49º Festival de Brasília – 1º dia

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Ver Cinema Novo, o mais recente longa de Eryk Rocha, na abertura do 49º Festival de Brasília, pode ser uma experiência bem melancólica. Não só pelo uso das imagens de grandes filmes do cinema novo, mas também pela retomada de contato com o que os principais diretores da época falavam. Eles iam muito além do “fora, Temer” que parece dominar as mentes pensantes atuais. Tinham uma visão muito crítica do Brasil e do mundo, e tinham também autocrítica, como fica claro numa fala de Joaquim Pedro sobre O Padre e a Moça. Sabiam conviver com o diferente. Walter Hugo Khouri, chamado de alienado na época, estava com eles num encontro, e não parecia deslocado (o que não impede que a maior parte deles tivesse senões bem destacados a respeito de seus filmes). Tinham também uma ideia muito clara de como se comunicar com o espectador.

O filme de Eryk Rocha é fácil. Um amontoado de cenas de filmes melhores sem muita estrutura. As cenas se juntam meio a esmo, a não ser em alguns poucos momentos (as correrias das pessoas, as influências). Fazer um filme de colagem de grandes filmes é fácil. Difícil é dar organicidade à coisa, dar um aspecto crítico. Nesse sentido, Eugenio Puppo se saiu melhor com seu filme sobre Ozualdo Candeias. De certo modo é fácil também, mas ao menos é mais didático em sua ode a um mestre. O de Rocha não é desprezível, longe disso. Mas senti falta de maiores atritos, de uma espinha que desse conta das contradições da época. Pelo que lemos, eram muitas.

Na abertura do Festival, um ponto altamente positivo deve ser destacado. Não houve discursos intermináveis, nem babação de ovo para políticos. Foram direto para a apresentação dos filmes, que é o que mais importa, sempre.

O balanço completo aparecerá depois. Por enquanto, comentários rápidos surgirão por aqui.

Panorama do cinema japonês

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Começa em outubro, no dia 11, e segue quase todas as terças rumo a dezembro meu curso Panorama do Cinema Japonês. São oito aulas dedicadas a 10 diretores (mais, na verdade, porque acrescentarei alguns outros no caldeirão).

As primeiras quatro aulas são dedicadas aos chamados mestres. Cada um capitaneará uma das aulas: Kenji Mizoguchi, Yasujiro Ozu, Mikio Naruse e Akira Kurosawa. Falarei também de outros diretores que brilharam entre os anos 20 e os anos 50: Tomu Uchida, Sadao Yamanaka, Heinosuke Gosho, Takashi Shimizu, Daisuke Ito, Minoru Murata, Masaki Kobayashi, Kaneto Shindo, entre outros, devem aparecer, pelo menos em menções, porque em oito aulas não dá para falar de todos.

As quatro últimas aulas são dedicadas à Nuberu Bagu, ou Nouvelle Vague japonesa. Nelas entram também diretores importantes dos anos 60, mas que não se consideravam pertencentes à Nuberu Bagu (caso de Imamura e Suzuki, por exemplo). Os principais diretores estudados são Nagisa Oshima, Shohei Imamura, Seijun Suzuki, Kiju Yoshida, Masahiro Shinoda e Hiroshi Teshigahara. Outros diretores entrarão na roda, sobretudo Masaki Kobayashi, Kaneto Shindo e Kon Ishikawa, nomes que, com Kurosawa, fizeram uma ponte entre a geração dos mestres e os jovens  que tomaram de assalto as telas nos anos 60. O curso passa também por Masumura, Okamoto, Fukasaku, Wakamatsu, entre muitos outros. Não teremos filmes completos, como nas outras edições do curso. Isso dará mais tempo para contextualizações e para estudarmos melhor os percursos desses diretores.

Alguns autores que estudaram o cinema japonês também estão no curso: Tadao Sato, Audie Bock, Donald Richie, André Bazin, Max Tessier, Mark LeFanu, Jean Douchet, Noel Burch, Lucia Nagib, Jairo Ferreira, Carlos Reichenbach, Rogério Sganzerla, João Bénard da Costa, Robin Wood, Darrell William Davis, Noel Simsolo, Jean Narboni e muitos outros.

Sejam bem-vindos:

http://www.itaucinemas.com.br/pag/curso-panorama-do-cinema-japones

Aquarius

aquarius

“Melhor dar um câncer do que ter um”. “Nós exploramos elas e elas nos roubam de vez em quando”. Com diálogos assim, que viraram meme no facebook, me espanta que o filme esteja sendo tão adorado (embora esteja longe da quase unanimidade de O Som ao Redor). O fato de que o filme foi transformado num cavalo de batalha por esperteza de seu diretor e irresponsabilidade de muitos críticos criou um clima em que a pessoa vai ao cinema, ouve um ou vários “fora, Temer”, e se sente imbuída da obrigação moral de adorar o filme, seja quais forem as imagens que surgirem em sua frente.

Gosto dos curtas de Kleber Mendonça Filho, principalmente de Noite de Sexta, Manhã de Sábado (nunca revisto). Mesmo Recife Frio, piada única que se esgota um pouco na revisão, ainda mantém certa força. Nos longas, os problemas de sua direção tornam-se mais evidentes. Desde o documentário Crítico se percebe uma estrutura frágil, mas ali não tinha muito jeito. Em O Som ao Redor também se nota essa fragilidade, ainda que melhor disfarçada pelos momentos de força vindos de uma certa estranheza da urbanidade caótica. Em Aquarius, a coisa degringola. E o maior problema, a meu ver, é tanto na estrutura (algumas cenas parecem de um outro filme, bem pior) quanto na direção de atores.

Os diálogos fracos, que sao muitos, talvez puxem as atuações do elenco para baixo, ou as atuações não melhoram os diálogos. Provavelmente as duas coisas. Kleber parece ter se preocupado tanto com o foco duplo e outras emulações de Altman e De Palma que se esqueceu de dirigir os atores apropriadamente, em adequação ao drama desenvolvido. Estão à deriva, como mostram bem as cenas de reunião familiar (exceto a de 1980) e, principalmente, a cena horrível na cozinha do apartamento (um pouco esquecida porque logo depois vem um dos momentos mais belos do filme, sobretudo pela maneira como é filmado: o da dedicatória no livro).

Mesmo Sonia Braga, de presença inegável como persona cinematográfica, dama do cinema brasileiro (melhores, contudo, são suas atuações em Dama do Lotação, Dona Flor e Seus Maridos e Eu Te Amo, e como vilã sensual em Rookie, de Clint Eastwood) está abaixo do que poderia. Ela começa o filme dando uma entrevista para um jornal (maneira de Kleber criticar a midia tendenciosa) e passa a atuar nesse modo o filme inteiro, salvo uma ou outra explosão dramática. A cena em que ela dança ao som de Roberto Carlos rivaliza em constrangimento com o rápido e entrecortado aquecimento do corpo, olhando para a câmera, antes de encontrar Irandhir na praia, logo no início. Alguém deveria ter avisado que estavam ruins demais essas cenas.

Já se falou muito do final inconcluso, e concordo com quem o considera decepcionante. Pareceu uma fuga do desfecho melodramático ou trágico que o filme parecia pedir. Ficou um anticlímax que de certo modo condiz com o tom baixo da maior parte das interpretações.

Curiosamente, o filme tem sido beneficiado por uma intensa propaganda: da Globo Filmes, poderosa coprodutora; dos jornais, que parecem estar apoiando efusivamente o filme; e da própria polarização política, utilizada por Kleber com destreza de bom marketeiro (e de quebra fez propaganda de Marcos Petrucelli também). Acho que só isso explica, de um lado, a supervalorização de muitos, de outro, a decepção de tantos outros com um filme que promete muito mais do que cumpre. Esses tantos outros, em sua grande maioria, não se manifestam publicamente. Não é a primeira vez que isso acontece. Não vejo esse silêncio como positivo para o cinema brasileiro.

P.S. No quadro de cotações da Interlúdio, duas cotações positivas mas não muito, três que estão mais para o negativo, uma totalmente negativa.

O crítico João Cesar Monteiro

monteiro

Trechos da crítica de Monteiro sobre O Passado e o Presente, de Manoel de Oliveira, para o Diário de Lisboa em 1972 (é possível imaginar uma crítica assim publicada hoje?):

“Que dizer, agora, de O Passado e o Presente, a não ser que, aos 62 anos, o mais jovem dos cineastas portugueses acaba de fazer o seu maior e mais inteligente filme, precisamente numa altura em que assistimos à triste e senil decadência dos velhos senhores do cinema (vide o Visconti ou o Bresson ou o Losey, por ex.)?”

(…)

“Que o senhor tenha podido fazer o filme que fez, nas condições em que o fez, é talvez o menor dos seus méritos e o mérito maior de um esforço coletivo que, de um modo ou de outro, acaba por englobar todos aqueles que se tem batido por uma dignificação do coitado do cinema português.

Sinto-me perfeitamente à vontade para dizer isto, pela simples razão de o meu contributo, nesse sentido, ter sido absolutamente nulo. Nunca quis, nem quero, dignificar coisa nenhuma e, muito menos, o cinema português.

Além do mais, e para simplificar, antipatizo consigo. Se quiser, é uma antipatia de classe, feroz e desdenhosa. Irremediável. Há ainda o seu inconcebível catolicismo de catequista que (diga-se) se traduz num humanismo bolorento e charlatão sempre que o senhor sacrifica o discurso cinematográfico a uma verborreia pseudo-literária para se dar ares de carpideira filosófica preocupada com os pecados do mundo.”

(…)

“O Passado e o Presente não é o reflexo de um mundo; é um mundo que a si próprio se espelha e objectiviza. As personagens do filme são espelhos de si próprios (e só) e com elas o uso dos espelhos perde a sua habitual função de objeto de um “décor” para introduzir uma dimensão especular que só admite, todavia, o seu próprio espetáculo. “Não há dúvida que estamos aqui”, diz-se no começo do filme. Aqui, onde? Indubitavelmente, num filme.”

(…)

“Sistematicamente construído e organizado sobre a noção do duplo, O Passado e o Presente sutilmente se encerra no jogo de sua duplicidade. Jogo entre o que vê e o que é visto, entre o que mostra e o que esconde, O Passado e o Presente é, por excelência, o filme da festa do olhar. É, pois, a extensão e a qualidade do olhar que produz, regula e determina o movimento mais profundo e mais violento do filme: o movimento eminentemente erótico. Que me recorde, e se a memória não me trai, só encontro em toda a história do cinema um filme tão violentamente erótico como o filme de Manoel de Oliveira. Trata-se (curiosamente) do filme mais subestimado e incompreendido de Dreyer: Gertrud.”

(…)

“Resta dizer que, como todos os grandes e revolucionários filmes, também este tem o condão de desmascarar os imbecis e de propor uma lição de modernidade cinematográfica para quem quiser e puder entender.”

 

Fora do cinema

riot.narita

De vez em quando, gosto de escrever sobre outros assuntos. Quando isso acontece, busco alguma capa ruim de disco. Desta vez a escolhida foi a capa de um bom disco de 1979 da boa banda Riot. Feito o aviso, meu lado rabugento se impõe:

– Neymar vitorioso, medalha de ouro no pescoço, fala para Cícero Melo, da ESPN, que sabe ter sido muito criticado pelo canal, mas não paga “mal com mal”. Essa é a ideia que o brasileiro tem da crítica (e falo do brasileiro no geral, sabendo das exceções, porque o conheço bem, ando muito nas ruas, de ônibus, metrô, e ando sem fones de ouvido, ou seja, ouço o que as pessoas falam). Não entendem que na verdade só critica quem ama. Porque não existe crítica sem amor. Pode até se disfarçar de crítica, mas é só disputa de espaço, vaidade, vingança ou alguma outra coisa, se não tem amor. Quem critica filmes ama o cinema. Críticas constroem, adesões automáticas, elogios fáceis e bajulações destroem.

– Aliás, sempre que ouvi alguém falando em crítica da crítica o que veio a seguir é a mais pura besteira. Não que a crítica da crítica seja algo impossível. Mas é que normalmente é pleiteada por quem não tem a menor noção do que é a crítica.

– Ufanistas vão chiar, mas achei esse ouro no Volei bem esquisito. Em pelo menos dois momentos decisivos em que a Itália não tinha mais desafios a pedir a decisão do juiz, protestada pelos italianos, foi favorável ao Brasil. Até aí, normal. Mas não houve replay desses momentos, e isso me parece suspeito. O comentarista Maurício Jahu falou de invasão do Wallace, mas o desafio brasileiro se referiu ao toque dos italianos. Não entendo muito das regras do volei, mas tudo isso me pareceu um tanto tendencioso. Tenho birra com essa seleção desde que jogaram para perder num torneio poucos anos atrás. Com lances assim, não reprisados pela televisão em dois sets definidos em pequenos detalhes, fica um clima forte de ajuda exterior nessa vitória.

– Que os ânimos estão exaltados não é novidade. E a maldita mania de se opinar sobre todos os assuntos parece ter contaminado 3/4 de mundo ou mais. Mas temo que os limites já tenham sido ultrapassados há um tempo nas redes sociais. Não conheço André Forastieri pessoalmente, mas conheço gente que o conhece. Nunca ouvi uma queixa sequer dele, pelo contrário, só coisas boas sobre sua índole, e para mim é isso que vale. Ele tem, sim, um lado polemista meio besta, e eu discordo de 90%, mais ou menos, do que ele escreve quando movido por esse lado. Mas por que ele haveria de escrever para que eu concordasse? Ou para que as pessoas concordassem com ele? Para isso já existem os inúmeros pregadores para convertidos que andam por aí, geralmente os mesmos que, na vida real, puxam tapete, ignoram presenças de trabalhadores que eles consideram inferiores, e outras coisas típicas desses falsos humanistas de facebook. Já li coisas absurdas ditas contra Forastieri; que é um lixo, que merece ter morte bem lenta e sofrida, e coisas afins. Não vou cometar o erro de achar que essas pessoas que agem como fascistas no facebook o são também na vida real. Mas se exibem na rede como fascistas e já passaram do ponto, sendo muito pior do que aqueles que elas condenam.

– Nas últimas rodadas do primeiro turno do Brasileirão, o Corinthians, meu time, foi ajudado, sim. Cássio devia ter sido expulso contra o Figueirense (muito longe do fim do jogo), e fez penalti no jogo seguinte, contra o Cruzeiro (mas ele não devia ter jogado, e em seu lugar jogaria o Walter, em melhor fase, vejam a ironia), mas o juíz ignorou a infração, que aconteceu ainda no primeiro tempo. O Palmeiras foi ajudado em dois jogos também. Conseguiu o empate contra o Chapecoense num penalti totalmente inventado nos últimos minutos do jogo. E a vitória contra o Inter porque o juíz não quis ver o salto no vácuo com joelhada dado pelo Zé Roberto no jogador colorado, aos 43 do segundo tempo. Na ESPN, canal que sigo e considero o melhor em matéria de esporte, as ajudas para o Corinthians, que renderam apenas dois pontos, foram muito lembradas e tratadas como um escândalo (até mesmo quando o assunto era outro), principalmente pelo Mauro Cezar, um dos meus comentaristas preferidos (porque sempre crítico), mas que têm revelado uma tendência assustadoramente parcial ultimamente. Enquanto isso, pouco se falou das ajudas ao Palmeiras, que renderam ao time três pontos, um a mais que as ajudas ao Corinthians. Parece não existir imparcialidade no jornalismo futebolístico.

“I’m back”

colorofmoney

– De volta a este blog. Sou como o personagem de Paul Newman em A Cor do Dinheiro, filmaço de Scorsese. Ou seja, “I’m back”.

– Depois de um longo verão, nova edição da Interlúdio no ar, com mini-dossiê Sam Peckinpah, dois textos sobre o novo filme de Anna Muylaert, dois textos sobre o novo filme de Neville D’Almeida, mais Rita Azevedo Gomes, Guerin, Almodóvar, Metrópolis por Buñuel, Caça-Fantasmas, uma reflexão sobre a importância de ser arte e muitas coisas mais. Eis o link:

www.revistainterludio.com.br

– No início de agosto ministrei três aulas sobre o cinema de Luchino Visconti. Foi ótimo retomar algumas leituras, descobrir outras e rever todos os filmes, incluindo curtas e episódios, rever mais uma vez O Leopardo e desta vez descobrir um filme ainda mais louco do que eu lembrava, enfim, retomar o contato com um dos maiores diretores do cinema. Devo publicar algo mais sobre Visconti nas próximas semanas, na Interlúdio. Aqui, por enquanto, um TOP 10:

1) O Leopardo (Il Gattopardo, 1963)

2) Ludwig (1973)

3) Rocco e Seus Irmãos (Rocco i Suoi Fratelli, 1960)

4) Morte em Veneza (Death in Venice, 1971)

5) Violência e Paixão (Gruppo di Famiglia in un Interno, 1974)

6) O Inocente (L’Innocente, 1976)

7) Sedução da Carne (Senso, 1954)

8) A Terra Treme (La Terra Trema, 1948)

9) Os Deuses Malditos (The Damned, 1969)

10) Um Rosto na Noite (Le Notti Bianche, 1957)

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obs: os oito primeiros são obras máximas do cinema.

Ranking Steven Spielberg

encontros

Dias atrás, Roberto Sadovski organizou todos os longas de Spielberg em sua ordem de preferência, do pior ao melhor. Ontem foi a vez de Gabriel Carneiro. E de Ronald Perrone (a lista menos diferente da minha). Mais gente deve ter feito isso, mas não vi. Para movimentar este blog e respirar um pouco depois do genial Oscar Wilde (que voltará em breve), resolvi brincar também. Só que eu não irei rever os filmes. Vai de memória. Eles gostam muito mais de Spielberg do que eu, afinal. E ainda não vi o último, nem sei quando verei, então minha lista terá 29 longas.

29. Hook

28. A Cor Púrpura

27. Cavalo de Guerra

26. Amistad

25. A Lista de Schindler

24. As Aventuras de Tintin

23. Além da Eternidade

22. Parque dos Dinossauros

21. O Império do Sol

20. Ponte dos Espiões

19. Lincoln

18. O Terminal

17. O Resgate do Soldado Ryan

16. Guerra dos Mundos

15. Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal

14. Parque dos Dinossauros 2

13. Munique

12. Indiana Jones e o Templo da Perdição

11. Minority Report

10. 1941

09. Prenda-me se For Capaz

08. Louca Escapada

07. E.T.

06. A.I. Inteligência Artificial

05. Tubarão

04. Encurralado

03. Os Caçadores da Arca Perdida

02. Indiana Jones e a Última Cruzada

01. Contatos Imediatos do Terceiro Grau

observações:

– Gostar mesmo, com a boca cheia, só dos seis primeiros. Dos demais, gosto com reservas (7 a 11), gosto com muitas reservas (12 a 16), gosto e desgosto na mesma medida (17 a 25) ou não gosto de jeito nenhum.

– Sim, meu Indiana preferido é o terceiro, a meu ver, aquele em que o tema da ausência do pai, burilado em Contatos Imediatos, volta com maior força.

– Não gostei dessa ideia de colocar os títulos do pior para o melhor. Agora já foi, mas espero me lembrar no futuro de não fazer mais isso.

– Contrariamente a maior parte dos críticos que admiro, vejo algumas qualidades em A Lista de Schindler, o que não anula aquele catártico mergulho final no esterco artístico, infelizmente.

Oscar Wilde

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Trechos do essencial ensaio em forma de diálogo “O Crítico como Artista” (tradução de João do Rio, de 1911, adaptada para o português atual para a edição da Imago, 1992):

Sem o espírito crítico não há criação artística alguma digna deste nome.

Em uma época que não possui crítica de arte, a arte não existe, ou então é hierática, confinada à reprodução de tipos antigos. Certas idades da crítica não foram criadoras no sentido usual do termo; bem o sei: o espírito do homem buscava nelas inventariar os próprios tesouros, separar o ouro da prata e a prata do chumbo, avaliar as jóias e nomear as pérolas. Porém, todas as idades criadoras foram também críticas. Pois que é o espírito crítico que engendra as formas novas. A criação tende a repetir-se. Ao instinto crítico é que se deve cada nova escola que se ergue, cada fôrma que a arte encontra pronta para seu pé.

Para conhecer o valor de uma colheita e a qualidade de um vinho é inútil beber toda a pipa! Em meio pode-se com facilidade dizer se um livro é bom ou não presta. Se se tem o instinto da forma bastam dez minutos.

Mais difícil fazer alguma coisa que falar dela? Absolutamente não! Isto é um grande erro habitual. É muito mais difícil falar de uma coisa que praticá-la. Na vida, nada de mais evidente. Quem quer que seja pode fazer história, mas somente um grande homem poderá escrevê-la.

Quando um homem se agita é um títere. Quando descreve é um poeta.

[Gilberto] Porém a crítica é também uma arte! E, assim como uma criação artística implica o funcionamento da faculdade crítica, sem o que ela não existiria, assim também a crítica é na verdade criadora na mais elevada acepção do termo! Ela é afinal criadora e independente.

[Ernesto] Independente?

[Gilberto] Sim, independente. A crítica não deve ser, assim como a obra do poeta ou do escultor, julgada por não sei que baixas regras de imitação ou semelhança. O crítico ocupa a mesma posição em relação à obra de arte que o artista em relação ao mundo visível da forma e da cor, ou o invisível mundo da paixão e do pensamento.

Sim, da alma. Porque a crítica elevada é na realidade a exteriorização da alma de alguém! Ela fascina mais que a história pois que não se ocupa senão de si própria. É mais deliciosa que a filosofia, porque o seu assunto é concreto e não abstrato, real e não vago. É a única forma civilizada da autobiografia, pois se ocupa não dos acontecimentos, porém dos pensamentos da vida de alguém, não das contingências da vida física, porém das paixões imaginativas e dos estados superiores da inteligência. Sempre achei graça na tola vaidade desses escritores e artistas da nossa época que acreditam ser a função primordial do crítico o discorrerem sobre suas medíocres obras. O melhor que se pode dizer da arte criadora moderna em geral é ser ela um pouco menos vulgar que a realidade, e assim o crítico, com a sua fina distinção e sua delicada elegância, preferirá olhar no espelho argênteo ou através do véu e desviará os olhos do tumultuoso caos da existência real, se por acaso o espelho estiver embaciado ou dilacerado o véu. Escrever impressões pessoais, eis o seu escopo único. Para ele é que são pintados os quadros, escritos os livros e cinzelados os mármores.

(…)

… alguém de quem nós reverenciamos todos a graciosa memória (…) declarou que o fim da Crítica consiste em ver o “objeto” como na realidade ele é. Mas é grave erro; a crítica, na sua elevada forma, na forma perfeita, é essencialmente subjetiva; busca revelar o próprio segredo e não o segredo de outrem: serve-se da Arte não pela deterioração, mas pela emoção.

E é por esta mesma razão que a crítica à qual fiz alusão é a mais elevada; porque trata a obra de arte como um ponto de partida para uma criação. Não se limita-pelo menos assim supomos –a descobrir a real intenção do artista e a aceitá-la como definitiva. E o erro não se acha nela, pois o sentimento de toda a bela obra criada reside pelo menos tanto na alma que a contempla como na alma que a criou.

A obra de arte serve ao crítico simplesmente para sugerir-lhe uma nova obra pessoal, que pode não ter semelhança alguma com a que ele critica. A característica única de uma bela coisa é que pode emprestar-se a ela, ou nela ver aquilo que se deseja; e a Beleza, que dá à criação seu estético e universal elemento, faz do crítico um criador a seu turno, e segreda mil coisas que não existiam no espírito daquele que esculpiu a estátua, pintou a tela ou gravou a pedra.

De Bazin para Truffaut

oharu

A Vida de Oharu (Mizoguchi, 1952)

“Lamento não ter podido rever com vocês, na Cinemateca, os filmes de Mizoguchi. Coloco-o tão alto quanto vocês e acho que o amo ainda mais amando também Kurosawa, que é a outra vertente da montanha: pode-se conhecer o dia sem a noite? Detestar Kurosawa para amar Mizoguchi não passa de um primeiro estágio de compreensão. Por certo, quem preferisse Kurosawa seria um cego irremediável, mas quem só ama Mizoguchi é um caolho. Há em toda a arte um veio contemplativo e um veio expressionista…”.

Carta de 1958, no alto da polêmica Kurosawa vs Mizoguchi na redação da Cahiers du Cinéma. Bazin morreria pouco depois, em novembro do mesmo ano.

Está no prefácio do livro O Cinema da Crueldade, que alguma editora deveria relançar.

Top 10 Kiarostami e Babenco

oliveiras

Através das Oliveiras (no alpendre)

Para retomar uma prática que me diverte (e, descobri, serve para muitos como um guia pela obra de determinados diretores), e ao mesmo tempo homenagear dois diretores que se foram, seguem dois tops 10 de supetão.

* brincadeira da legenda: meu nome completo é Sérgio Eduardo Alpendre de Oliveira

ABBAS KIAROSTAMI

1) Gosto de Cereja (1997)

2) Através das Oliveiras (1994)

3) Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1989)

4) E a Vida Continua (1992)

5) Dez (2002)

6) Five (2004)

7) O Vento nos Levará (1999)

8) Close Up (1990)

9) Cópia Fiel (2010)

10) Shirin (2008)

Gosto muito de todos os dez filmes, e também de alguns que ficaram fora (ABC África, o curta O Coro, os trabalhos anteriores à aclamação da crítica). Os cinco primeiros me deixaram estatelado na poltrona do cinema, o oitavo eu admiro muito, mas com certa distância, algo mais racional mesmo.

HECTOR BABENCO

1) Lúcio Flávio – Passageiro da Agonia (1977)

2) Brincando nos Campos do Senhor (1990)

3) Ironweed (1988)

4) O Beijo da Mulher Aranha (1985)

5) Pixote (1980)

6) Carandiru (2003)

7) Coração Iluminado (1998)

8) O Passado (2007)

9) Meu Amigo Hindu (2016)

10) O Rei da Noite (1975)

Aqui acontece algo diverso dos meus tops costumeiros. Há uma clara divisão entre a metade de cima da lista, formada por cinco filmes bem fortes (senão no todo, ao menos em alguns momentos) e dois que se aproximam da excelência, e a metade de baixo, com quatro filmes de força similar que se enquadram na qualificação “interessante”, ou, se preferirem, gosto com reservas (às vezes muitas ou grandes reservas), e um de que não gosto.