Os 20 melhores filmes de 2024

TOP 20 2024

Como sempre, em algum momento de janeiro publico, neste blog (ou na Leitura Fílmica, como nos dois anos anteriores), a minha lista pessoal dos 20 melhores filmes do ano que acabou.

A lista continua mais para baixo. Antes, algumas palavrinhas (quem não tiver paciência, pode descer a página que eu não me importo).

Por que em janeiro? Porque há filmes estreando na segunda metade de dezembro que merecem ser considerados. Em 2024, o segundo melhor da lista estreou no streaming, sem passar pelos cinemas brasileiros, no dia 20 de dezembro, quase no fechar das cortinas do ano.

Por que 20? Acho que 10 ficaria pouco representativo e 50 ficaria com filmes demais. Nunca há 50 filmes de alto nível estreando comercialmente no Brasil (em país algum, eu diria).

Por que só estreias em cinema ou streaming? Porque nunca me interessei em fazer listas que englobam todos os filmes vistos num ano. Creio que seja necessário ter algo de que falávamos na Contracampo, um denominador comum, um grupo comum de filmes elegíveis, que todos os cinéfilos pudessem ver num determinado período de tempo (publicar a lista na segunda metade de janeiro tem essa vantagem também).

Observo este ano que o número de lançamentos diretos no streaming aumentou, o que deve ser uma tendência. Se vai matar ou prejudicar mais ainda a experiência de ver filmes em sala eu não sei. Diria que depende dos distribuidores (aí mora um perigo), e dos frequentadores de cinema ficarem muito mais educados (aí mora outro perigo).

No ano passado, tinha sete filmes brasileiros entre os vinte mais. Neste ano são quatro. Não piorou. O ano passado é que foi bom demais para além da curva.

Sem mais, vamos à lista:

01. O Sequestro do Papa (Rapito, 2023), de Marco Bellocchio

A maturidade fez bem a Marco Bellocchio. Seu cinema no século 21, desde A Hora da Religião, encontra um classicismo que jamais apaga sua modernidade. O cineasta passou a dominar como poucos os procedimentos específicos de sua arte – mise en scêne, decupagem e montagem – para nos surpreender com cortes inesperados, contracampos plenos de poesia e uma divisão de planos que beira a perfeição. Assim foi com Bom Dia Noite, em que uma canção do Pink Floyd entra como um baque no drama de uma brigadista vermelha. Assim foi com Vincere, no qual um contracampo de médicos ou a entrega de uma carta podem nos provocar arrepios na espinha pela excelência da forma. Assim é em O Sequestro do Papa, em que cada alternância de plano, de escala ou motivo formal nos apresenta outro mundo cheio de possibilidades. O melodrama jamais é negado. Pelo contrário, é assumido como condição de sempre do melhor cinema italiano, de Rossellini a Visconti, de Fellini a Zurlini, de Comencini a Moretti. Em cenas tocantes como a do rapto em si, logo no início (“ho paura”); a do reencontro com a mãe, em que o menino deixa de se comportar como queriam os padres e explode de vontade de voltar para a sua família; ou o momento onírico em que ele tira os pregos e liberta Cristo de sua cruz, Bellocchio mostra que a história, a família e a igreja católica formam os pilares de formação da Itália. E nao teme as sombras, nem as elipses. Por isso o filme contrasta com o grosso do cinema contemporâneo, normalmente mais didático na construção narrativa, e todo iluminado, por vezes até com visual de TV led exposta em supermercado. Bellocchio insiste em fazer cinema: claro-escuro, sugestões e insinuações, tempo e espaço trabalhados com primor. O mostrar e o esconder. O olhar do espectador que se adapte.

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2024/07/o-sequestro-do-papa-e-mais-uma-obra-prima-de-marco-bellocchio.shtml

02. Jurado Nº2 (Juror #2, 2024), de Clint Eastwood

Filme que começa com olhos vendados, da estátua da justiça e da esposa que é apresentada ao quarto do futuro bebê, e termina com olhos bem abertos – o peso da culpa. Que passa pela ideia de julgamento como confirmação de nossos preconceitos. Que brinca com a verossimilhança para fazer cinema. Que mostra personagens em encruzilhadas morais. Eastwood disse em várias ocasiões que amava Rashomon. Desta vez, não precisou dizer. Filmou. Já havia filmado antes, é verdade. Com elementos de 12 Angry Men, e de Scarlet Street, a culpa que persegue e atormenta, é um filme preocupado com a profundidade de campo (me mostrem um único telefilme com essa preocupação). É o momento em que Eastwood mais se aproximou de Fritz Lang.

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2024/12/clint-eastwood-retorna-e-questiona-a-verdade-no-primoroso-jurado-no-2.shtml

03. O Quarto ao Lado (The Room Next Door, 2024), de Pedro Almodovar

O melhor Almodóvar, o que não é pouco. Está para sua carreira como A Casa do Lago para a de Alejandro Agresti. Mas O Quarto ao Lado é um filme realista, ao contrário do filme de Agresti. Não vemos o maneirismo típico de filmes como Fale com Ela ou A Pele que Habito. O cineasta espanhol trabalha uma contenção que é quase inédita em sua carreira, ampliando e aperfeiçoando as possibilidades melodramáticas de seu Tudo Sobre Minha Mãe. Um melodrama contido não é obrigatoriamente menos intenso.

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2024/10/filme-o-quarto-ao-lado-traz-pedro-almodovar-em-sua-melhor-forma.shtml

04. Armadilha (Trap, 2024), de M. Night Shyamalan

Não lembro de uma atuação tão boa de Josh Hartnett em seus filmes anteriores. É como se esse papel justificasse toda sua carreira. A duplicidade do personagem está desde o início: o bobalhão que agrada a filha e o calculista que observa. Como Brian De Palma, Shyamalan é brilhante na manipulação do tempo.

05. Tudo que Imaginamos como Luz (Prabhayay Ninachathellam, 2024), de Payal Kapadia

Às vezes podemos negar o Public Enemy e acreditar no hype. A maneira de trabalhar com a câmera não é muito de minha preferência, mas é inegável que Payal Kapadia tem olhar e pensa essa câmera muito bem. É um exemplo de como filmar com a câmera na mão hoje em dia. Seu filme tem alguns planos inspiradíssimos, sobretudo no início, com ela no trem (aliás, quantas cenas em  transportes públicos vemos neste filme de trabalhadores), e no final, com aquela tenda iluminada no centro do quadro. Filme sempre agradável de ver, que até nos tranquiliza com sua melancolia.

06. A Filha do Palhaço (2022), de Pedro Diógenes

O melhor filme brasileiro no circuito comercial de 2024 foi exibido na Mostra de Gostoso de 2022, em novembro, quando respirávamos um ar de alívio. Diógenes teve a pachorra de fazer um melodrama em tempos de buscar o real, de negação ou mesmo fuga de cenas mais emotivas. Fez um filme belíssimo, cheio de cenas inspiradas, rodadas num tom muito ajustado para não cair na pieguice.

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2024/05/a-filha-do-palhaco-e-melodrama-contido-que-acerta-no-tom-das-emocoes.shtml

07. Ferrari (2023), de Michael Mann

Na época de sua estreia, o diminuíram de todos os jeitos. Procuraram até o diminuir como um melodrama, como se melodrama fosse algo menor. Outros reclamaram do filme ser todo em inglês, como se fosse possível viabilizá-lo em italiano. Mann aqui provou um pouco da recepção estreita que os filmes de Clint Eastwood enfrentam desde Menina de Ouro. Uma pena, pois é seu melhor filme desde Miami Vice.

08. Mal Viver (2023), de João Canijo

Faz uma dupla com Viver Mal, que é claramente inferior. O hotel como personagem de dramas familiares, com um trabalho de conversas paralelas que, a meu ver, supera o de Robert Altman em filmes como California Split e Nashville.

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2024/01/diptico-mal-viver-e-viver-mal-tem-maes-crueis-e-filmes-brilhantes.shtml

09. O Dia que Te Conheci (2024), de André Novais Oliveira

Filme belíssimo. André Novais deu o salto que ensaiava desde os curtas. O cartaz sugere uma comédia romântica nos moldes das de Hollywood. Não consigo ver isso no filme. Até é uma comédia romântica, mas tem uma ambição artística muito maior que a média desse tipo de filme. O plano em que Renato está na passarela com o outro moço, ambos correndo para pegar o ônibus substituto, é excelente, com um zoom muito bem usado. Também é ótima a cena da conversa no carro, quando Grace Passô chora e ri. São momentos que capturam algo muito forte, que não é fácil capturar. Uma verdade que vai muito além da verdade geralmente buscada pelos cineastas contemporâneos.

10. E a Festa Continua (Et la Fête Continue!, 2023), de Robert Guédiguian

Marcel Pagnol, nascido em Aubagne, filmou bastante na vizinha Marseille, mas acho que nenhum cineasta usou tanto a cidade como um personagem quanto Guédiguian. Foram diversos filmes vividos, sonhados em Marseille, e este Et la Fête Continue! é mais um deles. Um filme bem francês, com todos os personagens se entregando ao amor, pequenos burgueses de esquerda, e bem de Marseille, com o mar, a paisagem e também os problemas, a política, as reivindicações. A simplicidade e a poesia onde menos esperamos. E aos 20 minutos, o milagre já acontece: a cena em que Ariane Ascaride encontra Jean-Pierre Darroussin pela primeira vez, no coral regido pela nora dela, que por acaso é filha dele. Os olhares de interesse mútuo se misturam com o orgulho pelo talento da moça, num primor de olhares e sensações. Gérard Meylan, que normalmente completa o triângulo de atores mais frequentes em seu cinema, interpreta o irmão de Ascaride. No final, outro pequeno milagre: um belo momento com a música de Le Mépris, de Godard. Guédiguian tem filmografia irregular. Este certamente é um de seus maiores filmes.

11. Trenque Lauquen (2022), de Laura Citarella

Desde que descobri O Manuscrito de Saragoza, de Wojtech Has, adquiri uma certa fascinação por histórias que contém histórias que contém outras histórias, numa construção em abismo que embaralha narrativas e pontos de vista. Trenque Lauquen é mais um espécime desse tipo de engenho e mais um exemplo de invenção da El Pampero Cine. Em comparação com o filme mais ambicioso da produtora, La Flor, de Mariano Llinás, este não é tão constituído de altos (muitos) e baixos (poucos), situando-se mais próximo de uma única linha qualitativa, com picos de inspiração surgindo ao longo das mais de quatro horas. Laura Paredes, a ausente muito presente, concentra a maior parte desses picos em sua atuação. Curiosamente, é quando ela está em cena, nos flashbacks, que o filme se torna mais comercial, quase uma comédia romântica, embora o desejo de narrar de maneira criativa nunca se arrefeça. Laura quer desaparecer e, para tanto, precisa desaparecer também do filme. Mas é todo um filme de desaparecimentos.

12. Até que a Música Pare (2023), de Cristiane Oliveira

Flagra um casal de idosos tentando superar a perda do filho e as maracutaias do homem, ex-proprietário de um supermercado. Eles vivem na serra gaúcha, numa comunidade que ainda fala o dialeto de imigrantes do norte da Itália, uma língua que nos remete à obra-prima A Árvore dos Tamancos (1978), de Ermanno Olmi. Num dos momentos mais belos do filme, a filha volta da Itália com seu marido italiano, e ele ensina à sogra sobre o budismo, tentando entender o dialeto dela enquanto sua esposa explica as diferenças entre essa língua e o italiano oficial. O momento me lembrou o cinema de outro Oliveira, o português Manoel, principalmente dos filmes Viagem ao Princípio do Mundo (1997) e Um Filme Falado (2003).

13. Vidas Passadas (Past Lives, 2023), de Celine Song

Surpreendente e melancólica comédia romântica que desvia de vários clichês do gênero (reviravoltas sentimentais, pessoas aplaudindo declarações de amor em público, manifestações do acaso). Muito inteligente também na observação sobre as diferenças culturais, o que inclui as expectativas amorosas, entre Coréia do Sul e EUA. O final é tocante.

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2024/01/vidas-passadas-e-boa-estreia-de-celine-song-sobre-misterios-do-amor.shtml

14. Estranho Caminho (2023), de Guto Parente

Mira em Robert Bresson e acerta em Kenji Mizoguchi. Ou Bresson é só um despiste? Parece que Guto Parente procura brincar com a multireferencialidade do cinema contemporâneo. Na relação pai e filho, falas e interpretações são um triunfo.

15. Music (2023), de Angela Schanelec

Sucessão de acontecimentos na vida de um personagem, com elipses ousadas e uma estrutura de oposições bem interessante. Filme mais arriscado de Schanelec. Dizem que é uma releitura de tragédia grega. Alguns sinais podem ser pescados nesse sentido, mas imagino que só depois que a sinopse-bula nos informou. De todo modo, o filme resiste sem a informação.

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2024/04/music-e-um-filme-que-tenta-driblar-o-trivial-com-direcao-notavel.shtml

16. Crônica de uma Relação Passageira (Chronique d’une Liaison Passagère, 2022), de Emmanuel Mouret

No tom singelo e preciso de Mouret, com um ator sublime em seu lugar, Vincent Macaigne. O mais interessante é que Mouret sempre consegue algumas variações em seus esquemas dramáticos.

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2023/11/cronica-de-uma-relacao-passageira-faz-de-curtir-a-tristeza-um-triunfo.shtml

17. Anatomia de uma Queda (Anatomie d’une Chute, 2023), de Justine Triet

São vários os temas do filme: suicídio ou assassinato, uma alemã na França, casal franco-alemão que se comunica em inglês, roubo de ideias,  bloqueio criativo, estupidez da promotoria (uma constante em filmes de tribunal), relação com Preminger. Ao mesmo tempo, o filme é sobre nada. Ou sobre a imposição do nada. A vitória do imaginário sobre o real.

18. A Besta (La Bête, 2023), de Bertrand Bonello

Começa como um L’Année Dernière à Marienbad diluído e vai se tornando, ou é invadido eventualmente, por um Under the Skin mais sóbrio. Bonello destrincha a obra-prima de Resnais e a enfraquece. Passado e futuro, no filme, se igualam à arquitetura de Paris, entre o clássico e o moderno. Depois, uma mudança de registro remete aos filmes mais doidos de David Lynch, os de estrutura bipartida. As repetições e as duplicações criam um efeito de entorpecimento, como se o filme nos convidasse a passar pelo mesmo que a protagonista, Léa Seydoux, enfrenta por sua própria vontade. Quando fica Lynchiano, La Bête tem algo de Radu Jude também, nos vídeos do trintão ressentido porque as garotas não lhe dão bola. E algo do Annette de Leos Carax, de Videodrome, do Cronemberg. Mas que bagunça, seu Bonello! A promiscuidade referencial me parece proposital, como parte da estratégia de mexer com memórias da cinefilia. As referências a Lynch no final são as mais explícitas. Mas o filme mexe também com a ideia de reprodução das imagens, e de transmissão, das definições do digital e de suas fraquezas. Bonello soube trabalhar para diminuir o caos de sua própria criação, nesta adaptação livre de Henry James. É um diretor de altos não muito altos e baixos não muito baixos, sempre a uma distância pequena do razoável. Aqui, está em seu melhor momento.

19. Here (2023), de Bas Devos

Não confundir com o recente filme de Robert Zemeckis. Este é o quarto e melhor longa do cineasta belga Bas Devos, um belo ensaio sobre o tempo e o espaço no cinema.

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2024/05/here-e-belo-estudo-das-relacoes-humanas-num-tempo-de-vagarosidade.shtml

20. Furiosa (Furiosa: A Mad Max Saga, 2024), de George Miller

A continuação de uma das sagas mais interessantes do cinema dos últimos 50 anos. O mais difícil era repetir a qualidade e a exuberância de Fury Road. Miller não conseguiu. Mas se percebe a diferença deste para quase todos os outros filmes de ação contemporâneos. Quando há cineasta por trás, fica mais fácil o CGI fazer sentido. Além disso, Miller é ainda um ótimo diretor para cenas de ação.


Os 20 melhores de 2023:

https://leiturafilmica.com.br/os-20-melhores-filmes-de-2023-por-sergio-alpendre

Os 20 melhores de 2022:

https://leiturafilmica.com.br/melhores-films-de-2022/