Arquivos Mensais: janeiro \30\America/Sao_Paulo 2022

Top 20 de 2021

Neste segundo ano de pandemia, novamente a tarefa de elaborar a lista anual torna-se complicada. Isto porque prefiro limitar o escopo de filmes elegíveis a um denominador comum, seja o de estreias no cinema, ou cinema + streaming, para contemplar a nova realidade de muitas estreias. Como no ano passado adotei a lista de primeiras exibições comerciais, sigo neste ano.

Contudo, lembrar exatamente o que passou pela primeira vez em 2021 e o que eu só pude ver nesse ano nem sempre é fácil. Lembro, por exemplo, que vi Lua Vermelha na Mostra SP de 2020, logo, este filme que estreou em 2021 na Mubi torna-se inelegível. Já A Chorona, que teve exibição comercial na Mostra SP de 2019, teve também estreia comercial no circuito brasileiro em 2021. Torna-se elegível só porque eu não o tinha visto na Mostra? Ou perde a chance de entrar neste ano porque deveria ter entrado na lista de 2019? Optei por não colocar, até porque o ótimo diretor Bustamante está representado com outro belo filme.

A regra, então, é híbrida. Filmes que tiveram primeira exibição comercial em 2021 e filmes que estrearam nos cinemas (mas não no streaming), desde que eu não tenha visto em anos anteriores. É justo? Não sei. Mas é um modo de tornar a lista uma mistura de experiência pessoal com experiência coletiva. Ainda mais porque na minha lista de melhores de 2019 não entraram exibições em mostras e festivais.

Ano que vem, com as estreias no streaming sendo mais fiscalizadas pela cinefilia e os cinemas abertos graças à vacinação, provavelmente só serão elegíveis para minha lista de melhores de 2022 os filmes que tiverem exibições comerciais no país, em circuito ou streaming, durante o ano. Por enquanto, estamos ainda na exceção.

Mesmo com uma maior permissividade, a nota de corte deste ano foi ainda mais baixa que a do ano anterior, e provavelmente a mais baixa de todas as minhas listas anuais – pensando nos vinte melhores de cada ano, mesmo em anos em que a lista publicada tinha menos filmes (o vigésimo em minha cabeça seria bem superior ao vigésimo de 2021). Isso explica por que muitos filmes ausentes da lista têm níveis de qualidade semelhantes a outros que estão na lista.

1 – Capitu e o Capítulo (2020), de Júlio Bressane

Bressane, a seu modo peculiar, lê Machado de Assis e a literatura do século 19, mas pensa o cinema e a cultura brasileira dos séculos 20 e 21 no mesmo processo.

2 – Benedetta (2021), de Paul Verhoeven

O vulgar e o erudito num abraço cinematográfico típico do diretor. Seria Benedetta uma santa? Não importa. O que importa é que ela amava e sentia o prazer da carne.

3 – Crime Culposo (Careless Crime, 2020), de Shahram Mokri

Filme sobre muitas coisas, incluindo encenação e recepção aos filmes. Camadas de representações e uma tragédia sendo espiada ao fundo. Tão inteligente quanto perturbador.

4 – From Bakersfield to Mojave (2021), de James Benning

O melhor dos filmes recentes de James Benning, com um plano antológico com trens-serpentes.

5 – Cry Macho (2021), de Clint Eastwood

Filme de mestre, em tom menor, retomando motivos e inspirações.

6 – Undine (2020), de Christian Petzold

Melhor filme de Petzold junto com Yella.

7 – Um Dia com Jerusa (2020), de Viviane Ferreira

A poesia como motor do cinema. Os rios subterrâneos de São Paulo compõem belas memórias.

8 – Diários de Otsoga (2021), de Miguel Gomes e Maureen Fazendeiro

Provavelmente o melhor filme sobre pandemia. Não só: sobre fazer cinema e socializar numa pandemia.

9 – Tremores (Temblores, 2019), de Jayro Bustamante

Um dos filmes que mais cresceram em minha memória, do mesmo diretor do ótimo La Llorona (que passou na Mostra SP em 2019). Infelizmente, tem sido subestimado.

10 – A Crônica Francesa (The French Dispatch, 2021), de Wes Anderson

A história do meio é mais fraca. Benicio Del Toro arrasa na melhor história, a primeira.

11 – Eu Estava em Casa, Mas… (Ich War Zuhause, aber, 2019), de Angela Schanelec

Nunca pensei que a Escola de Berlin teria dois filmes em alguma lista anual minha.

12 – Zeros e Uns (Zeros and Ones, 2021), de Abel Ferrara

Outro filme forte de pandemia e um dos melhores recentes do diretor.

13 – Sanctorum (2019), de Joshua Gil

Gosto muito dos momentos à Herzog, em que o diretor compõe imagens bem fortes.

14 – Zimba (2021), de Joel Pizzini

Um exemplo de documentário biográfico.

15 – Sonhos de Damasco (Damascus Dreams, 2021), de Émilie Serri

Melancolia e revolta, esperança e luta (a seu modo), um belo canto à Síria que já existiu.

16 – Drive My Car (Doraibu Mai Ka, 2021), de Ryusuke Hamaguchi

Sinceramente, não vejo tudo isso no cinema de Hamaguchi. Este deve ser o melhor filme dele, mas tem problemas, como os outros.

17 – Memória (2021), de Apichatpong Weerasethakul

Do sempre endeusado Joe, um filme belo, instigante, com uma das melhores interpretações de Tilda Swinton. Mas está longe de ser genial como pintaram.

18 – No Taxi do Jack (2021), de Susana Nobre

Como trabalhar com questões profundas de forma simples.

19 – A Mão de Deus (É Stata la Mano di Dio, 2021), de Paolo Sorrentino

Enfim um filme bom desse diretor. E da Netflix, que costuma uniformizar bons diretores (mas pelo jeito melhora os maus).

20 – First Cow (2020), de Kelly Reichardt

A impressão que sempre tive é que a boa cineasta Reichardt poderia fazer um grande filme. Talvez este seja o começo do caminho.

Encerrando 2021 – Pt. 2: Zimba, Um Dia com Jerusa e outros filmes

Zimba (2021), de Joel Pizzini

Aparentemente, um documentário convencional sobre Ziembinski. Mas com Joel Pizzini, sempre há algo que foge ao convencional. Aqui, temos um zigue-zague cronológico dos mais interessantes, em que os caminhos criativos do ator e diretor polonês radicado no Brasil são pensados por meio de imagens de arquivo e recriações dos ensaios – e uma espécie de making of – da montagem original da peça Vestido de Noiva (1943), de Nelson Rodrigues.

Um Dia com Jerusa (2020), de Viviane Ferreira

É bem curioso este filme sobre as raízes negras do bairro do Bixiga, em São Paulo, por meio de algumas personagens que nele habitam, principalmente duas: Silvia, uma jovem que faz pesquisa de mercado para uma marca de sabão em pó, e Jerusa, a entrevistada que parece sabotar a ideia de pesquisa por responder sempre de maneira indireta, cheia de rodeios (alguns bem interessantes, aliás). Claro está que a jovem é uma má profissional, e por isso pode ser um ótimo ser humano, e dessa forma aprender com as histórias de Jerusa – como era o bairro, das paixões de juventude, do Saracura, um dos inúmeros rios subterrâneos da cidade – mesmo que de início ela nada queira.

Após um começo convidativo, surge uma cena em uma banca de revistas no Anhangabaú. Essa cena tem um desenrolar bem tolo, mas o final é curioso. Após o piti da possível cliente, ela se afasta da banca enquanto o dono, um oriental, espia a mulher de forma furtiva, deixando cair os jornais ao mesmo tempo. Uma coisa de burlesco, que lembra coisas do Takeshi Kitano, talvez propositadamente. Há também algo de Júlio Bressane na maneira como a música e as lembranças invadem a narrativa, como quando a jovem que entrevista Jerusa tem uma espécie de visão da senhora em sua juventude comemorando uma vitória da escola de samba Vai Vai, uma das instituições do Bixiga. Um Bressane apaziguado, decerto, palatável para uma plateia mais ampla, mas não é difícil pensar nessa filiação que pode até ser acidental, mas não menos bela por isso.

Obrigado, Carla Oliveira, por me lembrar de ver este belo filme.

Selvagem (2021), de Diego da Costa

Ficção a partir das ocupações das escolas públicas pelos estudantes secundaristas em 2015 (caramba, parece que foi há dois ou três anos!). Selvagem tem uma série de problemas de mise en scène e, principalmente, de montagem, mas algumas ideias de realização nos entregam coisas como uma troca de olhares entre dois adolescentes apaixonados, que nos tocam também pela delicadeza de olhar da direção. Num filme de adolescentes, os adultos estragam com suas frases feitas. Os pais destoam totalmente, incluindo o típico fascista de classe média. Os professores parecem existir apenas como acessórios. Atuações amadoras de adolescentes são bem mais digeríveis do que personagens adultos mal desenvolvidos. E o filme encontra alguma beleza com os adolescentes.

Má Sorte no Amor ou Pornô Casual (2021), de Radu Jude

O mais interessante neste novo longa de Radu Jude é acompanhar as deambulações da protagonista por Bucareste em tempos de pandemia. Depois de 20 minutos, cansa um pouco. Mas o filme muda totalmente a narrativa quase aos 40 minutos, tornando-se temporariamente algo muito solto que Radu procura amarrar de maneira postiça, ou seja, uma narrativa livre, ou uma não-narrativa. Colagem frágil de motivos, piadas, provocações. No terceiro movimento, o mais “cinema romeno do século 21”, vemos uma discussão entre os professores, diretores e pais de alunos de uma escola sobre o que fazer com a professora que teve o video sexual com seu marido vazado na internet (as imagens explícitas que vemos no início e vamos rever parcialmente durante o debate). O filme se encerra com um truque tolo: três finais possíveis.

Se é sobre a história da Romênia de 1989 até hoje, envolto em uma parábola sobre sexo, a coisa obviamente desandou. Se liga a queda de Ceausescu à pandemia, penso ser até mais pueril. E se é só uma piada, como o próprio filme insiste tanto em sugerir, é uma piada sem graça alguma. O que ele pretendia ou não, importa pouco ou nada. A questão é que o filme parece girar em falso quase o tempo todo. E os trechos de sexo explícito, que num filme de Júlio Bressane funcionam muito bem, aqui parecem apenas elementos para chocar ou pregar artificialmente uma certa libertinagem contra os conservadores asquerosos que debatem no final.

A Última Noite no Soho (Last Night in Soho, 2021), de Edgar Wright

Em Algum Lugar do Passado com Meia Noite em Paris, pegando o mais superficial dos dois e desenvolvendo de modo pouco inventivo (sonhos, espelhos, bullying no curso de moda). É uma espécie de sonho invertido da swinging London dos anos 1960, uma descida ao inferno do Soho para mostrar o que havia por trás da busca de jovens moças pelo estrelato. O horror vai contaminar tudo na segunda metade. Não é um bom filme, mas Edgar Wright sofre mais com isso porque não caiu nas graças do autorismo, alvo dos tomates que deveriam ir em maior número para filmes de autores consagrados (Annette e The Card Counter, por exemplo).

Imperdoável (The Unforgivable, 2021), de Nora Fingscheidt

O que System Crasher, o filme anterior da diretora alemã, tem de superestimado, este seu novo trabalho, rodado nos EUA, tem de subestimado. O engraçado é que, na real, não acho nenhum deles grande coisa. Ambos têm certo interesse na premissa e um desenvolvimento irregular. Este é mais redondinho na comunicabilidade, como um típico enlatado da Netflix, ajeitado com cuidado para um grande público, com uma série de não ditos que qualquer espectador saberá completar. É o que faz com que seja fácil vê-lo até o fim, mas é também uma limitação.

Meu Nome é Bagdá (2020), de Caru Alvez de Souza

Confesso que esse modo de filmar já me cansou há uns dez anos. Essa ideia da câmera viva me parece uma bobagem que no cinema brasileiro parece longe de acabar, infelizmente. Resta-me torcer para que alcance o máximo de suas possibilidades. Em Meu Nome é Bagdá, há algo bem interessante quando o naturalismo ultrapassa suas limitações e capta algumas conversas como se a câmera estivesse escondida (o sonho de todo naturalismo, mas raramente alcançado). A interação entre os skatistas e entre Bagdá, jovem que não adere à ordem binária da sociedade, e os adultos ao seu redor, por exemplo, alcança momentos bem bonitos. Gosto bastante dos momentos breves de videoclipe, com os jovens andando de skate em câmera lenta e um jazz moderno de fundo, belas fugas do naturalismo (algumas poderiam ser mais longas, aliás) e é bacana que o filme termine com um desses momentos. O movimento anti-patriarcado é sempre bem-vindo, e o confronto no final com o rapaz abusador da turma é forte e bem levado, mas cenas como a da batida policial são tolas – tratar policial paulistano como um ignorante preconceituoso, grosseiro e violento é a coisa mais óbvia de se fazer para nos deixar revoltados. Não era necessário isso para sentirmos empatia por Bagdá. Há outro momento canhestro com os jogadores de futebol, mas a diretora o salva com a fantasia.

Por esses motivos e pelas sequências de festa (que parecem um genérico de sequências semelhantes em filmes jovens dos últimos anos) não posso dizer que o filme é de todo bem resolvido. Aliás, essa estética geralmente me soa muito calculada para parecer que não é calculada. Isso acontece com alguma frequência no cinema contemporâneo. Tendo a preferir o cálculo assumido do rigor de estilo como modo de observação e contemplação das coisas. Obviamente é possível fazer ótimos filmes com essa câmera solta, mas tem sido bastante raro.

Curso: O Sonho de Fellini

Diretor que se tornou adjetivo, Federico Fellini esteve na linha de frente do neorrealismo italiano, antes de se tornar um dos autores mais conhecidos da história do cinema.

O presente curso procura entender o percurso desse visionário artista por meio de um entendimento de sua própria evolução dentro do cinema italiano, naquela época em que os grandes diretores surgiam aos montes no país.

Passaremos por todos os filmes que Fellini dirigiu, e nos deteremos nos mais importantes, analisando-os à luz de autores e historiadores que investigaram sua obra.

1 – Com as tintas do realismo.

– Dos primeiros passos no roteiro à estreia na direção.

– A consolidação com Os Boas Vidas e A Estrada.

– Despedindo-se do neorrealismo com Noites de Cabíria.

2 – O reconhecimento de uma autoria

– Nasce um outro Fellini: A Doce Vida

– Nasce o Fellini dos sonhos: Oito e Meio

– Desbravando a crise criativa: Julieta dos Espíritos.

3 – Fellini, o iconoclasta

– De Satyricon a Roma, os filmes irmãos de uma cidade imaginária.

– O autor que vira adjetivo: Amarcord e Casanova.

– Contrapontos emotivos: Os Palhaços, Ensaio de Orquestra.

4 – A maturidade de um louco.

– O controverso Cidade das Mulheres.

– A última obra-prima: E La Nave Va

– Vendo o passado com ternura: Ginger e Fred, Entrevista.


O QUE: curso O SONHO DE FELLINI

QUANDO: de 27/01 a 17/02, quintas-feiras, das 19h às 22h – Carga horária total: 4 encontros – 12 horas

QUANTO: R$160,00 (1 parcela) curso (ou R$80,00 por aula)

ONDE: plataforma online – ZOOM

COMO (telefone corrigido):

inscrições pelo (24) 992 566 532 ou e-mail escolaculturalpetropolis@gmail.com