O Pianista

Bem menos pessoal do que se poderia esperar de alguém que viveu o holocausto (na infância e começo da adolescência) e perdeu parentes, entre eles sua mãe, O Pianista tem, ainda assim, um domínio narrativo de que Polanski é um dos poucos detentores no cinema contemporâneo. Alguns clichês não são evitados, talvez por uma consciência de que o tema já era manjado demais e que não daria para evitar certas facilidades. Mas é melhor fazer o feijão com arroz bem feito do que tentar inventar e cair na afetação ou no sentimentalismo, como certos filmes que tratam o mesmo tema.

Algumas cenas que vemos no filme estão na autobiografia do diretor, mas já eram de conhecimento dos historiadores antes disso. Outras, e por vezes as mesmas, foram testemunhadas por Wladyslaw Szpilman, personagem real, aqui interpretado por Adrien Brody. Claro que o testemunho da ida para o gueto e da construção do muro, por exemplo, é importante, mas o olhar infantil tende a deturpar as coisas, de modo que não é o bastante. Se o filme é bom, e em alguns momentos, muito bom, não é pela experiência de Polanski, mas por seus dons de narrador e por saber muito bem o tom a adotar na adaptação dos relatos de Szpilman. Como bem escreveu Julia Ain-Krupa, o filme deu a Polanski a oportunidade de “compartilhar sua experiência sem contar sua própria história”.

Se não conseguimos conter um certo desespero pela milésima representação do que aconteceu, é por lembrar do horror e da crueldade em nível máximo, não da banalidade, mas da vitória do mal. Ainda assim, a agilidade com que as coisas acontecem, sobretudo na primeira hora, e algumas cenas que reforçam a crueldade sem tamanho dos nazis e mesmo de alguns judeus (os judeus americanos, diz o pai do protagonista, poderiam ter forçado os EUA a entrar em guerra contra a Alemanha muito antes), talvez sejam desnecessárias num filme de 2002, depois de tantas outras representações do tema. Por outro lado, quando lembramos que a corja neonazista se multiplica pelo mundo, incluindo o nosso país, talvez seja necessário reiterar o horror, embora os idiotas digam que nada disso aconteceu.

O filme cresce, de fato, quando o talento do protagonista começa a salvá-lo de uma morte certa. A cena em que ele toca Chopin para um oficial nazista é belíssima e tocante, apesar de conscientemente apelativa. Nela, um facho de luz incide sobre o piano. É o sagrado da arte, a iluminação de e por uma obra. A arte unindo dois lados opostos em uma guerra. Um oficial nazi de alta patente e de saco cheio da guerra, tentando sobreviver do mesmo jeito que Szpilman, ainda que em condições mais favoráveis (“os russos estão do outro lado do rio, você só precisa aguentar mais algumas semanas”, diz para o pianista desesperado). Antes disso há um momento igualmente sublime, quando o protagonista está escondido em um apartamento fora do gueto, mas vê a resistência de seus pares contra os nazis, um muro entre eles, um pequeno pedaço da guerra que o testemunho desse sobrevivente filtrou. Uma última palavra para Adrien Brody. Sua interpretação aqui é difícil de superar.