Amanda

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Ao ver um filme, podemos sentir dois tipos de emoção. O primeiro é aquele originado por alguma artimanha da narrativa, normalmente um movimento catártico na direção da reordenação das coisas ou de alguma descoberta importante por algum personagem. O segundo tipo de emoção é mais profundo, e por isso mais forte e duradouro. Vem do nosso sentimento de que algo foi mostrado da (e com a) melhor forma possível. Quando esses dois tipos se juntam, como em Aurora (F.W. Murnau, 1927), Peregrinação (John Ford, 1933), Stella Dallas (King Vidor, 1937), Tarde Demais para Esquecer (Leo McCarey, 1957), Quando o Amor é Cruel (Luigi Comencini, 1967) e alguns outros filmes, experimentamos um êxtase estético que não esquecemos.

Não cometerei a demagogia de colocar Amanda, de Mikhael Herz, ao lado desses filmes. Como sempre me diz um amigo português, as pessoas gostam de pensar que vivem no melhor dos tempos em algum aspecto, e o cinema de hoje, a meu ver, está longe de ser o melhor de todos os tempos. Mas é fato que a junção desses dois tipos de emoções se dá nesse filme que nos surpreende cada vez mais a cada minuto. Herz conseguiu o mais difícil. Seu filme, certamente um dos melhores lançamentos do ano no Brasil, dispensa efeitos mirabolantes de câmera, truques de roteiro que chamem a atenção para a inteligência na criação ou aqueles momentos fofinhos de quase todos os filmes com crianças.

Quando Sandrine (Ophélia Kolb) se torna uma das vítimas fatais de um atentado terrorista, seu irmão David (Vincent Lacoste) se incumbe da missão de cuidar da sobrinha Amanda (Isaure Multrier) até ela fazer 18 anos. Nessa transferência de responsabilidade da mãe para o tio há incertezas, medos e desajeitos, tanto para ele quanto para a criança, então com apenas 7 anos. Mas o diretor cuida para que o entendimento entre eles seja mostrado de uma forma sutil e gradual, com elipses muito bem inseridas e um tom cotidiano favorecido pelo naturalismo invejável alcançado nas interpretações.

Pode-se reclamar da montagem excessivamente recortada no início e do romance um tanto mal ajeitado na trama, entre David e a interiorana Lena (Stacy Martin). Mas é inegável a qualidade de um roteiro que prescinde de engenhosidade forçada para impressionar neófitos, mas recorre habilmente a alguns ganchos, como o da expressão “Elvis has left the building”, responsável pelo mais belo momento de todo o filme, em Wimbledon, quando finalmente fica clara a ode à vida. Vida que continua, sempre. Amanda se identifica de algum modo com um dos tenistas (não há francês na quadra, como nos mostra o placar), começa a torcer por ele, mas ele perde alguns pontos em sequência, abrindo caminho para a analogia com a frase sobre Elvis, no sentido que a mãe havia explicado no início: “agora já era”.

Mas o filme não seria a mesma coisa sem a interpretação sobrenatural de Multrier, atriz-mirim capaz de nos levar da singeleza à aflição e à melancolia. Ela, e seu entrosamento com Lacoste (ator que nunca esteve tão bem como aqui), mais a justeza de tom conseguida por Herz (algo muito raro no cinema em todos os tempos, quase um Rohmer nesse sentido), são os responsáveis pela beleza de Amanda.

Estou me guardando…

carnaval

Estou me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar

Não é a refilmagem do musical setentista e escapista de Cacá Diegues, com Nara e Chico Buarque sambando em direção à tela em meio a momentos lúdicos de cinema – é um dos poucos bons filmes de Diegues, por sinal, espécie de versão palatável de Os Herdeiros, dele próprio, ou um Garota de Ipanema (de Leon Hirszman) mais leve e popular. Este novo filme de Marcelo Gomes insere-se numa veia documental em primeira pessoa na busca pelo retrato da chamada capital do jeans, a pacata e minúscula Toritama, no agreste pernambucano, vizinha de Caruaru. Logo nas primeiras cenas uma moto chega carregando dezenas de calças jeans, que um homem corta logo a seguir, num calor dos diabos. É o cotidiano da cidade que o filme vai nos mostrar, a vida em torno da confecção e do comércio do jeans, e a ansiedade pela chegada do carnaval, quando a cidade se esvazia porque todos fazem tudo, até vender seus bens, para passar o feriado na praia.

Como uma mini cidade de cerca de 40 mil habitantes se transforma na capital nacional do jeans, tornando-se responsável por 20% de todo o jeans que circula no país, segundo um dos vendedores entrevistados? Há um interesse de saída no tema, e Marcelo Gomes conduz a investigação com certa habilidade, alternando imagens do ambiente de trabalho, o barulho incessante das máquinas de costura e algumas conversas informais com os trabalhadores. Em contraste com Joaquim, seu último longa de ficção, em que a câmera geralmente aponta para todos os lados sem muito critério, aqui a câmera é precisa, bem pensada e colocada para flagrar as situações da melhor maneira possível.

Suas impressões são explicitadas para o espectador. A angústia da repetição dos movimentos, o incômodo com o barulho das máquinas e a consequente tentativa de ludibriá-lo com música de piano, e sobretudo as lembranças que invadem o filme, na narração do próprio diretor, tornando-o mais belo. Nesses momentos mais pessoais, Gomes quase alcança a poesia de um Frederick Wiseman. Mas deve assustar o pessoal que tem reclamado da subjetivação em documentários recentes.

Há ainda um surpreendente uso das silhuetas em parte das cenas externas e o jogo de claro-escuro em algumas internas. Não sempre, apenas o suficiente para que nosso olhar repouse e o filme adquira uma bem-vinda alternância de registros fotográficos que contrasta com a imponente e asfixiante secura ensolarada da região.

Positif e Dirigido por…

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Posso dizer que são minhas revistas de cinema preferidas: a francesa Positif e a espanhola (catalã) Dirigido por… Eu, que adoro virar páginas de revistas e sempre sonhei em ter uma (até que tive a Paisà, que se tornou um pesadelo, mas um pesadelo do bem, que me abriu portas), não perco e acho que nunca perderei o prazer em abrir uma delas, folhear as matérias, pular para as que mais me interessam e depois resgatar as que ainda não tinha lido.

A Positif continua a mesma de trinta ou quarenta anos atrás no que diz respeito ao gosto, um tanto conteudístico e politizado demais, mas teve um aprofundamento na questão histórica, fazendo muito bem aquilo que a Foco defendia em seu prefácio, “lidar com todo o cinema feito até hoje”. É por isso uma revista superior aos Cahiers du Cinéma. Assim tem sido pelo menos há uns quinze anos.

A Dirigido por…, que é bem mais interessante que a Cuadernos de Cine, da Caiman, continua mesclando informação e profundidade de análise, super-heróis com o melhor da história do cinema, com uma vivacidade e uma paixão que eu só encontrei na Espanha, terra dos cinéfilos mais vigorosos. Seus dossiês se assemelham aos da Positif, e de certo modo ambas fazem um jogo importante em que o passado do cinema sempre merece revisitas e reavaliações.

Curiosamente, as duas lançaram edições comemorativas neste mês de junho. A Positif chegou ao seu número 700 com uma lista de preferidos da redação, num universo que vai de Visconti a Jiri Trnka. A Dirigido por… lançou seu número 500 e com ele uma enquete com os melhores filmes do século 21 (de 2000 a 2018), com Mulholland Drive de David Lynch no primeiro lugar. Além disso, celebra suas edições passadas, com todos que nelas colaboraram desde o número 0, de 1972 (capa Claude Chabrol).


P.S. A cobertura do 8º Olhar de Cinema continuará a qualquer momento com um balanço a ser publicado na Revista Interlúdio.

Olhar dia 6: Enquanto estamos aqui, o sol queima o chão

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Já sabemos da demonização que a grande mídia fez com o MST. Já sabemos o que o governo atual, empenhado em defender os cidadãos de bem que provavelmente arderão no inferno (se este existir) está fazendo com a luta legítima por reforma agrária. Já sabemos do imenso valor desses trabalhadores, ou pelo menos da maioria deles, gente de força e dignidade muito além dos crápulas do dinheiro que comandam o país. Mesmo assim, é com tristeza que saímos da projeção de Chão, de Camila Freitas. Isso porque o filme é hábil na costura de suas cenas, seguindo num crescendo até a hora do embate com a mídia. E nos lembramos da nossa atual situação. Mas a tristeza logo dá lugar à esperança, quando vemos alguns desses trabalhadores rurais na sessão, empolgados por ver sua luta representada na tela, sensibilizados pela acolhida da maior parte do público, mesmo numa cidade 80% Bolso como Curitiba (basta conversar com as pessoas na rua para identificar que muitos desses já se arrependeram). Saímos também, ou melhor, talvez seja a hora de abandonar a suspeita primeira pessoa do plural e passar para o singular, e dizer que saí com a sensação de que até mesmo esse tipo de filme militante o cineasta brasileiro aprendeu a fazer, depois de anos de certa acomodação com a mania da adesão automática de parte dos críticos e frequentadores de festivais.

Volto ao chão (sem trocadilho) no brevíssimo entre-sessões, mas disparo novamente ao espaço das incertezas estéticas já nos primeiros minutos do filme seguinte, o intenso e altamente impactante Ó, Sol (1967), de Med Hondo, cineasta da Mauritânia que assina este que é o segundo longa realizado no continente africano (o primeiro é La Noire de, de Ousmane Sembene). Filme desesperado e desesperante, me confessou Luiz Zanin na saída. Imperdível, disseram alguns outros amigos que tinham visto na sessão anterior, anteontem. Sim, é tudo isso mesmo. Um grito de horror contra o racismo manifestado em diversas camadas da sociedade, muitas vezes de maneira inconsciente, o que é ainda mais perigoso. Um filme que, sendo de 1967, época de filmes que ficam datados facilmente, por vezes maravilhosamente datados, Ó, Sol permanece um arroubo de ousadia estética e invenção na montagem e no uso do som, algo que até hoje pode causar calafrios em estudantes mais comportados de cinema, e uma ponta de inveja em quem trilha esse caminho difícil da criação (críticos inclusos, obviamente). Queria eu, queria qualquer pessoa com apetite para as artes, criar desse jeito, com tanta alternância de registros e tons, sem quebrar em momento algum a unidade crítica que o filme exibe em cada plano, e sem abrir mão de uma postura sempre aguda e contrária ao conformismo. Não há trégua. O longa de Med Hondo é tão forte que em pleno 2019 consegue nos despertar (ou pelo menos permitir que nos policiemos melhor) de certas armadilhas que caímos, nós, brancos, quando entramos na questão racial. Problemas ele têm, obviamente, frutos da dificuldade que era filmar naquele momento (e ainda é) e de uma certa vontade de falar de muitas coisas e de falar sempre com raiva. Quando o filme ameaça entrar num ponto de acomodação com sua própria verve combativa, há uma nova mudança de tom ou de registro para nos tirar o chão (vocês julgam se há ou não trocadilho).

Depois disso, era ou ir para o hotel e pensar na vida e no mundo em 2019 (e ver quanto evoluímos e quanto regredimos), ou ver algum outro filme na esperança de que seja escapista mesmo sem querer sê-lo. Foi o caso de Enquanto Estamos Aqui, de Clarissa Campolina e Luiz Pretti. Nem precisava falar das influências de Jonas Mekas e Chantal Akerman. Elas são evidentes. Em alguns momentos o longa parece querer continuar de onde News From Home, de Akerman, parou. Pretti citou ainda outra influência, Jem Cohen. E no debate, que não acompanhei, deve ter falado de outras. Claro que ver um filme logo após Ó Sol, sem nem tempo para respirar entre um e outro, é bem prejudicial ao segundo filme. Mas o lado escapista que vem sobretudo quando eles atingem uma certa abstração na câmera que filma muito de perto ou movendo-se muito rapidamente, dá um certo descanso, e o filme é um registro de vários exílios que nunca agride, embora pudesse ser menos derivativo.

Olhar, dia 5: Matsumoto, Sganzerla, Ignez…

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Toshio Matsumoto é da mesma geração dos três da Shochiku – Nagisa Oshima, Masahiro Shinoda e Yoshishige Yoshida – que deflagraram a Nova Onda japonesa, também conhecida como Nuberu Bagu. Contudo, por ser mais radical e por ter feito, durante quase toda a década de 1960, apenas curtas, ele se tornou membro do movimento posterior, de um cinema experimental que conjugava sexo, violência e ativismo político com uma radicalidade formal permitida, justamente, pelos excessos da Nuberu Bagu. Foi graças a filmes como O Enforcamento (1968) e Três Bêbados Ressuscitados (1968), de Oshima, Eros + Massacre (1969) e Purgatório Eroica (1970), de Yoshida, e Duplo Suicídio em Amijima (1969), de Shinoda, entre outros de Shohei Imamura, Susumu Hani, Yasuso Masumura e Seijun Suzuki, que a explosão que é O Funeral das Rosas (1969) torna-se possível.

Confesso que prefiro, em geral, os filmes da Nuberu Bagu, tanto os mais experimentais, sobretudo na segunda metade dos anos 1960, quanto os de juventude (Noite e Névoa no Japão, de Oshima; As Termas de Akitsu, de Yoshida; Desejo Assassino, de Imamura, etc.) do que os filmes radicais dessa turma que vai passar os anos 1970 botando fogo no cinema do país (o diretor mais talentoso dessa turma, pelo menos na questão da mise en scène, talvez seja Akio Jissoji). E percebo muita influência de Oshima e de Seijun Suzuki neste primeiro longa de Matsumoto (a cena da briga na rua, por exemplo, lembra O Portal da Carne, de Suzuki). Aliás, perguntado por Aaron Cutler se podia apresentar O Funeral das Rosas, tive de declinar, pois não lembrava muito dele, tendo-o descoberto e visto unicamente há cerca de 15 anos (cenas que eu pensava que eram dele devem ser do primeiro longa de Shuji Terayama, por exemplo, longa que, por sinal, parece comportado comparado ao de Matsumoto).

Algo no Funeral, em seu radicalismo ostensivo, me parece girar em falso. É como se o filme ficasse cada vez mais dependente de suas cenas de impacto, culminando no final sangrento: a interdição do olhar. Purgatório Eroica termina com um caminho sem saída para também refletir a quase impossibilidade do cinema japonês na virada para os anos 1970 e seguindo nesta década, e O Funeral das Rosas segue o mesmo impasse. É o que o faz tão belo, e ao mesmo tempo tão desesperançado. Por outro lado, não deve ser ignorado o modo como ele explicita o fazer cinematográfico, colocando a equipe de filmagem em cena, deixando pontas de negativo e até colocando um comentarista externo ao filme ainda antes do final, e com isso tudo amplifica o distanciamento crítico. Mas Imamura já tinha feito isso, com sutileza, em Desejo Assassino (1964) e de certo modo provocava ainda mais inquietações. De todo modo, O Funeral das Rosas talvez seja mesmo o melhor e maior exemplo do cinema radical japonês pós-Nuberu Bagu, tendo sido lançado enquanto a Nuberu Bagu começava a agonizar (e Oshima, contraditoriamente, fazia seus melhores filmes: Garoto, 1969, e Cerimônias, 1970).

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A outra sessão do dia foi A Mulher da Luz Própria, de Sinai Sganzerla, sobre sua mãe, Helena Ignez. É corajoso e pertinente o modo como Ignez se assume como vítima do machismo da sociedade brasileira porque se envolveu com outro homem enquanto seu marido de então, Glauber Rocha, se envolvia com outra mulher no Rio e nada sofreu com isso. É curioso, embora seja compreensível, como ela rejeita o epíteto de musa (do cinema novo e depois do cinema dito marginal).

O filme de Sinai dá conta da multiplicidade de registros nas atuações de sua mãe, uma atriz que conseguia mudar completamente a expressão do rosto conforme o filme pedia. Isso fez dela uma atriz única, sem igual no cinema brasileiro, talvez mesmo no mundo. Quando passa para a direção, deixa uma ideia de que parece ter sentido alguma resistência, talvez por pensarem que estivesse se aproveitando do espólio do marido, quando de fato estava com a missão de terminar seus projetos não terminados. Foi um ato de heroísmo ter filmado a continuação do Bandido da Luz Vermelha, pois ela sabia que haveria esse tipo de questionamento imbecil, como se ela não tivesse o direito, ou mesmo a missão, como ela diz, de continuar o que construiu com Sganzerla. Assim como pode haver o mesmo questionamento besta sobre o caráter íntimo e pessoal do filme de Sinai, o que, convenhamos, é o que faz dele realmente tocante.

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Tel-Aviv em Chamas, de Sameh Zoabi, é um filme israelense/palestino (em coprodução com Luxemburgo, França e Bélgica) sobre um jovem trabalhador de TV palestino e um militar israelense que se envolvem inusitadamente. O jovem palestino tem de passar todos os dias por um posto de comando israelense, pois mora em Jerusalém, mas trabalha em Ramallah. Lida então com militares quase sempre mal intencionados ou mal preparados, para acompanhar a gravação de uma novela palestina de sucesso: Tel-Aviv em Chamas, que se passa em 1967, pouco antes da Guerra dos Seis Dias entre Israel e Arábia. Um dia ele conhece o comandante do posto e sua vida muda. A esposa do comandante é fã da novela e essa relação faz com que ele passe a ser seu roteirista, mesclando costumes palestinos e israelenses e desagradando os que bancam a novela. Nesse fogo cruzado entre a vontade do comandante israelense e a dos produtores palestinos ele precisa encontrar uma solução conciliadora.

Falar de telenovela é um pretexto para que o filme se inicie da pior maneira possível: uma edulcorada imagem cheia de filtros e luzes, espécie de exagero do visual telenovelesco pelo mundo. Quando entendemos que vemos uma gravação, e que a trama vai orbitar na produção dessa novela, as imagens melhoram, mas só um pouco. A câmera é solta demais, bem de acordo com a estética qualquer nota que tem dominado o cinema contemporâneo há mais de dez anos, quando muitos diretores pararam de se importar com enquadramento e posição de câmera e resolveram que só o trabalho dos atores importa. Pode até dar certo, mas o mais comum é faltar cinema na equação. E a relação entre o agora roteirista e o comandante prossegue num tom entre o cômico (quando lembra um Tiros na Broadway bem menos inspirado), o tenso e o crítico.

Olhar: dia 4 – Um dia ruizbressaniano

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A dobradinha Ruiz-Bressane garantiu um dia inesquecível no 8º Olhar de Cinema. De Bressane, a revisão de Memórias de um Estrangulador de Loiras (1970) e a primeira visão de Sedução da Carne (2018). De Ruiz, a primeira vez que vi o raro O Teto da Baleia (1982) e também o média As Divisões da Natureza (1979).

É curioso ver no mesmo dia um Bressane de 1970 e outro de 2018. O tempo passa e o diretor continua irredutível na prática de um cinema que não se rende a modismos ou fórmulas para festivais. É certo que fazer isso agora que seu nome já tem uma grife muito forte é mais fácil. No entanto, ele parece ousar ainda mais atualmente, desde as imagens da primeira parte de seu penúltimo filme (há um outro, co-dirigido por seu montador Rodrigo Lima), algo como um Godfrey Reggio dos trópicos, imagens que procuram levar as pesquisas visuais de Garoto para um outro lado, até a típica conversa bressaniana entre Mariana Lima e um papagaio mudo, com as habituais brincadeiras visuais de perspectiva, foco e nitidez.

Mais curioso ainda é chegar à conclusão que Memórias de um Estrangulador de Loiras, o mais raro e cultuado de seus filmes de exílio, é uma espécie de pré-Elefante, o de Alan Clarke, com uma série de estrangulamentos de loiras (as mesmas atrizes, aliás, são estranguladas diversas vezes) por Guará, o assassino de Londres. Na minha memória, havia menos estrangulamentos e mais deambulações de Guará pela cidade. Estava enganado. O bebê do início pode sugerir um trauma. Guará estaria se vingando pela sexualização de sua primeira infância. Mas Bressane é chegado a pistas falsas, então convém não dar por certo o que é duvidoso, como sempre é em seu cinema.

Do mesmo modo, é fácil entender Sedução da Carne como um filme que advoga contra a matança de animais. Mas o que entendi é que fica explicitado o prazer culpado de quem adora comer carne, mesmo sabendo do sofrimento dos animais. As imagens de Le Sang des Bêtes, o assustador filme de Georges Franju de 1948 (que o filme informa equivocadamente ser de 1938), sugerem essa terrível culpa. Ainda não se fez, ou pelo menos eu não vi, imagens tão eloquentes a favor de uma vida sem ingestão de carne animal do que esse filme de Franju, cineasta sempre subestimado. Mariana Lima, que interpreta uma intelectual que enviuvou há três anos, é perseguida por um pedaço de carne crua, até que termina possuída por vários pedaços de carne crua (elas se multiplicam como gremlins), seu corpo se contorce de prazer.

Mudando para o chileno Ruiz, se o francês As Divisões da Natureza impressiona pelas distorções radicais do castelo que ele pretende retratar, as imagens do holandês O Teto da Baleia teimam em ficar na cabeça mesmo após duas outras sessões históricas do festival (é o mal de não poder ver um filme e tirar o dia de folga, sem ver mais nada). Causa-me estranhamento o fato de esse filme não ser tão badalado quanto As Três Coroas do Marinheiro, A Vocação Suspensa ou Hipótese do Quadro Roubado, ou mesmo que não seja tão elogiado quanto O Território ou A Cidade dos Piratas, todos dessa fase mágica que vai de 1978 a 1983. No auge do maneirismo, Ruiz aprofunda algumas pesquisas de Fassbinder com texturas (há um plano que me lembrou muito de Nora Helmer, telefilme que o diretor alemão dirigiu em 1974) e provoca verdadeiras desconstruções da imagem, criando caleidoscópios e névoas misteriosas numa Patagônia exuberante. O humor é único, a maneira de enquadrar os atores parece um segredo que poucos conhecem, as atuações, por sinal, são algo entre o hipnotizante do Herzog mais radical, o humorístico blasé de um Tanner e o delirante de um Schroeter. Ainda assim, o cinema feito por Ruiz nesse período, com estilhaços por toda sua carreira posterior (vejam, por exemplo, Combate de um Amor Sonhado), parece não ter filiação. É uma obra alienígena, ainda, com a qual temos de lidar com parâmetros ainda não muito conhecidos.

Olhar: Dia 3 – A Noite Amarela

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O 3º dia do Olhar de Cinema em Curitiba foi o dia da primeira exibição de A Portuguesa no Brasil. O novo longa de Rita Azevedo Gomes impressionou quem não a conhecia e também quem já acompanhava, pelo zum-zum-zum pós-sessão (conversei com algumas pessoas e meu sentido radar costuma ser bom para captar reações de estranhos).

Sobre esse filme que eleva e muito o sarrafo do cinema contemporâneo neste ano (se estrear no Brasil, é forte concorrente a melhor do ano), escreverei depois, com a calma que ele merece, consciente de que haverá novas oportunidades (passa no Centro Cultural São Paulo na semana que vem). Por enquanto, fiquemos aqui com o outro filme do dia, visto na última sessão, às 21h15 da noite, como convém.

Trata-se de A Noite Amarela, primeiro longa solo de Ramon Porto Mota, um dos diretores de O Nó do Diabo e de um curta bem bacana chamado O Hóspede, que chamou a atenção para o novo cinema paraibano em alguma Mostra Tiradentes passada.

A Noite Amarela subverte ferozmente os filmes de terror com adolescentes. Mas subverte tanto que se torna um portentoso enigma. Não é todo enigma que desejamos decifrar. Alguns filmes se tornam herméticos, mas continuam estúpidos, de modo que o suposto hermetismo mais nos afasta do que intriga. Porto Mota corre o risco de nos afastar em diversos momentos do filme, mas logo retoma as rédeas e nos mantém enredados nesse campo gravitacional do qual ninguém pode escapar.

Esse campo parece forçar os personagens a entrarem numa espécie de looping, forçados a repetir frases e a ocupar cada qual um quadro diferente; mesmo quando eles saem em três grupos de dois para procurar a garota desaparecida (já tragada por um quadro que não conseguimos ver), eles teimam em se separar, dividindo o quadro em alguns momentos chaves, em que algo do passado vem à tona, ou mesmo alguma birrinha tola aparece, e algo os impele de novo a se separarem.

O split-screen procura colocar mais de um dos adolescentes num mesmo quadro, embora o quadro esteja dividido. Mesmo assim, a dificuldade persiste. Nesse momento, já se abriram as portas da força que os mantém cada vez mais isolados em quadros que se perdem. Os embates anteriores ficam definitivamente para trás: rock contra tecno brega; narrativa da moça meio dark contra narrativa da princesinha; homens de um lado, mulheres do outro, e sobretudo uma resistência à mistura com as outras turmas (as quatro meninas roqueiras se bastam). O enigma da lua que não se mexe no céu se aprofunda cada vez mais, e a estátua da mão decepada parece dizer que não há saída.

A despedida é a imagem de celular que circula do nada pouco antes do fim, uma espécie de celebração do momento em que quase todos ocuparam o mesmo quadro (ficou de fora quem estava segurando a câmera). Estavam felizes, bêbados, num momento que não havíamos acompanhado e não sabemos se realmente aconteceu. Porque desde o começo a comunhão do quadro é quase uma impossibilidade, a não ser nas fotos que vemos dos amigos na balsa (enquanto as imagens em movimento da balsa os mostravam distanciados um do outro), ou nos planos mais abertos da chegada à ilha, ou ainda em alguns outros raros momentos (em que os sete amigos já não conseguem ocupar o mesmo quadro sem que algo, uma sombra ou uma fenda artificial, os separe). No final, todos serão tragados pela escuridão total, onde não há quadro possível.

Olhar de Cinema: Dias 1 e 2

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No dia 6, primeiro dia do Olhar, foi possível ver apenas a última sessão. Para o balanço da Folha, optei por ver todos os longas da mostra competitiva, e encaixar o que der das outras sessões. São muitas as mostras do festival, por isso conseguirei rever poucos filmes, pois a prioridade vai para os inéditos das outras mostras.

E o primeiro longa da competição que vi foi Pretérito Imperfeito, da chinesa Shengze Zhu (de quem vi, três anos atrás, o superior Um Outro Ano). O filme segue os youtubbers chineses (é outra plataforma, exclusivamente chinesa e mais desenvolvida, ao que parece, que seu equivalente internacional) e a interação deles com a legião de seguidores e com outros performáticos.

Confesso que não entrei em momento algum na pegada do filme, apesar de reconhecer alguns personagens carismáticos, como o homem que não cresceu, uma espécie de Ferrugem oriental. Mas trabalhar com found footage tem suas facilidades, o que torna difícil fazer qualquer coisa de realmente bom com esse tipo de material.

Abrindo o segundo dia, um filme impressionante sobre a experiência paulistana no trato com viciados em crack: Diz a Ela que me Viu Chorar, de Maíra Buhler. O filme flagra alguns dos moradores do hotel no centro da cidade que serviu de abrigo para os viciados. Vemos um tipo de testemunho que só se consegue com muito convívio e muita abertura, o que é um inegável mérito da diretora e de sua equipe.

Pode ser viagem minha, mas senti alguma influência do Hotel Monterey de Chantal Akerman. Neste que é o primeiro longa da genial diretora belga, um hotel decadente de Nova York serve como pretexto para Akerman fazer suas pesquisas visuais com a luz e com o espaço. Totalmente sem som, Hotel Monterey nos entrega o ritmo do hotel e de seus hóspedes e moradores, incluindo uma câmera dentro do elevador por alguns minutos, artifício que Maíra Buhler também usa muito bem. Claro que no filme brasileiro pode-se partir ou não do filme da Chantal Akerman, mas o importante é que se chega a um olhar muito pessoal para aquela situação, e a força do filme vem desse olhar atento, cúmplice, respeitoso com os excluídos.

Vi ainda mais dois filmes, o interessante brasileiro Casa, de Letícia Simões, e o fraco belga Etangs Noirs, de Pieter Dumoulin e Timeau De Keiser.

No filme brasileiro, filha, mãe e avó se encontram em Salvador e lidam com suas diferenças, principalmente entre a mãe e a avó, sendo que a filha é Letícia, a diretora do filme. Mas o encontro começa em 2015 e termina em 2017, com a avó já falecida. Há uma insistência em enquadramentos que cortam personagens. Num dos planos mais interessantes, vemos mãe e avó e só a ponta do nariz de Letícia (e mais alguma coisa de seu corpo), indicando que a diretora quer mesmo é jogar os holofotes naquelas que entende ser suas melhores personagens. De fato, são duas das personagens mais cativantes do cinema brasileiro recente. E se digo personagens é porque a verdade que elas mostram ali é claramente encenada para a câmera, pelo menos da parte da mãe, mais consciente de seu carisma (um carisma um tanto vilanesco, como a filha pretende forçosamente fazer-nos crer).

Casa não é tão forte quanto o outro brasileiro da competição, mas é bem digno. Se o filme mostra que o cinema baiano continua pulsante, mostra também que a crise de imaginário do cinema brasileiro recente continua, o que faz com que jovens cineastas muitas vezes procurem o real a qualquer custo, inventando a partir dele (isto está também no outro brasileiro do dia). Pelo menos agora já se trabalha melhor dentro desse registro.

Etangs Noirs me pareceu uma estupidez completa. O protagonista JImi deseja entregar um pacote a uma mulher que ele não conhece. O que tem nesse pacote que ele recebeu por engano, e quem será essa mulher? Mal sabemos, e mal saberemos no decorrer do filme. Jimi procura saber encontrar essa mulher, chamada Sayenna. Descobre onde ela trabalha, mas ainda não conhece seu rosto. Segue a mulher errada na saída do metrô. Invade a casa da mulher certa, mas está sem o pacote, deixado com um vizinho. Na casa, vê uma foto e passa a procurá-la no metro tendo a foto consigo, no horário que ela costuma sair do trabalho, segundo o informaram. Ele encontra Sayenna, hesita, e finalmente entrega, do jeito mais sem graça possível. Tudo isso filmado por uma câmera bêbada, usando por vezes a famigerada estética da nuca que cansou antes mesmo de se tornar moda, e apostando nas interrogações para segurar o espectador.

Os diretores pretenderam brincar com o McGuffin hitchcockiano numa narrativa totalmente farsesca. Mas o tratamento dado à câmera e o tipo de interpretação adotado, talvez por escolha dos diretores, por Cédric Luvuezo, ator que vive Jimi, comprometem a ideia e tornam um filme de 70 minutos algo penoso de acompanhar.

Ou seja, até agora, de quatro filmes vistos na competição, os dois melhores são brasileiros. Os dois problemáticos são internacionais. O cinema brasileiro resiste à barbárie, ao que parece, e continua colhendo os frutos de tantos anos tateantes.

Top 10 Milos Forman

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Um Top 10 com filmes do diretor tcheco Milos Forman, hoje, ficaria assim:

1 – Ragtime (1981)

2 – Valmont (1989)

3 – Procura Insaciável (1971)

4 – Hair (1979)

5 – Os Amores de uma Loira (1965)

6 – O Baile dos Bombeiros (1967)

7 – Amadeus (1984)

8 – O Mundo de Andy (1999)

9 – Pedro, o Negro (1964)

10 – O Povo Contra Larry Flint (1996)

 

Não prometo mais nada

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É isso mesmo. Não prometo mais nada, com relação a este blog. Talvez assim, sem a pressão da frequência, eu o atualize mais.

O desânimo geral com a destruição do Brasil por um bando de irresponsáveis faz com que por vezes eu desista de postar por aqui, apesar de algumas ideias surgirem (estão sendo vazadas nas aulas).

Crítica de cinema é uma atividade solitária, e com o ritmo acelerado do mundo rumo à barbárie do fascismo e do obscurantismo, tenho evitado a solidão, a não ser no preparo das aulas. Com isso tenho escrito menos também, a não ser quando pautado ou para a tese de doutorado.

Mas de vez em quando acho que devo insistir. Amo cinema e amo pensar sobre cinema. Se eu não encontrar a melhor maneira de passar meus pensamentos para a escrita, posso culpar o desânimo e a falta de esperança num curto prazo. Se sair algo bom, provavelmente será pelo mesmo motivo (a melancolia nos dá asas, afinal).

Mas existem outros fatores para esse desânimo. O circuito comercial está cada vez pior. Embora eu tenha seguido muito menos que seguia até o ano passado. Acabo vendo os filmes para o quadro da Folha, e se depender do que entra lá, devo dizer que o circuito está mesmo sofrível, tirando um Godard e um Clint de vez em quando.

Nos DVDs, a coisa melhora bastante. A Versátil continua lançando suas boas coleções, embora nem sempre com os melhores filmes. A do Aldrich, por exemplo, podia ser mais animadora, mas entendo que nem sempre os filmes estão disponíveis. Tem a Obras-primas do cinema, que também andou lançando algumas maravilhas. Espero que continue.

Não gosto de streaming. Netflix e Now são o império dos formatos errados. Now, para quem não fica deslumbrado com séries, é claramente melhor. Mas ainda assim é raro o dia em que procuro algo em seu catálogo, mesmo porque a busca é horrível.

Não desisti do blog. E não desisti de trabalhar com cinema. Muitos projetos estão sendo burilados e logo logo aparecem. Muitos cursos ainda serão dados (se faltar lugar, serão em casa mesmo).

A Interlúdio voltou, timidamente. Mas logo a coisa pega no tranco.

Por último, tenho dois cursos para maio. Milos Forman no Cinesesc, de 6 a 9 de maio (ainda não encontrei o link). 4 Grandes Diretoras no Espaço Itaú de Cinema:

https://www.escolanocinema.com.br/quatro-grandes-diretoras-do-cinema

Resistiremos.


P.S. Surgiu o link para o curso Milos Forman:

https://www.sescsp.org.br/aulas/190045_MILOS+FORMAN+ENTRE+DUAS+MODERNIDADES?fbclid=IwAR3Z3uRwd6w3T49HtejtyPuHSkCRSVOwredETOZz48YrdKPwPLamdzA-nA8