Indicações para a 43ª Mostra SP

satantango

Há muito tempo não faço indicações para a Mostra SP em meu blog (se é que algum dia eu fiz). De todo modo, desta vez veio a ideia de fazer, pensando nas muitas pessoas que compram o pacote de vinte ingressos.

Esta lista de indicações então terá três partes. Dez filmes essenciais (que já vi e recomendo com muita força), mais dez que são apostas (pois ainda não os vi, mas pretendo ver), e mais cinco brasileiros que ainda não vi, porque é melhor selecionar 25 para ver 20, uma vez que a programação nem sempre permite ver todos os selecionados. Para quem quiser comprar o pacote de 20 (ou comprar ingressos avulsos) e me xingar (ou agradecer) depois.

Aviso aos navegantes: achei a seleção portuguesa pouco inspirada: cadê os filmes da Rita Azevedo Gomes, do Pedro Costa e do José Oliveira? Ainda está em vigor o lance do ineditismo, mesmo com o adiamento do Festival do Rio? Se estiver, é triste para o cinéfilo paulistano.

Se você puder ver apenas 10 filmes na Mostra:

O Jardim das Espumas (Luiz Rosemberg Filho, 1970) – A explosão da juventude. O berro incontido da revolta. Ideias se engalfinhando à procura de espaço.

Crônica de um Industrial (Luiz Rosemberg Filho, 1978) – O filme mais equilibrado do diretor, mas ainda tortuoso, melancólico, com a consciência de um certo fracasso existencial.

Berlim-Jerusalém (Amos Gitai, 1989) – Gitai em seu filme mais inventivo.

Satantango (Béla Tarr, 1991) – Um filme que vale por três ou quatro, dada sua enorme duração. E é obra-prima.

Água Fria (Olivier Assayas, 1994) – Talvez o melhor filme do irregular Assayas.

Crônica de um Desaparecimento (Elia Suleiman, 1996) – Suleiman ainda tateante, de juventude, mas já talentoso.

Intervenção Divina (Elia Suleiman, 2002) – Diretor implacável (Buster Keaton de sua geração) na relação Israel-Palestina.

Phoenix (Christian Petzold, 2014) – Um filme com a principal característica da carreira de Petzold: melhora com o tempo.

Diz a Ela que me Ouviu Chorar (Maíra Bühler, 2019) – O nome poético está à altura de um filme que surpreende pela riqueza do olhar.

Bobo da Corte (Luiz Rosemberg Filho, 2019) – Que belíssimo testamento de um dos diretores que mais se arriscaram no cinema brasileiro.

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Se você puder apostar em mais 10 filmes:

O Farol (Robert Eggers) – Afinal A Bruxa é um belo filme.

Parasita (Bong Joon-ho) – Ter ganhado Cannes importa menos do que a esperança de que algo bom pode surgir desse diretor.

O Paraíso Deve Ser Aqui (Elia Suleiman) – Volta esperada com ansiedade.

O Projecionista (Abel Ferrara) – Terá voltado à forma nosso bravo Ferrara?

O Diabo Entre as Pernas (Arturo Ripstein) – Pela importância do diretor para o cinema mexicano dos anos 70 e 80.

O Fantasma de Peter Sellers (Pater Medak) – Como andará o esteta (nem sempre bem-sucedido) Medak?

Amazing Grace (Alan Elliott) – Por Sydney Pollack, que dirigiu as imagens originais, e por Aretha Franklin, “the queen of soul”.

Family Romance, Ltda (Werner Herzog) – De Herzog podemos esperar tudo. Até mesmo uma obra-prima ou uma bomba.

Passagens (Lucia Nagib e Samuel Paiva) – Dois estudiosos aplicados e inteligentes, desta vez do outro lado dos trabalhos. Vale conferir.

Sibyl (Justine Triet) – Indicação mais pela fenomenal atriz Virginie Efira que pela diretora (que pode surpreender).

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E se quiser apostar em mais 5 brasileiros novos (vistos ou não vistos)

A Jangada de Welles (Petrus Cariry e Firmino Holanda) – It’s All True em crítica social.

Babenco – Alguém tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou (Bárbara Paz) – Babenco era irregular, mas fez grandes filmes. Interessa essa homenagem a ele, feita por quem viveu anos a seu lado.

Banquete Coutinho (Josafá Veloso) – Investigação sobre o cinema de um grande realizador.

Sete Anos em Maio (Affonso Uchôa) – Uchôa novamente solo, após Arábia.

Enquanto Estamos Aqui (Clarissa Campolina, Luiz Pretti) – Visto em Curitiba, no Olhar de Cinema. Uma espécie de News From Home (de Chantal Akerman) atualizado e mais modesto.

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Obs.:  A Vida Invisível tem estreia marcada para 31 de outubro, segundo o Filme B. A menos que você goste de filas, vale esperar. Já vi Chão e Casa, ambos recomendáveis. Outros filmes chegam já com elogios, a conferir: Pacarrete e Raia 4.

Atualização: A Vida Invisível teve estreia adiada para 21 de novembro.

Esquizofrênico, não conservador

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– Em todos os primeiros turnos desde 2006, à exceção do último, nas eleições para prefeito, governador ou presidente, votei à esquerda do PT (para o qual eu votei nos segundos turnos todos). No entanto, sou ainda chamado, por razões políticas, de conservador, ou pior, reacionário, por pessoas muito mais conservadoras (descobri mais uma que me entende desse modo, recentemente). Alguns até me conhecem e deviam saber a besteira que pensam. Sei quem são, e não as quero mal. Só quero que saibam que estão comendo bola. Esse pensamento tortuoso pode explicar, para alguns desses vacilões, o motivo de eu não ter gostado de Aquarius, Doméstica ou da retirada dos filmes do CinePE por causa do filme do Olavo (que até hoje não vi). Para elas, eu não gostei por ser conservador. Admito que posso ter errado na maneira de criticar algumas coisas (a retirada dos filmes do CinePE, por exemplo, eu critiquei de forma bem dura). Certa vez um amigo muito querido me falou de uma certa iconoclastia no piloto automático que ele via em mim, e tive de concordar com ele. Diabos, todos nós temos coisas com as quais devemos lutar. Mas essa pecha de conservador está errada. Nada contra conservadores, em princípio. Conheço alguns inteligentíssimos e humanos, incluindo conservadores de esquerda. Mas não é uma característica que eu tenha, politicamente falando. Em artes, vá lá. Não tolero a transformação do cinema em videogame, por exemplo, assim como grande parte da arte contemporânea não causa impacto algum em mim. O problema é a mania de enquadrar e encaixotar, que é um dos grandes males da humanidade, e de nossa esquerda, e eu sempre procurei criticar isso. A direita também tem esse mal, é claro, mas a direita tem males muito piores, incluindo a atual tolerância com o fascismo.

– A série Hip-Hop Evolution, da Netflix, me fez retomar o entusiasmo pelo rap dos anos 1990. Desde então, ando ouvindo Wu-Tang Clan, 2Pac, Goodie Mob, TLC, Dr. Dre e outras coisas que já me impressionavam na época e hoje me contagiam totalmente. Gosto de Kanye West e, principalmente, de Kendrick Lamar, entre outros rappers atuais. Mas a fase de ouro do rap foi mesmo nos anos 1990.

– O que achei de Mad Men: muito bem interpretada, construida e dirigida até a quarta temporada. Da quinta em diante a direção sofre um certo abalo, como se não precisasse mais de uma excelência que antes era vista em todos os episódios. Depende mais de nossa familiaridade com os personagens e com isso abdica de uma construção visual mais sólida. Uma série vive dessa familiaridade, e ajuda muito que todos os atores, sem exceção, estejam à beira da perfeição em seus papeis. Mad Men é uma aula de casting e direção de atores como raramente se viu na televisão mundial. Por isso continua boa, embora o brilho frequente nas primeiras temporadas tenha se tornado mais raro – no final, por exemplo, e em alguns episódios das últimas três temporadas(aquele que termina com “Tomorrow Never Knows” é um primor).

– Voltando ao assunto musical. Teve a celeuma com Milton Nascimento, que teria dito que a MPB de hoje é uma merda. Já surgiram aqueles que atacam o Milton por ele ter essa opinião. Entendo quem defenda que é a música que faz sucesso que é ruim, e que muitas coisas boas estão sendo feitas ainda na música brasileira. Eu sei disso. A questão é que na proporção simplesmente não dá para negar a decadência da música brasileira nos últimos 40 anos. Nos anos 1980 ainda era possível ouvir rescaldo de grande música (Moraes Moreira, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Guilherme Arantes, o próprio Milton, Djavan e tantos outros ainda fizeram grandes discos nessa década), além de algumas coisas geniais que iam surgindo (Arrigo, Itamar, Patife Band, Rumo, Picassos Falsos), mas não se compara com o auge que nossa música atingiu nos anos 1970 (o auge, na verdade, pode ser situado entre 1960 e 1984, um período realmente de ouro em matéria de riqueza de estilos e ambições. Na Bahia, em Pernambuco e no Ceará, por exemplo, tinha mais coisas boas do que em todo o território nacional hoje. Sim, continuo buscando as coisas. Tenho amigos e irmão músicos, que me indicam discos interessantes. Costumo acompanhar programas de músicas novas. Há, certamente, músicos brilhantes. A quantidade e a duração dessa qualidade é que costuma perder feio para outras épocas.

– Nos cinemas, vi e adorei Ad Astra (texto meu na Folha), O Fim da Viagem, o Começo de Tudo (idem), Bacurau (comentário no Olhar Digital) e devo dizer que este ano, no circuito comercial, me parece ser o melhor da década. A ver vamos.

Os Conselhos da Noite

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Não sabia bem como escrever sobre esse belo filme português e por isso demorei um bocado para começar este texto, que eu também não soube continuar, e por isso demorei mais um bocado, maior que o primeiro, para terminá-lo.

Em primeiro lugar, José Oliveira é um amigo muito querido d’além mar e apesar de me considerar um crítico capaz de separar amizade da apreciação de uma obra, fiquei com receio também por outros motivos, como irei expor aqui.

Vi Os Conselhos da Noite numa cópia ainda não terminada enviada pelo produtor, e também amigo, Daniel Pereira, embora eu tenha achado ela bem prontinha já, faltando alguns ajustes de finalização que não chegam a prejudicar o julgamento. O que quero dizer é que confio na minha percepção, mesmo sendo uma cópia de trabalho e mesmo eu tendo visto uma vez. Claro, revisões virão, quando o filme finalmente for exibido oficialmente. Mas por enquanto a impressão foi bem positiva.

Há um quê do José (um grande quê, na verdade) nesse protagonista taciturno que descobre uma cidade muito diferente da que ele deixou. Esse é um motivo óbvio para meu receio, mas prossigamos. Não se passou muito tempo, mas a cidade cresceu muito rapidamente. Essa cidade é Braga, que eu conheci em grande parte na companhia do José e de outro amigo querido, o João Palhares, a dupla programadora do cineclube Lucky Star (locação da imagem que ilustra este post), também em Braga. Mas principalmente o José, com seu carro, me levou a um monte de lugares que revi no filme, lugares que adorei conhecer e adorei rever em cena. E no filme eles ficaram lindos, evocando uma poesia que eu já suspeitava existir na cidade. Eis um outro motivo.

É a cidade do bar perto de uma velha igreja, do Convento no alto de uma montanha, onde tinha uma descida que fazia o carro subir, uma mágica que o José me mostrou. Ali tinha também um parque, onde Hiroatsu Suzuki quase se viciou na Coca Cola Zero, por minha culpa. E reconheci o belo jardim do centro, e a livraria Centésima Página, onde comprei um belo livro português do Hitchcock. E um restaurante onde fui com o José e mais três amigos. E algumas ruas, a rodoviária, o clima frio e agradável da cidade. Não lembro o nome dos lugares direito, mas não vou consultar. Lembro da impressão que tive ao visitá-los com meus amigos bracarenses, e a impressão que eu tive ao revisitá-los no filme.

Há alguma coisa de Clint Eastwood também, no protagonista, o de Honkytonk Man, principalmente. E algo do Lucky, com Harry Dean Stanton. Sei que o José amou este último filme e talvez eu tenha sido induzido a encontrar a semelhança. Mas penso que não. Penso que Lucky é de fato uma influência para Os Conselhos da Noite. Assim como a impressão de que a cidade já virou outra coisa. Não necessariamente pior, mas certamente outra. E Matar Saudade, do Fernando Lopes, me pareceu outra influência, embora eu também possa ter sido condicionado pela consciência de que é outro filme adorado pelo José (outro motivo para o receio, obviamente).

Quer dizer, o que O Atirador tinha do José (e da Marta, e do Mário), o que Longe tinha do José, de certo modo soou pouco perto do que Os Conselhos da Noite tem do José. E percebe-se a produção maior em relação aos outros (intuo tensão no set, pois José é tímido, chegado às pequenas reuniões, mas é também agregador, embora ele não tenha muita consciência disso). E por mais que eu veja tanto do meu amigo, tenho quase certeza que o filme seja forte para quem nunca viu ou leu o José, ou nunca dele ouviu falar.

A tentativa de objetivar minha relação com o filme eu deixo para depois. Por enquanto, um recado ao meu amigo José: “Vai, e dá-lhes trabalho.”

Sobre parte da recepção a Bacurau

bacurau

Existe uma parcela considerável de espectadores que censuram Bacurau pela forma americanizada com que se apresenta. Nunca entendi esse tipo de reclamação. Como assim, fórmula americanizada? Porque trabalha com regras do gênero? E por que não se poderia fazer uma apropriação dessas regras, que, afinal, não foram criadas por americanos, mas por cineastas do mundo todo entre os anos 1910 e 1920?

Glauber Rocha trabalhou com essas mesmas regras, tanto em Deus e o Diabo quanto em O Dragão da Maldade, para ultrapassá-las. É o que Bacurau faz. Claro, ninguém vai comparar Bacurau aos filmes do Glauber. Esse tipo de genialidade do falecido diretor baiano é rara, não aparece todo dia, ao contrário do que pensam os críticos publicitários. Mas não é justo censurar o filme por se apropriar de certas regras. Se fosse justo, 99% dos filmes normalmente elogiados no Brasil teriam de ser igualmente punidos. Todos se enquadram em alguma regra, seja de gênero, de festivais, de uma fatia do público. É a exceção da exceção que é livre dessas amarras.

Reclamam também da violência. É sério? Numa sociedade marcada pela violência como a brasileira, com histórico de violência brutal de todos os lados, vão reclamar disso? Nesse aspecto, o filme dialoga não só com os filmes de defesa de território na linha de Hawks e Carpenter, mas também com os filmes de cangaceiro que eram feitos aos montes no cinema brasileiro. Brasileiríssimo, então, é Bacurau. O que, por si só, não o isenta de nenhum outro pecado.

Por fim, é bom que estejam questionando um filme imediatamente associado à esquerda, embora seja parcialmente financiado pela direita (a Globo é comunista só para boçais e dementes). É bem melhor que a adesão automática que costumava haver por aqui até pouco tempo. O cinema brasileiro ganha com uma recepção mais cuidadosa, ainda que parcialmente equivocada, a meu ver.

Não escrevi uma crítica sobre o filme. Preciso revê-lo antes de fazer isso. Aliás, nem sobre Aquarius, com o qual tenho cada vez mais problemas, escrevi crítica. Mas fiz um breve comentário sobre Bacurau aqui:

https://olhardigital.com.br/cinema-e-streaming/noticia/bacurau-e-triunfo-do-cinema-brasileiro/89969

 

Acidentes

 

Mostrando O Garoto (Shonen, 1969), de Nagisa Oshima, na aula de hoje, lembrei do sofrimento do pequeno menino (uns dois anos, no máximo) sentado na neve, sem gorro nem cachecol, chorrando debaixo de uma nevasca enquanto o irmão mais velho interpreta.

E lembrei também do grave acidente que acontece em O Cangaceiro (pode ser visto no nono minuto do video acima): um menino se antecipa aos pais na hora de atravessar a rua e é atropelado por um cavalo, na sequência em que os cangaceiros invadem uma aldeia.

Não li tudo que existe sobre O Cangaceiro. Acho que nem 10%. Nenhuma palavra sobre isso. Já conversei com muitos que gostam do filme e ninguém sabia desse acidente. Tudo bem, precisa ser olhado com lupa para ser notado, mas está lá, no extremo direito da tela, e é assustador. Por alguma sorte o menino pode ter sobrevivido, não sei, espero que sim. Mas o pisoteio foi forte e o cavalo estava em disparada.

Fiquei impressionado desde a primeira vez que vi o filme em DVD (quando o vi no CCSP, começo dos anos 1990, não notei o acontecimento). E fico mais impressionado que ninguém tinha percebido. Talvez o filme seja pouco revisto. Talvez eu tenha sido “premiado” por ter acompanhado o desespero daquela família filmada bem de longe. O filme independe disso para ser bom ou ruim. Digamos que é uma curiosidade mórbida de um tempo em que não se tomava muitos cuidados com a saúde física e mental das pessoas em filmagens.

Anabela Moreira

anabela

Há algo nessa atriz portuguesa que me encanta. Provavelmente é seu olhar extremamente melancólico, de quem parece estar sempre à beira de um surto. Uma fragilidade que a torna mais atraente, cinematograficamente falando também.

Ela é revelada por João Canijo em Noite Escura (2004), mas me chamou mesmo a atenção em Mal Nascida (2007), também de Canijo. Foi um filme que vi duas vezes na programação da Mostra SP, naquele ano ou depois, e para mim continua sendo o melhor desse diretor.

Em Sangue de Meu Sangue, o ponto de virada (para pior, por enquanto) do cinema de João Canijo, é dela a cena mais forte, a da humilhação que sofre num escritório, expondo sua intimidade para um homem nojento. Forte e desagradável.

Quando em Curitiba, podia ver o que estava passando na RTP, e vi trechos da novela No Lado A, que se passa nos anos 1980. Pude notar que sua interpretação continua a mesma, com uma hiper-sensualidade e a mesma feição melancólica, mesmo quando seduz um homem. A novela, aliás, me pareceu fraca.

Ela está também no horroroso Diamantino (2018), de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt, com sua irmã Margarida Moreira. Mas apesar de interpretar umas bombas, é uma atriz que merece maior atenção.

Breaking Bad

breakingbad

Finalmente resolvi tirar o atraso em algumas séries de sucesso. E desta vez foi Breaking Bad. E como todo mundo já deve ter visto, spoilers rolarão soltos por este texto.

Na primeira temporada, reparei que o texto é bom, os atores são excelentes, mas a direção é terrível. Pensei em desistir. Mas a relação de Walt com o Krazy 8 no porão da casa de Jesse me segurou. Até que entra em ação Tuco, um traficante caricatural, vilão de história mal arranjada. Voltei a ficar em dúvida se continuaria ou não.

A dúvida aumentou ainda mais no início da segunda temporada. Simplesmente porque Walt, após matar à sangue frio Krazy 8, com quem ele até tinha se envolvido em conversas pessoais, não mata Tuco, deixando-o apenas ferido. Esse episódio me pareceu muito fraco. Mas continuei vendo, e as coisas começam a engrenar um pouco antes da metade dessa temporada com a entrada de novos personagens em cena, sobretudo o advogado picareta Saul, que depois teria uma série para si (Better Call Saul), Gus, o mega traficante, e Mike, seu braço direito. Esses são de fato, junto de Hank, o cunhado policial de Walt, os melhores personagens da série. Walt, por sua vez, se aguenta em suas burrices graças a Bryan Cranston, um desses atores que caem do céu para salvar incoerências de personagens. É no sexto episódio (do assassinato com um caixa eletrônico como arma) que a temporada finalmente começa a engrenar.

A terceira temporada é a melhor até então, com Jesse deixando de ser o imbecil impulsivo para ser um cara mais interessante e complexo, com uma bondade que ele nem sempre consegue disfarçar. É também quando Skyler fica sabendo da vida dupla de seu marido Walt, culminando com um último capítulo forte graças ao assassinato de Gale Boetticher (leia-se Bériquer, como o grande cineasta Budd).

Mas na quarta temporada há a frase mais classuda de toda a série: “I am the one who knocks”, dita por Walt para tranquilizar a mulher dizendo que ninguém baterá à sua porta para matá-lo, como fizeram com Gale. E é quando se completa definitivamente a transformação de Walt em Gus, com a morte deste último e a revelação da Lily of the Valley. Walt continua sendo idiota em alguns momentos, mas em outros revela-se uma espécie de Mabuse, um manipulador de primeira. Enquanto isso, a transformação de Jesse é mais complexa. De moleque perdido a um cara de coração. Mais correto seria falar em revelação, pois sua bondade finalmente vem à tona.

Finalmente, a quinta temporada coroa todos esses movimentos internos de forma muito coerente, com a única solução possível para todos os personagens (talvez Hank poderia ter se exposto menos se não quisesse resolver o problema só com seu parceiro. Walt é um personagem trágico, destinado à morte brutal desde o primeiro episódio. Todas as suas ações vão ao encontro da morte, principalmente nesta quinta temporada. Mabuseanamente, ele manipula as situações de tal modo que salva Jessie e o dinheiro de seus filhos, tendo uma morte honrosa. Muitas séries começam bem e vão se esticando conforme o sucesso de público. Breaking Bad melhora aos poucos, num crescendo dos mais interessantes entre as séries americanas recentes. Tivesse uma melhor direção, faria história, realmente (aliás, a direção é pior nas duas primeiras temporadas).

Sexo no cinema brasileiro contemporâneo

divinoamor

Dois casais se encontram num ritual religioso. Aos poucos, esse ritual se revela sexual, uma espécie de suíngue da purificação. Purificação pelo sexo, pois bem. O sexo entre os casais é quase explícito. O valor das cenas está mais na ideia de que os atores parecem mesmo ter transado do que numa suposta importância narrativa, que existe, não é possível negar, mas parece existir somente pela potência provocadora do sexo quase explícito.

Nesse particular, posso estar falando de O Olho e a Faca, de Paulo Sacramento, ou de Divino Amor, de Gabriel Mascaro. Tanto faz. Cenas fortes de sexo estão presentes nesses dois longas que estrearam no mesmo dia aqui em São Paulo, mas estão também em muitos outros longas brasileiros recentes. Porém, só no de Mascaro essas cenas se enquadram no que descrevi no primeiro parágrafo. Qual é o sentido de insistir nesse naturalismo do sexo? Sinceramente, eu não sei. Mas talvez eu seja daqueles que acham que sexo e morte, no cinema, são mais fortes quando cercados de mistério, de algo que não vemos, mas intuimos que aconteceu. Quando tudo é quase explícito, e essa quase explicitude parece atingir um ponto para onde tudo no filme converge, qual é a graça?

Nos anos 1970 e início dos 1980, dentro do cinema brasileiro, ainda fazia sentido. Eram tempos de sexploitation, em que os filmes precisavam de cenas assim para atrair público. Eram concessões necessárias para que os filmes fossem produzidos, em primeiro lugar. Em Os Cafajestes, o nu frontal de Norma Bengell, muito mais ousado para aquela época do que o sexo quase explícito de Divino Amor em 2019, era necessário para mostrar a humilhação da personagem e a estupidez do macho latino americano. Hoje, quando a pornografia bate à nossa porta a todo momento, para que temperar os filmes com transas realistas?

Lo Duca dizia, em 1958, que o erotismo perde muito sem o mistério. Isso explica porque os filmes pornográficos tendem a ser menos excitantes do que os filmes eróticos. Agora me parece quase uma obrigação contemporânea colocar os atores praticamente transando em cena, mesmo que essas transas não signifiquem nada na trama. Parece até contrapartida de edital. Nessas transas não há mistério, e consequentemente não há erotismo. Pode-se argumentar que erotismo não é o objetivo, no que concordo prontamente. Então as cenas de sexo se esvaziam de vez, tornando-se apenas mais um índice de contemporaneidade, como smartphones e notebooks, com a diferença que elas provavelmente não ficarão datadas como os aparelhos tecnológicos.

Para ser justo, volto a repetir, em Divino Amor as transas até têm sua função, ao contrário da cena de sexo de O Olho e a Faca. Mas são tantas e tão estilizadas que se tornam mais do que caricaturais, como parece ser a intenção do filme de Mascaro. Tornam-se patéticas.

Não se trata de puritanismo, para terminar respondendo àqueles que já estavam me enquadrando disso ou daquilo. Acho Change pas de Main, de Paul Vecchiali, um belíssimo filme, e está recheado de cenas de sexo explícito de fato. XXX. Gosto muito também de Oh, Rebuceteio!, também cheio de cenas explícitas e closes em genitais. Para não falar da Trilogia da Vida, de Pasolini, que investe no limite para o explícito. É só que esse sexo todo me parece meio postiço nos filmes brasileiros recentes, meio forçado para ser contemporâneo, desenbaraçado, anti-Damares.

Gerson Tavares

antesoverao

Aproveitando que entraram alguns filmes de Gerson Tavares no Making Off, republico aqui o texto que fiz para a Revista Interlúdio em 2015, quando o cineasta foi homenageado no CineOP.

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Antes, o Verão

Em um momento chave deste filme raro de Gerson Tavares, Jardel Filho tem um diálogo elucidativo (que obviamente não saberei reproduzir com exatidão) com sua vizinha, Gilda Grillo, com quem logo depois terá um affair: “gosto de psicodelia, LSD…”, diz ela, enumerando coisas bem típicas do verão do amor (67 na Inglaterra, com ecos em 67/68 no Brasil). Ao que ele responde: “Eu ainda estou na Bossa Nova”. De certa forma, essas falas refletem um pouco o que é Antes, o Verão naquele momento, 1968, no contexto do cinema brasileiro e mundial: um filme que parece de dez anos antes, o que de jeito nenhum, nesse caso, deve ser entendido como um demérito. Porque apesar de alguns truques herdados da Nouvelle Vague francesa, que Tavares espalha por sua narrativa, sobretudo nos momentos em que registra um acontecimento por meio de stills (a queda de Jardel Filho é um ótimo exemplo disso), o tom é devedor do Zurlini de final dos anos 50, algo como A Garota com a Valise ou Verão Violento. A música é melodramática. Há um clima de leve desespero no ar, e a pontuação é característica dos melodramas italianos. A crise no relacionamento de Jardel com Norma Bengell lembra também coisas do Rafaello Matarazzo, ou o Antonioni de O Grito. Por outro lado, o momento já mencionado em que Jardel Filho leva um tombo da escada, e esse tombo é registrado em stills, indica outra filiação, mais de acordo com a segunda metade dos anos 60. É quando ele conhece a bela vizinha com quem terá um caso. Ele acorda com a cabeça repousada nas pernas dela, que parecem fazer um convite, e ele estará pronto a aceitar assim que virar o corpo para encará-la, depois de levantado. É uma cena curiosa, porque Tavares demora a mostrar o rosto da moça que lhe dá assistência (Gilda Grillo), assim como o próprio Jardel demora para ficar curioso em verificar quem estava dando colo a ele. A estranheza domina toda a sequência. Uma estranheza que é comum no final dos anos 60, quando certas amarras didáticas já estavam sendo abolidas no cinema dito comercial. Ou seja, entenderia perfeitamente se o filme fosse de 1959 ou 1960, mas ao mesmo tempo existem sinais claros de referências posteriores.

Sei que a maior parte do que era feito no mundo não respondia aos preceitos do cinema moderno, e no cinema brasileiro não seria diferente (por sinal, é o que Bordwell aponta ter acontecido nos EUA na época da Nova Hollywood). Uma enormidade de filmes, digamos, clássicos foram feitos nessa época, mas nem por isso eles não seriam, todos, mesmo estando em maioria, deslocados no tempo. Por um simples motivo: esses filmes são lembrados, estudados, vistos e revistos hoje? Muito raramente. Alguns deles merecem maior reconhecimento. Mas o fato é que tendemos a subvalorizar filmes que aparentam caretice em meio às doideiras feitas nos anos 60. E é nesse sentido, o de espírito de um tempo, onde uma minoria de filmes falava mais alto, que devemos situar Antes, O Verão, um objeto estranho em relação ao que retemos daquela época. Alguns filmes do biênio 1967/1968 a título de comparação: Terra em Transe, Câncer, Brasil Ano 2000, O Bandido da Luz Vermelha, A Margem, Hitler do 3º Mundo, Viagem ao Fim do Mundo, O Homem e sua Jaula, A Vida Provisória, Garota de Ipanema, As Amorosas, entre muitos outros filmes que se alinhavam de alguma forma à chave da época e que hoje são bem mais lembrados e reverenciados. É compreensível, então, que Antes, o Verão tenha sumido de circulação depois de um tempo. O que não deixa de ser injusto.

Antes, o Verão foi exibido na Mostra Internacional de São Paulo de 2014. No meio de tantos filmes, lembro de ter anotado como uma das prioridades. Mas quem disse que é possível ver todas as prioridades num evento tão grande como a Mostra SP? Bom que o CineOP o resgatou e o exibiu com maior alarde. O filme e seu diretor merecem.

Curtas de Gerson Tavares

Lembram os curtas de início da carreira de Ermanno Olmi, institucionais para a Edison Volta. A sessão começa e termina com curtas burocráticos, mas é recheada com cinco curtas muito bons entre o começo dos anos 60 e meados dos anos 70: O Grande Rio, de 1959, explora o São Francisco. Brasília, Capital do Século é o belíssimo registro da construção de Brasília, em 1959, Feito na mesma época e com a mesma equipe temos o documentário sobre arquitetura moderna brasileira, Arte no Brasil Hoje, também de 1959. A cor explode bonita nos dois primeiros curtas dos anos 70, Gafieira, de 1972, com fotografia primorosa de Lauro Escorel, e Ensino Artístico, de 1973, que remete igualmente a filmes feitos antes e depois dele: O Mistério de Picasso, de Clouzot, e Ser e Ter, de Nicolas Philibert.

Amanda

amanda

Ao ver um filme, podemos sentir dois tipos de emoção. O primeiro é aquele originado por alguma artimanha da narrativa, normalmente um movimento catártico na direção da reordenação das coisas ou de alguma descoberta importante por algum personagem. O segundo tipo de emoção é mais profundo, e por isso mais forte e duradouro. Vem do nosso sentimento de que algo foi mostrado da (e com a) melhor forma possível. Quando esses dois tipos se juntam, como em Aurora (F.W. Murnau, 1927), Peregrinação (John Ford, 1933), Stella Dallas (King Vidor, 1937), Tarde Demais para Esquecer (Leo McCarey, 1957), Quando o Amor é Cruel (Luigi Comencini, 1967) e alguns outros filmes, experimentamos um êxtase estético que não esquecemos.

Não cometerei a demagogia de colocar Amanda, de Mikhael Herz, ao lado desses filmes. Como sempre me diz um amigo português, as pessoas gostam de pensar que vivem no melhor dos tempos em algum aspecto, e o cinema de hoje, a meu ver, está longe de ser o melhor de todos os tempos. Mas é fato que a junção desses dois tipos de emoções se dá nesse filme que nos surpreende cada vez mais a cada minuto. Herz conseguiu o mais difícil. Seu filme, certamente um dos melhores lançamentos do ano no Brasil, dispensa efeitos mirabolantes de câmera, truques de roteiro que chamem a atenção para a inteligência na criação ou aqueles momentos fofinhos de quase todos os filmes com crianças.

Quando Sandrine (Ophélia Kolb) se torna uma das vítimas fatais de um atentado terrorista, seu irmão David (Vincent Lacoste) se incumbe da missão de cuidar da sobrinha Amanda (Isaure Multrier) até ela fazer 18 anos. Nessa transferência de responsabilidade da mãe para o tio há incertezas, medos e desajeitos, tanto para ele quanto para a criança, então com apenas 7 anos. Mas o diretor cuida para que o entendimento entre eles seja mostrado de uma forma sutil e gradual, com elipses muito bem inseridas e um tom cotidiano favorecido pelo naturalismo invejável alcançado nas interpretações.

Pode-se reclamar da montagem excessivamente recortada no início e do romance um tanto mal ajeitado na trama, entre David e a interiorana Lena (Stacy Martin). Mas é inegável a qualidade de um roteiro que prescinde de engenhosidade forçada para impressionar neófitos, mas recorre habilmente a alguns ganchos, como o da expressão “Elvis has left the building”, responsável pelo mais belo momento de todo o filme, em Wimbledon, quando finalmente fica clara a ode à vida. Vida que continua, sempre. Amanda se identifica de algum modo com um dos tenistas (não há francês na quadra, como nos mostra o placar), começa a torcer por ele, mas ele perde alguns pontos em sequência, abrindo caminho para a analogia com a frase sobre Elvis, no sentido que a mãe havia explicado no início: “agora já era”.

Mas o filme não seria a mesma coisa sem a interpretação sobrenatural de Multrier, atriz-mirim capaz de nos levar da singeleza à aflição e à melancolia. Ela, e seu entrosamento com Lacoste (ator que nunca esteve tão bem como aqui), mais a justeza de tom conseguida por Herz (algo muito raro no cinema em todos os tempos, quase um Rohmer nesse sentido), são os responsáveis pela beleza de Amanda.