Relatos do Mundo

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Um filme de Paul Greengrass como a nova coqueluche do streaming é de se estranhar (para não dizer que é de se lamentar). Porém, devemos deixar o autorismo de lado sempre que ele ameaça tolher nossa liberdade de ver o filme com os olhos livres de que o saudoso Carlão Reichenbach tanto falava. E pronto! Já tive testes mais difíceis que esse. Sei que não cairei no autorismo, e saberei apreciar, se for o caso, um filme desse diretor que até então sempre demonstrou uma incompetência impressionante no comportamento da câmera e na decupagem.

Primeira constatação: a incompetência continua, embora seja atenuada pela máquina da Netflix, cuja liberdade dada aos diretores parece durar até a primeira leitura do roteiro. O padrão de estilo da gigante do streaming logo puxa o estilo trôpego de Greengrass para um meio termo, em que a câmera treme menos que o habitual e a decupagem é menos frenética. Nesse quesito, talvez por tratar de um atentado violento na Noruega e suas consequências, como o crescimento da extrema-direita na Europa, o filme anterior do diretor para a Netflix, 22 de Julho, é um desastre, assim como o outro filme sobre esse mesmo atentado, também de 2018: Utoya. Em Relatos do Mundo, a decupagem de Greengrass continua sofrível. Vejam, por exemplo, que ele precisa de uns cinco ou seis planos para resolver algo que qualquer diretor razoável resolveria com um ou dois, no máximo. Bem, Peckinpah talvez filmasse em três, mas com um domínio muito maior (por vezes exemplar) do que cada angulação de câmera pode acrescentar ao drama. Os cinco ou seis planos de Greengrass diminuem o drama e parecem uma estratégia banal para criar dinamismo nas cenas. Um dinamismo falso, portanto.

Segunda constatação: nesse cinema padronizado da Netflix e sua tendência ao meio termo, ao polimento excessivo do estilo, incluindo aí o mau estilo de Greengrass, uma boa trama e bons atores conseguem que o filme seja ao menos passável, embora pareça cada vez mais difícil, talvez até impossível, que sejam memoráveis. A trama é baseada em livro de Paulette Jiles, adaptado como um feijão com arroz honesto por Luke Davies e pelo próprio Greengrass. Os atores principais parecem talhados para seus papeis: Tom Hanks tem mostrado o melhor de sua arte em filmes recentes como Sully ou The Post, mas mesmo em obras mais irregulares, como Ponte dos Espiões, ele nada de braçada. A menina que ele resgata de um território hostil e deve levar de volta ao lar, sem saber que não há lar para ela, é aquela que era a maior força de Transtorno Explosivo (2019), de Nora Fingscheidt, o filme alemão sobre uma criança terrível que encantou meio mundo (infelizmente, não a mim) na Mostra SP de 2019: Helena Zengel. Ela interpreta uma órfã dupla, primeiro de seus pais alemães, depois dos índios Kiowa que a acolheram.

Se previsibilidade fosse um problema, já rejeitaríamos o filme com menos de meia hora. Mas ajuda a boa escalação de Hanks e Zengel, ambos admiráveis, como de todo um elenco secundário, com destaque para Elizabeth Marvel como a dona de uma pensão em Dallas e Thomas Francis Murphy como um desprezível líder redneck. Ajuda também que a profissão do personagem de Hanks seja a de um contador de notícias, o que dá um certo frescor e permite algumas boas sacadas, como a do levante provocado por ele na pequena vila dos rednecks. Ele não narra apenas para analfabetos. Há toda uma arte do contar história, que um ator como Hanks sabe valorizar.

Passável, porém, não significa que seja de fato bom. Greengrass pode até tentar fazer um arroz e feijão saboroso para valorizar a história edificante e as atuações sublimes. Mas graças a sua inabilidade formal, o arroz ficou meio empapado e o feijão, duro e sem sal.

Saint Maud

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A estreia em longa de Rose Glass mostra aonde chega o fanatismo religioso, resultado de mentes doentes e corações fracos. Maud (Morfydd Clark) é a enfermeira que recebe a missão de cuidar da doente terminal Amanda (Jennifer Ehle). Uma vez em contato com a moribunda, aceita de sua própria cabeça uma outra missão: salvar a alma da mulher, mesmo que esta não queira ser salva de nada a não ser do sofrimento.

Entramos então na mente de Maud. Vemos o que ela sente, percebemos o mundo como ela percebe. Ela tem uma tentação, a última tentação de Maud, mas sobrevive e sente reforçada sua fé. Deve se entregar aos desígnios de Deus, mesmo que para isso deva matar diabos imaginários.

Esse momento de tentação é quando o filme ameaça sair dos trilhos. O rigor da encenação dá lugar a uma câmera hesitante, numa espécie de facilidade formal que não ajuda com a oposição entre o fervor religioso e a perdição da dúvida. Porém, quando ela está prestes a explodir na solidão de seu quarto, e essa explosão vem com um vômito, a câmera totalmente desnorteada arrasta o espectador para a perdição de Maud, e é quando a aposta na desorientação formal se justifica. Após a passagem da tentação, tudo volta aos eixos, da encenação e da certeza que a protagonista tem de sua missão. A luz volta a ser controlada, e a atriz pode continuar sua tour de force do registro inicial.

É corajoso da parte de Rose Glass, que também escreveu o roteiro, fazer com que não haja meio termo no comportamento da protagonista. Ou é uma junkie que se entrega aos homens sem critério algum, ou é uma beata que desaprova horrorizada o hedonismo de sua paciente. Mas há o ingrediente do ciúme, pois Maud não tem coragem de se envolver sexualmente com Amanda, e por isso rejeita a proximidade de Carol, chegando a expulsá-la da casa, mesmo sem ter a devida autoridade para isso.

É um acerto também que o filme fique nesse pêndulo entre o carnal e o delírio, entre a fé doentia e o cuidado da enfermeira, que deve vir da ciência. Ao aderir progressivamente ao ponto de vista de Maud, uma personagem que levita e é incendiária (o que liga o filme inusitada e duplamente a Tarkovski), culminando com um trabalho espetacular do som no extracampo da cena final, Saint Maud revela-se um dos melhores filmes de horror dos últimos dois anos, a meu ver, ao lado do surpreendente Relic, de Natalie Erika James (ambos milhas acima do celebrado O Farol).

Marguerite Duras

Como reagiriam à obra de Marguerite Duras os antiformalistas que têm dominado a discussão sobre cinema nas redes sociais? Inventariam desculpas, decerto, para não recusar o cinema de tão nobre autora. Mas o fato é que essa cineasta francesa que nasceu na Indochina é uma das maiores formalistas do cinema, senão a maior. Para Duras, a questão é encontrar maneiras de driblar as formas narrativas clássicas e modernas. No romance, fez parte da mesma linhagem de Alain Robbe-Grillet, do nouveau roman que explodiu nos anos 1950. No cinema, está mais alinhada a geração pós-nouvelle vague de Pialat e Garrel, apesar do início ligado a Alain Resnais e da admiração por Godard. É alguém que chegou depois do apogeu do clássico e da dominação do moderno. Mas a questão para ela não é tentar reinventar em cima do já inventado. É, antes, a negação do cinema, e, paradoxalmente, sua exacerbação. Ao procurar fazer não cinema, mas uma outra coisa, Duras inventou uma forma realmente nova de fazer cinema, uma forma que encontra paralelos com cineastas como Fassbinder, Manoel de Oliveira, Raul Ruiz, Jean-Marie Straub e Danielle Huillet, e, como esses, faz cinema plenamente formalista. De fato, Duras faz um cinema que está em completa negação com o modelo industrial e comercial. É cinema que afronta a necessidade de se contar uma história. Talvez seja possível dizer que Duras é mais revolucionária no cinema que na literatura.

Se nos primeiros filmes prevalece alguma derivação do cinema já existente, sobretudo aquele mais próximo da diretora – um estilo que beira o impessoal em La Musica (1967), apesar de alguns traços característicos da cineasta já estarem presentes, de alguns planos que mostram um desejo de inventar formas, além da luz cinematográfica de Delphine Seyrig; Alain Resnais em Destruir Disse Ela (1969), um tanto derivado de O Ano Passado em Marienbad; Godard fase maoísta em Jaune le Soleil (1971), que também tem algo do Fassbinder inicial, a partir de Nathalie Granger (1972) o estilo burilado nos longas anteriores, com a fixidez da câmera interrompida por movimentos certeiros ou semi-circulares e um trabalho preciso com o som do que vem de fora do quadro, encontra sua maior expressão. Com esse filme de 1972, estrelado por Jeanne Moreau e Lucia Bosé e com uma participação marcante de Gérard Depardieu, nasce uma grande cineasta. Os filmes seguintes acompanhariam o altíssimo nível, culminando nessa obra única e magistral que é India Song (1975).

  • TOP 5
  • 1 – India Song (1975)
  • 2 – Nathalie Granger (1972)
  • 3 – Des Journées Entières dans les Arbres (1976)
  • 4 – Son Nom de Venise dans Calcutta Désert (1976)
  • 5 – Le Navire Night (1979)

obs: Dependendo do dia, o quinto lugar poderia ser ocupado por La Femme du Gange, Baxter Vera Vaxter ou Agatha et les Lectures Illimitées

Top 20 2020

Neste ano atípico, em que os cinemas só estiveram abertos até o meio de março, não faz muito sentido pensar em uma lista com os melhores filmes lançados no circuito brasileiro, como fiz em todos os anos (exceto em 2018 e 2019, listas de melhores de 2017 e 2018, porque nesses anos não acompanhei o circuito brasileiro do início ao fim). Mas não queria passar batido em mais um ano, uma vez que houve, de um modo incerto e inesperado, um calendário de exibições brasileiro, seja no circuito das plataformas de streaming, seja no de festivais online. Logo, a lista dos meus 20 preferidos (sempre o número, não vou mudar justamente neste ano em que ele aparece duas vezes) tem só filmes que tiveram alguma exibição pública no Brasil. Depois, mais seis filmes que destaco entre os vi por interesse maior ou curiosidade, mas que (até onde sei) não tiveram exibições públicas no país.

As duas listas estão em ordem decrescente de preferência (do 1 ao 20, do 1 ao 6).

* Os filmes que tiveram textos meus estão já com os links acoplados a seus títulos. Basta clicar e acessar o texto original.

** Os filmes que vi no Ecrã e no Nicho foram comentados em textos de balanço aqui neste blog.

Filmes com estreia comercial ou exibição em algum festival no Brasil

O Caso Richard Jewell (Clint Eastwood) visto no cinema

É o melhor dos Eastwoods recentes, com um domínio de ritmo, direção de elenco, estrutura narrativa e comportamento da câmera que só um grande mestre poderia ter.

Retrato de uma Jovem em Chamas (Celine Sciamma) cinema

Só pela cena do primeiro beijo já merece uma vaga nesta lista. Mas Sciamma revela um amadurecimento incrível em cada longa, culminando nesta jóia.

Viagem Fantasma (Stephen Broomer) Ecrã

Da natureza à abstração é um projeto de filme que tenho há alguns anos e resolvi retomar após a descoberta deste belo filme de Stephen Broomer, a partir das imagens amadoras de viagens feitas por Ellwood F.Hoffman, captadas nos anos 1960.

Ar Condicionado (Fradique) Nicho

Belíssimo filme da produtora angolana Geração 80. Uma maneira sui generis de narrar uma história simples e algumas cenas delirantes de antologia formam um coquetel poderosíssimo.

Dias (Tsai Ming Liang) Mostra SP

Não é tão forte quanto Cães Errantes, mas é forte o suficiente para mostrar que Tsai ainda está em forma, assim como seu ator, Lee Kang Sheng.

Martin Eden (Pietro Marcello) – cinema

O filme mais convencional de Marcello confirma sua boa mão como diretor e criador de imagens fortes em tramas que buscam alguma maneira de driblar o óbvio.

Luz nos Trópicos (Paula Gaitán) – Olhar

Paula Gaitán faz seu melhor filme. Mais do que isso: o filme vai crescendo até uma hora final muito forte, e um plano final de rara beleza, que nos faz querer continuar vendo as imagens.

Cabeça de Nêgo (Déo Cardoso) Tiradentes

Um dos filmes mais fortes da nova geração de diretores brasileiros. Um dos muitos exemplos surgidos nos últimos três ou quatro anos de que o cinema brasileiro tem finalmente atingido um estágio animador, depois de algumas batidas de cabeça naturais pela necessidade de renovação.

Lua Vermelha (Lois Patiño) Mostra SP

Filme de mistérios, mais do que de mistério, de imagens inquietantes, mais do que belas, ainda que também belas, e um desenvolvimento que jamais resvala no óbvio.

Guerra (José Oliveira e Marta Ramos) Mostra SP

Filme de amigos. Vítima de uma dureza maior para não soar tendencioso ou agraciado pela generosidade do contato pessoal? Creio ter maturidade para fugir desses riscos. Na dúvida, fiquem com as imagens fortes criadas pelos diretores, e com o último trabalho do também amigo José Lopes, falecido em dezembro de 2019.

Campo (Tiago Hespanha) – cinema

Mais um filme surpreendente do ainda surpreendente cinema português, dentro de um registro que eles dominam bem, o documentário contemplativo e ensaístico.

Monos – Entre o Céu e o Inferno (Alejandro Landes) – cinema

Tinha passado batido por mim esta estreia do colombiano Monos nos cinemas brasileiros. Como não pisarei numa sala de cinema antes de uma vacina, nem acompanhei as estreias de perto. Mas vi que estava em ótima posição na lista do Ruy Garnier e fui conferir, encontrando um filme cheio de ideias visuais, que me lembrou um Los Conductos (o belo filme de Camilo Restrepo) mais redondo (embora também mais enigmático em suas implicações políticas) e inspirado. Anotado o nome de Landes entre os cineastas a serem seguidos de perto.

61. A Verdade Interior (Sofia Brito) Ecrã

Belo filme que mostra, entre outras coisas, o processo criativo de James Benning, mais organizado por sensações do que pela razão, em que a diretora assume sua dificuldade com a língua inglesa, humanizando-se diante da câmera por sua fragilidade na comunicação.

A Forma do que Está por Vir (Lisa Marie Malloy e J.P. Sniadecki) Ecrã

Lembra Andarilho e Acidente, de Cao Guimarães, e os diretores tiveram a sorte de encontrar um senhor que não é só hippie, mas uma figura sui generis, dessas que seguram um filme desse tipo. Ele se chama Sundog, o que sugere uma aproximação (homenagem? brincadeira?) com o compositor maldito Moondog, falecido em 1999, cuja aparência era bem semelhante a do protagonista desse filme.

Technoboss (João Nicolau) cinema

Poderia ser um filme de ator, pois Miguel Lobo Antunes, gestor cultural e irmão do escritor António Lobo Antunes, domina o filme e o chama de seu. Mas João Nicolau também mostrou que evoluiu como diretor em relação a seus outros longas. Faz um filme bem forte e esquisito, sendo que a esquisitice também é parte determinante de sua força.

Não Há Mal Algum (Mohammed Rasoulof) Mostra SP

Quatro episódios mostrando a dor de se matar um ser humano. O tema se impõe e surge como um choque, num filme que, mesmo quando aposta no convencional, pode nos surpreender. Meu episódio preferido é o último, o que ajuda a tornar o todo mais impressionante.

A Pastora e as Sete Canções (Pushpendra Singh) Mostra SP

Parece um filme que eu via na Mostra dos anos 1990, e isso é um elogio, porque naquela época ainda era possível sermos surpreendidos por algo alienígena no cinema contemporâneo.

Sportin’ Life (Abel Ferrara) Mostra SP

O melhor dos filmes recentes de Ferrara. Dá conta de sua recente carreira, de sua parceria com Willem Dafoe e da pandemia, que ele mostra filmando as ruas vazias de Roma.

Vento Seco (Daniel Nolasco) Olhar

Sexo explícito homossexual num Brasil mais conservador do que nunca. Mas isso seria pouco do ponto de vista cinematográfico, embora seja muito como chacoalhão em mentes fracas. A questão é que Nolasco tem uma câmera segura, que valoriza as cenas de sexo e flerte. Tem momentos que lembra o Mascaro de Boi Neon, mas são poucos e não anulam a força do longa.

Yamiyhex – As Mulheres Espírito (Sueli e Isael Maxacali) – Tiradentes

Filme de olhar raro, que mostra um desejo de contornar todas as convenções cinematográficas possíveis.

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+ (menções honrosas)

Be Natural: A História Não Contada da Primeira Cineasta do Mundo (Pamela B.Green) – cinema

Partida (Caco Ciocler) – cinema

É Rocha e Rio, Negro Léo (Paula Gaitán) – Ecrã

O Oficial e o Espião (Roman Polanski) – cinema

Três Verões (Sandra Kogut) – Spcine

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Filmes que não tiveram exibição pública no Brasil

Dwelling in the Fuchun Mountains (Gu Xiaogang)

O lado paisagista de Jia Zhangke é acentuado neste filme que procura integrar as histórias das vidas que mostra às belas paisagens chinesas. É um filme muito bonito, mas essa beleza toda parece servir à ideia de comunhão com a natureza e suas estações, criando planos difíceis de esquecer, como um enorme, em que o moço nada uma boa distância e ainda entabula um longo diálogo.

Nunca Raramente Às Vezes Sempre (Eliza Hittman)

Duas adolescentes viajam a Nova York para que uma delas possa abortar. Dessa trama simples Hittman extrai um mundo bem singelo e verdadeiro, filmado de modo a nos mostrar o aprendizado das duas personagens ao enfrentar as penúrias da vida.

The Woman Who Ran (Hong Sang-Soo)

Como sempre em Hong Sang-soo, o filme vai se insinuando, como quem não quer nada, e no final estamos vidrados, querendo mais.

Relic (Natalie Erika James)

Um filme sobre o envelhecer do corpo feminino e sua aceitação. Três gerações de mulheres enfrentam os fantasmas desse envelhecimento sem se dar conta que há uma transmissão de experiência entre elas. É o filme de horror mais belo que vi no ano passado.

First Cow (Kelly Reichardt)

Talvez seja o filme mais rigoroso e formalista de Kelly Reichardt, com um enquadramento 1.33 que reforça o posicionamento das pessoas dentro dos recortes de paisagens que ela filma muito bem.

On Paradise Road (James Benning) O filme pandêmico de Benning trabalha mais uma vez com duração e simetria, apenas com tomadas internas, dentro de sua própria casa. O momento mais notável é quando vemos Uma Aventura na Martinica, de Hawks, na TV. Dentro de um plano imóvel e longo, o ritmo e o movimento do melhor cinema clássico americano.

Encerrando 2020: Até o Fim e outros filmes

Um apanhado de pequenos textos sobre filmes que vi nos últimos dias. Até o Fim está em destaque no título, apesar de ter me decepcionado com ele, porque era o que eu mais queria ver entre esses filmes.

Antebellum, de Gerard Bush & Christopher Renz **

Pelo que pude perceber, foi recebido com posições extremas este filme com a estrela Janelle Monáe (que ainda pode ser considerada muito mais estrela musical do que cinematográfica, e não é este filme que mudará isso). Como muitas vezes em que essas posições extremadas acontecem, tendo a ficar no meio do caminho, sem entender muito bem o porque de tanta raiva e tanto maravilhamento, reconhecendo coisas bacanas no filme (a estrutura narrativa, algumas cenas de impacto na fazenda sulista, a perseguição final), e coisas que, a meu ver, não funcionam (as três amigas no restaurante e a viagem no uber errado, a interpretação decepcionante de Monáe, que não se mostrou à altura quando mais exigida). Vale ver, sim, pela estrutura e porque ela vai se tornando mais interessante com o passar do tempo, mas o filme termina criando expectativas que não se confirmam de todo.

A Assistente, de Kitty Green **

Kitty Green vai fundo em sua escolha estética e somente a abandona em alguns momentos de crise da personagem principal. O momento mais forte é aquele em que ela vai se queixar ao maior chefe das regalias que o chefe do setor dela dá a uma nova contratada, que ela considera mais jovem e bonita. É como se na série Mad Men ficasse muito mais evidente o protagonismo de Peggy, sem uma divisão com o protagonismo de Don Draper. Curioso que estamos numa produtora de cinema de médio porte, mas o ambiente é o mesmo de qualquer repartição burocrática das empresas. Poderia ser uma administradora de cartão de crédito. Talvez seja um modo de dizer que de arte e criação o cinema tem muito pouco, sobretudo nos Estados Unidos.

Até o Fim, de Glenda Nicácio e Ary Rosa **

Em Até o Fim, a dupla Glenda Nicácio e Ary Rosa resolve deixar os experimentos formais dos seus outros longas em favor de um experimento com a dramaturgia. E eis que, nesse processo, parecem um tanto perdidos, vendo à distância o forte de Café com Canela e, principalmente Ilha. Esperava bem mais desse terceiro longa, que a esta altura já pode ser considerado “aquele difícil terceiro longa”, numa referência ao “that dificult third album” que se tornou clichê na imprensa musical britânica. Porque nessa lavagem de roupa suja entre as irmãs, sobram câmeras perdidas (quando é muito perdida até fica interessante, pela abstração resultante, mas não é tão frequente), grandes angulares que parecem ter escapado de um filme do Lanthimos e alguns cortes que, ao contrário do que acontece em Café com Canela, não conseguem criar um atrito engenhoso dentro das cenas. Uma pena, porque a entrada em cena, mais ou menos na metade do filme, da irmã caçula, mulher trans que não é bem aceita pela irmã mais velha, poderia proporcionar cenas muito fortes caso os diretores tivessem um controle dessa dramaturgia. Inclusive porque os diálogos são colocados com muita propriedade a partir da entrada dessa personagem e a atriz manda muito bem em falas que poderiam ser apenas de um manual antitransfobia, mas mesmo com a direção trôpega atingem uma força inesperada. Ela merece uma segunda estrela.

Babenco – Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer Parou, de Barbara Paz **

Não entendo a opção de mostrar os filmes de Babenco todos em preto e branco. Entendo que ela tem duas funções, manter o padrão visual em todo o filme e destoar dos demais documentários de cineastas e filmes. Mas me pareceu uma opção equivocada, que enfraquece as imagens originais em favor de um outro projeto estético, distante dos que Babenco tinha adotado (sofrem mais os do periodo áureo do autor, de Lúcio Flávio a Brincando nos Campos do Senhor). No mais, este documentário começa bem e termina decepcionante conforme a carreira do próprio Babenco vai se mostrando menos forte. Pior ainda que os trechos escolhidos e a maneira de integrar tudo no preto e branco fazem parecer que seus últimos filmes são piores do que realmente são.

Be Natural: A História Não Contada da Primeira Cineasta do Mundo , de Pamela B.Green ***

O filme de Pamela B.Green é redondinho no sentido didático (comercial), com umas animações bonitinhas, sacadas interessantes que mostram a circularidade do tempo e entrevistas com especialistas como Kevin Brownlow. Mas é quadradinho (dentro de um aspecto bem contemporâneo) no sentido formal. Vale muito ver porque é história, e há um claro envolvimento da diretora com essa cineasta que, de fato, teve a carreira mais longa entre os chamados pioneiros da sétima arte (além dela, Thomas Edison, Louis Lumière e Georges Méliès, como o próprio filme ilustra num gráfico). Pioneira inclusive no trabalho com som sincronizado, ainda em estado incipiente, no início do século 20. Edison, Lumière e Méliès foram inovadores antes de Guy fazer seus melhores filmes, mas enquanto eles foram aos poucos sendo ultrapassados pelos novos cineastas que surgiam, Alice Guy manteve-se na ponta da invenção até pelo menos o início dos anos 1910.

It Feels So Good, de Haruhiko Arai ***

Meu problema com o cinema japonês dos anos 1990 em diante não é que carece de bons filmes, é que carece de filmes magníficos. Os filmes que vejo, exceto quando assinados por alguns poucos suspeitos como Kiyoshi Kurosawa ou Takeshi Kitano (e mesmo assim, nem sempre), raramente alcançam um patamar mais alto no meu panteão. Ficam todos perto do meio, entre duas e três estrelas, na linguagem sempre imprecisa das cotações. Isso acontece com It Feels So Good, drama erótico com cenas ousadas, que lembram os roman porno da Nikkatsu, atualizados para uma maior frontalidade de elementos como espermas, ereções, mas nada que chegue ao nível de um Império dos Sentidos, filme franco-nipônico de Nagisa Oshima. O jovem casal de ex-namorados trata de aproveitar os últimos dias de sexo incessante antes que a noiva se case com um soldado. Isso com o mítico Monte Fuji prestes a entrar em erupção (a analogia com o vulcão sexual está posta, portanto). O veterano roteirista Arai, em seu quarto longa como diretor, tem intimidade com o pinku eiga e consegue veracidade nas cenas de sexo sem cair no explícito, além de realizar alguns belos planos – o das hélices parece meio equivocado de início, pela composição, mas termina se justificando pelo comportamento dos amantes, que têm, durante todo o filme, uma atuação bem convincente.

The Man in the Woods, de Noah Buschel **

O lado David Lynch me interessa bem mais que o lado Guy Maddin, mas o filme parece se decidir pelo último no terço final. Alguns personagens são interessantes, como o homem do trailer e a professora politizada. Por outro lado, a presença de Sam Waterston me parece bem equivocada e seu personagem um tanto prejudicial para a trama.

Yamiyhex – As Mulheres Espírito, de Sueli & Isael Maxacali ***

A vida em conflito numa tribo indígena filmada com liberdade com relação às convenções do “bem filmar”, e com um olhar preciso e contundente. Acompanhamos os rituais e as disputas entre homens e mulheres, com estratégias de batalha e um desenvolvimento da trama que foge até mesmo das convenções do cinema indígena.

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O padrão de cotações é o mesmo da Revista Interlúdio:

0 – ruim

1 – mediano

2 – interessante

3 – bom

4 – ótimo

5 – sensacional

Top 20… de 2009

Enquanto não sei o que fazer com a lista de 2020, e se vai haver mesmo tal lista, segue uma que encontrei no antigo Chip Hazard, infelizmente tirado do ar pelo UOL. É de 16 de janeiro de 2010, com os filmes que estrearam comercialmente em São Paulo durante o ano anterior.

Hoje, obviamente faria algumas mudanças, mas os primeiros lugares me pareceram bem justos. A Troca estaria em posição melhor (que ano para o Clint), Inimigos Públicos mais para baixo e Arrasta-me Para o Inferno mais para cima. Os comentários são da época.

1) Gran Torino, de Clint Eastwood

Christ all friday!!!

2) Amantes (Two Lovers), de James Gray

O melhor filme de um grande diretor.

3) Deixa Ela Entrar (Let the Right One In), de Tomas Alfredson

Eu deixo.

4) Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes

Uma delícia de filme. Vasco, o mito. 

5) Moscou, de Eduardo Coutinho

A brilhante encruzilhada de uma carreira.

6) Inimigos Públicos (Public Enemy), de Michael Mann

Carne picotada com muita habilidade.

7) Desejo e Perigo (Lust: Caution), de Ang Lee

Carne, carne, carne…

8) As Ervas Daninhas (Les Herbes Folles), de Alain Resnais

Decepcionante, pois não é a obra-prima que eu esperava. Mas é desconcertante. 

9) A Troca (Changelling), de Clint Eastwood

Na revisão cai um pouco, mas tem dois dos 10 melhores momentos do cinema em 2009.

10) Horas de Verão (L’Heure D’Été), de Olivier Assayas

Ocaso de uma geração, rebento de outra.

11) Vocês, os Vivos (Du Levande), de Roy Andersson

Ai, quem é que não gosta de quem só faz o mesmo filme?

12) Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds), de Quentin Tarantino 

Pelos dois primeiros capítulos.

13) Arrasta-me Para o Inferno (Drag me to Hell), de Sam Raimi 

Bruxa bem mais assustadora que a de Blair.

14) Inútil (Useless), de Jia Zhang-ke

A brancura estética.

15) O Lutador (The Wrestler), de Darren Aronofsky

“I knew right from the beginning / that you would end up winnin'”

16) Presságio (Knowing), de Alex Proyas

Cage correndo e o mundo derretendo.

17) Aconteceu em Woodstock (Taking Woodstock), de Ang Lee

Bela viagem de ácido.

18) Milk – A Voz da Igualdade (Milk), de Gus Van Sant

A primeira metade é espetacular.

19) A Erva do Rato, de Júlio Bressane

Como aproveitar a persona cinematográfica de Selton Mello.

20) Annabazys, de Joel Pizzini e Paloma Rocha

Estimulante, dá vontade de ver Glauber.

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Só entraram na lista filmes que estrearam no circuito comercial de São Paulo durante 2009.

Encerrando 2020 – Undine

Não entendo bem o fascínio que o cinema de Christian Petzold provoca em alguns cinéfilos. Com a exceção de Yella e Gespenster, com os quais tenho uma relação mais sólida, seus filmes, comigo, costumam ficar num gostar pouco entusiasmado no todo, embora sempre com alguns momentos notáveis.

Em Undine, a personagem-título é interpretada por Paula Beer, talvez a sucessora mais marcante de Nina Hoss, atriz mais constante nos filmes anteriores de Petzold. Christoph é interpretado por Franz Rogowski, espécie de Joaquin Phoenix alemão, que já havia filmado com Petzold no longa imediatamente anterior, Em Trânsito, que conta também com Paula Beer.

Este novo longa já se apresenta diferente, com um diretor mais disposto a tentar alguns truques novos ou reciclar habilmente os velhos truques, seja pela encenação (quando a câmera acompanha o olhar de Undine para seu ex, enquanto ela vai trabalhar e ele espera no café), seja pela narrativa (o aquário que se quebra e forma um novo casal). Depois vem o plano em que Christoph acompanha a chegada do trem, e o breve afogamento de Undine, filmado como se fosse um sonho. E aí, com a momentânea estabilidade do casal, o filme fica um pouco modorrento (há sempre alguma barriga nos filmes de Petzold). O inesperado voltará mais tarde.

Acontecem coisas inverossímeis como a ligação de um homem dado como morto e a força descomunal de Undine para assassinar seu ex-namorado por afogamento. Petzold se serve desses momentos para recolocar seu filme nos eixos, como se precisasse da estranheza como modo de sobrevivência de seu cinema (sempre foi um pouco assim, penso aqui ao lembrar dos filmes anteriores). Quando remete ao suicídio de Anju no O Intendente Sansho de Mizoguchi, opera-se um milagre e a partir daí tudo se torna possível, o que nos abre portas para acompanhar o filme sem a previsibilidade que o ameaçava em seu miolo.

Se o desfecho, como quase sempre acontece nos filmes de Petzold, é inferior às expectativas criadas, isto acontece um pouco por sua própria tendência ao inesperado e às soluções narrativas menos óbvias.

Últimos dias do ano

1. Em outros anos, é nesta época que vou atrás dos lançamentos importantes, de filmes que perdi, apesar de interessado, de filmes elogiados por críticos ou cinéfilos que respeito. Neste ano, nem sei como fazer isso. Ou melhor, sei, mas é um universo tão grande de filmes que eu nem sei por onde começar. As estreias no cinema aconteceram até o meio de março. Depois foi só em streaming ou em sala de cinema para quem quer se arriscar (não há lugar seguro numa epidemia como essa). De todo modo, o controle dessas coisas foi dificultado pelo ineditismo da situação. É também por esse motivo, mas principalmente por não gostar de fazer listas do tipo “filmes que vi pela primeira vez no ano”, sem um universo definido e que tenha algo de comum com outros cinéfilos, que neste ano não farei lista alguma de melhores.

2. Foi o ano dos festivais em streaming. Como perdi mais uma vez a Mostra de Tiradentes, em janeiro, não pude acompanhar presencialmente festival algum (o último tendo sido o Fest Aruanda, em dezembro do ano passado). Alguns festivais online eu acompanhei bem (Ecrã, Olhar, Mostra SP), outros acompanhei bem menos ou nada (Forum Doc, Indie, CinePE, Festival de Brasília, entre muitos outros). Não foi por falta de interesse. Não se pode ver tudo.

3. Isto não é uma retrospectiva do ano. Mesmo porque 2020 ainda não acabou e talvez eu faça um novo post antes de acabar. Mas foi o ano em que descobri a possibilidade de dar cursos online, algo que sempre evitei por sentir que faltava interação com os alunos. Estava enganado, e a possibilidade de dar aulas para 80% ou mais de pessoas de outras cidades, que não conseguiriam acompanhar os cursos se fossem presenciais, é uma das grandes vantagens do formato. Sinto falta, obviamente, dos encontros e das aulas presenciais. Não vejo a hora de voltar a uma sala de aula que não seja a minha casa. Mas é inevitável, pelo menos para mim, a manutenção dos cursos online em paralelo com os presenciais.

4. Foi também o ano em que muitos deram a desculpa da pandemia para precarizar serviços e trabalhos. Talvez a maior vítima foi o jornalismo. Tanto o impresso quanto o televisivo já não eram grande coisa, e estão piores a cada dia, com excesso de repetições, manchetes com distorções, reportagens sobre as pessoas que ignoram o distanciamento social e parecem alimentar a vontade de outras pessoas ignorarem também, reforçando um círculo vicioso do egoísmo e da irresponsabilidade. Essa pobreza me parece ser uma opção. O jornalismo, hoje, principalmente no Brasil, é exceção. Está em 10% dos maiores jornais, em uma porcentagem não muito maior em veículos independentes e em 20%, mais ou menos da Globonews e da TV Cultura, apesar do viés neoliberal dos patrões. Na hora de saber por onde nos informarmos, temos, aí sim, uma escolha difícil.

5. Tive dois meses intensos entre festivais de cinema e cursos inéditos, que me deixaram bem ocupado (felizmente). Com isso este blog ficou sem atualizações semanais. Esta semana foi de descanso. Na próxima as coisas devem voltar ao eixo. E que venha a vacina. E que venha para todos e sem maior atraso (é pedir muito de um governo incompetente como esse, para dizer o mínimo).

Fellini, ranqueado

Terminado o curso sobre o cinema de Federico Fellini e a revisão de quase todos os seus filmes, resolvi criar este ranking, do melhor ao pior.

Na nova série de revisões, dois filmes subiram bastante: Julieta dos Espíritos e Cidade das Mulheres. Julieta dos Espíritos continua 8 e 1/2 no mergulho na fantasia e no onirismo da mesma maneira que Roma continua Satyricon no retrato dos romanos, antes continentais, agora restritos a uma cidade, e Entrevista continua Roma na audácia do documental íntimo e saudosista, reduzindo a cidade romana a uma cidade cinematográfica, a Cinecittá. Cidade das Mulheres continua Casanova na derrocada do macho latino. Duplas de filmes, espelhamentos. E La Nave Va aperfeiçoa Ensaio de Orquestra. Noites de Cabíria aperfeiçoa A Estrada.

As revisões confirmaram também que o Fellini que mais me toca é o delirante, do onirismo e do grotesco. O Fellini realista eu admiro mais à distância, com a exceção de Noites de Cabíria, que já está num movimento de saída do neorrealismo para a narrativa fragmentada e irrealista dos filmes seguintes.

Hoje, dezembro deste terrível 2020, a ordem seria esta, subdividida em blocos de aceitação:

As obras-primas:

Satyricon

Roma

E La Nave Va

A Doce Vida

Noites de Cabíria

Os sublimes

8 e 1/2

Amarcord

Casanova

Julieta dos Espíritos

Os ótimos

Cidade das Mulheres

Os Boas Vidas

A Trapaça

Toby Dammit

Os Bons

Entrevista

Ensaio de Orquestra

A Estrada

As Tentações do Sr. Antônio

Os Palhaços

Os bons

A Voz da Lua

Abismo de um Sonho

Ginger e Fred

O razoável

Mulheres e Luzes

Nicho Novembro 2020 – Mostra de Filmes

Nestes tempos em que o racismo não só se mostrou longe de superado, mas teve um aumento em sua intensidade e efetividade, com os racistas perdendo a vergonha de se assumir como tal, qualquer pessoa decente fica mais sensível a narrativas negras, a corpos pretos em filmes de todo o mundo. Por esse motivo o maior desafio de ver a programação de cinema do Nicho 54 e lidar com os filmes exibidos é justamente conseguir separar nossa tristeza atual e nosso ódio ao racismo e identificar elementos cinematográficos nas obras, se as operações que as regem foram bem ou mal sucedidas e se as realizações nos mostram algum nível de excelência e adequação entre o que se quer mostrar e a maneira como se mostra.

Nesse sentido, vamos da insuficiência estética simpática e lynchiana de In Hollywoodland e da inconsistência de conjunto do longa alagoano Cavalo até a sensibilidade e a habilidade cinematográficas demonstradas no curta americano De Repente a Escuridão ou nos filmes da produtora angolana Geração 80, Lúcia no Céu com Semáforos e Ar Condicionado, ou ainda no impressionante filme de Ruanda, Aquário. Vamos também da gangorra dos erros e acertos que se juntam num conjunto poético dos curtas Receita de Caranguejo e Colunas ao impactante filme denúncia “estou puto com o mundo e minha terra” que é esse impressionante A Última Gota de Óleo, e à investigação sobre a imagem dos negros na tela que engloba o já visto e o também já visto – mas num todo arranjado de forma única – em Tudo que é Apertado Rasga.

Na programação estimulante do Nicho, pudemos ver aparelhos de ar condicionado que caem como se estivessem no céu, refletindo o dar de ombros de uma elite angolana que mal se preocupa com os que andam sobre o chão (característica das elites de todo o mundo, provavelmente). No mesmo filme, Ar Condicionado, o grande destaque entre os filmes que vi do Nicho, o delírio do protagonista dentro de um carro que é só carcaça, uma das cenas mais belas do cinema contemporâneo pelo uso acertado da música e pela entrada e saída do delírio, a precisão de uma montagem que se arrisca e acerta em cheio. Pudemos ver também uma menina dançando graciosamente enquanto observa o pai maltratando a arte de se expressar com o corpo (De Repente a Escuridão), ou a relação homem e mulher sendo totalmente tomada por sensações e palavras que as descrevem em forma de poesia (Lúcia no Céu com Semáforos), ou ainda um homem praguejando para a câmera tendo por trás toda a destruição ambiental que ele ajuda a fazer com seu trabalho necessário – a dor é também de sua culpa e de sua condição, aprisionado em um emprego insalubre (A Última Gota de Óleo).

Infelizmente, os diversos compromissos de novembro me impediram de ver a programação nos últimos dois dias. Se mantiveram o bom nível da programação, e não há razões para acreditar que algo diferente aconteceu, é certo que o Nicho 54, também em sua faceta programação de filmes, terá vida longa e frutífera.