Notas sobre filmes brasileiros recentes

boasmaneiras

– Três filmes brasileiros vistos em uma semana já longínqua de outubro me fizeram ter alguma esperança pela nova geração de realizadores. Primeiro foi Animal Cordial, de Gabriela Amaral Almeida, que ousa fazer um filme de gênero e chega até a incorporar alguns tiques contemporâneos, sem soar ridículo em momento algum. Pelo contrário: sua direção mostra um controle de ritmo que poucos atualmente têm. Conta ainda com dois grandes atores na condução: Murilo Benício e Luciana Paes. Depois vi Arábia, de Affonso Uchoa e João Dumans, que também lida com tiques contemporâneos, no caso, os do novíssimo cinema brasileiro, e os resolve de uma maneira a meu ver inédita. Esse cinema filhote do neorrealismo, que evita o melodrama muitas vezes por preconceito, chega a seu estágio máximo com esse filme pequeno, com protagonista que muda depois de uns quinze minutos e um dos flashbacks mais bem inseridos que vi no cinema brasileiro recente. Por fim, As Boas Maneiras (foto), de Juliana Rojas e Marco Dutra, é um desses raros filmes que não têm medo do ridículo, chegando à fábula via comentário social e resolvendo uma série de questões por um viés incrivelmente poético. A operação de dividir um filme em dois, aliás, é muito bem sacada. Sempre bom quando somos levados a um caminho e abandonados, tendo que retomar o caminho certo por conta própria. Isso é acreditar na sensibilidade do espectador. Amigos reclamam da segunda parte, mas acho que é nela que o filme realmente se afirma. Mas entendo: os que não comprarem essa segunda parte terão imensas dificuldades de curtir o filme no todo. Noves fora, Gabriela Amaral Almeida, Affonso Uchoa, Juliana Rojas e Marco Dutra realizaram, no sombrio 2017, seus melhores filmes.

Gabriel e a Montanha me interessa por um fator que me parece colateral: a vingança da natureza. Nos créditos, Fellipe Barbosa, o diretor, diz ter feito o filme em homenagem ao amigo, Gabriel, que desapareceu numa montanha durante sua viagem pela África. Acontece que, intencionalmente ou não, e não importa, Gabriel é retratado como um mimado à beira do insuportável, de modo que a montanha se vinga de seus caprichos, engolindo-o, mostrando quem manda de fato ali.  Além disso, Barbosa pretendeu retomar o diálogo didático que tanto me desagradou em Casa Grande (no caso, sobre as cotas), desta vez sobre uma questão mais ampla, e um tanto melhor colocada no filme, em parte porque conta com uma ótima atriz que é a Caroline Abbas. Ainda assim, Gabriel e a Montanha não passa de interessante, de modo que fico pensando se os franceses que o adoraram têm visto filmes munidos de alguma substância alucinógena.

– Percebi que alguns se incomodaram com meu texto sobre Bingo. O que posso dizer? Não faço textos para agradar a todos. Aliás, desconfio bastante quando algum texto alcança isso. Uma questão, porém, foi levantada, e acho que vale algum esclarecimento. Se a falta dos nomes e marcas reais não incomoda as pessoas, bom para elas. A mim, incomoda, ao menos nesse filme – e não incomoda, ou não incomoda tanto, em outros filmes; ou seja, é pessoal e vale para esse único filme. Mas hoje as pessoas se ofendem com pouco e fazem leituras apressadas. A combinação dessas duas coisas é terrível.

Bingo

bingo

Não sei como são essas coisas, se rola algum impedimento legal no Brasil, ou algo do tipo, mas imagino que não seria tão difícil que se assumisse tratar de Bozo, o palhaço, ao invés de inventar um nome que provoca associação imediata com um jogo. Sim, estou falando de Bingo: O Rei das Manhãs, o filme de Daniel Rezende que alguns críticos tentaram empurrar goela abaixo dos leitores como bom.

Em uma coisa o filme parece que vai acertar: no lugar comum alardeado por seu protagonista de que o Brasil não é para principiantes. Digo mais: especialmente nos anos 80 era um país alucinado. O estado de euforia provocado pela abertura e depois pelo fim da ditadura produziu um estado de quase demência coletiva que transformou a TV brasileira numa espécie de Babilônia dos tempos modernos. Muitos dos que hoje pregam a moral e os bons costumes estavam espocando a cilibrina em horário nobre ou até infantil, direto para nossa sala de estar. Existia o erotismo da Xuxa num programa infantil, a sessão de sexo explícito no Cinemania de Wilson Cunha (ok, isso veio um pouco depois, mas pertence ao mesmo espírito babilônico dos 80s), bailes de carnaval insanos sob o comando de Celso Russomano e outros guardiões da família brasileira. Como dar conta disso?

É uma das coisas que faltam em Bingo: fazer valer a máxima de que o Brasil não era (não é) para principiantes. A narrativa é confusa, mas tratada pela direçao como se fosse do Resnais. A caracterização oitentista não convence em momento algum, apesar do esforço para ecoar alguns hits da época (Devo, Nena, Tokyo) e das luzes neon que se vê hora ou outra. A viagem pelas drogas não está restrita àquela época, obviamente, então isso só não adianta para caracterizar uma época. O retrato do personagem principal parece unilateral: ele é um molecão cafajeste e ousado e pronto, que depois encontrará a salvação na igreja, como outros malucos dos anos 80. Não tem maiores nuances (não é culpa de Vladimir Brichta, ao que me pareceu). Mas o que pega mesmo é: por que não usar o nome certo, as TVs certas, os nomes das pessoas?

Entendo que uma coisa ou outra teria de mudar para não haver processo, e também para respeitar minimamente a história (Arlindo Barreto não foi o primeiro Bozo, entre outros fatos que o filme não se obrigou a levar a sério e nem precisava, pois o principal já não foi feito). Mas se querem fazer cinema comercial como em Hollywood, com pretensões ao Oscar, que se faça direito. Porque lá eles costumam dar nomes aos bois. As pessoas reais aparecem em filmes, são retratadas, assim como as emissoras, as marcas. Digo isso tendo visto há pouco tempo The Founder, sobre o oportunista que transformou uma pequena hamburgueria chamada McDonalds num império. Imaginem se no filme eles mudassem o nome para McConners, McRonnies ou coisa parecida? Seria um fracasso na certa. E esse é só um entre inúmeros exemplos despejados pelo cinema americano há anos. Aqui é essa frescura de falsear tudo, tirando a Gretchen. Acaba que o próprio filme soa falso o tempo todo.

Autenticidade é um ingrediente que não podia ter faltado dentro desse tipo de filme, sob o risco de perder o que poderia haver de charme, além da parcela do público que foi criança nos anos 80 (e que não é pequena, visto que é um filme para adultos). Dez minutos no YouTube servem melhor a quem deseja lembrar ou saber como foram os malucos anos 80 no Brasil.

Girlfriends

girlfriends

De onde veio Claudia Weill, e para onde foi? Sabemos a resposta. É comum, e até certo ponto preguiçoso, falarmos do machismo do cinema clássico americano, mas nele as mulheres eram mais fortes e tinham mais poder do que no período da chamada Nova Hollywood, quando marmanjos fecharam as portas para elas, praticamente, dificultando bastante a carreira de talentos como Weill e Elaine May, por exemplo. A primeira foi mais prejudicada. Ela assina este Girlfriends (1978), que no Brasil se chamou Duas Mulheres em Nova York. É um filme adorável em todos os aspectos, mas principalmente pelo brilho de sua atriz principal.

E por falar nela, de onde veio Melanie Mayron, e para onde foi? A resposta é mais fácil. Essa atriz que foge dos burros padrões de beleza mas exala intenso carisma veio de alguns papeis pouco marcantes em filmes de segundo escalão e depois tornou-se atriz relativamente prolífica e também diretora, a partir dos anos 1990 e especialmente para a TV. Esse é um dos maiores trunfos da Nova Hollywood (do cinema moderno em geral): valorizar atores e atrizes que são gente como a gente, rostos comuns, sem glamour. No papel de Susan, uma jovem judia que vive de pequenos trabalhos, fotografando casamentos e bar mitzvahs, além de estar perdida nas questões do coração, Mayron encanta qualquer espectador com sensibilidade maior que a de um sapo. Ela é realmente demais. E não digo isso num sentido sexual, mas num sentido em que é uma pessoa que provoca em nós uma vontade de abraçá-la, de ajudá-la em seus problemas, de ouví-la, sobretudo.

Susan tem uma força específica e uma fragilidade específica. Essas características formam uma personalidade que requer um tipo de amor que poucas pessoas podem dar, raramente homens, e raramente na hedonista década de 70. Mas ela se recusa a tentar um relacionamento com outra mulher, como também não consegue com outro homem (a não ser que este seja casado, e por isso um pouco inatingível, caso do personagem de Eli Wallach). Em seu coração, só há espaço para Annie, e isso nem ela mesma parece entender, apesar de sentir avassaladoramente.

Esteticamente, Girlfriends me lembrou o igualmente sublime Return of Secaucus Seven, de John Sayles. O tom é o mesmo, ficção contaminada pelo documentário, fazendo com que os personagens todos atuem como se não fossem personagens. O velho procedimento da câmera que parece escondida, mesmo quando está a poucos centímetros do rosto dessas pessoas. Uma pena que Claudia Weill tenha feito só mais um longa depois desse.

Os espectadores portugueses, aliás, poderão ver o filme na Cinemateca Portuguesa em fevereiro (soube disso poucos dias depois de ter visto o filme em casa).

Apenas um garoto em Nova York

The Only Living Boy in New York

Com Apenas um Garoto em Nova York, Marc Webb atinge a maturidade, após o romance indie (500) Dias com Ela e a “contemporanização” do Homem-Aranha (que depois seria ainda mais “contemporanizado”, como se fosse possível). Não vi Gifted, o filme anterior, então não sei dizer exatamente se Apenas um Garoto é a confirmação da maturidade ou a maturidade enfim.

É um filme agradável, de todo modo, apesar de alguns clichês que, mesmo trabalhados como clichês, não representam um alento, como o da separação na chuva e os ambientes de editores chiques de Nova York – e sobretudo uma mesa de jantar que parece derivação barata dos filmes de Woody Allen, principalmente pela conversa sobre os rumos que a cidade (e a literatura) tomou (a presença de Wallace Shawn informa a possibilidade de ter sido proposital a semelhança).

Hoje em dia, a maturidade de um diretor vem quando o filme é passável, ou mesmo simpático. Reflexos de nossos tempos.

Webb deixou de lado qualquer pretensão autoral (ao contrário de Allen, que acertando ou errando pensa muito na câmera) e permite que os atores brilhem. Essa tem sido a tônica da maior parte dos filmes bem-sucedidos do cinema americano, de qualquer parte entre Sundance e Hollywood. Uma vez que atrizes e atores bons despencam de árvores, melhor que a direção não se arrisque muito. Melhor também que as coisas na trama não se encaixem demais. Elas se acertam de alguma forma, mas dentro de um limite em que os futuros dos personagens permanecem incertos e abertos a felicidades e infelicidades diversas, por mais que o pior tenha passado.

No campo da interpretação, o filme é de Jeff Bridges, embora ele esteja no mesmo papel que tem interpretado nos últimos 10 ou 15 anos, ou seja, o de Jeff Bridges. Seu carisma sustenta roteiros problemáticos e direções engessadas e levanta as interpretações de quem o rodeia. Mas há também Pierce Brosnan e Kate Beckinsale, que parecem donos de beleza eterna, um ator, Callum Turner, que, com óculos de aros grossos, reforça ainda mais a semelhança com um jovem Woody Allen, e uma das atrizes mais belas da nova geração: Kiersey Clemons. Como se não bastasse, a talismã Cynthia Nixon, que arrasa como a madura Emily Dickinson em A Quiet Passion, faz o papel da mãe do protagonista alleniano, à qual é reservada uma virada importante na história.

Saudades de quando filmes assim, a que se pode assistir sem grandes sobressaltos e sem tapar os olhos para situações grotescas, eram mais corriqueiros.

Além das Palavras

quietpassion

Título besta o brasileiro para A Quiet Passion, de Terence Davies. Mas talvez o título original seja tão intraduzível, em sua aparente simplicidade, quanto a própria poesia.

É um filme sobre a vida da poetisa norte-americana Emily Dickinson. Pensado e muito bem planejado para ser uma obra de arte digna da artista retratada. Geralmente, esse cuidado excessivo dá errado. Não quando temos um diretor que tem grande segurança, imensa habilidade na encenação e sabe o que fazer com seus atores. Lembra um pouco o caso da banda britânica Zombies. Cientes de que iriam se separar, resolveram encerrar a carreira com uma obra-prima chamada Odessey and Oracle. E fizeram, sim, a obra-prima que queriam fazer, num dos raros casos em que a consciência da precisão formal constrói uma peça de inabalável beleza.

Terence Davies é de Liverpool, como os Beatles. Como bom inglês, esse diretor ainda subestimado sabe muito bem o que extrair dos atores, no tom certo, mesmo quando à beira do explícito (os planos de epilepsia) ou quando exagera no witticism (as conversas com a audaciosa srta. Buffam). Graças a esse domínio, e a alguns achados formais que não conseguem contornar o que tem de calculistas (a panorâmica que revela a clausura dos costumes, a passagem do tempo nas fotos de família, o sermão do reverendo visto só por reflexo na janela do quarto, a desilusão com o amor em forma de um sonho tenebroso), e mesmo assim impressionam dentro do conjunto tão brilhantemente amarrado, Davies fez um dos melhores filmes de 2017 entre as estreias brasileiras, senão o melhor.

O fim de uma experiência

positif

Na Positif de dezembro, Christian Viviani reclama dos espectadores das salas de cinema. Diz que entram atrasados e fazendo barulho, com os celulares usados como lanterna para procurar lugar, e ainda conversam o filme inteiro. Não vou entrar na ladainha de primeiro mundo e tal, porque gente grosseira existe em todos os lugares. Mas a França tem uma tradição de salas de cinema que nos faz pensar em templo, na ideia de entrar para ver um filme com calma e se refugiar do barulho das ruas. Se até lá os espectadores se portam como gado, imagino mesmo que a experiência de ver um filme em sala de cinema esteja chegando ao fim, pelo menos a experiência prazerosa, de conseguir tal imersão que nada mais importa. Já faz um tempo que prefiro ver filmes em casa, desde que com boa imagem (e frequentemente a imagem dos links ou dos dvds é melhor do que as projetadas em salas de cinema). Consigo geralmente maior imersão, e se por acaso me distrair, posso voltar e retomar a fruição com calma. Posso até parar se sentir que minha concentração está baixa e ver do início no dia seguinte, ou em outro momento do dia. O que não dá é para pagar o cinema, sentar na poltrona e cinco minutos depois ter um sujeito apontando uma luz para sua cara, sem que ele queira te interrogar por suspeita de algum crime. Ou ver alguém à sua frente conferindo o celular de cinco em cinco minutos, sem a menor preocupação de esconder a luz, u sequer diminuí-la. Claro que isso é bem pessoal. Conheço quem entre num modo autista e não percebe nem os pontapés de quem está atrás, ou as conversas paralelas dos boçais. Mas eu não sou assim, principalmente porque dá revolta ver gente que não está nem aí para o outro, ou perceber que o mundo não é dos espertos (e não deveria ser mesmo), é dos idiotas.

A jovem Huppert e o fim do Leffest 2017

huppergoretta

Foi-se o 11º Leffest. Passou rápido. Dei preferência à revisão de filmes que conheci há muito tempo ou em cópias ruins, a alguns filmes atuais que me interessavam (Bartas, Allen, Garrel) e também ao preenchimento de algumas lacunas. Por isso abdiquei de rever Heaven’s Gate e alguns do Abel Ferrara, além de outros quitutes finos. Perdi muito, é certo, mas não se pode ter tudo, e no Leffest a maior parte dos filmes passa apenas uma vez.

Neste domingo, último dia, encerrei com a revisão do mais famoso filme de Claude Goretta, La Dentellière, do qual me lembrava pouco; depois vi o Der Rosenkönig de Werner Schroeter, que não me fala especialmente, mas que tem inegáveis momentos fortes, e dois filmes de José Vieira, documentarista português radicado, ou quase, na França: Le Drôle de Mai e A Ilha dos Ausentes. Antes, na sexta, conferi o novo de Woody Allen, Roda Gigante (Wonder Wheel). Pareceu-me um presente para Kate Winslet, que está extraordinária, confirmando a boa mão de Allen para interpretações femininas.

Mas queria encerrar a cobertura neste blog com algo que me impressionou um bocado, falando de interpretações femininas. Está no final de La Dentellière. É quando François (Yves Beneyton) vai visitar Pomme, a personagem de Isabelle Huppert, no hospital. Eles conversam e ela faz tudo para passar a impressão de que está bem, de que depois do fim da relação entre eles houve outro homem, e que ela conheceu a Grécia, e que estava feliz. Eles se despedem. Ele entra no carro e chora de desespero (praticamente choramos com ele), porque percebe que amou aquela mulher como nunca tinha amado ninguém, e que agora já não tinha mais volta, algo desandou por culpa dele, e com isso ela sofreu muito e terrivelmente.

Mas o que me impressionou vem antes desse choro dele no carro: ela sorri para ele enquanto se despedem ainda no corredor do hospital. Mas assim que ele se vira o semblante dela muda sutilmente, de uma alegria irresponsável para uma tristeza profunda, disfarçada por uma máscara de frieza que se tornou a marca registrada de Huppert. Uma máscara muito bem nuançada para percebemos que a personagem esconde, talvez até de si própria, sua desesperadora condição.

É um assombro o que ela, ainda uma jovem de 23 anos (mas parecia ter 18, como Pomme), consegue fazer nessa cena. Um dos momentos mais sublimes de uma atriz no cinema (como Teresa Wright em Shadow of a Doubt ou Deborah Kerr em An Affair to Remember ou Tea and Sympathy… raios, Kerr em vários filmes).

Quando alguém ficar em dúvida se Isabelle Huppert é uma das maiores atrizes que essa arte já viu, convém mostrar o final de La Dentellière para encerrar a discussão.

Buñuel e Douchet no Leffest 2017

belledejour

Na última terça-feira a sala 4 do Monumental recebeu uma cópia restaurada (infelizmente em DCP) de A Bela da Tarde, um dos filmes mais famosos de Luís Buñuel. O filme continua uma maravilha de liberdade e lucidez, como são todos os filmes finais desse cineasta essencial, e a cópia estava mesmo boa. Mas o que me chamou a atenção aconteceu no debate após o filme, com o mestre Jean Douchet. Um espectador perguntou como a sociedade recebeu esse filme naquela época. Senti na pergunta algo assim (e posso estar enganado): “como a sociedade em 1967, super atrasada, recebeu um filme que hoje, em nossa sociedade mais avançada, ainda causa espanto?”. Douchet falou da premiação em Veneza (Leão de ouro) e das rejeições ou aprovações igualmente entusiasmadas que costumam acompanhar os filmes de Buñuel, na altura um cineasta mais do que consagrado. Mas me causa espanto (ou causa espécie, para voltar a uma expressão bem usada naquela época), que um espectador realmente ache que em 1967 a sociedade receberia um filme desses com maior escândalo do que hoje, quando o público, seja português, brasileiro ou francês, é incapaz de separar personagens de criadores e confudem representações seja lá do que for com ideologias diversas (um filme que faz uma representação do machismo passa a ser machista, e por aí vai). Penso, aliás, que um filme desses, hoje, jamais seria feito, e que um gênio como Buñuel teria imensas dificuldades em conseguir fazer filmes, e se os fizesse, teria de fazê-los com inúmeras concessões.

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O ponto mais fraco do Leffest é a falta de informação do formato em que os filmes serão exibidos. DCP, arquivo mkv (como foi exibido Nostra Signora dei Turchi, de Carmelo Bene), blu-ray (como parece ter sido God’s Little Acre), beta (451 Forte?), algum outro formato digital ou 35mm. É algo que o Leffest tem a aprender com a Mostra SP, que de tanto os chatos (como eu) reclamarem, passou a colocar informação mais detalhada sobre os formatos de exibição.

LEFFEST 2017

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God’s Little Acre (1958)

Está aberta a cobertura do 11º LEFFEST – Lisbon & Sintra Film Festival de 2017, festival dirigido por Paulo Branco que promove um banquete de cinema em nove salas de cinema espalhadas por Lisboa, Queluz e Sintra. É minha primeira cobertura internacional, não por falta de oportunidade.

Quando surgiu a Revista Paisà, no final de 2005, muitos amigos me diziam que eu poderia cobrir o Festival de Cannes, que seria fácil porque eu editava uma revista impressa de cinema, coisa e tal. Pensei: “mas por que eu gostaria de cobrir um festival internacional? Nunca fui à Europa. Se for, não vou querer passar dias inteiros vendo filmes”. A ideia de estar numa cidade que não conheço e não ter a chance de conhecê-la melhor, caminhando por suas ruas e observando sua rotina, simplesmente me é terrível. Ou seja, nunca cobrirei o Festival de Cannes, a não ser que seja bem pago para isso. Simplesmente, não me apetece todo aquele circo.

Ainda penso da mesma maneira. Mas agora moro em Lisboa. Não é mais um destino distante e efêmero. E de certo modo, o Leffest, festival dirigido por Paulo Branco que acontece em Lisboa e Sintra, é um festival muito próximo ao que eu gostaria de fazer: filmes de todas as épocas, sem predomínio do contemporâneo. Tem retrospectivas bem amplas de Isabelle Huppert, Peter Brook, Alain Tanner, Abel Ferrara e João Mário Grilo, entre outras oportunidades de vermos um pouco do melhor que o cinema nos deu em seus 122 anos de existência. Mais: os filmes atuais são selecionados. Nada de 200 ou 300 títulos. No Leffest 2017 tem cerca de trinta longas contemporâneos, sem contar os filmes mais recentes dos homenageados, ou dos diretores que mereceram retrospectivas e ainda estão na ativa, caso de Ferrara e Grilo, por exemplo. É algo que a Mostra SP poderia ser, caso assumisse de vez uma seleção mais criteriosa no lugar da inflação de filmes recentes que não dizem nada. Decidi então cobrir esta edição do festival. Farei alguns posts aqui e um balanço mais completo na Interlúdio daqui a alguns dias.

Meu Leffest começou no sábado, com o segundo longa de João Mário Grilo, de quem eu só havia visto O Fim do Mundo, com o qual não posso dizer que me empolguei (vi há muito tempo, na Mostra SP de 1993 ou 1994). Mas A Estrangeira (1982) é ótimo, com um Fernando Rey inspirado como sempre e uma liberdade de trilhar caminhos poéticos sem amaciar para o público. Melhor ainda é O Processo do Rei (1989), seu terceiro longa, visto neste domingo à tarde para uma plateia infelizmente pequena. Uma senhora perguntou ao diretor, no debate que se seguiu ao filme, sobre o desinteresse das pessoas com o cinema português. Realmente é impressionante que um filme desses, com uma cópia maravilhosa em película, não tenha atraído mais pessoas. É de se lamentar. A cópia, aliás, não é nova, pelo que entendi. Trata-se de uma cópia sem legenda alguma (o filme é falado em português e francês), e por isso raramente foi usada, preservando-se praticamente sem uso. Grilo mencionou que não queria legendas porque pensou nos diálogos com as musicalidades específicas de cada idioma. Curiosamente, durante a projeção me lembrei da sessão de O Sapato de Cetim na Mostra SP de 2005, quando desisti de acompanhar as legendas eletrônicas em português ao perceber que o francês musicado de Paul Claudel era rico o suficiente para fazer da sessão um evento histórico, como de fato foi, independentemente do que eu poderia entender daquelas falas (meu francês nunca foi grande coisa, mas ouço e leio razoavelmente bem).

Vi ainda, neste domingo, o último Garrel, O Amante de um Dia, com comentários de Jean Douchet, e um clássico do Anthony Mann que há muito queria rever: God’s Little Acre (1958), que no Brasil chamou-se O Pequeno Rincão de Deus, e em Portugal, Tentação. Prefiro o título brasileiro. Impressionante o trabalho de Robert Ryan nesse filme, e mais impressionante ainda a maneira como Mann evolui de uma comédia matuta com alta dose de erotismo para um melodrama de muita classe.

Quatro filmes até agora, e o mais fraco foi um bom filme de Philippe Garrel. Dificilmente um festival poderia ter começado de maneira mais feliz.

Doc Lisboa

lesordres

Les Ordres

1 – Muitos não sabem ou não se deram conta, mas estou fora de São Paulo desde o início de agosto. Hoje em dia o que não é publicizado é como se não tivesse acontecido. A verdade é que estou em Lisboa, onde ficarei até o meio do ano que vem, como parte de um doutorado sanduíche. Ou seja, é o primeiro ano, desde 1989, que não vou poder ver uma sessão sequer da Mostra SP, um dos eventos que me proporcionou o maior número de sessões inesquecíveis de minha vida.

A saudade é compensada pela excelente programação da Cinemateca Portuguesa e pelo Doc Lisboa, um festival bem interessante. Numa união entre a Cinemateca e o Doc, tive a oportunidade de ver alguns filmes da fase dourada do cinema do Quebec (aqui, Quebeque), durante os anos 60 e 70.

Confesso que não conhecia muito do cinema quebecois. Já tinha visto os mais famosos – Mon Oncle Antoine, Pour la Suite du Monde, Le Chat Dans le Sac, e alguns curtas da época do emule, e deu. De modo que foi uma surpresa conhecer um filme pouco falado de Michel Brault, rodado já no miolo dos anos 70: Les Ordres (1974). Esse filme rodado em preto e branco e em cores me pareceu a culminação do cinema direto quando sai de suas amarras. Ou seja, Brault pegou o cinema direto como base e criou uma dramaturgia surpreendente em que atores e personagens reais se acumulam sob uma direção extremamente rigorosa. Um petardo fílmico que eu não esperava ver, mas que me conquistou já nos primeiros minutos (e talvez seja meu filme preferido entre todos os que conheço do Quebec). Hoje foi a vez de Entre Tu et Vous (1969), com o qual Gilles Groulx se iguala àquele que parece ser sua grande referência, a julgar por Le Chat Dans le Sac: Jean-Luc Godard. Cheio de provocações à cultura de consumo e de entretenimento, como no Godard da segunda metade dos anos 60, Groulx inverte a lógica do filme episódico. Ergue uma estrutura impecável e sólida de crítica e recusa disfarçada de filme em episódios.

2 – Dos filmes novos, vi Ex-Libris: New York Public Library, de Frederick Wiseman, mais um documentário longo de sua lavra, embora bem menos focado que National Gallery (seu melhor longa neste século). É notável como ele consegue discutir temas atuais de maneira inteligente e sem abrir mão de sua poética.

Vi também o brasileiro Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava, um passeio pela história do Brasil nos anos 70, pela maneira como se vivia, o que se falava, o que se curtia, por meio de imagens das comédias eróticas feitas na época. Assim eu vi, assim a diretora, Fernanda Pessoa, falou (e muito bem) no debate final, num dos raros casos em que um(a) diretor(a) tem plena consciência do filme que fez e, principalmente, do filme que pretendia fazer.

É possível fazer senões ao filme. Terror e Êxtase (de Antonio Calmon, que ainda aparece com O Bom Marido e Nos Embalos de Ipanema) está um pouco deslocado ali, por não se tratar de comédia erótica, e, portato, não poder se aplicar nele o termo pejorativo (mas que alguns aceitam) pornochanchada. Alguns momentos de campo (um filme) / contracampo (outro filme) parecem existir só pela piada, e nesse caso a terceira vez que isso acontece já não tem graça. Para as plateias brasileiras, e mesmo as do exterior, seria interessante diferenciar a produção carioca da produção paulista. Sabemos que muitas coisas essas produções têm em comum, mas as diferenças é que as enriquecem (as diferenças entre Carlo Mossy e David Cardoso, por exemplo; ou entre Antonio Calmon e Jean Garrett). Senões feitos, o filme tem uma montagem realmente inteligente, que não fica apenas no aleatório, e com isso nos convida a pensar em que país herdamos.