LEFFEST 2017

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God’s Little Acre (1958)

Está aberta a cobertura do 11º LEFFEST – Lisbon & Sintra Film Festival de 2017, festival dirigido por Paulo Branco que promove um banquete de cinema em nove salas de cinema espalhadas por Lisboa, Queluz e Sintra. É minha primeira cobertura internacional, não por falta de oportunidade.

Quando surgiu a Revista Paisà, no final de 2005, muitos amigos me diziam que eu poderia cobrir o Festival de Cannes, que seria fácil porque eu editava uma revista impressa de cinema, coisa e tal. Pensei: “mas por que eu gostaria de cobrir um festival internacional? Nunca fui à Europa. Se for, não vou querer passar dias inteiros vendo filmes”. A ideia de estar numa cidade que não conheço e não ter a chance de conhecê-la melhor, caminhando por suas ruas e observando sua rotina, simplesmente me é terrível. Ou seja, nunca cobrirei o Festival de Cannes, a não ser que seja bem pago para isso. Simplesmente, não me apetece todo aquele circo.

Ainda penso da mesma maneira. Mas agora moro em Lisboa. Não é mais um destino distante e efêmero. E de certo modo, o Leffest, festival dirigido por Paulo Branco que acontece em Lisboa e Sintra, é um festival muito próximo ao que eu gostaria de fazer: filmes de todas as épocas, sem predomínio do contemporâneo. Tem retrospectivas bem amplas de Isabelle Huppert, Peter Brook, Alain Tanner, Abel Ferrara e João Mário Grilo, entre outras oportunidades de vermos um pouco do melhor que o cinema nos deu em seus 122 anos de existência. Mais: os filmes atuais são selecionados. Nada de 200 ou 300 títulos. No Leffest 2017 tem cerca de trinta longas contemporâneos, sem contar os filmes mais recentes dos homenageados, ou dos diretores que mereceram retrospectivas e ainda estão na ativa, caso de Ferrara e Grilo, por exemplo. É algo que a Mostra SP poderia ser, caso assumisse de vez uma seleção mais criteriosa no lugar da inflação de filmes recentes que não dizem nada. Decidi então cobrir esta edição do festival. Farei alguns posts aqui e um balanço mais completo na Interlúdio daqui a alguns dias.

Meu Leffest começou no sábado, com o segundo longa de João Mário Grilo, de quem eu só havia visto O Fim do Mundo, com o qual não posso dizer que me empolguei (vi há muito tempo, na Mostra SP de 1993 ou 1994). Mas A Estrangeira (1982) é ótimo, com um Fernando Rey inspirado como sempre e uma liberdade de trilhar caminhos poéticos sem amaciar para o público. Melhor ainda é O Processo do Rei (1989), seu terceiro longa, visto neste domingo à tarde para uma plateia infelizmente pequena. Uma senhora perguntou ao diretor, no debate que se seguiu ao filme, sobre o desinteresse das pessoas com o cinema português. Realmente é impressionante que um filme desses, com uma cópia maravilhosa em película, não tenha atraído mais pessoas. É de se lamentar. A cópia, aliás, não é nova, pelo que entendi. Trata-se de uma cópia sem legenda alguma (o filme é falado em português e francês), e por isso raramente foi usada, preservando-se praticamente sem uso. Grilo mencionou que não queria legendas porque pensou nos diálogos com as musicalidades específicas de cada idioma. Curiosamente, durante a projeção me lembrei da sessão de O Sapato de Cetim na Mostra SP de 2005, quando desisti de acompanhar as legendas eletrônicas em português ao perceber que o francês musicado de Paul Claudel era rico o suficiente para fazer da sessão um evento histórico, como de fato foi, independentemente do que eu poderia entender daquelas falas (meu francês nunca foi grande coisa, mas ouço e leio razoavelmente bem).

Vi ainda, neste domingo, o último Garrel, O Amante de um Dia, com comentários de Jean Douchet, e um clássico do Anthony Mann que há muito queria rever: God’s Little Acre (1958), que no Brasil chamou-se O Pequeno Rincão de Deus, e em Portugal, Tentação. Prefiro o título brasileiro. Impressionante o trabalho de Robert Ryan nesse filme, e mais impressionante ainda a maneira como Mann evolui de uma comédia matuta com alta dose de erotismo para um melodrama de muita classe.

Quatro filmes até agora, e o mais fraco foi um bom filme de Philippe Garrel. Dificilmente um festival poderia ter começado de maneira mais feliz.

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