Esquizofrênico, não conservador

– Em todos os primeiros turnos desde 2006, à exceção do último, nas eleições para prefeito, governador ou presidente, votei à esquerda do PT (para o qual eu votei nos segundos turnos todos). No entanto, sou ainda chamado, por razões políticas, de conservador, ou pior, reacionário, por pessoas muito mais conservadoras (descobri mais uma que me entende desse modo, recentemente). Alguns até me conhecem e deviam saber a besteira que pensam. Sei quem são, e não as quero mal. Só quero que saibam que estão comendo bola. Esse pensamento tortuoso pode explicar, para alguns desses vacilões, o motivo de eu não ter gostado de Aquarius, Doméstica ou da retirada dos filmes do CinePE por causa do filme do Olavo (que até hoje não vi). Para elas, eu não gostei por ser conservador. Admito que posso ter errado na maneira de criticar algumas coisas (a retirada dos filmes do CinePE, por exemplo, eu critiquei de forma bem dura). Certa vez um amigo muito querido me falou de uma certa iconoclastia no piloto automático que ele via em mim, e tive de concordar com ele. Diabos, todos nós temos coisas com as quais devemos lutar. Mas essa pecha de conservador está errada. Nada contra conservadores, em princípio. Conheço alguns inteligentíssimos e humanos, incluindo conservadores de esquerda. Mas não é uma característica que eu tenha, politicamente falando. Em artes, vá lá. Não tolero a transformação do cinema em videogame, por exemplo, assim como grande parte da arte contemporânea não causa impacto algum em mim. O problema é a mania de enquadrar e encaixotar, que é um dos grandes males da humanidade, e de nossa esquerda, e eu sempre procurei criticar isso. A direita também tem esse mal, é claro, mas a direita tem males muito piores, incluindo a atual tolerância com o fascismo.
– A série Hip-Hop Evolution, da Netflix, me fez retomar o entusiasmo pelo rap dos anos 1990. Desde então, ando ouvindo Wu-Tang Clan, 2Pac, Goodie Mob, TLC, Dr. Dre e outras coisas que já me impressionavam na época e hoje me contagiam totalmente. Gosto de Kanye West e, principalmente, de Kendrick Lamar, entre outros rappers atuais. Mas a fase de ouro do rap foi mesmo nos anos 1990.
– O que achei de Mad Men: muito bem interpretada, construida e dirigida até a quarta temporada. Da quinta em diante a direção sofre um certo abalo, como se não precisasse mais de uma excelência que antes era vista em todos os episódios. Depende mais de nossa familiaridade com os personagens e com isso abdica de uma construção visual mais sólida. Uma série vive dessa familiaridade, e ajuda muito que todos os atores, sem exceção, estejam à beira da perfeição em seus papeis. Mad Men é uma aula de casting e direção de atores como raramente se viu na televisão mundial. Por isso continua boa, embora o brilho frequente nas primeiras temporadas tenha se tornado mais raro – no final, por exemplo, e em alguns episódios das últimas três temporadas(aquele que termina com “Tomorrow Never Knows” é um primor).
– Voltando ao assunto musical. Teve a celeuma com Milton Nascimento, que teria dito que a MPB de hoje é uma merda. Já surgiram aqueles que atacam o Milton por ele ter essa opinião. Entendo quem defenda que é a música que faz sucesso que é ruim, e que muitas coisas boas estão sendo feitas ainda na música brasileira. Eu sei disso. A questão é que na proporção simplesmente não dá para negar a decadência da música brasileira nos últimos 40 anos. Nos anos 1980 ainda era possível ouvir rescaldo de grande música (Moraes Moreira, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Guilherme Arantes, o próprio Milton, Djavan e tantos outros ainda fizeram grandes discos nessa década), além de algumas coisas geniais que iam surgindo (Arrigo, Itamar, Patife Band, Rumo, Picassos Falsos), mas não se compara com o auge que nossa música atingiu nos anos 1970 (o auge, na verdade, pode ser situado entre 1960 e 1984, um período realmente de ouro em matéria de riqueza de estilos e ambições. Na Bahia, em Pernambuco e no Ceará, por exemplo, tinha mais coisas boas do que em todo o território nacional hoje. Sim, continuo buscando as coisas. Tenho amigos e irmão músicos, que me indicam discos interessantes. Costumo acompanhar programas de músicas novas. Há, certamente, músicos brilhantes. A quantidade e a duração dessa qualidade é que costuma perder feio para outras épocas.
– Nos cinemas, vi e adorei Ad Astra (texto meu na Folha), O Fim da Viagem, o Começo de Tudo (idem), Bacurau (comentário no Olhar Digital) e devo dizer que este ano, no circuito comercial, me parece ser o melhor da década. A ver vamos.
Os Conselhos da Noite

Não sabia bem como escrever sobre esse belo filme português e por isso demorei um bocado para começar este texto, que eu também não soube continuar, e por isso demorei mais um bocado, maior que o primeiro, para terminá-lo.
Em primeiro lugar, José Oliveira é um amigo muito querido d’além mar e apesar de me considerar um crítico capaz de separar amizade da apreciação de uma obra, fiquei com receio também por outros motivos, como irei expor aqui.
Vi Os Conselhos da Noite numa cópia ainda não terminada enviada pelo produtor, e também amigo, Daniel Pereira, embora eu tenha achado ela bem prontinha já, faltando alguns ajustes de finalização que não chegam a prejudicar o julgamento. O que quero dizer é que confio na minha percepção, mesmo sendo uma cópia de trabalho e mesmo eu tendo visto uma vez. Claro, revisões virão, quando o filme finalmente for exibido oficialmente. Mas por enquanto a impressão foi bem positiva.
Há um quê do José (um grande quê, na verdade) nesse protagonista taciturno que descobre uma cidade muito diferente da que ele deixou. Esse é um motivo óbvio para meu receio, mas prossigamos. Não se passou muito tempo, mas a cidade cresceu muito rapidamente. Essa cidade é Braga, que eu conheci em grande parte na companhia do José e de outro amigo querido, o João Palhares, a dupla programadora do cineclube Lucky Star (locação da imagem que ilustra este post), também em Braga. Mas principalmente o José, com seu carro, me levou a um monte de lugares que revi no filme, lugares que adorei conhecer e adorei rever em cena. E no filme eles ficaram lindos, evocando uma poesia que eu já suspeitava existir na cidade. Eis um outro motivo.
É a cidade do bar perto de uma velha igreja, do Convento no alto de uma montanha, onde tinha uma descida que fazia o carro subir, uma mágica que o José me mostrou. Ali tinha também um parque, onde Hiroatsu Suzuki quase se viciou na Coca Cola Zero, por minha culpa. E reconheci o belo jardim do centro, e a livraria Centésima Página, onde comprei um belo livro português do Hitchcock. E um restaurante onde fui com o José e mais três amigos. E algumas ruas, a rodoviária, o clima frio e agradável da cidade. Não lembro o nome dos lugares direito, mas não vou consultar. Lembro da impressão que tive ao visitá-los com meus amigos bracarenses, e a impressão que eu tive ao revisitá-los no filme.
Há alguma coisa de Clint Eastwood também, no protagonista, o de Honkytonk Man, principalmente. E algo do Lucky, com Harry Dean Stanton. Sei que o José amou este último filme e talvez eu tenha sido induzido a encontrar a semelhança. Mas penso que não. Penso que Lucky é de fato uma influência para Os Conselhos da Noite. Assim como a impressão de que a cidade já virou outra coisa. Não necessariamente pior, mas certamente outra. E Matar Saudade, do Fernando Lopes, me pareceu outra influência, embora eu também possa ter sido condicionado pela consciência de que é outro filme adorado pelo José (outro motivo para o receio, obviamente).
Quer dizer, o que O Atirador tinha do José (e da Marta, e do Mário), o que Longe tinha do José, de certo modo soou pouco perto do que Os Conselhos da Noite tem do José. E percebe-se a produção maior em relação aos outros (intuo tensão no set, pois José é tímido, chegado às pequenas reuniões, mas é também agregador, embora ele não tenha muita consciência disso). E por mais que eu veja tanto do meu amigo, tenho quase certeza que o filme seja forte para quem nunca viu ou leu o José, ou nunca dele ouviu falar.
A tentativa de objetivar minha relação com o filme eu deixo para depois. Por enquanto, um recado ao meu amigo José: “Vai, e dá-lhes trabalho.”
Sobre parte da recepção a Bacurau

Existe uma parcela considerável de espectadores que censuram Bacurau pela forma americanizada com que se apresenta. Nunca entendi esse tipo de reclamação. Como assim, fórmula americanizada? Porque trabalha com regras do gênero? E por que não se poderia fazer uma apropriação dessas regras, que, afinal, não foram criadas por americanos, mas por cineastas do mundo todo entre os anos 1910 e 1920?
Glauber Rocha trabalhou com essas mesmas regras, tanto em Deus e o Diabo quanto em O Dragão da Maldade, para ultrapassá-las. É o que Bacurau faz. Claro, ninguém vai comparar Bacurau aos filmes do Glauber. Esse tipo de genialidade do falecido diretor baiano é rara, não aparece todo dia, ao contrário do que pensam os críticos publicitários. Mas não é justo censurar o filme por se apropriar de certas regras. Se fosse justo, 99% dos filmes normalmente elogiados no Brasil teriam de ser igualmente punidos. Todos se enquadram em alguma regra, seja de gênero, de festivais, de uma fatia do público. É a exceção da exceção que é livre dessas amarras.
Reclamam também da violência. É sério? Numa sociedade marcada pela violência como a brasileira, com histórico de violência brutal de todos os lados, vão reclamar disso? Nesse aspecto, o filme dialoga não só com os filmes de defesa de território na linha de Hawks e Carpenter, mas também com os filmes de cangaceiro que eram feitos aos montes no cinema brasileiro. Brasileiríssimo, então, é Bacurau. O que, por si só, não o isenta de nenhum outro pecado.
Por fim, é bom que estejam questionando um filme imediatamente associado à esquerda, embora seja parcialmente financiado pela direita (a Globo é comunista só para boçais e dementes). É bem melhor que a adesão automática que costumava haver por aqui até pouco tempo. O cinema brasileiro ganha com uma recepção mais cuidadosa, ainda que parcialmente equivocada, a meu ver.
Não escrevi uma crítica sobre o filme. Preciso revê-lo antes de fazer isso. Aliás, nem sobre Aquarius, com o qual tenho cada vez mais problemas, escrevi crítica. Mas fiz um breve comentário sobre Bacurau aqui:
https://olhardigital.com.br/cinema-e-streaming/noticia/bacurau-e-triunfo-do-cinema-brasileiro/89969
Acidentes
Mostrando O Garoto (Shonen, 1969), de Nagisa Oshima, na aula de hoje, lembrei do sofrimento do pequeno menino (uns dois anos, no máximo) sentado na neve, sem gorro nem cachecol, chorando debaixo de uma nevasca enquanto o irmão mais velho interpreta.
E lembrei também do grave acidente que acontece em O Cangaceiro (pode ser visto no nono minuto do video acima): um menino se antecipa aos pais na hora de atravessar a rua e é atropelado por um cavalo, na sequência em que os cangaceiros invadem uma aldeia.
Não li tudo que existe sobre O Cangaceiro. Acho que nem 10%. Nenhuma palavra sobre isso. Já conversei com muitos que gostam do filme e ninguém sabia desse acidente. Tudo bem, precisa ser olhado com lupa para ser notado, mas está lá, no extremo direito da tela, e é assustador. Por alguma sorte o menino pode ter sobrevivido, não sei, espero que sim. Mas o pisoteio foi forte e o cavalo estava em disparada.
Fiquei impressionado desde a primeira vez que vi o filme em DVD (quando o vi no CCSP, começo dos anos 1990, não notei o acontecimento). E fico mais impressionado que ninguém tinha percebido. Talvez o filme seja pouco revisto. Talvez eu tenha sido “premiado” por ter acompanhado o desespero daquela família filmada bem de longe. O filme independe disso para ser bom ou ruim. Digamos que é uma curiosidade mórbida de um tempo em que não se tomava muitos cuidados com a saúde física e mental das pessoas em filmagens.