A Chegada é Amy Adams

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Se dependesse exclusivamente de Denis Villeneuve, A Chegada seria uma bobagem na linha de Interestelar. Villeneuve parece que só tem capacidade para fazer elipses, e ainda assim elipses óbvias. Quando não está apto a fazer seus malabarismos vazios, depende demais de bons roteiros e atores, como em Os Suspeitos, seu melhor filme.

Mas A Chegada tem Amy Adams, uma das raras atrizes capazes de impor seu ritmo à direção e com isso levar um filme inteiro nas costas. É sua respiração que acelera ou cadencia o filme. É por causa dela que nos emocionamos, pois quando a vemos em cena nunca vemos uma atriz desempenhando um papel, mas uma mãe, uma tradutora, uma cientista, em suma, uma mulher forte e dedicada no trabalho, com sensibilidade e inteligência para driblar as burrices e patadas dos brutamontes do exército ou dos pé-na-porta da CIA.

Não haveria homem para lhe fazer par no filme, e não há de fato. Jeremy Renner não é um mau ator, mas perto dela fica parecendo uma biribinha. Seria preciso um ator de maior presença, não necessariamente beleza: um Hugh Jackman, um Benício Del Toro (se não estivesse tão associado a bombas fílmicas) ou algo assim. Melhor ainda um Clint Eastwood, se pudesse ser transportado dos anos 80. Ou seja, para contracenar com uma atriz como Amy Adams, uma vez que o roteiro impõe essa necessidade de contraponto masculino, seria preciso um ator igualmente raro, que no momento não me vem à mente (Jackman e Del Toro são bons, mas não raros).

O risco de desequilíbrio sem esse ator era grande. Mas mesmo esse risco ela conseguiu evitar. Seu gigantismo em cena é generoso o suficiente para permitir ao menos uma interpretação digna de Renner. A se notar que até o maravilhoso Forrest Whitaker fica pequeno perto dela, o que torna a cena em que há o primeiro contato entre os dois bem engraçada, com ela tremendo de medo de assumir a tarefa e ao mesmo tempo encarando e jogando uma charada para aquela presença inicialmente ameaçadora.

Enquanto houver atuações como as dessa atriz que parece melhorar a cada ano, Hollywood ainda não terá atingido o fundo do poço. Se o filme não é grande coisa é porque todo o resto não ajuda muito. Mas ela consegue ao menos fazer com que a sessão passe sem maiores dissabores. É a arte de Amy Adams que acompanhamos por quase duas horas.

Top 10 Nagisa Oshima

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Na revisão de vários filmes de Nagisa Oshima, mudou consideravelmente o entendimento que eu tinha de seu percurso cinematográfico. Até este ano, considerava suas melhores fases as que compreendiam os anos de 1960 e 1961 e os anos de 1967 e 1968. Agora, considero que seu ápice se deu entre 1969 e 1971, principalmente pelos filmes das pontas, o primeiro e o terceiro que realizou nesse período: O Garoto e Cerimônias, tendo um belíssimo O Homem que Deixou seu Testamento em Filme no meio.

Muitos podem argumentar que esses dois filmes da ponta são mais palatáveis para um circuito de “cinema de arte” (não gosto da expressão, nem do conceito, mas uso aqui para facilitar o entendimento), que já começava a se fortalecer naquela época. É verdade. Mas esses filmes mostram uma maturidade que faltava nos períodos anteriores, mesmo nos melhores filmes. Cerimônias é impressionante, todo estruturado em flashbacks e cerimônias para entendermos o desfacelamento de uma família. Não encontrei nada sobre, mas poderia apostar que Oshima pirou em Os Deuses Malditos, de Luchino Visconti, que me parece ser a maior referência para seu maravilhoso filme.

O Império da Paixão é outro belíssimo filme e é ainda mais formatado para um circuito de arte já fortalecido em 1978. Mas continuo não engolindo Furyo (ainda mais formatado), apesar de reconhecer nele belos momentos.

Para aqueles que esperam ansiosamente, como eu, pelo novo longa de Scorsese, O Silêncio, vale ver ou rever o longa que Oshima fez em 1962 sobre o período de perseguição dos cristãos no Japão, durante a era Tokugawa. Chama-se O Rebelde, e é o décimo colocado em minha lista (e o responsável por deixar filmes belíssimos como Canções Lascivas do Japão, Túmulo do Sol fora dos dez mais, pelo menos nesta semana).

1) Cerimônias (Gishiki, 1971) – foto

    O Garoto (Shonen, 1969)

3) Noite e Névoa no Japão (Nihon no Yoru to Kiri, 1960)

4) O Enforcamento (Koshikei, 1968)

5) Duplo Suicídio Forçado: Verão Japonês (Muri-Shinju: Nihon no Natsu, 1967)

6) A Presa (Shiiku, 1961)

7) Três Bêbados Ressuscitados (Kaette Kita Yopparai, 1968)

8) O Homem que Deixou seu Testamento em Filme (Tokyo Senso Sengo Hiwa, 1970)

9) Conto Cruel da Juventude (Seishun Zankoku Monogatari, 1959)

10) O Rebelde (Amakusa Shiro Tosikada, 1962)

A arte do “como”

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Acredito que o cinema seja a arte do “como”, não a arte do “quê”. Isso quer dizer que não importa tanto o que se mostra, mas como se mostra. Ou seja, não importa a história, mas a maneira como ela é mostrada. Por outro lado, não importa tanto “como” se fez determinado plano (como, tecnicamente), mas “por que” se fez. Fiquemos, por enquanto, com a primeira formulação.

Revi O Homem das Novidades (The Cameraman, 1928), o primeiro filme de Buster Keaton para um grande estúdio, a MGM. Sabia que no clímax, quando ele abandona a manivela da câmera e vai salvar a moça sem ficar com o crédito pelo salvamento (todinho com o rival, que nadou de medo para a margem e só muito depois foi ver se ela estava bem), o macaquinho tinha filmado tudo. Só não lembrava “como” isso era mostrado. A câmera está em Keaton, enquanto ele está desiludido porque a moça foi embora com o que ela acreditava ser seu salvador. Sem corte, a câmera faz um travelling de recuo pela margem até enquadrar o macaquinho girando a manivela, mas mantendo no quadro o nosso herói, ajoelhado, destruído, numa bela composição.

Claro que essa revelação poderia ter sido filmada de outro jeito. Mas Keaton sentiu a necessidade de mostrá-la no mesmo plano, mantendo a relação da câmera do filme com a represa sem que um corte desse ao espectador a impressão de pulo. Sábia escolha.

Pensamentos rápidos sobre a qualidade da imagem

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Cena de grande violência em O Túmulo do Sol, de Oshima

Reparo que hoje a maior neurose entre os cinéfilos é a qualidade de imagem. “Não é 1080p? Puxa, ok, pelo menos dá para quebrar o galho com uma cópia 720p”. E no fundo esses pequenos “pês” indicam mesmo uma diferença, assim como o formato de compressão. É melhor ver um mkv do que um avi. O sistema de compressão do matrioska é muito melhor. Mais ainda se for 720p (HD) ou 1080p (Full HD) no lugar do 480p que é do DVD, ou menos, como a maioria das imagens no YouTube.

Mas penso que o maior ganho está na passagem do VHS para o DVD, e não só pela definição superior do último, mas principalmente pelo respeito da maioria dos DVDs (algumas majors e distribuidoras de fundo de quintal a parte) ao formato de tela, o velho e bom aspect ratio. Sempre pensei ser o mais importante nos filmes. Desde que, no início da cinefilia, uma fita em que tinha gravado A Queda do Império Romano do canal Mundo, que o exibiu em scope, acabou antes do fim e eu tive de terminar o filme com uma antiga gravação da TV aberta, em fullscreen. Virou outro filme, e muito pior.

Digo isso também porque revi trechos de O Túmulo do Sol (1960), terceiro longa de Oshima, numa cópia tirada de VHS, sem muita definição, mas com o formato scope preservado. E a grandeza do filme continua lá, intacta, com o quadro pensado por Oshima sendo respeitado o tempo todo. Claro que algumas cenas escuras sofrem com isso, mas o essencial pode ainda ser visto.

Então muitas vezes acho que todos nós andamos meio chatos com esse negócio da qualidade da imagem, quando vemos filme em casa. Justamente porque a vantagem da tela pequena é comportar qualidades diversas sem muita perda, ao passo que no cinema, se o projetor estiver descalibrado e a imagem muito estourada (raramente acontece) ou muito lavada (o que é mais comum), nossa experiência é bem mais prejudicada porque essas distorções irão gritar na tela grande. Sei, contudo, que sou minoria nessa questão.

Comentário sobre Elle e Verhoeven

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Elle vem dando o que falar. Paul Verhoeven conseguiu dividir feministas. Algumas dizem que o filme é misógino, outras o consideram feminista. Acho que é o suficiente para que se estabeleça a dúvida, não? Ou ninguém mais quer ouvir o outro? Teve crítica dizendo que olhar masculino não pode mais no cinema. O que, sinceramente, eu não entendo. Todo olhar é válido.

Sempre entendi Verhoeven como um misantropo, que se revela mais em alguns filmes (Spetters, O Quarto Homem, Robocop, O Vingador do Futuro, Homem Sem Sombra) e parece ter recaídas humanistas em outros (Louca Paixão, A Espiâ). Em Elle, espécie de versão em reverso de O Quarto Homem, volta à misantropia que marcou boa parte de sua carreira e apresenta um filme cheio de personagens negativos, com uma única pessoa do bem: Anna, interpretada por Anne Consigny. Todas as demais são desprezíveis. Até mesmo quem, num primeiro momento, não parece ser.

Como bom misantropo, Verhoeven busca confundir mentes confortáveis com altas doses de ambiguidade, que fazem com que qualquer julgamento determinante (feminista, machista, misógino) possa ser desmentido com uma simples revisão atenta do filme. Tem alguns descuidos (personagens caricatos demais, situações que poderiam ser melhor desenvolvidas, peças mal colocadas num tabuleiro imaginário da transgressão – por um engano tinha escrito “transcrição” no lugar de “transgressão”, ainda quero entender por quê), não atingindo o nível de inteligência que Sniper Americano atingiu nesse sentido. Por isso gosto de Elle com ressalvas, apesar de uma cena antológica como aquela em que Michèle e o vizinho fecham as janelas (em compensação, os momentos de vulgaridade que funcionam tão bem em Instinto Selvagem e Showgirls aqui simplesmente não colam).

Além disso, parece que de repente Verhoeven virou queridinho da cinefilia. Desconfio bastante dessas reviravoltas do gosto. Alguns cineastas saem de moda com muita facilidade. Outros transformam-se em intocáveis. O diretor ainda está longe de ser aquele dos anos 80 e 90. Mas pelo menos se recuperou do sofrível Traição, e continua filmando, ainda que dê a impressão que qualquer coisa que ele fizer será defendido apaixonadamente por parte da crítica. Está na hora de ele fazer o seu Saló.

TOP 10 Verhoeven

1) Robocop (1987)

2) Tropas Estelares (Starship Troopers, 1997)

3) Showgirls (1995)

4) A Espiã (The Black Book, 2006)

5) O Quarto Homem (The Fourth Man, 1983)

6) O Vingador do Futuro (Total Recall, 1990)

7) Instinto Selvagem (Basic Instinct, 1992)

8) Louca Paixão (Turkish Delight, 1973)

9) O Amante de Katie Tippel (Keetje Tippel, 1975)

10) Soldado de Laranja (Soldaat van Oranje, 1977) + Spetters (1980) + Elle (2016)

Obs.:

– Do terceiro ao quinto temos praticamente um empate técnico. As posições poderiam ser invertidas com tranquilidade.

– O empate na décima posição foi uma solução fácil para a dúvida sobre qual escolher. Ainda não revi Elle, e nunca revi Spetters, mas Soldado de Laranja cresceu consideravelmente na revisão de alguns anos atrás.

Muitos sentimentos conflitantes

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Fishermen at Sea, de Joseph W. Turner

A realização profissional segue impulsionando minha vida. Convites estimulantes para cursos e textos, projetos igualmente estimulantes com amigos muito queridos, olhos brilhando de alunos – não por eu ser um oráculo (longe disso), mas por uma paixão em comum: o cinema.

Contudo, impossível estar plenamente realizado, ou mesmo feliz, com o mundo ruindo ao redor. E além de todos os acontecimentos tenebrosos dos últimos meses, recebo agora a notícia do falecimento de Leonard Cohen, o grande trovador, o único capaz de se igualar a Bob Dylan e Lou Reed na arte de cantar poesias sobre a dor humana.

A dor pode inspirar, e por isso (graças a isso) este blog deve finalmente retornar aos eixos e ser mais alimentado por textos. A dor e os clássicos japoneses (Não Lamento Minha Juventude, que filme maravilhoso que se revelou na revisão, Setsuko Hara em interpretação inesquecível) e americanos para os cursos em andamento.

Um novo curso surgirá em dezembro, provavelmente o último que darei neste ano:

Introdução à Crítica Cinematográfica

40ª Mostra SP

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Muitos leitores e alunos me pedem indicações para a Mostra. Não pretendia fazer, pois não costumo esmiuçar a programação e tá cheio de dicas por aí. Mudei de ideia porque cada indicação tem seu valor independente, desde que não seja movida apenas por premiações ou elogios da crítica internacional (instituições cada vez mais lamentáveis).

A mostra chega aos quarenta ainda tentando driblar a regra do ineditismo que está sempre a ameaçando no quesito relevância. Os filmes mais badalados têm ido para o Festival do Rio, que sempre foi mais pop. Acontece que nem sempre os filmes badalados são os melhores. Diria até que não acontece com tanta frequência de serem mesmo bons. Mas o drible consiste em duas estratégias que se completam: apostas em filmes menos badalados, talvez secretos, o que, com a decadência da crítica, podem ter sido negligenciados em favor de bombas e filmes da moda; apostas em homenagens e sessões especiais como forma de justificar a inclusão de filme já exibido no Rio.

Divido este post em dois: os filmes novos e os filmes das retrospectivas.

Filmes novos

Kiyoshi Kurosawa surge com um de seus dois últimos flmes, O Segredo da Câmara Escura (o outro passou no Rio). Empata. O mais recente longa de Eugène Green não é bem badalado, mas é de um diretor que deveria ser badalado, e passou só no Rio, infelizmente. O novo do Johnnie To também.

Fazendo uma homenagem a Jim Jarmusch, a Mostra deu um jeito de também exibir seu comentado Paterson, e essa é uma estratégia que deveria ser mais usada. Sempre há a desculpa, muito válida, de que “não é inédito, mas passa aqui como parte de uma programação especial”. Vale ver ainda, de Jarmusch, Estranhos no Paraíso e Daunbailó. Pena que seu melhor longa, Ghost Dog, esteja ausente. Não sei se é possível considerar que há uma retrospectiva Jarmusch. Me parece mais um meio termo indefinível. Não importa o pretexto para que se exiba seus primeiros filmes.

Elle, de Paul Verhoeven, é uma das maiores atrações da Mostra, mas deve estrear, com muito menos filas, logo após o término do evento. Melhor se concentrarem, nesse caso, na exibição de O Quarto Homem, melhor filme holandês do diretor (a se lamentar não ter uma retrospectiva completa de Verhoeven, como foi dito à boca miúda).

A seleção portuguesa está melhor que a do ano passado. Não tem filme póstumo (e genial) de Manoel de Oliveira, mas tem o belo O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu, de João Botelho. Tem ainda o imperdível Correspondências, último de Rita Azevedo Gomes, uma das diretoras mais importantes deste século, e o ainda não visto, mas já recomendado, pelos outros filmes da diretora, Eldorado XXI, de Salomé Lamas. Porto, de Gabe Klinger, uma coprodução Portugal/EUA, vale ser conferido também. E já li coisas boas de Cartas de Guerra, de Ivo M.Ferreira. Vamos ver.

Deste lado do Atlântico, o interesse maior deve ficar com Beduíno, de Júlio Bressane, Martírio, de Vincent Carelli, e Guerra do Paraguay, de Luiz Rosemberg Filho. E também com os curtas do grande Aloysio Raulino (e com outros antigos que serão exibidos, vá lá). Há outros (longas de Rodrigo Grota e Cristiano Burlan, curta do Bodanzky, além de alguns recentes do novíssimo), mas nada que não seja possível ver em outra ocasião, com mais calma. Decepcionei-me com A Cidade do Futuro, de Cláudio Marques e Marília Hughes, os diretores do excelente Depois da Chuva. Idem com O Último Trago, dos irmãos Pretti mais Pdro Diógenes. Mas diria que vale arriscar os dois, para saber a quantas anda nossa produção jovem em sua frente mais animadora.

Claro que não se pode esquecer Paul Vecchiali, que voltou aos holofotes nos últimos anos com Noites Brancas no Píer e É o Amor, e agora chega com O Ignorante (que era O Cancro, nome mais divertido, mas acho que ficou só para Portugal). Nem os irmãos Dardenne, representados por A Garota Desconhecida. O novo de Valérie Donzelli é mais arriscado. Gosto de A Guerra Está Declarada, mas desconfio de suas preferências formais. A ver seu recente Marguerite e Julien.

Lav Diaz chega com um longa de oito horas muito bem cotado, mas não recomendo. Para mim, Diaz é um embuste. Veja por sua conta e risco. Quase o mesmo posso dizer dos filmes do casal Nicolas Klotz e Elizabeth Perceval. Não são um embuste, mas não recomendo. Brillante Mendoça não dá.

Dos americanos, eu apostaria em Animais Noturnos, pois Tom Ford é um diretor interessante. E nos filmes do já mencionado Jim Jarmusch (bom reforçar).

Tem filmes de diretores irregulares que vale conferir, caso estejam com tempo para ver muitos filmes. Jodorowski, Asghar Farhadi, Bahman Gobadi, Kore-eda. Vai que desta vez acertaram.

Fora esses todos, não recomendo seguirem premiações em festivais X ou Y ou indicações ao Oscar de filme estrangeiro. Não confio em premiações e por isso nem tomo conhecimento delas. Mesmo quando certas, não sei ao certo se foram movidas pelos critérios mais nobres, seja lá quais forem. E acredito que as premiações justas serão sempre minoria.

Retrospectivas

De Marco Bellocchio, vale destacar não só sua retrospectiva, com os essenciais De Punhos Cerrados, A China Está Próxima, A Hora da Religião e Vincere, como os dois últimos que realizou, Sangue do Meu Sangue e Belos Sonhos, que, aliás, deveriam estar no primeiro bloco, mas coloco aqui para fortalecer a recomendação em Bellocchio.

Na retrospectiva Andrzej Wajda, gosto particularmente de Kanal, Cinzas e Diamantes, Cinzas e O Homem de Mármore, com o senão de que não os revejo há mais de vinte anos. Vale programar, se possível, Geração, Terra Prometida, O Casamento, Os Inocentes Charmosos, Os Possessos e Paisagem Após a Batalha. Inácio Araujo fala maravilhas do Katyn, que eu nunca vi. Mas vi Sem Anestesia, e posso dizer: fujam. Também não sou muito chegado em Danton – O Processo da Revolução. Dos outros filmes da retrospectiva, ou não vi (dos anos 90 pra cá) ou acho bons, mas longe de imperdíveis (com o mesmo senão dos vinte anos).

Krzysztof Kieslowski era bom em sua terra natal, a Polônia, antes de concorrer com perfumarias francesas. Dele vale ver ou rever a série Decálogo, feita para a TV. Se não der pra ver tudo, deixe aqueles que foram alongados para cinema, Não Amarás e Não Matarás (que, entretanto, são muito bons), e veja pelo menos os dois últimos episódios. Além disso, terá uma sessão de curtas com o sensacional Sete Mulheres de Diferentes Idades.

Finalmente, de William Friedkin, necessário rever principalmente Operação França e Parceiros da Noite, mas também O Exorcista, O Comboio do Medo e Viver e Morrer em L.A.. E passar longe de Possuídos e Killer Joe. Se pelo menos exibissem Caçado… Acho que é o único pós Viver e Morrer que recomendo sem titubear.

Eterno retorno

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Muito trabalho é bom, não me queixo. Mas este blog sofre um pouco com isso. Os cursos se aproximam, os prazos de textos idem, e o blog permanece sendo menos atualizado do que eu gostaria. No futuro, voltarei aos posts à moda Chip Hazard, ou seja, tops e brincadeiras como a do gosto/não gosto. É uma maneira de deixar a porta sempre aberta. Por enquanto, no velho estilo de atualizações, mantenho o leitor informado de meus últimos passos nesse terreno cada vez mais árido da cinefilia.

O Silêncio do Céu é uma surpresa. Marco Dutra deu um passo essencial para o cinema de gênero no Brasil: lidar com as coisas sem firulas, diretamente, incisivamente. A atmosfera é preparada para que algo aconteça, e algo acontecerá. Algo decisivo, para todos os envolvidos no estupro de uma mulher. O marido, que viu parte do estupro, mas não foi rápido e corajoso para agir enquanto era tempo. Os estupradores, que despertaram a fúria do marido e passam a ser perseguidos por ele. A esposa, que não sabe que o marido sabe do estupro e prefere manter-se em silêncio, como ele. Esse silêncio ameaça romper a relação e é o ponto nodal de um filme cheio de complexidades. Se mal filmado, tudo estaria perdido. Felizmente, Dutra revela um claro progresso na direção. Fez um filme maduro, cheio de não ditos e hesitações, além de uma bela homenagem a De Palma no clímax.

– Um dos maiores benefícios da internet é possibilitar que vejamos filmes em casa, em boa qualidade, antes até do que em suas estreias comerciais ou festivaleiras. A diferença da tela grande, convenhamos, é cada vez menor, uma vez que o DCP tende a igualar tudo e um mkv numa tela de computador ou TV bem calibrada produz uma imagem fantástica. Claro que alguns filmes precisam da dimensão da tela, mas a qualidade das cópias que têm saído compensam bastante essa defasagem, quase a anulam. Ou seja, o cinéfilo de uma pequena cidade no interior de Tocantins pode ter a mesma experiência que o cinéfilo de São Paulo ou Rio de Janeiro, embora este possa sempre se gabar, um tanto tolamente na maioria das vezes, de ter visto o filme numa tela grande. Sempre achei que ver filme do lado de pessoas desconhecidas, que não prezam pelo mesmo amor que eu por cinema e por isso não têm o menor respeito pela ideia de ver um filme em silêncio, atrapalha muito mais a experiência do que uma tela pequena, residencial. Agora, com a maturidade forçada pelas quatro décadas e meia de vida me trazendo também mais irritações com pessoas mal-educadas, digo sem pestanejar que prefiro, normalmente, ver uma boa cópia na minha casa do que uma boa projeção de um DCP. Como as projeções de DCP que tenho visto, na maior parte, tendem a ser lavadas ou muito saturadas, a disputa fica um tanto injusta para o lado de minha casa (já fiz essa experiência diversas vezes com filmes recentes, e quase sempre a cópia doméstica é melhor que a projetada).

– Disso vem um outro pensamento. Os cinéfilos de São Paulo ou Rio de Janeiro que mantêm a curiosidade de ver as estreias cinematográficas da semana ou ver o maior número possível de filmes nos festivais de cinema só conseguem uma coisa com isso: poluir cada vez mais o olhar, deixando-o despreparado e afeito a aceitar qualquer coisa que lhe chega. O cinéfilo de uma cidade que não tem cinema, e por isso não está sujeito às más escolhas de nossas distribuidoras, pode se concentrar, se tiver discernimento para isso, nos filmes que realmente importam.

O Lar das Crianças Peculiares segue a toada de Tim Burton há pelo menos uns 10 anos: fazer filmes bons e esquecíveis. A projeção em DCP estava esquisita, com uma moldura irritante nas laterais. Vi numa sessão vespertina, com umas dez pessoas na sala. Três delas, super barulhentas, conversando o filme inteiro como se estivessem nas casas delas (não eram jovens), sentaram na mesma fileira onde eu estava. Teria visto melhor se o filme estivesse disponível já para ver em casa.

– Encerrando com uma música de um dos meus discos favoritos. Prog italiano na cabeça.

49º Festival de Brasília – 1º dia

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Ver Cinema Novo, o mais recente longa de Eryk Rocha, na abertura do 49º Festival de Brasília, pode ser uma experiência bem melancólica. Não só pelo uso das imagens de grandes filmes do cinema novo, mas também pela retomada de contato com o que os principais diretores da época falavam. Eles iam muito além do “fora, Temer” que parece dominar as mentes pensantes atuais. Tinham uma visão muito crítica do Brasil e do mundo, e tinham também autocrítica, como fica claro numa fala de Joaquim Pedro sobre O Padre e a Moça. Sabiam conviver com o diferente. Walter Hugo Khouri, chamado de alienado na época, estava com eles num encontro, e não parecia deslocado (o que não impede que a maior parte deles tivesse senões bem destacados a respeito de seus filmes). Tinham também uma ideia muito clara de como se comunicar com o espectador.

O filme de Eryk Rocha é fácil. Um amontoado de cenas de filmes melhores sem muita estrutura. As cenas se juntam meio a esmo, a não ser em alguns poucos momentos (as correrias das pessoas, as influências). Fazer um filme de colagem de grandes filmes é fácil. Difícil é dar organicidade à coisa, dar um aspecto crítico. Nesse sentido, Eugenio Puppo se saiu melhor com seu filme sobre Ozualdo Candeias. De certo modo é fácil também, mas ao menos é mais didático em sua ode a um mestre. O de Rocha não é desprezível, longe disso. Mas senti falta de maiores atritos, de uma espinha que desse conta das contradições da época. Pelo que lemos, eram muitas.

Na abertura do Festival, um ponto altamente positivo deve ser destacado. Não houve discursos intermináveis, nem babação de ovo para políticos. Foram direto para a apresentação dos filmes, que é o que mais importa, sempre.

O balanço completo aparecerá depois. Por enquanto, comentários rápidos surgirão por aqui.

Panorama do cinema japonês

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Começa em outubro, no dia 11, e segue quase todas as terças rumo a dezembro meu curso Panorama do Cinema Japonês. São oito aulas dedicadas a 10 diretores (mais, na verdade, porque acrescentarei alguns outros no caldeirão).

As primeiras quatro aulas são dedicadas aos chamados mestres. Cada um capitaneará uma das aulas: Kenji Mizoguchi, Yasujiro Ozu, Mikio Naruse e Akira Kurosawa. Falarei também de outros diretores que brilharam entre os anos 20 e os anos 50: Tomu Uchida, Sadao Yamanaka, Heinosuke Gosho, Takashi Shimizu, Daisuke Ito, Minoru Murata, Masaki Kobayashi, Kaneto Shindo, entre outros, devem aparecer, pelo menos em menções, porque em oito aulas não dá para falar de todos.

As quatro últimas aulas são dedicadas à Nuberu Bagu, ou Nouvelle Vague japonesa. Nelas entram também diretores importantes dos anos 60, mas que não se consideravam pertencentes à Nuberu Bagu (caso de Imamura e Suzuki, por exemplo). Os principais diretores estudados são Nagisa Oshima, Shohei Imamura, Seijun Suzuki, Kiju Yoshida, Masahiro Shinoda e Hiroshi Teshigahara. Outros diretores entrarão na roda, sobretudo Masaki Kobayashi, Kaneto Shindo e Kon Ishikawa, nomes que, com Kurosawa, fizeram uma ponte entre a geração dos mestres e os jovens  que tomaram de assalto as telas nos anos 60. O curso passa também por Masumura, Okamoto, Fukasaku, Wakamatsu, entre muitos outros. Não teremos filmes completos, como nas outras edições do curso. Isso dará mais tempo para contextualizações e para estudarmos melhor os percursos desses diretores.

Alguns autores que estudaram o cinema japonês também estão no curso: Tadao Sato, Audie Bock, Donald Richie, André Bazin, Max Tessier, Mark LeFanu, Jean Douchet, Noel Burch, Lucia Nagib, Jairo Ferreira, Carlos Reichenbach, Rogério Sganzerla, João Bénard da Costa, Robin Wood, Darrell William Davis, Noel Simsolo, Jean Narboni e muitos outros.

Sejam bem-vindos:

http://www.itaucinemas.com.br/pag/curso-panorama-do-cinema-japones