Cinema brasileiro invisível

pitanga

Estava vendo o longa Pitanga, de Beto Brant e Camila Pitanga, nada mais que um encontro do importante ator Antonio Pitanga com amigos e parceiros de cinema e teatro que poderia ser dividido em programas de entrevistas. Algo entre o chapa-branca e a biografia pouco imaginativa de um artista com uma bonita história de vida (costumeiro álibi para se justificar o que quer que seja).

Nele me chamou atenção o desfile de cenas em boa qualidade de filmes clássicos do cinema brasileiro: Rio Babilônia, Ganga Zumba, A Grande Feira, Compasso de Espera, entre muitos outros. Talvez esses filmes já circulem em DVD, no Canal Brasil, ou em algum outro lugar e eu esteja por fora. Mas penso que boa parte deles é praticamente invisível. Um crime. No filme tem cenas em impressionante HD de Uma Nega Chamada Tereza, uma das várias raridades de Fernando Coni Campos (que não possamos ver a maioria de seus filmes me parece um escândalo, como o é não podermos ver a maioria dos filmes de Paulo Cesar Saraceni).

Muitos cineastas contemporâneos gritam quando se sentem ameaçados porque podem perder a boquinha dos editais, mas ninguém mais grita porque filmes brasileiros essenciais ficam praticamente no ostracismo, sem serem descobertos por novas gerações. É um mecanismo da ignorância (no mínimo) tão grande quanto o dos que dizem que o cinema brasileiro nunca esteve tão bom.

A volta do filho do post esquizofrênico

kayak

– Penso já ter feito essa homenagem a Frank Zappa anteriormente no Chip Hazard (refiro-me ao título do post, que remete a “The Return of the Son of Monster Magnet”, última faixa do álbum Freak Out). Como homenagens a esse gênio da música nunca são demais… Segue mais um post que dá conta de variados assuntos, além do cinematográfico.

– Vejo que alguns amigos ficaram maravilhados com o novo filme de Martin Scorsese, Silêncio. Outros ficaram revoltados. Isso tem acontecido com frequência com filmes que me fazem ficar sem entender porque existem posições tão extremadas sobre eles, e ao mesmo tempo me faz suspeitar que hoje em dia virou obrigação ter uma posição extremada a respeito de qualquer coisa. O filme tem inegáveis qualidades, e é claro que é um tanto chato também. Mas é superior a O Lobo de Wall Street e também a Kundun. Parece que Scorsese mergulhou no cinema japonês para pensar nos enquadramentos e isso deu ao filme uma calma que raramente vemos em seu trabalho. Não convém comparar com o filme de Masahiro Shinoda, realizado em 1971 e baseado no mesmo livro. O diretor japonês se sai muito melhor.

– Noto, no quadro da Folha, que alguns amigos questionam onde está o cinema em Um Limite Entre Nós. Como escrevi no último post, vejo cinema em todo lugar no filme. É quando a expressão “vimos filmes diferentes” faz todo sentido.

– Ficou um pouco atrasado, mas achei incrivelmente decepcionante o que alguns amigos acharam empolgante: a virada histórica do Barcelona contra o Paris Saint German. Decepcionante por dois motivos: a amarelada gigantesca do time francês e, principalmente, a sacanagem do árbitro alemão, que não costuma dar pênaltis com facilidade (como o Mauro Cezar Pereira muito bem argumentou), mas viu dois pênaltis absurdos nos jogadores do Barcelona. Aliás, aberrações que podem decidir jogos, como são as malditas penalidades máximas, me fazem deixar de acompanhar futebol. Não me arrependo. Posso voltar no dia em que não existir mais cobranças de pênaltis.

– Momento Melomania: estou na fase Kayak, banda que adoro desde os anos 1980. Não consigo passar para os discos da volta, a partir do final dos anos 90. Paro sempre na obra-prima Merlin, de 1981. Daí para trás é tudo no mínimo fantástico, com melodias incríveis criadas por Ton Scherpenzeel (ou Pim Koopman, nos quatro primeiros discos). Acontece com a banda algo curioso: os proggers não gostam porque é muito pop. Os poppers não gostam porque é muito prog. Por essa falta gritante de abertura, perdem uma grande banda, das melhores que já existiram na Holanda.

– A partir deste post os comentários do blog foram suprimidos (não sei como desabilitá-los, mas não irei mais publicá-los). Primeiro porque eu não dava conta de respondê-los com a devida atenção. Segundo, e principalmente, porque o número de fakes comentando era maior do que o número de leitores reais. A melhor maneira de dar conta de pessoas sem caráter é ignorá-las. Que me perdoem os poucos que comentaram ultimamente e não foram publicados, assim como os leitores fieis e realmente interessados. Sei que continuarão visitando este espaço e serão sempre bem-vindos nos outros canais possíveis de comunicação.

– Está rolando até 2 de abril uma mostra muito legal na Cinemateca: “Erotismo no cinema brasileiro”. Com filmes desde Ganga Bruta até a invasão do sexo explícito na Boca do Lixo. Vale acampar por lá. Senti falta de Jean Garrett. E não guardo boas lembranças de Erotique (espero voltar a essa mostra em post futuro).

– A TV a cabo brasileira é uma porcaria, e disso ninguém em sã consciência duvida. De tanto eu reclamar do péssimo serviço prestado pela NET, eles liberaram os canais HBO e Cinemax, sem eu pedir (não fizeram mais do que a obrigação, pois a mensalidade é caríssima e só aumenta). Pensei: puxa, mas justo o pacote da HBO, tão fraco. Dias atrás liberaram também o pacote dos Telecines, e para minha surpresa eles estão ainda mais fracos que o da HBO. Respeitam ainda menos o formato original dos filmes e reprisam porcarias a torto e direito. Não é exagero dizer que os canais pagos de hoje são piores do que os canais abertos na virada dos anos 1980 para os 90. Afinal, foi quando eu me formei, numa dieta bem rígida de filmes clássicos e europeus, muitos em preto e branco e legendados. Foi quando conheci os filmes da fase final de Buñuel, por exemplo, e inúmeros clássicos de Hollywood. Hoje, preto e branco é raridade. Sim, a imagem era bem pior e o formato raramente era respeitado (Woody Allen, Kubrick, Almodóvar e alguns poucos passavam em scope por causa de alguma condição de contrato), de modo que não faz sentido pedir para voltar a ser como era. Falo apenas da qualidade do que vemos, da lista de filmes na programação, muito maior hoje, muito mais deficitária.

– Numa dessas raridades, um filme em preto e branco num canal Telecine, revi alguns trechos de A Princesa e o Plebeu, de William Wyler. A troca de olhares entre Gregory Peck e Audrey Hepburn no final não é qualquer diretor que consegue. Certamente não é para quem delega funções a um preparador de elenco. Peck, sobretudo, era um ator que precisava ser dirigido. E se alguém duvida da capacidade de Wyler na direção de atores, que veja ou reveja esse filme antológico.

Um Limite Entre Nós

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Há cortes excepcionais em Um Limite Entre Nós. Um deles ocorre enquanto Rose (Viola Davis) e Troy (Denzel Washington) têm uma discussão séria: a câmera repentinamente abandona Rose enquanto ela está saindo da casa para enquadrar Gabe, o irmão deficiente mental de Troy, que tinha ido segundos antes para a sala. Na volta, Rose já está no quintal da casa, chorando em bicas, pronta para a segunda etapa da discussão. É um momento rápido, simples, mas que revela uma enorme sensibilidade de Denzel Washington como diretor, aqui em seu terceiro longa-metragem. Mostra como Rose e Troy são especiais, mesmo Troy, um furacão destrutivo, e influenciam todos ao redor.

Em momento semelhante, numa outra discussão, Rose discute com seu filho Cory, e o corte nos leva à cozinha, onde Lyons, filho de Troy com outra mulher, escuta pensativo a discussão. Não é só o fato de existir esses cortes que impressiona, mas a precisão com que eles são feitos e a duração dos planos com o irmão de Troy na sala e com o meio-irmão de Cory na cozinha. Mostram que, de certo modo, Troy é algo que Gabe não pode ser, e que Cory se tornou o que não queria ser, ou seja, parecido com Troy, seu pai.

O filme tem sido tratado, um tanto preguiçosamente, por teatro filmado, como se o cinema, em sua gênese, não fosse exatamente isso, sendo ao mesmo tempo algo totalmente diferente (porque, afinal, é filmado) e como se grandes diretores, de formas e intensidades das mais diversas, de Sacha Guitry a Carmelo Bene, de Raoul Ruiz a James Gray, de Jean Renoir a Manoel de Oliveira, de Jacques Rivette a Woody Allen, entre muitos outros, não fizessem brilhantes teatros filmados em suas carreiras. Pois Um Limite Entre Nós é um pequeno brilhante teatro filmado. Melhor dizendo, é cinema, porque nele os cortes são certeiros, ao contrário dos cortes burocráticos que vejo na maioria dos filmes lançados por aqui, e os planos quase sempre duram o suficiente para que as emoções surjam (dos personagens e dos espectadores). Certamente é o filme mais forte entre os nove indicados ao prêmio máximo da academia.

Ultimamente tem-se confundido direção com pirotecnia, com mobilidade intensiva da câmera e outros exibicionismos. Nisso Damien Chazelle e Barry Jenkins dão um show, para o bem e para o mal (quero dizer que às vezes funciona, mas não sempre, não frequentemente em seus filmes). Mas ser diretor é também permitir que a emoção se extravase sem artimanhas, que o sentimento seja exacerbado sem que se chegue na chantagem emocional. É acertar tempos e distâncias, tons e intensidades. O diretor também controla essas coisas, limpa arestas, impede que limites sejam cruzados, permite que o ator dê o seu melhor e que o texto seja valorizado.

Fazer melodrama não é fácil. Trabalha-se com uma faixa de leitura muito pequena, localizada entre o distanciamento cauteloso de um lado e a breguice desmedida de outro, e essa faixa é difícil de ser alcançada, e mais difícil ainda de não ser ultrapassada. Em vários momentos Denzel consegue se manter dentro dessa faixa. E nesses momentos, seu filme fica grande, como raros o são atualmente.

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P.S. Sei muito bem que é delírio de minha cinefilia, e longe de mim comparar os diretores em questão, mas dois momentos do filme de Washington me levaram a lembrar emocionadamente de filmes bem diferentes:

a) quando Rose fala porque se casou com Troy me lembrei do monólogo da esposa no final de Stalker;

b) quando o céu se abre ao toque frouxo da corneta me lembrei da cena em que um homem acende a iluminação da rua no exato momento em que a noiva aceita acompanhar o futuro marido em uma missão ingrata em Com Um Pé no Céu, de Irving Rapper.

A decadência

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Violência e Paixão (1974), de Luchino Visconti

Muitos não entendem minhas comparações entre música e cinema, como a que fiz certa vez entre Roberto Carlos e Kenji Mizoguchi (sei que fez muito sentido para quem adora os dois, mas não para quem olha torto para o cantor popular, ou não entende a emoção que Mizoguchi pode despertar). Talvez porque seja mais nobre, embora óbvio, comparar filmes com quadros, uma vez que o cinema herdou algumas coisas da pintura. Música é outra coisa. Mais direta, mais certeira, chega mais rápido ao coração. Por vezes, algumas ideias que tenho, boas ou tolas, vêm da audição de músicas que me dizem muito, me tocam diretamente o coração.

Aconteceu novamente numa tarde dessas, quando procurei disfarçar o barulho dos vizinhos com algumas músicas de bandas de rock dos anos 70: Fantasy, Cressida, Gentle Giant, Wings, Zappa, até que cheguei ao Kansas, banda prog/AOR que lançou discos muito bons entre 1975 e 1979. O disco Monolith em especial, último desse período, me trouxe de volta a percepção de que me sinto especialmente atraído pela decadência, pelos últimos suspiros de algo que já está se acabando, pelo debate contra uma correnteza que está prestes a levar tudo embora. É inevitável, nesse caso, ter-se consciência dessa decadência. Isso na arte, claro. Na vida a coisa é diferente porque a decadência é triste, seja do corpo, da mente, de uma ideia de nação ou do respeito entre as pessoas (tudo que estamos vivendo, em suma). E é essa tristeza que me encanta, me enfeitiça, uma tristeza que eu não quero passar, e que talvez seja melhor traduzida por melancolia, pois mais profunda, aparentemente sem solução fácil, mas que me leva a emoções profundas quando representada na arte. Na música fica evidente: os últimos românticos têm esse tipo de melancolia exacerbada: as últimas obras de Brahms e Mahler, por exemplo. O rock da segunda metade dos anos 70 também, pelo menos o que não é punk ou new wave. O disco símbolo dessa decadência apaixonante é In Through the Outdoor, último do Led Zeppelin, justamente de 1979. Mas só uma banda desse tamanho é capaz de criar algo assim.

No cinema, essa minha atração pela decadência explica, por exemplo, por que Fassbinder (Num Ano Com Treze Luas, O Desespero de Veronika Voss), Visconti (tudo desde Os Deuses Malditos), Fellini (quase tudo desde A Doce Vida), o Max Ophuls dos anos 50, Saraceni (A Casa Assassinada) e alguns Zurlinis me dizem tanto, sendo capazes de me deixar numa espécie de transe. Italianos e alemães entendem de decadência, aliás. É o que me encanta também no odiado Evita, de Alan Parker. É um musical que reflete em tudo a decadência de uma ideia de cinebiografia tipicamente hollywoodiana, setentista e oitentista, na linha Gandhi, mas temperada por números musicais à Broadway das mesmas décadas (Andrew Lloyd Weber e Tim Rice), cantados por Madonna, Antonio Bandeiras e Jonathan Pryce (o saudoso amigo Francisco Conte, outro que era fascinado pela decadência, também se encantava com esse filme). E é o que salva La La Land da mediocridade, a meu ver: se Chazelle tivesse uns trinta anos a mais e inúmeras desilusões na conta, teria feito um ótimo filme decadentista no lugar do escapismo simpático que apresentou.

Fazendo um longa-metragem

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Peço que o leitor perdoe a autopromoção. É por uma boa causa.

A Inspiratorium criou um novo curso que, até onde sei, é inédito no Brasil. Nesses moldes, talvez seja inédito no mundo todo (mas aí já seria afirmar no escuro).

Trata-se da elaboração de um longa-metragem no período de um ano. Começa em março.

No processo, todo o primeiro semestre será para pensarmos cinema, estudarmos mise en scène, estilo, história, linguagem, dramaturgia, e será dividido entre mim, Joel Yamaji, coordenador dos cursos longos, e Bruno Primor, o dono idealista da escola.

Divido com eles a paixão pelo cinema e uma sintonia rara.

Pretendemos entender, durante o curso, com os alunos, o que é cinema, como está o cinema, por que certos procedimentos são escolhidos para filmar determinadas cenas ou planos, entre outras coisas pertinentes ao entendimento de cinema.

Estudaremos problemas e virtudes do cinema contemporâneo, e, claro, muito do que o cinema em toda sua história pode nos ensinar.

Bruno argumenta que pretende fortalecer o pensamento e o imaginário dos alunos, o que é fundamental para a realização de um bom filme.

Entendo que essa é a aposta correta. Um curso maior, que contemplasse mais aulas práticas, seria como quase todos os outros do Brasil (exceto que este seria para fazer um longa).

E entendo que saber técnica é importante, mas menos, bem menos, do que saber o que se faz com a técnica, e, sobretudo, o que se quer exprimir por meio de um filme.

Joel começará a trabalhar com o roteiro, então o final do primeiro semestre será já uma introdução à parte prática do curso (eu e Bruno também ajudaremos nesse processo).

Em agosto e setembro, os alunos levarão o roteiro às áreas técnicas, tais como fotografia, arte e som, quando serão realizados os desenhos específicos de cada arte.

Em outubro teremos a pré-produção e a filmagem do longa.

Em novembro e dezembro as imagens captadas serão encaminhadas à finalização, onde serão coordenadas pelos professores de montagem, edição e mixagem de som, e correção de cor.

Importante: o curso não terá mais do que dez alunos. O que significa que cada aluno será essencial ao curso, e terá, por isso mesmo, uma experiência única.

Mais informações: https://www.inspiratorium.com.br/completo-de-cinema

Tarkovski – Eterno Retorno (BH)

tarkovski

Fui convidado para acompanhar, por três dias, a Mostra Tarkovski, no Cine Humberto Mauro, Belo Horizonte. Os três dias viraram dois, uma vez que o domingo foi dedicado a trabalhos daqui de São Paulo, aproveitando que iriam exibir três longas que eu tinha acabado de rever, um deles, o que estava no melhor horário, em DCP (o que me fez desistir de revê-lo, não porque o DCP fosse ruim, mas porque já o tinha revisto num mkv majestoso em casa e há não muito tempo em película).

O que me leva a explicar que revi esses e os outros filmes feitos por Tarkovski para escrever um dos textos do enorme catálogo (466 páginas). Sou, assim, suspeito por tudo que vou escrever aqui, uma vez que trabalhei para a mostra e este texto, assim, ganha ares publicitários (no blog, espaço mais livre e descompromissado, menos mal). Confio na minha capacidade de separar as coisas e perceber problemas e carências da mostra, e todas os têm (ainda que, nos dois dias, não foi possível detectar nada de muito sério), mas entendo que o leitor não é obrigado a confiar, afinal, há um conflito de interesses em jogo. Feito o aviso, vamos em frente.

Quase todas as cópias passaram em película e quase todas as sessões tiveram lotação esgotada. A sala Humberto Mauro, com seus pouco mais de 100 lugares e sua projeção decente, parece pequena nessas ocasiões. Ou Tarkovski é que de uma hora para outra virou cineasta de salas stadium com mais de 200 lugares? A propaganda gratuita que lhe fez O Regresso, de Iñarritu, deve ter servido ao menos para isso (Robert Bird fez uma menção que me pareceu elogiosa ao embuste mexicano).

Na programação, aliás, alguns diálogos interessantes com o universo de Tarkovski: A Cor da Romã (Sergei Paradjanov), Paisagem na Neblina (Theo Angelopoulos), Morangos Silvestres (Ingmar Bergman), Contos da Lua Vaga (Kenji Mizoguchi), Mouchette (Robert Bresson), O Quarto (Chantal Akerman), O Intruso (Claire Denis), Nazarin (Luis Buñuel), Novo Mundo (Terrence Malick). Oito longas e um curta, o de Akerman, que ja valeriam uma ótima mostra, e valorizam-se ainda mais em contato com as obras do grande cineasta russo. (Novo Mundo está um tanto deslocado aí, mas vá lá).

Acompanhei o debate multilingue, resolvido com incrível habilidade pela produção, com várias línguas sendo faladas ao mesmo tempo, pois tiveram a feliz ideia de colocar tradutores ali, do lado dos debatedores, e não em cabines, com tradução simultânea por fones de ouvido (situações em que, já reparei, não consigo entender nem a língua original, mesmo quando a conheço, nem a tradução). O crítico e professor Robert Bird e Michal Leszczylowski  (montador de O Sacrifício) falaram um inglês claro, perfeitamente compreensível sem tradução. A italiana Donatella Baglivo (diretora de três documentários sobre Tarkovski) também pronunciava de forma clara, fazendo-me pensar que meu italiano não é tão terrível assim. Com os russos não tinha jeito, e a tradutora fez milagre no meio deles. Nem tanto com Evgeny Tsymbal (assistente de direção de Tarkovski e diretor de mais de 30 longas), que falava pausadamente, mas certamente com Dmitry Salynskly, cujo humor é tão lépido quanto as palavras que saem de sua boca. Uma metralhadora verbal, como há muito eu não via. Mas certamente o membro mais carismático de todo o debate. Tirando uma ou outra curiosidade de bastidores dos que trabalharam diretamente com Tarkovski, Michal e Evgeny, nada de novo foi dito para quem já leu algo sobre ele (sobretudo os livros de Michel Chion e Antoine De Baecque, e os Diários e Esculpir o Tempo, do próprio Tarkovski). Falaram dos planos longos, das panorâmicas reveladoras e dos travellings cuidadosos, da maneira como ele domina o tempo, e tentaram, em vão, combater o clichê da espiritualidade em seus filmes (alguns clichês existem porque são difíceis de serem quebrados). Mesmo Bird, que ameaçou polemizar, não saiu muito do beabá tarkovskiano.

Na segunda-feira, vi Retorno à Zona, de Nicolai Alhazov, no qual Evgeny Tsymbal leva um grupo de curiosos à locação que serviu como a Zona de Stalker. Nada mais que um extra de DVD projetado em tela grande. Mas para os curiosos, um programa leve, de 53 minutos, que não deixa de ter seu interesse. Vários outros documentários foram exibidos, dos quais só conheço Tempo de Viagem, que o próprio Tarkovski dirigiu com Tonino Guerra, e Dirigido por Andrei Tarkovski, de Michal Leszczylowski, que tem como extra do DVD brasileiro de O Sacrifício.

Vi o seminário ministrado por Robert Bird e intitulado “Modelo, Testemunha e Dissidente”, em que ele explica porque não acha Tarkovski um dissidente, preferindo se referir a ele como um auto-exilado por motivos artísticos, não por motivo político. Atencioso e didático, Bird não recuou diante de perguntas estranhas da plateia, nem diante das perguntas fora de hora (há professores que não gostam de serem interrompidos). Ele também não disse nada de novo, mas para o público que estava sendo formado ali (que não era pequeno), que tomava conhecimento da obra de Tarkovski pela primeira vez e em cujos olhos se via o brilho de uma rara descoberta, penso que foi bem valiosa toda a experiência. Que façam mais mostras desse tipo, de formação de público, que ofereçam a oportunidade de rever e pensar uma obra grandiosa em vinte dias.

Meus 20 preferidos do circuito em 2016

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Por que só do circuito? Porque diminuem os filmes elegíveis, diminuindo também a possibilidade de perguntas – “e tal filme?” – que mereceriam a resposta – “esse eu não vi”. Não que a pergunta me incomode, mas acho mais interessante limitar o escopo de filmes que pudessem ser escolhidos. É também a regra que utilizamos na Interlúdio, que soltará em breve a lista final da redação.

Por que um filme de 1982 em primeiro lugar? Porque esse filme só chegou ao público em 2015, tendo estreado comercialmente no Brasil em 2016.

Por que 20 filmes? Não sei. Confesso que desta vez 15 seria mais justo. Dos quatro ou cinco últimos eu não gosto o suficiente para entrar em lista de melhores. Mas sempre publiquei lista de 20 por aqui (e 10 na Interlúdio). A tradição falou mais alto.

Por que só em 19 de janeiro você solta essa lista? Porque não acredito na pressa com que as listas de melhores têm sido feitas. Sempre aproveito o fim de um ano e o começo do outro para ver alguns filmes que perdi. Neste ano foram muitos os filmes vistos só na reta final (Creepy, Certo Agora Errado Antes, Caprice, Francofonia, Academia das Musas, Invocação do Mal 2, Don’t Breathe, Dois Rémi Dois, Depois da Tempestade, entre vários outros menos interessantes).

Visita ou Memórias e Confissões (Manoel Oliveira, 1982)

Cavalo de Turim (Béla Tarr, 2011)

Os Campos Voltarão (Ermanno Olmi, 2015)

Sangue do Meu Sangue (Marco Bellocchio, 2015)

É o Amor (Paul Vecchiali, 2015)

Café Society (Woody Allen, 2016)

A Assassina (Hou Hsiao-Hsien, 2015)

Certo Agora, Errado Antes (Hong Sang-soo, 2016)

Creepy (Kiyoshi Kurosawa, 2016)

A Odisseia de Alice (Lucie Borleteau, 2014)

Jovens Loucos e Mais Rebeldes (Richard Linklater, 2016)

Caprice (Emmanuel Mouret, 2015)

Francofonia (Alexander Sokurov, 2015)

Incompreendida (Asia Argento, 2014)

Nossa Irmã Mais Nova (Hirokazu Koreeda, 2015)

O Ignorante (Paul Vecchiali, 2016)

Os Oito Odiados (Quentin Tarantino, 2016)

A Bruxa (Robert Eggers, 2015)

Sully (Clint Eastwood, 2016)

Elle (Paul Verhoeven, 2016)

 

 

Eu, Daniel Blake

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Não são muitos os filmes de Ken Loach de que gosto. Devem ser contados nos dedos de uma mão, talvez uma e meia, e de nenhum deles eu gosto de maneira especial (não tendo visto alguns importantes como Family Life, Black Jack ou Riff Raff). Loach é sempre acadêmico, dirige como se seguisse um manual e depende demais da força do drama e dos atores para que seus filmes funcionem (acontece algo parecido com Mike Leigh; esses ingleses são meio duros para o cinema). Mas sejamos sinceros: do nível que a coisa anda, talvez seja melhor seguir um manual do que ficar tremendo a câmera como se fosse operada por um bebê. Eu, Daniel Blake é mais um de seus bons filmes (contei aqui, é o sexto de que gosto). Não é especial; seria querer demais de Loach, e provavelmente o prêmio máximo em Cannes tenha sido exagerado. Mas é um filme digno, como disse o Inácio Araujo. E dignidade, hoje em dia, como Loach reforça a cada cena, está meio fora de moda.

Daniel Blake é um carpinteiro digno que sofre um ataque cardíaco e fica impedido de trabalhar pela médica que o atendeu. Mas para conseguir o auxílio financeiro ele deve andar pelas ruas o dia inteiro procurando emprego, ou enfrentar os indignos burocratas, o que para o coração é muito pior que trabalhar. Convenhamos, mesmo o mais safado dos liberais deveria achar uma crueldade submeter um cardíaco a um troço desses. Mas o mundo está se voltando para o “cada um por si”, e o que Loach faz é protestar contra esse sentimento. Falar que se trata da Inglaterra do Brexit é um tanto óbvio. Falar que aqui no Brasil, país muito mais distante do socialismo que a Inglaterra, é pior, seria óbvio também. De certas obviedades, na verdade, já estamos bem cheios, mas fugir delas não vai fazer com que desapareçam.

Estão no filme de Ken Loach: a gente simples de Newcastle, com o sotaque carregadíssimo e o frio quase escocês; o vizinho negro que busca vencer na vida vendendo pares de tênis importados da China; a londrina que teve de emigrar com seus dois filhos por não conseguir arcar com o alto custo de vida na capital; os assistentes sociais incapazes de sair do script imposto por quem quer se ver livre de pobres; a prostituição e as imensas filas da cesta básica.

O melhor, sem dúvida, é a relação de Daniel com Katie e os filhos dela, Daisy e Dylan. Daniel é como um pai para eles, sem que haja uma atração sexual entre ele e Daisy. A coisa se dá em outro nível, mais espiritual, e talvez por isso mesmo mais necessário nestes tempos de egoísmo e arrivismo. A presença de Daniel traz leveza, conforto. Nesse sentido, o filme ameaça degringolar quando Daniel vai surpreender Katie em seu novo trabalho. A presença ali não era bem-vinda, por motivos que o espectador entende muito bem. Mas logo os trilhos são retomados para um final que, como no restante do filme, chega perto do piegas, sem ultrapassar a delicada barreira (como na cena em que Katie se desespera de fome na sala da cesta básica, ou quando Daisy conta para a mãe que na escola as outras meninas zombam de seu sapato com sola descolada). Não vira piegas graças ao tempo preciso no corte (dois segundos a mais, em alguns casos, já seria chantagem sentimental, dois a menos o recado não seria passado), e à direção sempre sóbria, atenta a uma possível invasão da intimidade do personagem. Às vezes há vantagem no academicismo.

Arrumem espaço nas prateleiras

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Coffy, de Jack Hill

Os colecionadores de DVDs estão em polvorosa. Não me lembro de uma outra época com tantos lançamentos bons como os últimos dois anos. Principalmente porque a Obras-primas do cinema resolveu competir com a Versátil e tem lançado quitutes imperdíveis como as trilogias Guerra e Humanidade, de Kobayashi, e a Trilogia de Apu, de Satyajit Ray.

O último pacote que recebi da Versátil me chamou a atenção por ser especialmente apetitoso. 12 DVDs distribuídos em cinco títulos que custam uma merreca. São ao todo 21 filmes que provavelmente ultrapassam, em qualidade, todo o catálogo do Netflix (é uma provocação, não uma afirmação; a birra com o Netflix vem da constatação de que esse mercado de lançamentos de DVD tende a morrer ou ficar cada vez mais restrito por causa dessa mania maldita de streaming e os péssimos catálogos das empresas que lidam com video on demand, além desse nefasto algoritmo do gosto, uma praga a ser exterminada).

Começando pela coleção Blaxploitation, gênero que rendeu muitas picaretagens e muitas maravilhas, além de uma série de trilhas sonoras fundamentais para o soul e o funk dos anos 70. Dos quatro filmes produzidos entre 1972 e 1974, conheço e gosto de três: A Máfia Nunca Perdoa (Barry Shear), com a maravilhosa música de Bobby Womack que Tarantino usou em seu melhor filme, Jackie Brown; Coffy, um dos melhores filmes de Jack Hill, diretor que vinha de dois filmes do subgênero exploitation WIP (Women in Prison), com a presença marcante da musa Pam Grier como a grande heroína que procura vingança, além das cores mais vistosas do período; e o melhor de todos, O Chefão do Gueto, dirigido pelo talentosíssimo Larry Cohen. A meu ver, não é só o melhor da coleção, mas de todo o Blaxploitation (afirmação contestada pelo Heitor Augusto, que conhece mais filmes do gênero). O quarto é Truck Turner, de Jonathan Kaplan, com protagonismo de Isaac Hayes, grande músico de um vozeirão ao mesmo tempo sussurrado e tonitruante. A ver se sua performance como ator tem força equivalente à de sua persona musical.

De um dos mais famosos diretores negros, vale destacar a edição dupla com o grandioso Malcolm X, talvez o filme mais ambicioso de Spike Lee. Lembro que na época em que estreou no Brasil o filme recebeu críticas mornas, quando não desapontadas (não lembro se houve sequer um elogio na imprensa). Era o segundo filme seguido de Lee mal recebido por aqui, após Mais e Melhores Blues. Como fã de seus filmes, fui conferir (salvo engano, no Belas Artes, onde já havia visto Febre da Selva) e gostei bastante. Nunca revi, mas imagino que ao menos parte de sua força (a presença de Denzel Washington no papel principal, por exemplo) permaneça intacta.

A ideia de lançar uma coleção com quatro filmes ingleses de Hitchcock (A Arte de Alfred Hitchcock) parece ainda melhor quando na escolha estão três dos melhores filmes dessa fase: O Inquilino (1926), seu melhor filme mudo (ao lado de The Manxman); O Marido Era o Culpado (1936 – “não se coloca uma bomba no colo de uma criança se não for para a bomba explodir”) e Jovem e Inocente (1937), meu preferido pessoal, o filme que tem o famoso travelling que atravessa todo o salão e termina num plano fechado no olho esquerdo do assassino. O quarto filme não fica muito atrás. trata-se de A Estalagem Maldita (1939), com Charles Laughton numa adaptação de Daphne du Maurier.

Outra coleção apetitosa é a Clássicos da Sci-Fi, que em seu terceiro volume oferece mais possibilidades de voltarmos ao tempo das matinês televisivas dos anos 80. Digo isso porque a maior parte dos filmes da coleção eu via nessas sessões. Não são grandes filmes, com a exceção de Daqui a Cem Anos, de William Cameron Menzies (ainda bem que não tiraram a preposição, porque hoje em dia se tornou desesperadamente comum falar “daqui cem anos”). Guardo boas lembranças de Pânico no Ano Zero, de Ray Milland, e O Emissário de Outro Mundo, de Roger Corman, mas não os lembro como especiais, apenas como filmes agradáveis e divertidos. A memória ainda diz que Fase IV: A Destruição (1974), de Saul Bass, vale pela bizarrice e por ser o único filme dirigido pelo mestre dos créditos de filmes de Hitchcock e Preminger, entre outros. Não lembro de ter visto Colossus 1980 (1970), de Joseph Sargent, e não achei bom, na época em que estreou na TV, o badalado Repo Man de Alex Cox. Mas voltar a esses filmes será diversão garantida.

Fechando o pacote temos o sétimo (?!?!?!) volume da bela coleção de Filmes Noir. Não constam em minhas anotações cheias de falhas que nunca serão corrigidas os quatro filmes que preenchem o segundo e o terceiro DVDs da coleção: Tensão é de John Berry, diretor de bons filmes que foi redescoberto após ter sido citado por Tarantino em entrevistas; A Taverna do Caminho é do artesão Jean Negulesco, e conta com a especial (como atriz e como diretora) ida Lupino; Justiça Injusta é de Cy Endfield, um dos diretores mais prejudicados pelo macarthismo; A Noite de 23 de Maio é de John Sturges, diretor que anos mais tarde ficaria conhecido pelos faroestes Sem Lei, Sem Alma (1957) e Sete Homens e Um Destino (1960) e pelo filme de prisioneiros de guerra Fugindo do Inferno (1963). A coleção valeria só por esses filmes raros, mas no DVD 1 tem Almas Perversas, de Fritz Lang (refilmagem americana de A Cadela, de outro gênio, Jean Renoir) e Cinzas que Queimam (dirigido por Nicholas Ray, que adoeceu numa parte das filmagens e teve de ser substituído pela estrela Ida Lupino, então já diretora de grandes filmes, que não ganhou crédito).

Akira Kurosawa

naolamento

O blog precisa ser atualizado. Revi uma série de filmes de Akira Kurosawa. Não tenho tempo para comentá-los com maior profundidade. A união desses três fatos sugerem um Top 10 do diretor, uma vez que na última série de revisões de suas obras a ordem e até a presença de filmes no panteão mudou consideravelmente.

Cresceu demais, por exemplo, o quinto longa dirigido pelo diretor: Não Lamento Minha Juventude (que a Versátil lançou com o título menos poético Juventude Arrependida). É o filme que ilustra este post. Um primor de encenação, muita influência de Dovjenko e outros cineastas russos dos anos 20 e 30 além de uma facilidade para alcançar a poesia que não é pré-fabricada, a tal da poesia “a priori” que Truffaut atacava e que reina soberana em praticamente todas as cinematografias atuais.

Na série de revisões anterior, dois filmes que haviam subido imensamente continuam no pódio: Homem Mau Dorme Bem e O Barba Ruiva. Outro que havia subido caiu um pouquinho: Cão Danado. Kagemusha foi revisto no começo do ano para um texto da Folha e cresceu horrores também. Penso ser seu melhor filme de samurai, embora entenda as objeções de Donald Ritchie (atores muito teatrais, Tatsuya Nakadai exagerado).

Continuo achando Floresta Escondida um de seus filmes mais superestimados. Não sei se a boa vontade com esse longa vem da declaração de George Lucas, que se inspirou na dupla de fugitivos para compor C3PO e R2D2, mas entendo que a força do filme reside apenas na presença da atriz que faz a princesa, a novata Misa Uehara, que depois fez alguns poucos filmes, incluindo trabalhos com Hiroshi Inagaki e Kihashi Okamoto, e se retirou da carreira cinematográfica, infelizmente. Seria legal ver o que a geração da Nouvelle Vague aprontaria com essa presença de imensa força.

1) Não Lamento Minha Juventude (1946)

2) Homem Mau Dorme Bem (1960)

3) O Barba Ruiva (1965)

4) Kagemusha (1980)

5) Ran (1985)

6) Céu e Inferno (1963)

7) Yojimbo (1961)

8) Rashomon (1951)

9) Trono Manchado de Sangue (1957)

10) Viver (1952)

obs: Lamentavelmente ficaram fora deste top (mas poderiam entrar em outros dias), os longas O Idiota (1951) e Dersu Uzala (1975). Adoro alguns outros filmes dele, como o primeiro A Saga do Judô (seu primeiro longa), Os Sete Samurais e, ainda, Cão Danado, mas não a ponto de figurar entre os dez mais.