, é a mesma nota que dou, 6/10):

https://cenasdecinema.com/a-arore-dos-frutos-selvagens/

…outro assinado por Luis Miguel Oliveira, que é um pouco mais generoso em sua nota (3/5)*:

https://www.publico.pt/2019/03/28/culturaipsilon/critica/jovem-turco-1866841

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* quando penso de 0 a 10, um filme bom leva no mínimo 7 (às vezes 6,5); quando penso em estrelas, um filme bom leva 3. A Árvore seria 2/5 (ou 2,5, quando possível). Pode não ser muito lógico, eu sei, mas não precisa ser.

Sobre uma futura lista dos anos 2010

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Uma coisa que sempre evitei foi fazer listas antes do tempo. Se o ano termina às 23h59 de 31 de dezembro, só a partir do minuto seguinte eu solto uma lista dos melhores desse ano. Modo de falar, pois normalmente gosto de passar ainda alguns dias para ver as últimas estreias e os filmes que perdi no ano. Numa lista de década, ou, se quiserem, de um grupo de anos definidos pelos dois primeiros algarismos (sei que tecnicamente a década acaba no fim do ano que vem, mas não no espírito da maior parte dos mortais), não teria como ser diferente.

Claro, se me pedem, eu mando, numa boa. Mas não faço por conta própria. Prefiro esperar.

Só que não resisti à brincadeira de fazer já uma lista prévia com aqueles que considero os melhores filmes dos anos 2010. Os comentários a respeito da (fraca) lista dos Cahiers du Cinéma e as várias listas de diretores que circularam a partir dela, mais as diversas listas de amigos que pipocaram pelas redes sociais no mesmo dia e nos dias seguintes me fizeram começar a já aprontar a minha. E por que, nesse caso, não soltar uma prévia? Talvez até ajude, com alguma indicação, a pesquisa para outras listas. Pois o fiz, no Facebook. O resultado por enquanto é este:

01  A Vingança de uma Mulher (Rita Azevedo Gomes, 2012)
02  Era Uma Vez em Nova York (James Gray, 2013)
03  Wolfram – A Saliva do Lobo (Joana Torgal e Rodolfo Pimenta, 2010)
04  O Cavalo de Turim (Bela Tarr, 2011)
05  Mistérios de Lisboa (Raul Ruiz, 2010)
06  Já Visto Jamais Visto (Andrea Tonacci, 2014)
07  O Estranho Caso de Angélica (Manoel de Oliveira, 2010)
08  Além da Vida (Clint Eastwood, 2010)
09  Cavalo Dinheiro (Pedro Costa, 2014)
10  Amanda (Mikhael Hers, 2018)
11  O Gebo e a Sombra (Manoel de Oliveira, 2012)
12  Vocês Ainda Não Viram Nada (Alain Resnais, 2012)
13  O Fim da Viagem, o Começo de Tudo (Kiyoshi Kurosawa, 2019)
14  La Sapienza (Eugène Green, 2014)
15  Cães Errantes (Tsai Ming Liang, 2013)
16  A Portuguesa (Rita Azevedo Gomes, 2019)
17  Imagem e Palavra (Jean-Luc Godard, 2018)
18  O Estranho do Lago (Alain Guiraudie, 2013)
19  Sniper Americano (Clint Eastwood, 2014)
20  Ad Astra (James Gray, 2019)

O que pode mudar? Muitos filmes, e muitas posições. Eu diria que a segunda metade da lista, a metade de baixo, está mais fadada a sofrer mudanças. Principalmente porque não vi filmes que podem beliscar alguma posição, muitos deles surgiram na minha reta final do doutorado, entre 2018 e a primeira metade deste ano, e alguns antes. Isso não quer dizer que Sniper Americano e Ad Astra estejam mais ameaçados. Não sei exatamente quais cairão, uma vez que os filmes de 11º em diante se aproximam muito em qualidade.

O que me interessa, no entanto, não é o que pode mudar, mas o que essa lista prévia revela, para mim mesmo, a respeito do que entendo por cinema, dos meus gostos e defesas.

São sete filmes portugueses, cinco franceses, quatro americanos, um brasileiro, um chinês, um húngaro e mais um japonês.

Passei um ano em Portugal e voltei totalmente rendido à beleza do cinema português? Não necessariamente. Nenhum desses filmes foi visto durante minha estadia do outro lado do Atlântico, e só um deles foi visto depois. Além disso, apesar do doutorado, ainda me sinto mais conhecedor (embora sempre falte muito, não tem jeito) dos cinemas americano e japonês, do que do cinema português.

Para minha surpresa, deu isso. Costumo fazer listas sem a menor preocupação com ausências ou com o que irão falar dela. É meu gosto pura e simplesmente. Porque sempre achei que listas devem refletir gostos, não uma vontade de aparecer ou de ser justo com alguma causa, seja a do cinema brasileiro, seja a de filmes ideologicamente de acordo com o que penso, ou socialmente engajados. É só pelo gosto que se faz justiça em listas. Porque listas são parte de um jogo, uma brincadeira. Deve ser leve, no sentido de nunca talhada em pedra.

E o que entendi com minhas próprias escolhas é que muito do que defendo em cinema é contemplado pela tal de “escola portuguesa”, termo em que as aspas servem para que se entenda o quão plural é essa escola, para além dos enquadramentos rigorosos, da recusa ao naturalismo televisivo e do chiaroscuro. De fato, essa predileção me levou a Portugal para estudar o cinema português, e não o contrário.

É necessário ainda lembrar que a telenovela brasileira Gabriela foi um grande sucesso por lá no final dos anos 1970 e, segundo muitos, definiu os rumos estéticos de boa parte do cinema português. Contra essa estética se colocavam, à época, Manoel de Oliveira, com Amor de Perdição, e João César Monteiro, com Veredas, entre alguns outros (o cinema de António Reis e Margarida Cordeiro, de Trás-os-Montes, e o de Fernando Lopes de Uma Abelha na Chuva devem ser considerados aqui, além dos menos amados A Santa Aliança, de Eduardo Geada, e O Rico, o Camelo e o Reino, filme subestimado do subestimado, por vezes, António de Macedo).

Essa chamada (por eles) “escola portuguesa” está muito bem representada pelos sete filmes escolhidos. E o chileno Raul Ruiz muitas vezes se aproximou dela, então não surpreende que em seu último filme português tenha se aproximado novamente. E representam também muito do que eu defendo que deve ser o cinema. No mais, Rita Azevedo Gomes é responsável pelo melhor cinema contemporâneo, a meu ver, assim como Manoel de Oliveira é um dos meus cineastas preferidos de todos os tempos.

Fim do 14 º Fest Aruanda

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Foram apenas quatro dias (dos sete que envolvem o festival em sua parte nuclear), mas deu para perceber o quanto o Fest Aruanda é especial. Há algo de mágico na cena nordestina. Ela é apaixonada, vibrante e contagiosa. Difícil ficar imune ao cinema feito na região, e em especial na Paraíba, que me parece ser a bola da vez. Mesmo quando os filmes são cheios de problemas, há algo neles que nos conquista. Claro, vistos em festival esses filmes tendem a ser vítimas de uma impressão equivocada. Mas essa impressão pode ser também negativa. Noves fora, posso confiar, por ora, na minha impressão inicial.

Escrevo aqui sobre um festival de filmes brasileiros, mas não necessariamente nordestinos. Ou seja, pode haver filmes de todo o Brasil. No caso, quero dizer que algo dessa paixão e da sede cultural que se respira (e muito bem) no nordeste passa para todo o festival. Fica um clima de comunhão, propiciado também pela vontade de reagir ao crime cultural do novo governo federal e pela consciência de que a cultura é muito importante, economicamente, seja para um país, uma região, um estado ou uma cidade. Essa consciência meio que comanda as reações aos filmes e a cada palavra dita pelos apresentadores, representantes dos filmes selecionados ou homenageados. E contagia até mesmo um observador distante.

Depois tem esses encontros inesperados que fazem toda a diferença e me fazem querer continuar acompanhando festivais. Lúcio Vilar, diretor artístico do festival, disse que fez uma disciplina comigo na USP, em 2011, eu iniciava o mestrado, ele, o doutorado. Depois, um jovem cineasta, Fábio Rogério, sentou ao meu lado no ônibus da volta para o hotel e disse que estava numa palestra sobre crítica que ministrei na UFSCar, em São Carlos, por volta de 2013, 2014, algo assim. Isso me lembra que eu esqueci de pedir o óbvio: o link do curta que ele dirigiu, um dos que perdi.

Passando para os filmes, pude finalmente ver O Barato de Iacanga, longa de Thiago Mattar sobre o Festival de Águas Claras, evento com quatro edições na pequena Iacanga, interior de São Paulo. Problema evidente do filme: a falta de imagens da primeira edição. Passamos para a segunda, a terceira e até mesmo a quarta, mas ficamos sem ver grandes imagens em movimento da edição inaugural, de 1975. As mais documentadas são a segunda (de 1981) e a terceira, de 1983. Elas são as responsáveis pelo festival ter saído de um certo underground (de boas bandas de rock progressivo ou hard rock) para uma ideia mais ampla de MPB, com participações de Alceu Valença, Luiz Gonzaga e João Gilberto, entre muitos outros. Tornou-se um festival mais plural, e isso o filme mostra bem. Como mostra, também, a maneira como o evento envolveu toda a comunidade de Iacanga. O alívio cômico das duas testemunhas das edições é bem-vindo, assim como as breves entrevistas com comerciantes locais. Mas aí surge também um problema, que afeta o filme somente em alguns momentos: a síndrome de Huguinho, Zezinho e Luisinho, que consiste em fazer com que a fala de um entrevistado continue imediatamente a fala de outro. Por sorte, essa mania do documentário televisivo acontece em poucos momentos. No geral, o filme é delicioso de se ver, principalmente para quem gosta de música brasileira.

No dia anterior, consegui acompanhar a sessão Sob o Céu Nordestino, com dois curtas e um longa. Giocondo Dias – Ilustre Clandestino, de Vladimir Carvalho, é decepcionante, no sentido de ser quadrado, extremamente convencional em seus 90 minutos, como uma longa reportagem televisiva. Claro que contém informações importantes. Para mim, uma delas é que Aloysio Nunes, que fez a parte mais destacada de sua carreira no PMDB de Orestes Quércia, ainda sente grande afeto por José Dirceu, companheiro da época em que ambos estavam no PCB. Muda bastante o espectro político, mas a admiração e a amizade continua, o que diz, de algum modo, tanto de Aloysio quanto de Dirceu.

Os dois curtas dessa sessão são Costureiras, de Mailsa Passos, Rita Ribes e Virgínia de O.Silva, e A Ética das Hienas, de Rodolfo de Barros. O primeiro está no velho esquema de entrevistas e  e se não traz invenção alguma, também não desrespeita um nível mínimo de qualidade. Trata-se então de um curta correto, nada mais que isso. A Ética das Hienas também é correto, principalmente no relato das incorreções típicas do Brasil. Um acerto trabalhista para poupar o pessoal da grana. O destaque vai para os atores: Tavinho Teixeira, Marcélia Cartaxo, Suzy Lopes e a nova promessa (ou já mais que isso) Daniel Porpino (protagonista do bom Desvio, longa paraibano da competitiva).

Finalmente, antes de seguir para o aeroporto de Jampa para voltar a Sampa, consegui ver De Longe, Ninguém Vê o Presidente, de Rená Tardin, que havia perdido na sessão de segunda. É um curta poderoso, que usa o áudio do discurso de Lula antes de sua prisão com imagens das montadoras de São Bernardo do Campo. Percebe-se a substituição do homem pela máquina, um dos motores de uma crise difícil de ser solucionada. Mostra também o carisma político de Lula (goste-se ou não dele), e a força de suas palavras e de seu lado comunicativo. O plano mais emblemático de ABC da Greve é inserido perto do final, e cai bem ali, foi uma inserção bem pensada, justa. Afinal, foi ali, em São Bernardo do Campo, discursando para os trabalhadores, que sua carreira de liderança popular se consolidou. As imagens fortes do curta, compostas (e juntadas) com cuidado, abriram uma sessão (a que comentei no último texto, que se encerra apropriadamente com o longa Partida), com quatro curtas e um longa, das mais inspiradas que pude ver em qualquer festival.

Quando o calor é maior no cinema (14º Fest Aruanda)

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O título sugere que os filmes exibidos na noite desta segunda passaram calor para a plateia. E aconteceu isso mesmo. Mas o calor a que me refiro foi causado pelo desligamento do ar condicionado (que já não estava grande coisa) em determinada altura, por causa da reclamação de algum friorento (foi o que me disseram). É o que sempre digo, pessoas friorentas normalmente andam com blusas, casacos, o diabo a quatro. Calorentos como eu só podem sofrer, porque mesmo se tirarmos a roupa no cinema o calor vai continuar. E o calor no cinema ontem era maior que o das ruas de João Pessoa.

Desabafo terminado, e muito suor depois, falemos dos filmes. Estes, brilharam. E o calor que veio deles foi muito mais fácil de receber. Foi uma das sessões mais especiais que já vivi em festivais. Infelizmente, perdi o primeiro dos quatro curtas que compuseram a sessão. O jantar atrasou e a sessão não, mas eu esperava que atrasasse, já que na noite anterior atrasou (e me disseram que nas outras noites também). Lei de Murphy, sabem como é. Felizmente encontrei o produtor no ônibus de volta ao hotel, e ele me prometeu passar o link. Aguardo então a visão de De Longe, Ninguém Vê o Presidente para comentar.

Os outros curtas me pareceram formidáveis, cada um a seu modo. O mais lynchiano é Gravidade, de Amir Admoni. Sempre achei que as melhores animações tendem a ser aquelas em que a trama não pode ser contada com atores. Claro, hoje a tecnologia faz James Dean interpretar de novo, o que para mim é uma aberração. Mas uma animação como Viagem de Chihiro, por exemplo, se beneficia de seu universo fantástico, com o onirismo e a ludicidade dominando a narrativa e amplificando o potencial dos traços. Gravidade me pareceu uma animação com técnica moderna (mas não entendo muito disso). Mas a técnica só importa para técnicos ou animadores. O que nos interessa nesse curta é o universo que ele proporciona. Duas pessoas (parecem homens) caem do céu amarrados por uma corda. Um deles está em cima de uma geladeira. Cai também um rádio gravador (primeira imagem do filme). Alguém observa a queda lá de baixo. Para quem cai, o jeito é relaxar e curtir a viagem.

Um Café e Quatro Segundos, de Cristiano Requião, é mais pé no chão. Sua força está no trabalho dos atores. Osmar Prado e Samir Murad são dois torturadores da época da ditadura militar. Um deles (Samir) está arrependido e amargurado. Não se conforma com as atrocidades que fez. O outro (Osmar) fala que era necessário para deter o comunismo e outras ladainhas desse tipo de gente. É impressionante como acreditamos que Osmar Prado é essa figura asquerosa, fascista e burra. Mas não nos surpreendemos tanto. Afinal, é um de nossos grandes atores.

Por último, Brasil, Cuba, de Bertrand Lira e Arturo de la Garza, encanta pelas imagens levemente embaçadas – um efeito anacrônico que funciona bem ao curta – de uma cidade em Cuba chamada Brasil. Retrato afetuoso de um país que atingiu níveis quase máximos de alfabetização e desconcentração de renda. O custo disso foi o autoritarismo. E o embargo econômico imposto pelos americanos, que não podiam mais explorar os cubanos. O filme é uma sucessão de imagens do cotidiano, tornadas oníricas pela textura do leve embaçamento, na contramão das imagens de Led que chegam de alguns curtas (e das projeções digitais). Achei bem bonita essa opção, mesmo que tenha sido causada por alguma calibragem errada do projetor (mas penso que não). Ficou com ar de tempo sustentado, de uma bolha do bem viver que só é possível na paz, com os cachorros e os velhos convivendo em harmonia.

Partida é o longa inspirado e inusitado de Caco Ciocler. Filme de percurso, de revelação da mentira do cinema, de falsas ficções e falsos documentários, mas também de inquietações e contradições muito reais. No dia do segundo turno das eleições de 2018, dia que vai ficar marcado como o “sim” ao fascismo pelo emburrecido povo brasileiro, Georgette Fadel resolve ir com o diretor e uma trupe ao Uruguai, para encontrar o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica, espécie de mentor de uma esquerda que deu certo, até certo ponto (o ponto que as elites permitem).

No caminho de ônibus (porque essas viagens têm de ser por estradas e não pelo céu), muitas coisas acontecem. Brigas falsas, brigas reais, verdades sendo escancaradas (meio falsas, meio reais) e antagonismos sendo forjados. Há ainda uma menina, simbolizando a esperança do futuro e da juventude (algo que Mujica sentiu, a que retornarei depois). No caminho do filme, as estratégias de falso drama são todas tornadas transparentes. Ouvimos conversas pessoais, telefonemas, relatos que nos informam dos planos para deixar o filme mais interessante. É um jogo o que propõe Ciocler ao espectador, um jogo em que seu próprio estatuto de ator global e pequeno burguês é questionado. A ideia de Georgette de se tornar candidata a presidenta da Brasil em 2022 é bombardeada por sua falta de abertura e calma, e o contraponto é o ator Leo Steinbruch, com o típico discurso reacionário que cansamos de ouvir. Georgette manda bem às vezes, em outras manda o piloto automático das palavras de ordem da esquerda moribunda.

Aplausos em cena aberta aconteceram quando o português mais brasileiro do cinema, o técnico de som Vasco Pimentel, explicou sua visão sobre o Brasil e os brasileiros, e por que gosta tanto de nosso país. Para ele, o Brasil e os brasileiros são um acidente, um povo que não devia existir, que estava destinado a ser explorado pelos portugueses. Muitas coisas derivam dessa condição, mas deixo ao futuro espectador (ou a quem se dispuser a rever o filme) as demais implicações. O fato é que foi uma senhora explanação, típica da erudição portuguesa, com um olhar de fora que só faz bem (que muitos não gostam e até não aceitam por limitação de suas mentes). Essas interrupções, programadas ou não, dão ao filme um tom de brincadeira do acaso que nos envolve e nos mantém presos a esse pequeno exército de Brancaleone.

O encontro com Mujica no final deve levar às lágrimas qualquer espectador com sangue nas veias e consciência do fracasso de nossas esquerdas. Quando ele aparece, a menina logo o abraça, e ele coloca sua mão em cima da cabeça dela, como uma espécie de passagem de cetro, de comunicação de uma ideia que precisa passar para as novas gerações mesmo que pule as gerações intermediárias. Georgette representa duas ou três gerações posteriores a de Mujica. Parece carregar ainda alguns vícios da geração que fracassou na implementação de uma humanidade mais igualitária (teria como não fracassar com a elite nojenta que temos na América Latina?). É necessário então passar a experiência adquirida, de prisão, da luta armada e da presidência, à geração que poderá chegar ao poder dali a 40 ou 50 anos, quando os ricos poderão comprar mais tempo de vida (segundo nos ensina Mujica).

Meu 1º dia no 14º Fest Aruanda: Dia de Desvio

desvio

Quis o destino que a primeira vez que eu viesse acompanhar o Fest Aruanda, em João Pessoa, fosse em sua décima quarta edição. Como já disse aqui ou alhures, 14 é meu número de sorte. Apesar disso, o primeiro terço da viagem de avião foi tensa. Nunca peguei uma turbulência como aquela, e nunca ouvi tantos gritos no avião. Mas passou. Acontece com as nuvens pesadas dos trópicos. Na chegada, um pouco atrasado, deu para ver ainda a última sessão do dia, com dois curtas e um longa, todos em competição. Antes, houve uma homenagem a João Batista de Andrade, com uma fala entusiasmada de Vladimir Carvalho. (imagino que Linduarte Noronha tenha sido o homenageado na primeira edição)

Os dois curtas são Quitéria, de Tiago A. Neves, e Balão Azul, de Alice Gomes. O primeiro é paraibano e conta a história do renascimento de uma mulher, que vivia em preto e branco, mas por resolução própria e força de vontade, resolve romper o monocromatismo para descobrir a cor em sua vida. Um tanto trivial a simbologia, mas no curta até que se resolve bem. E o diretor ainda tem a audácia de um movimento de câmera acintoso no final, marcando o renascimento.

Balão Azul é um filme infantil, com poesia idem. Não é mal dirigido, mas também não apresenta nada que seja marcante. O curta me pareceu um descanso entre a intensidade de Quitéria e a do longa paraibano que encerrou a sessão, como uma faixa de melodia mais morna entre dois petardos em um disco de rock (e falar de rock vem bem a calhar na preparação para o longa).

Desvio é esse longa, e foi dirigido por Arthur Lins com um tom que lembra bastante os primeiros filmes do Wim Wenders. Para completar a ligação, basta trocar o rock sessentista dos Kinks e do Lovin’ Spoonful pelo hardcore underground paraibano. Não é fácil imprimir esse tom de recorte, uma coisa meio cotidiana meio acerto de contas, por todo o tempo, e é compreensível que o filme patine um pouco no começo. Mas também no começo (no primeiro terço, mais ou menos) fica claro que ele é capaz de fazer alguns voos, principalmente na relação dos primos Pedro, que teve um indulto de natal em seu regime de prisão semi-aberta, e Pâmela, adolescente que não quer seguir os rumos dos pais e suas festas em igreja. Há uma cena de assalto que não é de todo bem realizada, mas não compromete. O pós-assalto, com a queimação do carro é um dos pontos altos do filme, e o corte certeiro nos leva para longe dali, da noite para o dia, encerrando a sequência de um modo bem convincente. Essas escolhas de planos e cortes elevam o filme e promovem um crescendo interessante, culminando em um final prosaico que cabe bem ao longa. Uma surpresa (se é que dá para falar em surpresa relacionada ao cinema paraibano a esta altura).

 

Sexta-feira, 15 de novembro de 2019

fordferrari

15h: Entro na demorada fila para ver Ford vs. Ferrari no Cinemark Mooca, um dos únicos cinemas que gosto dessa rede porque os filmes geralmente passam legendados e a projeção é melhor que a de outros cinemarks (talvez por ser um shopping mais novo). Na hora de escolher o lugar, essa prática maldita de nossos cinemas, noto que a sala está bem cheia, e escolho um lugar estrategicamente distante, na segunda fileira, onde ninguém mais senta. Para minha surpresa, o lugar não é ruim, pelo contrário. De lá vi o filme muito bem.

15h40 até 18h30, aproximadamente: Vejo o filme inteiro, que vai fácil apesar de suas duas horas e meia de duração, também porque a plateia estava silenciosa (o que é surpreendente para um shopping em feriado) e ri nos momentos que é para rir (não aquela riso de bobo alegre que nos acostumamos a ver nos cinemas paulistanos). Mais sobre o filme em breve no Olhar Digital. Mas adianto que Mangold dirige sobriamente, Matt Damon está ótimo e Christian Bale exagera na pose de matuto. Saio do cinema e o Shopping está tão cheio que penso logo em fugir dali. Ainda deu tempo de ver que na Saraiva estavam vendendo o Blu-ray de Coração Selvagem, do Lynch, por R$ 4,90.

Por volta das 23h30: Em casa, revejo o terço final de Um Olhar do Paraíso, de Peter Jackson, exibido pelo suspeito canal Paramount. Em dado momento, minhas suspeitas se confirmam: um comercial nada a ver entra num momento importante do filme. Mais tarde, antes mesmo de começarem os créditos finais, novo intervalo comercial intrusivo. Volta depois de uns 5 minutos com os créditos tão acelerados que é impossível ler um nome sequer. Termino pensando que se isso não é considerado um crime autoral pior que a pirataria, deveria ser.

Finalizando Gostoso

ambiente

Para encerrar a cobertura Gostoso 2019, resta falar de um longa visto, o paraibano Ambiente Familiar, de Torquato Joel.

Torquato fazia cinema na Paraíba antes que o estado fosse reconhecido como novo polo cinematográfico. É um veterano, da geração dos anos 1980, junto com Marcus Vilar. Torquato Joel procura, desde os seus primeiros filmes, imagens e narrativas poéticas. Ambiente Familiar não é diferente. Três amigos procuram superar coisas mal resolvidas de seus passados, vivendo juntos, como uma família. Os flashbacks são pretextos para brincar com o enquadramento (1.33:1) e criar imagens impactantes, embora nem sempre inteligíveis. Normalmente a falta de inteligibilidade não interfere no nosso julgamento, principalmente quando for resultado de algum recurso artístico ou cinematográfico. Mas por vezes notamos que é apenas um atalho para não precisar estruturar melhor a narrativa. Em Ambiente Familiar, às vezes tive essa impressão. Mas no geral é bem digno, até por sua pesquisa visual. Não é um filme fácil, e dos quatro longas da Mostra Panorama, é o único que não ficaria bem na Mostra Competitiva (imagino a plateia na praia se dispersando e dispersando os espectadores interessados, não ia funcionar).

Finalmente, a Mostra de Cinema de Gostoso, em sua sexta edição, confirma sua vocação de importante festival de cinema brasileiro. Mas como escrevi no balanço publicado na Folha de S.Paulo, é necessário tomar cuidado com o crescimento, que é bacana e bem-vindo, mas traz consigo alguns perigos. No ano passado foram 450 cadeiras na praia. Neste ano foram 650, e as sessões continuaram lotando. Isso é bom, claro. Devem ser criadas condições de receber essas pessoas, porque seria bom que elas aparecessem, principalmente do estado potiguar – mas por que não de todo o Brasil? Mas a Mostra não pode perder sua cara, seu foco. Se ganhar mais um dia, um outro filme na competição não faria mal. Se Gostoso começar a exportar cineastas (o que já se revelou uma possibilidade concreta), deve-se cuidar para que o coletivo não perca seu foco e sua força, que está na humildade e na vontade de aprender. O coletivo Nós do Audiovisual é uma pepita que precisa ser cuidada com carinho. Pelo que vi neste ano, a Mostra está no caminho certo.


P.S.

Há ainda os filmes da Mostra Panorama que eu havia visto em outras ocasiões. Então seguem links para os textos que fiz sobre: Diz que me Viu Chorar, de Maíra Bühler (https://sergioalpendre.com/2019/06/08/olhar-de-cinema-dias-1-e-2/), A Mulher da Luz Própria, de Sinai Sganzerla (https://sergioalpendre.com/2019/06/11/olhar-dia-5-matsumoto-sganzerla-ignez/) e Chão, de Camila Freitas (https://sergioalpendre.com/2019/06/12/olhar-dia-6-enquanto-estamos-aqui-o-sol-queima-o-chao/).

Ainda Gostoso

fendas

Fendas (foto), de Carlos Segundo, é um filme da consciência do mal-estar, da reordenação de uma vida, da tentativa de se encontrar em um território estranho e desafiador para renascer após um relacionamento fracassado. Um filme da procura.

Como tantos outros filmes assim, é necessário que nos identifiquemos com quem procura. No caso, precisamos ter empatia pela protagonista Catarina, uma pesquisadora de física quântica que está em Natal, onde também dá aulas para um único aluno. Poderia ser uma personagem em crise, e é, mas a crise já está dada e o que vemos é o movimento de saída da crise.

Sua pesquisa, para qualquer leigo no assunto que se interessa por arte, é buscar algum sentido na abstração. Ela amplia videos filmados (por vezes até do filme que estamos vendo, numa interessante brincadeira com as instâncias) até que as imagens se tornem borrões e os sons se tornem pouco ou nada identificáveis. A procura por um sentido na abstração da imagem e do som, mas também a procura por um sentido na abstração que é a mente humana, com seus desejos inconfessáveis e traumas por vezes difíceis de se explicar.

E o sucesso do filme passa pela excelência da interpretação de Roberta Rangel (atriz que nos lembra da saudosa Anecy Rocha, até pelo corte de cabelo). Sua personagem é composta de uma forma interessante, ainda que com alguns exageros – o grito com o email revela um desespero meio forçado, que não condiz com os momentos em que ela se encontra sozinha, contemplando belas vistas. A fala final poderia soar panfletária caso a atriz não tivesse sido feliz na composição dessa personagem. Ou seja, tudo que vemos antes, suas conversas e seus gestos, nos leva a essa frase, e com ela a um rompimento definitivo. A atriz faz com que a frase tola fique bem na fita, porque todos nós dizemos frases tolas, chavões de autoafirmação. E o dela, naquele momento, é plenamente justificável.

Os outros longas da competição são Casa, de Letícia Simões, e Pacarrete, de Allan Deberton. Bahia e Ceará na fita. Sobre o primeiro, escrevi brevemente durante o Olhar de Cinema de Curitiba, isto aqui:

“No filme brasileiro [Casa], filha, mãe e avó se encontram em Salvador e lidam com suas diferenças, principalmente entre a mãe e a avó, sendo que a filha é Letícia, a diretora do filme. Mas o encontro começa em 2015 e termina em 2017, com a avó já falecida. Há uma insistência em enquadramentos que cortam personagens. Num dos planos mais interessantes, vemos mãe e avó e só a ponta do nariz de Letícia (e mais alguma coisa de seu corpo), indicando que a diretora quer mesmo é jogar os holofotes naquelas que entende ser suas melhores personagens. De fato, são duas das personagens mais cativantes do cinema brasileiro recente. E se digo personagens é porque a verdade que elas mostram ali é claramente encenada para a câmera, pelo menos da parte da mãe, mais consciente de seu carisma (um carisma um tanto vilanesco, como a filha pretende forçosamente fazer-nos crer). Casa não é tão forte quanto o outro brasileiro da competição [Diz a Ela Que Me Viu Chorar], mas é bem digno. Se o filme mostra que o cinema baiano continua pulsante, mostra também que a crise de imaginário do cinema brasileiro recente continua, o que faz com que jovens cineastas muitas vezes procurem o real a qualquer custo, inventando a partir dele (isto está também no outro brasileiro do dia). Pelo menos agora já se trabalha melhor dentro desse registro.”

No debate aqui em Gostoso, (não vi debate algum, um pouco pelo calor do local onde eles são feitos, outro pouco por falta de tempo, e um outro pouco porque não tinha como ver todos, e ou via todos ou não via nenhum) disseram-me que a diretora pretendia que fosse ela a vilã do filme. Um tanto difícil num filme em primeira pessoa, mas pelos relatos que ouvi isso fez com que muitos desculpassem a falta de paciência demonstrada por ela (e das pessoas com ela) no convívio com as demais personagens. Pessoalmente, não sei se é necessário encontrar um vilão no filme. Quando falei em “carisma um tanto vilanesco” estava pensando mais na instância das pessoas tornadas personagens, não nas pessoas da vida real. A câmera muda o estatuto delas, e nada de errado, penso, em fazer com que a mãe seja levemente distorcida com esse filtro. Como também não me incomodo com a primeira pessoa, que é o agente promotor dessa distorção.

Sobre o outro longa, aquele que abriu a competição, e o quarto dessa mostra, escrevo agora.

Pacarrete é um presente para Marcélia Cartaxo. Uma possibilidade de atuação tão marcante quanto a de A Hora da Estrela, com a qual a atriz se consagrou no cinema. O público reconheceu. A crítica também. Há certo exagero na saudação do filme como uma obra-prima, mas quanto a isso já estamos acostumados.

A arquitetura da casa onde vivem Pacarrete (Cartaxo) e sua irmã Chiquinha (Zezita Matos) permite alguns planos bem estranhos, como aquele em que Maria, a faz tudo da casa, vai atender à campainha (a mesma que toca depois, soada pelas crianças que fogem) enquanto as irmãs estão postadas uma em cada cômodo entre a cozinha e a sala de entrada. Pacarrete de pé, à beira da pia, um pouco sem jeito por ter destratado Maria e em seguida saído de casa. Chiquinha à espera de algum entendimento entre as duas e feliz pela volta da irmã. Um plano bem estranho, mas que ajuda a montar o clima meio onírico que perpassa o filme e se consagra na metade final, e principalmente na cena final.

Num outro momento, após um acontecimento muito triste, Pacarrete põe-se a lavar a calçada, procurando um gesto mecânico que a faça esquecer a tristeza. Um momento de poesia que vem naturalmente, de pura observação do cotidiano, valorizado por uma atriz no auge de sua arte.

Marcélia Cartaxo é também a responsável por evitar o desequilíbrio do conjunto. Sua personagem beira o histrionismo, e a possibilidade de overacting era gritante, assim como a possibilidade de desequilíbrio, da atuação se sobressair ao filme. Com sua interpretação nuançada, dentro da personalidade forte de Pacarrete, ela consegue fazer com que tenhamos raiva das decisões da personagem, mas não da personagem em si. Faz com que procuremos entendê-la insistentemente, porque não temos a vontade de abandoná-la. Isso também possibilita um final de intensa poesia, que num tom errado poderia descambar para o patético, o que felizmente não acontece. Trabalhar assim, próximo ao risco, dignifica um autor em potencial e o prepara para audácias maiores.

Ou seja, Pacarrete é filme de atriz-autora, quase “um filme de Marcélia Cartaxo”, mas em certo sentido é exatamente isso. E pode ter provocado, da parte do diretor em seu primeiro longa, pela contensão e sábio entendimento de que o brilho maior precisava ser dela, o surgimento de um cineasta a ser acompanhado.