Adolescência

Adolescence (2025), de Philip Barantini

Logo depois de ver Morando com o Crush, história de amor adolescente feita no Brasil e dirigida por Hsu Chien, encarei Adolescence, minissérie inglesa que trilha um caminho em tudo oposto ao do filme brasileiro. Resolvi encarar porque nas redes sociais as pessoas ficam quase monotemáticas, então achei melhor lidar logo com o bicho para ver se é tudo o que estão falando ou é mais uma miragem, como tantas vistas na Netflix nos últimos anos.

Esta é a minissérie da vez para quem engole tudo que a Netflix promove como obrigatório. Tinha uma grande suspeita de que era mais um delírio coletivo da cinefilia, o primeiro de 2025. Não poderia dizer sem conferir de fato, certo? Não se trata de ver para não gostar, como costumam dizer os que se satisfazem com poucas imagens. Inevitavelmente, lemos coisas que nos fazem formar uma impressão do que deve ser a partir de algumas informações: Inglaterra, plano-sequência, crime hediondo, adolescentes, bullying, incel.

Pois Adolescence é exatamente o que eu esperava. Uma trama que prende nossa atenção pelos mesmos artifícios de todas as minisséries, boas ou ruins, um artifício técnico predominante, que só às vezes funciona bem com a trama, uma dificuldade de estabelecer uma conexão mais forte com os personagens justamente pela limitação do artifício.

Por causa da ideia de filmar cada episódio em um único plano, em tempo real, um personagem é sempre encarregado de levar a câmera para um outro núcleo da ação, seja o policial, seja o dos pais, dos amigos de colégio, eventualmente para algum outro lado. Essa necessidade revela muito rapidamente sua fraqueza, a mesma que dominava Birdman, por sinal. A subordinação da trama à técnica, sem que essa técnica leve ou permita a exacerbação de um estilo. O resultado disso é que no segundo episódio já comecei a implorar por um corte qualquer, uma elipse temporal bem usada, uma mudança de cena pensada na decupagem, qualquer coisa que rompesse com essa ideia de plano único e tempo real.

O acusado é Jamie, tem apenas 13 anos. Está no começo da adolescência, numa idade em que ainda é tratado como criança pelos pais, professores e outros adultos, mas já começa a se comportar como um jovem cheio de desejos. Por ser muito novo, o crime pelo qual é acusado choca ainda mais. Como poderia cometê-lo? De que maneira o cometeu? As respostas são logo dadas por um vídeo de segurança que a polícia requisitou. A questão do filme passa a ser então de que modo nascem os incels, grosso modo, homens heterossexuais agressivos e recalcados, geralmente misóginos e com pendor para a violência. Pode um menino de 13 anos já ser um incel?

A opção pelo plano único e pelo tempo real foi usada com brilhantismo por Hitchcock em Rope (1948), com a necessidade de falsear os cortes, pois as bobinas duravam até 10 minutos. Quem se impressiona com o que Barantini faz aqui com uma câmera digital, sem a obrigação de falsear nada, devia dar uma olhada no filme de 1948. Em Hitchcock havia modernidade, em Barantini percebo só firula. André Bazin fez sérias problematizações a Rope (ver texto em O Cinema da Crueldade) e elas cabem direitinho em Adolescence. Na verdade, elas cabem muito mais em Adolescence do que em Rope, como se Bazin tivesse errado o alvo por quase oitenta anos. Muitas das situações, basicamente, não se beneficiam da opção pelo plano único. Elas seriam muito mais fortemente filmadas de um modo menos virtuosístico, podendo ficar bem mais modernas porque dependeriam de escolhas certas, não de um procedimento técnico levado até o fim. Uma vez que se optou pelo plano único, todas as outras escolhas derivam dessa. Fica uma camisa de força que só grandes cineastas conseguem desbaratar.

Uma consequência dessa opção é a câmera em constante movimento, o que parece criar um vício pelo movimento (como em Birdman) mesmo que na verdade não haja a menor necessidade de movimento. Exemplo disso está no começo do terceiro episódio, quando a psicóloga vai conversar com Jamie, sete meses depois de sua detenção. A câmera gira ao redor deles incessantemente, talvez para que o público perceba que não há corte algum. Podia ficar estática durante boa parte da conversa, como fez recentemente Steve McQueen em Hunger, para ficarmos ainda no cinema inglês. Talvez a cena ganhasse força com o repouso da câmera. Outra consequência, toda a conversa precisa ser vista por nós. Só que ela não nos interessa tanto além de certo ponto, então o filme, para obedecer o tempo real, não pode elidir partes dessa conversa para avançar na história. E lá se vai todo um episódio numa conversa repetitiva, que obviamente tem seus momentos fortes, sobretudo no final, mas também tem muitos que só entediam. É quase uma autossabotagem causada pela opção do tempo real com plano único. Um episódio de 50 minutos dos quais retemos uns dez, quinze, quando muito.

Por que aceito esse tempo num filme como Jeanne Dielman e não em Adolescence? Porque cada opção é avaliada unicamente para um filme. O que pode funcionar perfeitamente em um, pode ser terrível para outro. Parece óbvio, mas muitos ainda me perguntam esse tipo de coisas. E mesmo quem tem mais tempo de cinefilia por vezes cai nesse tipo de engano. Sendo autorista, em Jeanne Dielman a opção funciona porque temos, além de uma série de escolhas acertadas dentro da ideia (que, afinal, não é usada de modo limitador, como uma gincana cinematográfica), uma grande cineasta, o que não acontece em Adolescence.