Oeste Outra Vez

Oeste Outra Vez (2024), de Erico Rassi

A mim causou boa surpresa a recepção de Oeste Outra Vez, de Erico Rassi, não só quando estreou, no Festival de Gramado de 2024, mas em exibições posteriores. Na minha órbita, talvez seja o filme brasileiro recente mais próximo da unanimidade, junto com Mato Seco em Chamas, de Joana Pimenta e Adirley Queirós, que me faz entrar no coro, e Greice, de Leonardo Mouramateus, que me deixa mais afastado.

Revendo o filme de Rassi com calma, agora que finalmente estreou em circuito comercial em várias cidades do Brasil, ele se confirma como um dos maiores do cinema brasileiro da década, um dos raros em que tudo funciona maravilhosamente bem dentro do que faz do cinema uma arte única e especial.

Clássico = moderno

Grosso modo, a trama de Oeste Outra Vez é bem simples, como costuma acontecer com filmes que se impõem pela forma, mais do que pelo tema (embora este tenha seus atrativos para a turma mais conteudista), e como aconteceu em seu filme anterior, o belo Comeback (2017), descontado o documentário Resplendor (2019), que Rassi dirigiu com Claudia Nunes, um parêntesis em sua carreira. Trata-se de um faroeste na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, onde dois homens que amam a mesma mulher tentam se matar apelando para matadores… er… profissionais. Os homens em luta são Totó (Ângelo Antônio) e Durval (Babu Santana). Os matadores são Jerominho (Rodger Rogério), contratado por Totó, e Antonio (Daniel Porpino) e Domingos (Adanilo), contratados por Durval.

Totó espera Durval chegar para começar uma briga. A mulher que ambos amam, Luiza, está no carro de Durval. Enquanto os homens se socam ao lado do carro, ela vira o rosto, negando-se a ver aquela palhaçada. Sai do carro e se afasta, em câmera lenta, ao som de Nelson Ned. Não há espaço para mulher nesse mundo masculino brutal e selvagem, mas acima de tudo, tolo, muito tolo. E frágil, muito frágil.

Jerominho, o pistoleiro veterano contratado por Totó erra todos os tiros com que pretendia acertar Durval. Matador de araque. Durval, por sua vez, contrata os dois outros matadores, mais jovens, para dar cabo de Totó e Jerominho. Enquanto isso, Totó continua tentando reatar com Luiza por telefone, em vão. O crescendo da violência terceirizada é curioso. Durval é mais forte que Totó, então este apela para um terceiro. Durval não se contenta em igualar a disputa, chama dois matadores, para manter sua vantagem.

Na superfície, Oeste Outra Vez bebe do cinema clássico americano de John Ford (as paisagens, o expressionismo, a lembrar que um dos filmes de Ford se chama Homens Sem Mulheres) e Howard Hawks (Rio Bravo é o nome de uma das produtoras, mas há também a espera, matéria definidora do filme Rio Bravo, de Hawks). Não está errado identificá-lo desse modo, como um filme clássico, desde que não se perca o tanto que esse retorno ao clássico tem de moderno. Volta-se ao que já foi feito para apanhar ideias e apresentá-las de modo diferente, como Godard fez com Jerry Lewis em Tudo Vai Bem, como Michael Cimino fez com John Ford em O Portal do Paraíso, como Martin Scorsese fez com Luchino Visconti em A Época da Inocência. De certo modo, como toda a nouvelle vague francesa fez com o cinema americano em seus primeiros filmes, e como a Nova Hollywood fez com o cinema clássico americano e com os filmes da nouvelle vague, e daí por diante.  

Logo no início, com o carro levantando pó da estrada de terra, temos um plano em que apenas o terço esquerdo do quadro mostra um pedaço do carro chacoalhando pelo atrito com o chão, enquanto o restante do quadro é dominado por uma abstração cor de terra. O corte seco, ultrajante dentro do modo clássico (como alguns que Ford fazia já nos anos 1930, aliás), nos mostra Totó dentro do carro bebendo água ou cachaça em uma garrafa pet. O zoom in lento que surge a seguir remete ao western spaghetti, ou ao Clint Eastwood influenciado por Sergio Leone. Durante o filme, por vezes, o zoom remete ao Rossellini histórico.

Numa cena, ainda na primeira metade, em que Totó está num orelhão, a câmera o contorna para encontrar um ângulo ideal e se aproximar, novamente pelo zoom, de Jerominho, que está sentado a observar o desespero de Totó sem Luíza. E aí entra uma nova referência (ou só uma grande semelhança mesmo): Robert Altman, uma fonte em que Kleber Mendonça Filho também foi beber no início de Aquarius. A função do zoom no filme de Rassi normalmente é de investigação, de procurar enxergar melhor uma determinada circunstância, um determinado grupo de pessoas ou mesmo um único personagem. Uma investigação na bidimensionalidade, como no Rossellini histórico. O crítico italiano Adriano Aprá, aliás, fala em volta ao clássico a respeito desse Rossellini por causa do espaço bidimensional, que remete ao primeiro cinema, tratado pelo zoom (é uma maneira interessante de encarar a dualidade clássico/moderno). Os zooms de Rassi são lentos, pouco invasivos, diferentemente dos zooms de Visconti, por exemplo. O zoom em Lily Tomlin na cena da canção de Keith Carradine em Nashville, por sinal, o momento mais brilhante de toda a carreira de Altman ao lado de alguns planos-sequências de O Jogador, parece ser o antecedente ideal para certo tipo de zoom que encontramos em Oeste Outra Vez. Adequar o nosso olhar para enxergar melhor esses homens perdidos, a escuridão que os cerca. Com poucos e discretos travellings e muitos zooms, Rassi constrói seu retrato particular do meio-oeste brasileiro, com muita dor de corno e muito fim-de-mundo.

Um filme brasileiro

Do mesmo modo que falar só em cinema clássico é perder aspectos essenciais do filme, falar em cinema americano, em Ford, Hawks, Eastwood, Altman, por mais que sejam referências válidas, é perder o quanto o filme é brasileiro. Na verdade, entendo como um dos filmes mais brasileiros dos últimos tempos. Esse lugar que Rassi retrata é o Brasil dos matadores, o Brasil terroso, em que se mata com facilidade. Sinuca, cachaça, carros com vidros que emperram, paredes rústicas pintadas com cores chamativas, filtros de barro, cortinas puídas e música brega dos anos 1970 e 80 (hoje revitalizada). Onde as ameaças veladas surgem como formas de conselhos, dicas para sobrevivência, e sempre se chora pela mulher abandonada, nunca pelo que se fez para que houvesse o abandono, ou pelo que não se fez para evitá-lo. Em que homens de uma certa idade precisam sentir que ainda estão fortes, mostrando o muque para seus interlocutores mais jovens.

Fellini foi o grande cronista do fracasso do macho italiano, principalmente em filmes como Os Boas Vidas (1953), Casanova (1976) ou A Cidade das Mulheres (1980). Érico Rassi faz uma representação da masculinidade frágil no que se costuma chamar de Brasil profundo. Pode-se dizer que fez o mesmo que Fellini, mas em relação ao macho brasileiro, e de um outro modo, mais apegado à releitura do gênero western e à violência arraigada na cultura brasileira.

Devemos conceder que os homens de Oeste Outra Vez, apesar de ridículos, têm seus momentos de delicadeza que talvez eles não gostariam de revelar aos pares, pois isso os faz ficarem vulneráveis. Totó um pouco menos, pois está desesperado por ter sido trocado por outro, mas mesmo ele revela ter alguma consciência do absurdo de sua reação. Durval, por outro lado, diz a Totó que ele precisa deixar de prender, dar autonomia à pessoa amada. Sufocar, parece entender Durval, não é a melhor maneira de amar. Antônio, o personagem de Daniel Porpino, chega a dizer que não é possível se roubar uma mulher, deixando entender, como o fez Durval, que o erro era todo de Totó. Mas esse mesmo Antônio desvia de seu propósito (de modo contrário aos personagens de Hawks), para se vingar do novo marido de sua ex-esposa, que encontra por acaso enquanto estava num bar com Domingos. Depois, a culpa o devora. Matou sem contrato. Colocar dúvidas nos personagens masculinos os humanizam, mas não enfraquece a caricatura da masculinidade tóxica que o filme promove com muito talento. 

A mulher pela qual esses homens lutam, como vimos, se afasta deles – e da câmera – no começo do filme, mostrando estar acima desse tipo de toxicidade possessiva. Na última sequência, estão só os homens, numa espécie de orgia assexuada de cachaça, música brega e sinuca. A brodagem masculina se basta, quando não se devora.

Menos um filme de homens para homens do que um filme que identifica na sociedade patriarcal brasileira (porque é nela que o filme se insere) uma das principais causas de nossa perdição. Nesse sentido, é também um dos filmes mais políticos do cinema brasileiro recente.


Entrevista com o diretor: https://sergioalpendre.com/2025/03/31/entrevista-com-erico-rassi/