Notas sobre filmes brasileiros recentes

boasmaneiras

– Três filmes brasileiros vistos em uma semana já longínqua de outubro me fizeram ter alguma esperança pela nova geração de realizadores. Primeiro foi Animal Cordial, de Gabriela Amaral Almeida, que ousa fazer um filme de gênero e chega até a incorporar alguns tiques contemporâneos, sem soar ridículo em momento algum. Pelo contrário: sua direção mostra um controle de ritmo que poucos atualmente têm. Conta ainda com dois grandes atores na condução: Murilo Benício e Luciana Paes. Depois vi Arábia, de Affonso Uchoa e João Dumans, que também lida com tiques contemporâneos, no caso, os do novíssimo cinema brasileiro, e os resolve de uma maneira a meu ver inédita. Esse cinema filhote do neorrealismo, que evita o melodrama muitas vezes por preconceito, chega a seu estágio máximo com esse filme pequeno, com protagonista que muda depois de uns quinze minutos e um dos flashbacks mais bem inseridos que vi no cinema brasileiro recente. Por fim, As Boas Maneiras (foto), de Juliana Rojas e Marco Dutra, é um desses raros filmes que não têm medo do ridículo, chegando à fábula via comentário social e resolvendo uma série de questões por um viés incrivelmente poético. A operação de dividir um filme em dois, aliás, é muito bem sacada. Sempre bom quando somos levados a um caminho e abandonados, tendo que retomar o caminho certo por conta própria. Isso é acreditar na sensibilidade do espectador. Amigos reclamam da segunda parte, mas acho que é nela que o filme realmente se afirma. Mas entendo: os que não comprarem essa segunda parte terão imensas dificuldades de curtir o filme no todo. Noves fora, Gabriela Amaral Almeida, Affonso Uchoa, Juliana Rojas e Marco Dutra realizaram, no sombrio 2017, seus melhores filmes.

Gabriel e a Montanha me interessa por um fator que me parece colateral: a vingança da natureza. Nos créditos, Fellipe Barbosa, o diretor, diz ter feito o filme em homenagem ao amigo, Gabriel, que desapareceu numa montanha durante sua viagem pela África. Acontece que, intencionalmente ou não, e não importa, Gabriel é retratado como um mimado à beira do insuportável, de modo que a montanha se vinga de seus caprichos, engolindo-o, mostrando quem manda de fato ali.  Além disso, Barbosa pretendeu retomar o diálogo didático que tanto me desagradou em Casa Grande (no caso, sobre as cotas), desta vez sobre uma questão mais ampla, e um tanto melhor colocada no filme, em parte porque conta com uma ótima atriz que é a Caroline Abbas. Ainda assim, Gabriel e a Montanha não passa de interessante, de modo que fico pensando se os franceses que o adoraram têm visto filmes munidos de alguma substância alucinógena.

– Percebi que alguns se incomodaram com meu texto sobre Bingo. O que posso dizer? Não faço textos para agradar a todos. Aliás, desconfio bastante quando algum texto alcança isso. Uma questão, porém, foi levantada, e acho que vale algum esclarecimento. Se a falta dos nomes e marcas reais não incomoda as pessoas, bom para elas. A mim, incomoda, ao menos nesse filme – e não incomoda, ou não incomoda tanto, em outros filmes; ou seja, é pessoal e vale para esse único filme. Mas hoje as pessoas se ofendem com pouco e fazem leituras apressadas. A combinação dessas duas coisas é terrível.

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