Entrevista com Erico Rassi

O veterano Antônio Pitanga, no belíssimo Oeste Outra Vez

Entrevista com o diretor Erico Rassi

A ideia era gravar uma conversa pelo zoom e publicar a transcrição neste blog. Curiosamente, não me ocorreu de publicar o vídeo, sei lá por que motivo. Com o acúmulo de trabalho no final de março, coincidindo com a estreia de Oeste Outra Vez nos cinemas brasileiros, mandei algumas perguntas por email, complementando a entrevista por whatsapp.

Era a anunciada entrevista de um mau entrevistado, como Erico se definiu, por um mau entrevistador, como eu sempre me defini (Carlos Manga dizia que eu era o melhor que ele teve justamente por isso. Será?).

De todo modo, Erico estava errado, é um ótimo entrevistado. Valorizou minhas limitadas perguntas com observações agudas sobre o cinema brasileiro e esclarecimentos pertinentes a respeito de seu percurso cinematográfico e do filme que acaba de estrear.

Proponho, de início, um exercício em hierarquia histórica. Você acha que o cinema brasileiro é melhor hoje que há dez anos?

Acho que a gente perdeu realizadores importantes nesse período como o Carlão, o Tonacci, o Coutinho, alguns deles bissextos, mas todos ainda filmando. Mas também houve a consolidação de um cinema forte e inventivo, como o cinema do Adirley, do pessoal da Filmes de Plástico. Ao mesmo tempo, algumas coisas mais conjunturais desestimularam um pouco esse “cinema de invenção”. Pra mim, a principal delas foi a adoção pela Ancine da pontuação por desempenho artístico, que qualifica a presença dos filmes em festivais de acordo com uma escala de importância. Cannes, Berlim, enfim. Isso acaba dando um peso muito grande para a seleção nesses festivais, e essa se torna a única maneira de ter um projeto contemplado nos editais de desempenho artístico, que são voltados para esse tipo de cinema teoricamente menos comercial. Então uma parte dos realizadores vai tentando se adequar, aderir a uma tendência que supostamente facilite a entrada nesses festivais de renome para que possam continuar produzindo – e sobrevivendo.

É melhor hoje ou há vinte anos? Ou há trinta anos? Quarenta?

Acho que há quarenta anos a gente experimentava mais, mas hoje a gente tem uma produção mais consolidada e diversificada, que vem de diferentes regiões. Em relação ao meu gosto pessoal, acho o espírito dos anos 60 e 70 mais inquieto, contestador, sem querer dizer que hoje a gente não tenha mais isso – acho que temos, mas de forma mais eventual. Mas essa pode ser uma impressão minha, porque não tenho um panorama geral do cinema produzido naqueles anos. Minha cinefilia começou apenas na década de 2000, e talvez minha percepção parta de um acesso limitado ou em função desse interesse mais específico.

Está mais fácil fazer cinema agora, no Brasil, do que na época do Comeback?

Pessoalmente pra mim acho que mais difícil, por alguns motivos: a explosão de produções para streaming no período da pandemia aumentou os custos de produção, e hoje há muito mais produtoras, mais projetos… Sem falar que o dinheiro da Ancine está mais concentrado em linhas que privilegiam as grandes produtoras. Uns tempos atrás conversei com o Tiago Macedo, da Filmes de Plástico, e ele me disse o seguinte: quando a Filmes de Plástico surgiu, havia uma única cadeira vazia junto as cadeiras das grandes produtoras, e naquele momento esse lugar podia ser ocupado por alguém desse cinema autoral e independente. Eles se sentaram naquela cadeira, e de lá para cá não surgiu mais nenhuma vaga.

No que este filme deve à experiência de Comeback? Percebo que os filmes delineiam um percurso autoral, e ao mesmo tempo têm suas diferenças.

Sim, Oeste sem dúvida mantém algumas características e procedimentos que eu usei no Comeback, mas com um equilíbrio diferente na forma e no tom. Acho até que algumas dessas características vêm desde os curtas metragens, e levaram um tempo para serem refinadas. Também acho muito importante que essa nossa passagem quase obrigatória pelos curtas metragens não seja desperdiçada tentando alinhar esses filmes com alguma estética ou temática da moda, para que sejam aceitos em festivais. É uma fase de formação, de acharmos aquilo que faz sentido para nós como realizadores e como expressar formalmente as questões que nos angustiam.

Como foi o trabalho com o elenco? Houve alguma resistência inicial?

Eu tenho uma característica em relação ao texto, ou os diálogos, no caso, que é escrever e reescrever várias vezes, até que eu sinto que o ritmo e a cadência estão agradáveis e dentro da mesma linguagem. Então na hora dos ensaios, tenho que ser muito rigoroso com esse texto, senão essa cadência se perde. Com isso, não permito improvisações nos diálogos, nem mesmo os famosos “cacos”. Fora isso, a gente ensaiava bastante as pausas, criando uma espécie de “partitura” das falas. Alguns atores estranharam um pouco esse procedimento, porque hoje em dia há muita improvisação nos textos – em alguns casos os atores recebem apenas uma ideia geral e uma intenção, e improvisam em cima daquilo. Mas não diria que houve resistência, apenas um estranhamento inicial. Na verdade a maioria dos atores adora um desafio, desde que bem colocado.

A pergunta clichê: quais são suas maiores influências no cinema e quais foram as influências para Oeste Outra Vez?

Eita… eu sempre tenho dificuldade pra pensar nisso. Me parece que a resposta me vem meio enuviada, porque muitas referências vêm da literatura, de algumas coisas que li quando era novo… Vou tentar responder, mas me desculpe se a resposta parecer meio confusa e aleatória.

Eu tenho a impressão que nossas referências vão se empilhando ao longo do tempo, de uma forma em que elas deixam de ser claras ou se na verdade são referências em cima de outras referências. Por exemplo, eu descobri o Hal Hartley cedo na minha cinefilia, e adorava aquela artificialidade dos diálogos. Só mais tarde fui conhecer o Godard e ver como o primeiro tentava emular o segundo, que fazia aquilo com muito mais propriedade e significado. É aquele negócio: você vê um plano de um cavalo atravessando uma planície e sabe que de alguma forma aquilo remete a John Ford, mas aquela composição não se compara à original, porque é muito mais que simplesmente deslocar a linha do horizonte pra cima ou pra baixo.

Acho que no geral, minha maior influência é o cinema da Nova Hollywood, pela forma como os filmes tencionam a identificação e complexificam os personagens. Me parece que foi o último período em que o espectador foi tratado como adulto, capaz de pensar e assimilar sensações complexas. Quase tudo que vejo desse período eu gosto e se conecta comigo de alguma forma.

No caso do Oeste, eu tentei também me inspirar em alguns westerns menores, que usavam o gênero ou para contrabandear temas ou que subvertiam um pouco os códigos. Me lembro de Canyon Passage, do Jacques Tourneur, um western lento, com muita atmosfera, meio noir. E principalmente os dois westerns do Monte Hellman, Disparo Para Matar e A Vingança de Um Pistoleiro. Disparo Para Matar em especial acho muito forte, uma ambientação estranha e aquele final desconcertante. Desses dois últimos também tentei me inspirar na forma como foram feitos, quase sem recursos e com muita liberdade criativa.

Agora mais profunda: como você se vê no contexto do cinema brasileiro? E no mundial? Há alguma dificuldade de furar as panelas de festivais aqui e no exterior?

Nossa Serginho, não sei muito como responder isso. O que eu gostaria (não sei nem se rola incluir isso) era poder filmar com mais frequência, porque lá se vão 6 anos desde que filmei o Oeste. Se possível, construir uma filmografia que seja consistente, mantendo o controle artístico sobre os filmes. Eu sei que isso demanda um esforço, mas o preço de se fazer concessões, aderir a ondas, também é muito alto. Lembro do Friedkin dizendo que os diretores não deveriam aceitar filmar qualquer coisa, a não ser que estejam desesperados – nesse caso seria permitido. Eu ainda não passei por esse estágio do desespero, mas já flertei com ele algumas vezes (rs).

Quanto às panelas dos festivais – e elas realmente existem – é difícil, principalmente se você não é alguém muito conectado, não sabe fazer o tal do “networking” ou pra piorar, como no meu caso, se você é tímido e pouco sociável. Nesse caso, me lembro de outra entrevista, dessa vez do Steve Martin, dizendo que a única solução para romper essas barreiras é fazer algo realmente muito bom, que não possa ser ignorado. E mesmo assim, olhe lá.

Achei impressionante a câmera contornando o orelhão para dar o zoom no Jerominho. No zoom, me lembrou Altman, cineasta de que nem gosto tanto, mas que tem lá seus grandes momentos. Você fala em Monte Hellman, mas não lembro tanto de zoom no Monte Hellman (faz tempo que não vejo e posso estar errado).

Sim, acho que não tem zoom nos filmes dele mesmo. Também não sou um grande fã do Altman, mas ele usa o zoom com muita elegância. O zoom vem desde o Comeback, na época eu pensei que seria um jeito de relacionar a precariedade dos personagens com um movimento que não é muito sofisticado, não demanda tanta preparação quanto um dolly, por exemplo, e que o espectador de alguma maneira sente isso. É também um jeito da câmera se aproximar desses personagens meio insignificantes, quase como se dissesse “olha esse pessoal ridículo aqui, se eu não me aproximar deles ninguém vai notar, eles passam despercebidos” rs. Enfim, uma daquelas ideias que a gente têm e não tem certeza se funciona. Como a câmera no Oeste quase sempre é imóvel, acho que aí também vale uma entrevista que vi do Scorsese onde ele analisa o Ford e diz que ele mantém a câmera estática para que quando ela se mova, isso tenha um significado.


Texto sobre o filme: https://sergioalpendre.com/2025/03/31/oeste-outra-vez/